Carmela morreu. | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
30036 visitas/dia
773 mil/mês
Mais Recentes
>>> Segundas de julho têm sessões extras do espetáculo À Espera
>>> Circo dos Sonhos, do ator Marcos Frota, desembarca no Shopping Metrô Itaquera
>>> Startup brasileira levará pessoas de baixa renda para intercâmbio gratuito fora do país
>>> Filho de suicida, padre lança livro sobre o tema
>>> LANÇAMENTO DO LIVRO "DIALÓGOS DE UM RABINO REFLEXÕES PARA UM MUNDO DE MONÓLOGOS" DE MICHEL SCHLESI
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O dia em que não conheci Chico Buarque
>>> Um Furto
>>> Mais outro cais
>>> A falta que Tom Wolfe fará
>>> O massacre da primavera
>>> Reflexões sobre a Liga Hanseática e a integração
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> Raio-X do imperialismo
>>> Cães, a fúria da pintura de Egas Francisco
>>> O Vendedor de Passados
Colunistas
Últimos Posts
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
Últimos Posts
>>> Sob o mesmo teto
>>> O alívio das vias aéreas
>>> PRESSÁGIOS. E CHAVES II
>>> Honra ao mérito
>>> Em edição 'familiar', João Rock chega à 17ª edição
>>> PATÉTICA
>>> Presságios. E chaves III
>>> Minha história com Philip Roth
>>> Lars Von Trier não foi feito para Cannes
>>> O brasileiro e a controvérsia
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Passarinho do Twitter
>>> Letra de música é poesia?
>>> A arapuca da poesia de Ana Marques
>>> A Erva do Diabo, de Carlos Castaneda
>>> Recordações da casa dos mortos
>>> Viral Loop, de Adam Penenberg
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Voltar com ex e café requentado
>>> O Agressor, de Rosário Fusco
>>> Elke Coelho e a estética glacial-conceitual
Mais Recentes
>>> Apontamentos para a História da Revolução Rio-grandense de 1893
>>> Einstein Apaixonado + Um romance científico
>>> Leonardo, o primeiro cientista
>>> Envie Meu Dicionário + Cartas e Alguma Crítica
>>> O Segredo de Guilherme Storitz
>>> A selva do dinheiro + Histórias clássicas do inferno econômico
>>> Oscarito Nosso Oscar de Ouro
>>> A Nudez da Verdade
>>> Emoções em Prosa e Verso
>>> A Telessaúde no Brasil e a Inovação Tcnológica na Atenção ...
>>> O Pagador de Promessas
>>> O Caçador das Bolachas Perdidas
>>> Juizado Especial: Criação Instalação, Funcionamento e a ...
>>> Meu Querido Canibal
>>> Anjo de Quatro Patas
>>> Vencendo Aflições, Alcançando Milagres
>>> Eles Pedem em Casamento, Elas Pedem o Divórcio
>>> Procurando Firme
>>> Ensino Holístico da Medicina
>>> Depressão e Autoconhecimento: Como Extrair Preciosas Lições ...
>>> Utopia?
>>> Resistência: a História de uma Mulher Que Desafiou Hitler
>>> Uma Herença Preciosa
>>> Prazer uma Abordagem Criativa da Vida
>>> O Retorno Financeiro de Programas de Promoção da Segurança, ...
>>> Confissão de uma Harpista
>>> Os Mestres de Gurdjieff
>>> Proposta para uma Graduação Médica Contemporânea
>>> O Tao da Física
>>> O Santeiro do Mangue e Outros Poemas
>>> Português para Concursos
>>> Bola na Rede: a Batalha do Bi
>>> Paulo Francis Polemista Profissional
>>> Fisiologia e Fisiopatologia do Hormônio de Crescimento
>>> Ser Médico no Brasil - o Presente no Passado
>>> Padre Severino da Pessoa ao Instituto
>>> Micropoderes Macroviolencias
>>> Educação e Tecnologias no Brasil
>>> Cultura e Tecnologias no Brasil
>>> Hupe - Série Rotinas Hospitalares Pediatria 2 Volumes
>>> A Exposição Oral nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental - Vol. 3
>>> O Reverso da Logística e as Questões Ambientais no Brasil
>>> Gestão Financeira de Fundos de Pensão
>>> Águias Terrestres - uma Missão Planetária
>>> Homem de Montana
>>> Freud - Pensamento Vivo
>>> Manuelzão e Miguilim
>>> O Poder dos Pêndulos
>>> Confesso Que Vivi
>>> Em Cantos do Ser
COLUNAS

Segunda-feira, 23/11/2015
Carmela morreu.
Ricardo de Mattos

+ de 2400 Acessos

"Os cães. São encantadores porque, além de nos permitir bancar o idiota com eles, sem que reclamem de coisa alguma, ainda bancam os idiotas conosco" (Valery Larbaud).

