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Segunda-feira, 18/2/2002
Real tédio
Arcano9

+ de 3000 Acessos

Qual é o jornal mais lido de Londres? O divertido The Sun e sua mulher com os peitos à mostra, sempre na página 3? Não. O The Guardian? O The Times? O The Independent? Também não. A pergunta tem uma resposta realmente difícil se você nunca morou por aqui, pegando todo dia o Tube para trabalhar. Se esse é o seu caso, saiba que o jornal mais lido é o gratuito Metro - o jonal do metrô. Publicado todos os dias da semana, exceto sábados, domingos e feriados, ele é feito pela mesma empresa que faz o Evening Standard e circula não só em Londres, mas em outras cidades da Grã-Bretanha. As pilhas de Metro são colocadas todas as manhãs bem cedinho ao lado das catracas das estações para os sonolentos londrinos ficarem sabendo das últimas pachouchadas de Tony Blair ou idiossincrasias de George W. Bush. E o jornal é bem feito - tem fotos coloridas, textos curtos e o inevitável noticiário sobre os últimos tests de cricket envolvendo a equipe da Inglaterra e a da Índia.

Para muita gente - especialmente os operários mais mão-de-vaca, que trabalham 13 horas por dia e não aceitam gastar seus 30 pence num The Sun, nem tem ânimo para assistir as notícias da BBC às 22h quando chegam em casa à noite - o Metro é a única fonte de informação. Foi através do Metro, por exemplo, que eu acompanhei incrédulo o avanço da epidemia de febre aftosa que destroçou o gado bovino britânico, no ano passado; que eu degustei a última parada dos protestantes na Irlanda do Norte; e que eu testemunhei a reação cética dos ingleses quando viram o lançamento do euro. Geralmente, coisas importantes para os ingleses tem destaque no Metro. Coisas muito importantes, muito destaque. Mas nem sempre é assim. Às vezes, o que é importante não tem destaque nenhum.

Voltemos à última quinta-feira, dia 7. A capa é uma foto do Tony Blair falando que vai seguir em frente com a temida privatização do metrô de Londres - que muitos acreditam que venha a sucatear o serviço. Na página três, um artigo com uma grande ilustração sobre um campo de golfe que o guitarrista do The Who, Pete Townsend, mandou construir nos jardins do palácio que chama de casa. E, enfim, na página 4, uma fotolegenda: a Tower Bridge, ao fundo, e um canhão sendo disparado em primeiro plano. A 62-gun salute flashes across the Tower of London yesterday to mark the Queen's Golden Jubilee.

Na quarta-feira, a rainha Elizabeth II (foto acima), suprema monarca do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, chefe de estado dos 54 países da Comunidade Britânica, dona de dezenas de propriedades reais, origem da efígie reproduzida em todas as moedas, cédulas e selos britânicas, mantenedora de uma tradição que se vem desde idos do século XVII.... A rainha Elizabeth fez 50 anos de reinado. Você sabe o que significa reinar 50 anos? É muito tempo. Apenas outros 4 monarcas reinaram meio século na Grã-Bretanha, Elizabeth II é a quinta. Ainda assim, ainda que seja inegável a importância da Rainha, inegável a riqueza das jóias da coroa e a imponência do palácio de Buckingham, olha só que coisa: ninguém deu a mínima bola para a data em que se celebraram 50 anos de reinado dela. Principalmente o Metro. A morte da princesa Margaret, irmã da Rainha, no sábado seguinte, foi o único fato que realmente chamou a atenção da mídia nesse período.

Ora direis, monarquista e tomador de chá sexagenário, as reais celebrações do jubileu virão no decorrer do ano. De fato: dentro de algumas semanas, Elizabeth II inicia uma viagem por grande parte dos países da Comunidade Britânica e depois pelo próprio Reino Unido. E em junho, a Rainha decidiu ser magnânima e vai abrir o jardim privado do Palácio de Buckingham para que seja lá realizado um show de rock, do qual devem participar Paul McCartney e Mick Jagger. Mas, caro monarquista, eu insisto: a data dos 50 anos foi nesta semana, entende? E ninguém prestou atenção. Passou em brancas nuvens. A Rainha inaugurou um hospital, mandou uma mensagem agradecendo os súditos, e os jornais, revistas, estudantes, turistas, jornalistas bocejaram em uníssono.

A monarquia, amigo, a monarquia está numa situação deplorável. Ninguém se importa. E houve o tempo em que se dizia que a monarquia era a Grã-Bretanha - se ainda o for, este país está fedendo. Fedendo de podre. E é fácil entender porque.

