A vida muda no ponto | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

busca | avançada
64869 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Conto HAYEK, de Maurício Limeira, é selecionado em coletânea da Editora Persona
>>> Os Três Mosqueteiros - Um por Todos e Todos por Um
>>> Sesc 24 de Maio recebe o projeto Parlavratório - Conversas sobre escrita na arte
>>> Cia Caravana Tapioca faz 10 anos e comemora com programação gratuita
>>> Eugênio Lima dirige Cia O GRITO em novas intervenções urbanas
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
>>> A história de Chieko Aoki
>>> Uma história do Fogo de Chão
>>> BDRs, um guia
>>> Iggor Cavalera por André Barcinski
>>> Dave Brubeck Quartet 1964
Últimos Posts
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
>>> Indistinto
>>> Mais fácil? Talvez
>>> Riacho da cacimba
>>> Mimético
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Uma vida bem sucedida?
>>> A morte da Capricho
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Bienal do Livro Bahia
>>> A primeira hq de aventura
>>> Como Passar Um Ano Sem Facebook
>>> Mulheres de cérebro leve
>>> O curioso caso de Alberto Mussa
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> Digestivo Cultural: 10 anos de autenticidade
Mais Recentes
>>> Os Mistérios da Rosa-cruz de Christopher Mcintosh pela Ibrasa (1987)
>>> Las Glandulas Nuestros Guardianes Invisibles de M. W. Kapp pela Amorc (1958)
>>> Experiências Práticas de Ocultismo para Principiantes de J. H. Brennan pela Ediouro (1986)
>>> As Doutrinas Secretas de Jesus de H. Spencer Lewis pela Amorc (1988)
>>> Amigos Secretos de Anamaria Machado pela Ática (2021)
>>> A Vós Confio de Charles Vega Parucker pela Amorc (1990)
>>> O Segredo das Centúrias de Nostradamus pela Três (1973)
>>> Para Passar em Concursos Jurídicos - Questões Objetivas com Gabarito de Elpídio Donizetti pela Lumem Juris (2009)
>>> Dicionário espanhol + Bônus: vocabulário prático de viagem de Melhoramentos pela Melbooks (2007)
>>> Memorias De Um Sargento De Milicias de Manuel Antônio de Almeida pela Ática (2010)
>>> Turma da Mônica Jovem: Escolha Profissional de Maurício de souza pela Melhoramentos (2012)
>>> Xógum Volume 1 e 2 de James Clavell pela Círculo do Livro
>>> Viva à Sua Própria Maneira de Osho pela Academia
>>> Virtudes - Excelência Em Qualidade na Vida de Paulo Gilberto P. Costa pela Aliança
>>> Vida sem Meu Filho Querido de Vitor Henrique pela Vitor Henrique
>>> Vida Nossa Vida de Francisco Cândido Xavier pela Geem
>>> Vida Depois da Vida de Dr. Raymond e Moody Jr pela Circulo do Livro
>>> Vícios do Produto e do Serviço por Qualidade, Quantidade e Insegurança de Paulo Jorge Scartezzini Guimarães pela Revista dos Tribunais
>>> Viagem na Irrealidade Cotidiana de Umberto Eco pela Nova Fronteira
>>> Uma Só Vez na Vida de Danielle Steel pela Record (1982)
>>> Uma Família Feliz de Durval Ciamponi pela Feesp
>>> Um Roqueiro no Além de Nelson Moraes pela Speedart
>>> Um Relato para a História - Brasil: Nunca Mais de Prefácio de D. Paulo Evaristo pela Vozes
>>> Um Longo Amor de Pearl S Buck pela Circulo do Livro
>>> Um Estranho no Espelho de Sidney Sheldon pela Circulo do Livro
COLUNAS

Quinta-feira, 19/12/2013
A vida muda no ponto
Elisa Andrade Buzzo

+ de 3000 Acessos


ilustra: Renato Lima

Não vou negar, a despeito de todas as críticas que tenho ouvido e lido, seja nos jornais ou pelos amigos: eu gostei. Gostei e mais ainda, além de ter gostado acho que ficaram muito bonitos, funcionais e belos, sim. Claro que um dia posso mudar de ideia e verificar as inúmeras falhas de um projeto numa cidade destroçada. A cidade muda mesmo, e ainda bem, ainda bem que sim e uma pena que sim, mas que seja para o melhor ao menos, pois do contrário como seria estarmos em lentas carroças nos dias de hoje? (Talvez o trânsito ainda nos dê esta ideia de lentidão tão seguidamente...) Ah, e pensar que pobreza só e que calmaria era a vida rústica dos paulistas nos tempos de vila.

Recebo a notícia da troca de abrigos e pontos de ônibus da cidade com certa alegria; talvez uma alegria infantil de quem ganha um presente novo, inusitado. Ninguém sabe ao certo se embaixo dos abrigos para quem aguarda os ônibus na cidade realmente fica mais quente do que fora deles, mas parece haver um acordo velado e implícito de que tudo há de ser errado nesta cidade, uma má vontade e um sarcasmo cínico por parte dos jornalistas e da população diante de tudo o que possa e há de ser feito. Comodismo, desinformação e os pontos novos já chegam malhados.