Na madrugada deste dezesseis de novembro deixou-nos a ilustre Carmela. Nossa labradora preta partiu com dez anos completos, em decorrência de complicações causadas pelo diabete e pela famigerada displasia coxofemoral. Ignoramos quão fulminantes podem ser estas doenças, mas sua decadência foi acelerada. Em casa, quando pensamos que ela ainda começaria a desenvolver os sintomas da displasia, logo caiu imobilizada. Porque passou pelo veterinário para indicação do tratamento necessário, descobrimo-la diabética. Semana retrasada, quando visitou pela última vez a clínica, mostrou tanto os dentes para o rapaz que lhe cortou as unhas que não imaginaríamos o rápido desfecho. Final acelerado, sofrimento abreviado, é o que nos consola.

Vez ou outra mencionamo-la em nossas colunas. Sua presença dentro de casa foi constante, a todo momento procurando alguém que lhe atenuasse a perpétua carência. Estivéssemos na sala ou no quarto, se ela não estivesse estritamente ao lado, estaria a poucos metros. Elas, no caso, pois sempre acompanhava e fazia-se acompanhar de nossa mestiça Bahiana. O que resmungássemos seria acompanhado do barulho de sua cauda a bater no chão: "está falando comigo? Estou atenta". Atendêssemos o telefone e de sua parte a mesma reação: "é para mim?".

Nossa ausência de hábito de tudo filmar e tudo fotografar fez com que perdêssemos cenas páreas para o cachorro "Nino", personagem célebre do Youtube.com. Ao chegar em casa, precisávamos abrir a porta com cuidado, pois a depender da hora ela estaria atrás, aguardando-nos no escuro. Ouvia o barulho do carro antes de todos. Não balançava apenas sua cauda, mas o corpo inteiro. Ao falarmos com ela, começava a gemer alto, como querendo responder: "sou eu que estou aqui, não se lembra de mim?". Nosso humor de cotidiano azedo rendia-se e ajoelhávamos para brincar. Era o sinal para ela virar uma espécie de cambalhota, em vez de simplesmente deitar-se como uma cachorra civilizada.

Carmela desenvolveu o hábito de segurar com os dentes a barra da roupa das pessoas e acompanha-las. Ora a perna de uma bermuda ou a perna de uma calça, ora a saia ou o vestido da mãe, ora um casaco ou qualquer pano que descuidássemos. Prendia o tecido e postava-se ao nosso lado, com o garbo de um cavalo marchador. Onde quer que andássemos, e andávamos à toa apenas para tentar medir sua birutice, e lá seguia-nos ela. Ganindo, de preferência, o que causou espanto em mais de uma faxineira. Da última vez que sonhamos com ela, era exatamente isto que fazia.

Desenvolveu desvios de ordem sexual. Sempre que um quadrúpede monta sobre o outro na época do acasalamento, ele monta por trás. Caso sejam duas fêmeas, a que está por cima esfrega seu ventre na traseira da que está por baixo. Carmela, pois bem, montava pelo lado, esfregando seu ventre nas costelas da parceira. Ela, e somente ela, quem desenvolvia depois a chamada "gravidez psicológica". O que nos rendia algumas noites mal dormidas. Passando o tempo e verificando que nada nascia, iniciava um período de lamentos noturnos por meio de uivos. Esta cachorra verbalizou seus sentimentos de maneira mais eficaz que muitas pessoas. Uivos longos e lamentosos, de preferência após a meia noite. "Está virando lobisomem?", perguntávamos nos dias seguintes.