A Rainha enfrentou muitos momentos difíceis nestes 50 anos, e sempre esteve no meio do tiroteio entre os progressistas - que queriam ver uma monarca diferente, mais humana, mais próxima de seu povo, mais risonha - e os conservadores. Para estes, a Rainha deve ser o que sempre foram os governantes britânicos: representantes da decência, da civilidade, do paternalismo e do nariz levantado. Seduzida pelo legado de sua antepassada Vitória, Elizabeth tomou o segundo caminho. Quem se lembra de uma única vez que ela tenha aparecido em público sem as suas indefectíveis luvas, uma coisa tão fora de moda? Sabe por que as luvas? Para poder dar as mãos ao povo sem se contaminar com os germes. E o seu sorriso? Sabe que existe uma lenda por aqui - a de que Elizabeth II só pergunta duas coisas a seus súditos em eventos públicos: algo como "como vai você?" e "você mora muito longe?" Nunca nada diferente. Nenhum comentário irônico (como a sua mãe costuma fazer). Nunca uma gafe (como as do marido, o principe Philip). Nunca uma demonstração pura e simples de humanidade (como a de Charles, que já nem esconde mais seu caso com Camila Parker-Bowles). Nada. Elizabeth II, o iceberg. Rainha de Gelo. Não é de se estranhar que ela gostasse tanto da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, a Dama de Ferro.

Essa imagem absolutamente antipática da Rainha foi ainda mais intensificada durante o fatídico ano de 1997. Ah, como Elizabeth II deve ter tomado Earl Gray para esquecer daquele verão em que Diana, aquela perversa, morreu bêbada em um acidente de carro. Diana virou "a princesa do povo", "para sempre nossa Rainha". Os portões do palácio de Kensington ficaram bloqueados de flores e mensagens de carinho pela falecida, que em meio a sua guerra com Elizabeth e seus mais conservadores aliados no Palácio de Buckingham, havia jogado no lixo toda a etiqueta. Foi caminhar com uma equipe de desarmadores de minas em Angola. Pegou nos braços garotos negros morrendo de Aids. Falava como eu e você falamos. Não era santa, apaixonou-se pelo filho de um árabe. Já pensou como ia pegar mal a mãe do futuro rei da Inglaterra casada com um árabe? Não é à toa que até hoje há as teorias conspiratórias, aquelas que atribuem a morte de Diana a um plano muito bem arquitetado pelos sangue-azuis londrinos. Verdadeiro ou não esse plano diabólico, a Rainha cometeu um erro ao não fazer declarações públicas lamentando a morte da princesa. Cometeu muitos erros ao se isolar no Palácio de Buckingham, não perceber que Londres estava parada e que o mundo inteiro estava estupefato. Cometeu suicídio ao seguir com suas trocas da guarda diárias para turista ver. Ela se afastou ainda mais do povo, muito mais. Se afastou tanto, tanto, que deu raiva.

E no caso de Camila Parker-Bowles. Uma recente pesquisa divulgada pelo Daily Telegraph indica que a maioria dos britânicos não é contra Charles se casar com Camila, apenas contra o fato dela se tornar Rainha, na eventualidade de Charles assumir o trono. Mas Camila continua a ser isolada, marginalizada, reprimida, como um hábito detestável do primogênito, comparável ao de cutucar o nariz ou lamber a faca depois do jantar. A mulher se uniu a Charles sabe-se lá porque. Vontade de tomar o lugar de Diana no coração dos britânicos? Seria ingenuidade. Ambição, vontade de fazer parte da realeza e desfrutar das propriedades reais e dos jantares suntuosos? Talvez seja isso que a Rainha esteja pensando, e talvez seja por isso que ela não se dá ao trabalho de falar sobre Camila. Ela seria apenas um mosquito querendo sugar um sangue azul. É a única interpretação que encontro para a forma com que a Rainha ignora Camila. Espero que ela um dia pense na possibilidade de que Charles já está bem crescidinho e que está na hora dele buscar sua felicidade, e que deve saber identificar se essa felicidade é Camila mesmo.

Nem todos acham que a Rainha está mais fraca hoje do que há 50 anos. Há súditos, especialmente aqueles bem velhinhos, que viram Elizabeth II crescer no trono, que acham que ela agora tem controle total, e que isso é bom. Que, antes, era insegura. Que, agora, sabe até onde vai sua autoridade. E que, melhor, agora é velha e por isso pode ser mais respeitada, porque os idosos são sempre mais respeitados, porque são sábios, porque viveram, tem a cabeça branca. A Rainha tem 75 anos. Defensora dos bons costumes, da tradição. Se ela não defender esses valores, quem vai? Sacerdotisa máxima da Igreja Anglicana. História viva. Sim, a Rainha representa muita coisa, e não pode mudar de um dia para o outro, nem vai, nem se espera dela isso. O povo também não espera mais nada da Rainha. Só a ocasional mensagem de agradecimento, a inauguração de um hospital, a nostalgia. Sim, papel decorativo, nada mais. Por falar nisso, olha que coisa... é por isso que o Metro não deu destaque ao dia do Jubileu de Ouro de Elizabeth II. Porque não interessa, não interessa nem um pouco. Não empolga, não seduz. É assim, a Rainha lá, nós aqui. Mais ou menos como sempre foi. Mas é fácil entender o peso da tradição num país de tradições. É fácil entender como essa tal de monarquia continua por aqui. Como as pessoas podem sustentar esse bando de vagabundos que vivem em palácios. Se a Rainha for humana, se a Rainha chorar, não será mais Rainha. Ela vai aparecer nos jornais por não ser Rainha, por não ser forte, por não ser tudo o que sempre foi. E seria uma vergonha para o país.

O Metro só deu uma foto sobre o Jubileu. Ufa, ainda bem. Nada de novo no reino da Inglaterra. Que tédio.


Arcano9
Londres, 18/2/2002


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