Corro para testar estes quadrados de vidro, que aos poucos foram surgindo após serem divulgados seus projetos pela prefeitura. São quatro modelos criados por Guto Índio da Costa: caos estruturado, brutalista, minimalista com ginga e hi-tech. De início, eles são raros, passando por algumas avenidas movimentadas posso entrever entre os vidros dos carros suas estruturas muito claras e envidraçadas. O novo ponto, ou totem, é uma estrutura acobreada com uma simpática fronteira de ônibus pintada em amarelo logo acima. A reclamação de sempre: informações sobre itinerários que, quando constam, são logo vandalizadas.

Mas isso é problema que vem desde os pontos antigos, modelos vários de administrações várias, cada um deles moldado conforme o mal gosto de sua época, meras barras de concreto alinhavadas por um telhadinho ondulante. Mas era bom, sim, num dos mais recentes de seus modelos sentar-se não no banco específico para se sentar, mas em sua estrutura lateral. Ou seja, a população acaba encontrando modos de se adaptar da forma mais confortável, intuitivamente, a um design malfeito. Tenho a sensação de que agora, com este novo projeto requintado de abrigos sendo colocado em prática desde fevereiro deste ano passamos a um novo estágio citadino, deixamos de vez de ser uma vila com ares coloniais...

Ah, as matérias de jornal insistem em depoimentos da população preocupada e parcimoniosa com o patrimônio público, "não dou dois dias para quebrarem este vidro". Ainda não vi o vidro dos abrigos quebrados, antes o vidro de uma propaganda (sim, estes pontos tem espaço para publicidade, e acho que em nada enfeiaram a cidade), mas muitos já riscados. Mas então isso seria motivo para não mudar os pontos nunca, não modernizar a aparência da cidade? O caos aqui se aprofunda plenamente, ainda assim não vamos deixar de pintar as faixas dos carros e as de pedestre nas ruas porque as rodas vão passar por cima delas e aos poucos apagá-las...

Os operários fazem parte dessa paisagem fundante. Quantos deles vemos nas rua; à noite, antes do anúncio da madrugada, um grupo desfaz um antigo ponto, cortando aos poucos as peças; depois, soldando a nova estrutura, pronta a ser dada como coisa nova, inédita e prestes a ser inaugurada pelo primeiro cidadão que lhe apoiar o traseiro. No amanhã já teremos esquecido dos braços e parafusos cerzindo a linha do tempo. No hoje resquícios nominais temos de quanto trabalho braçal de tantas épocas tivemos para soerguer este monumento de vida e morte em que vivemos, que é a cidade grande.

E assim vamos vendo estes operários montando, remotamente, como numa aventura proibida e provisória, os abrigos. Paradoxalmente trabalham como seres invisíveis, o povo sem interesse algum pelo que fazem. Num dos pontos grandes da Paulista, em frente à Casa das Rosas, ainda subsistiam antigos abrigos aos quais já estávamos acostumados. Dia desses: surpresa. Um grande tapume anuncia as obras, há um extenso buraco no chão onde operários de macacão cinza e capacete azul colocam as bases das novas estruturas desta cidade que, afinal, ainda se constrói e prosseguirá sua reconstrução infinitamente.

Então, estou vendo coisa talvez mínima, mas vendo algo ser construído, posto como novidade em meio a este meio que me circunda. Como se pudesse as choças dos paulistas ver sendo erguidas, da palha do barro e do chão ostentar a singela e rude construção e, agora, do metal forjado e do vidro ter como outra casa, outro abrigo. Entro, aliás, em um deles pela primeira vez, sento com certo cuidado e candura no banco de pedra, pedra. Sinto estar lá, estar aqui, agora e na extensão que une a indiada, os brancos e os mamelucos todos e, por dentro daqueles vidros, me invisibilizo.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 19/12/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O quanto podemos compreender de Guilherme Carvalhal
02. Joana a Contragosto, Mirisola em queda livre de Jardel Dias Cavalcanti
03. Vai lavar uma pia de louça que passa de Adriana Baggio
04. O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães de Jardel Dias Cavalcanti
05. A Última Ceia de Leonardo da Vinci de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Elisa Andrade Buzzo
Mais Acessadas de Elisa Andrade Buzzo em 2013
01. Reflexões de um desempregado - 11/4/2013
02. A Casa de Ramos - 31/1/2013
03. Tempo de nebulosas - 31/10/2013
04. A cidade do improvável - 16/5/2013
05. De tinta e fio é feito o homem - 14/3/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Sexo: Ainda Tem Mais?
Fátima Deitos
Icone
(2005)



Vagas Estrelas - Autografado
Chico Donato
Corriola
(1985)



Uma Herança Preciosa
Jim Stovall
Sextante
(2010)



Budapeste
Chico Buarque
Companhia das Letras
(2003)



Poesia Gonçalves Crespo
Rolando Morel Pinto
Agir
(1967)



A Agricultura Familiar da Soja na Região Sul
Sergio Schlesinger
Fase
(2008)



O Visível e o Invisível - 4ª Edição - 5ª Reimpressão
Maurice Merleau-ponty
Perspectiva
(2014)



Histórias da minha vida
Jean Marais
Três
(1975)



O Jogo de Búzios por Odu
Adilson Antonio Martins
Pallas
(2013)



Ven - Level 2: Students Book 2
F. Castro
Edelsa Grupo Didascalia S A
(2003)





busca | avançada
64869 visitas/dia
2,2 milhões/mês