Tudo que encontrava vinha mostrar-nos. Mesmo que obtivesse conosco. Um pedaço de pão que lhe déssemos era exibido, mostrado, ainda que jamais devolvido e muito menos compartilhado. Quando abríamos a porta do quintal, antes de maiores festas, ela saía à cata de algo para trazer-nos, fosse o que fosse - e sempre gemendo. Tratávamos como relíquia o que ela nos trazia, estímulo para mais uma peculiaridade. Nem tudo, porém, contava com nossa aprovação. Quando ainda criançona, entrou esfuziante na cozinha, pulando sobre nós com algo preto na boca. Parecia querer, isso sim, compartilhar. Era a asa de um pássaro que ela matou e estava comendo ao chegarmos. Ralhamos com ela, percebendo seu desapontamento: "mas está tão gostoso!". Doutra feita, abrimos a porta do quintal à noite e notamos a ausência de ambas. Chamamos e logo vem Carmela, requebrando-se como passista bêbada de escola de samba. Entrando em nosso campo de visão, vimos que trazia nos dentes um rato enorme, recém abatido. "Solta isso já!", gritamos. Novamente decepcionada, escondeu o rato no fundo de sua casa e deitou-se na frente, desafiadora. Deu-se ao desplante de cruzar as patas dianteiras. Retriever do Labrador é raça de busca! Não é para matar! Deve apenas localizar a presa abatida e trazer! Não houve argumento que a fizesse entregar o rato e, sinceramente, havíamos acabado de jantar e não insistimos demais. Quando afirmamos que ela era o genérico da raça, ninguém entendia porque...

Carmela foi esta composição de alegria e insanidade que durante dez anos conviveu conosco. Guardando o costume de almoçar com os cães à volta, sempre atiramos alguma sobra. Caso o hábito explique a diabete, não nos arrefece o espanto diante de uma prática familiar generalizada. Comia de tudo: o que devia e o que não devia. Demorássemos a dar-lhe algo, apoiava seu queixo em nossa perna. Certa vez, ela estava com aparência distraída ao nosso lado. Fizemos uma bola com o guardanapo de papel e atiramos em sua cabeça. Não tão distraída como pensamos, pegou a bola no ar e engoliu sem saber o que era. E qualquer coisa fazia-a salivar a ponto de pingar. Até casca de frutas. Banana foi sua paixão, a ponto de não se facilitar com fruteiras baixas. Devorava-as com casca e tudo. De onze cães que compuseram nossa família, cada qual com sua personalidade, Carmela aprontou tais que afirmávamos: "na próxima encarnação vem como gente". E que amiga daria.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 23/11/2015


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Bates Motel, o fim do princípio de Luís Fernando Amâncio
02. Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo de Jardel Dias Cavalcanti
03. Super-heróis ou vilões? de Cassionei Niches Petry
04. Omissão de Ricardo de Mattos
05. Os dinossauros resistem, poesia de André L Pinto de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2015
01. Sobre caramujos e Omolu - 20/4/2015
02. Alcorão - 26/1/2015
03. Espírito e Cura - 20/7/2015
04. Silêncio - 17/8/2015
05. Carmela morreu. - 23/11/2015


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




STALINGRADO O PRINCIPIO DO FIM
GEOFFREY JUKES
RENES
(1974)
R$ 10,00



HAMBRE DE TIERRA
MARILIA KLAUMANN CANOVAS
COMPANHIA NACIONAL
(2010)
R$ 29,99



DE TUDO UM POUCO - 15479
VANDA JOSE
EDICON
(1989)
R$ 5,00



O REDENTOR
JO NESBO
RECORD
(2012)
R$ 16,00



BUGRINHA - CLÁSSICOS BRASILEIROS
AFRANIO PEIXOTO
EDIÇÕES DE OURO
(1976)
R$ 8,83



A NOVA ECONOMIA INTERNACIONAL
REINALDO GONÇALVES E OUTROS
CAMPUS
(1998)
R$ 45,00



ACUPUNTURA CLÍNICA
M. TETAU; H. M. LERNOUT
ANDREI
(1985)
R$ 150,00



CLARO ENIGMA
CARLOS DRUMOND DE ANDRADE
COMPANHIA DAS LETRAS
(2018)
R$ 25,00



CÉLULAS-TRONCO HUMANAS
JULIO LUIS MARTÍNEZ
LOYOLA
(2005)
R$ 21,00



POEMAS DE ALAVARO DE CAMPOS E FERNANDO PESSOA
ALAVARO DE CAMPOS E FERNANDO PESSOA
COMPANHIA DAS LETRAS
(2018)
R$ 25,00





busca | avançada
30036 visitas/dia
773 mil/mês