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Quarta-feira, 13/4/2016
O suicídio na literatura
Cassionei Niches Petry

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Enquanto refletimos sobre o suicídio, não o cometemos. Esse assunto me persegue há anos, desde que um numerólogo, em uma palestra na escola de ensino médio onde estudava, me disse que eu fora um suicida em uma de minhas vidas passadas. Apesar de ser descrente em tudo o que se refere ao além, a ideia – como no personagem machadiano Brás Cubas – pendurou-se no trapézio do meu cérebro e “entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas.” Como não quero seguir o destino do meu suposto antigo corpo – e nem mesmo tenho vontade de fazer isso –, leio e reflito sobre a morte voluntária, ao analisar, principalmente, obras literárias em que o tema está presente. Assim, vou driblando uma das formas da “indesejada das gentes”.

A maioria das pessoas, de certa forma, já pensou na possibilidade de tirar a própria vida, umas até por brincadeira, outras, porém, levando muito a sério. Como escreveu Albert Camus, “todos os homens sadios já pensaram no seu próprio suicídio alguma vez”. O tema é um tabu, não só no âmbito religioso, mas em toda a sociedade, inclusive no meio acadêmico, já que há poucos trabalhos sobre o assunto, principalmente no que se refere à análise literária. Como é um fator presente na vida do ser humano, estudá-lo se faz necessário. Por isso, matar-se também é tema da literatura, a qual, como arte, mais precisamente a arte da palavra, expressa os sentimentos humanos. Não é à toa que os suicidas quase sempre deixam algo escrito, seja um bilhete, uma carta, uma página de diário ou recados em sites de relacionamento na internet, explicando seus motivos ou pedindo perdão aos que ficam. Muitos escritores, inclusive, optaram por esse ato extremo. O suicídio e a palavra andam juntos, tanto como desabafo, quanto como reflexão.

O senso comum diz que o suicídio é quase sempre uma atitude de quem está desesperado, seja por motivos amorosos, seja por motivos financeiros. Há, no entanto, outras respostas para o ato, que envolvem explicações relacionadas ao conhecimento. A filosofia, por exemplo, tem em Albert Camus um estudioso do tema. Na abertura do ensaio que abre o livro O mito de Sísifo, ele afirma: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. A pergunta essencial, claro, é qual o sentido da vida. Mas será que a literatura pode ajudar-nos a respondê-la?

Muitos clássicos literários abordaram o tema, como Anna Karenina, de Tolstói, e Romeu e Julieta, de Shakespeare, por exemplo. O livro mais emblemático talvez seja Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. O destino do protagonista provocou uma onda de suicídios na Europa do século XVIII, época do romantismo, quando, segundo A. Alvarez, “o suicídio se tornou um ato literário, um gesto histérico de solidariedade, para com qualquer herói ficcional que fosse a coqueluche do momento”.

A fuga desse mundo cruel é vista por muitos como um ato de covardia, opinião com a qual até podemos concordar, tendo em vista os motivos nem sempre convincentes de quem comete o último ato. Fugir dos problemas não é a solução, muito menos fugir para o além. Uma desilusão amorosa, por exemplo, pode ser solucionada por uma nova ilusão, que manterá na pessoa o desejo de viver, ou ao menos adia a morte voluntária. Um conto de Guy de Maupassant, no entanto, foi um dos primeiros a me chamar a atenção para o fato de que uma vida sem perspectivas pode ser motivo para o suicídio, sem que por isso se possa considerar a atitude com uma fuga. Em “Passeio”, temos a história do senhor Leras, que há 40 anos cumpre a mesma rotina em uma sala úmida, fétida e bolorenta nos fundos de uma loja. Quando resolve realizar um passeio, é abordado por várias prostitutas, o que o deixa bastante perturbado. Vê também casais andando abraçados pela rua e pensa que ele sempre viveu sozinho, no seu quartinho, “mais lamentável que seu próprio escritório”. A reflexão sobre a sua rotina e a sensação de que tudo o que fez na vida não tinha sentido nenhum e, pior, sem possibilidade de melhorar, o fez embrenhar-se num bosque. Seu corpo, pendurado em um galho de árvore, foi encontrado justamente por um casal de namorados. Poderia ter sido “um acesso súbito de loucura?”, questionaram os policiais que recolheram o corpo.

Esse conto, do século XIX, expõe a reflexão sobre o sentido da vida como motivo para o suicídio. Não mais o simples desespero ou a desilusão amorosa, nem mesmo um ato tresloucado. Assim como o personagem custou a perceber que sua existência era vazia, também a humanidade demorou para aprender, se é que aprendeu, que o suicídio possui outras razões. “Não falta a ninguém uma boa razão para o suicídio”, disse o escritor italiano Cesare Pavese em seu diário, ele mesmo um suicida. Podemos citar ainda outras obras que discutem esse tipo de “morte que resulta mediata ou imediatamente de um ato positivo ou negativo, realizado pela própria vítima”, nas palavras de Durkheim, em O suicídio.

Um romance totalmente dedicado à morte voluntária foi escrito pelo argentino Antonio Di Benedetto. Os suicidas narra a história de um jornalista, cujo nome é o mesmo do autor, encarregado de escrever uma reportagem sobre casos de suicídio. Ironicamente, ele próprio vive uma angústia pelo fato de seu pai ter posto fim à sua vida aos 33 anos, idade que o protagonista está prestes a completar: “Sou um homem normal? Não faço barulho, gosto de muitas coisas. Vivo. Eu me pergunto por que estamos vivos. Penso na morte, resisto a ela, prefiro viver. Mas penso. Muitos, não: dão por sentado que lhes sobra futuro.”

A busca por informações sobre o suicídio é o eixo da história e são citados alguns textos sobre o assunto, inclusive sobre animais que se suicidam. Aparecem também diferentes formas de tirar a própria vida pelo mundo: “No Oriente, jogam-se no Ganges ou num precipício ou na boca de um vulcão, se ateiam fogo ou se fazem enterrar vivos para se congraçar com seus deuses. Na África, fogem, com o suicídio, das disputas familiares, da castração, da impotência e da lepra.” As pesquisas, o levantamento de dados estatísticos, os depoimentos coletados, bem como a reflexão profunda sobre o tema que é feita por Antonio, fazem-no se afastar do mesmo destino de seu pai, corroborando, de certa forma, com a afirmação inicial do presente ensaio.

Debruça-se também sobre essa árida matéria o espanhol Enrique Vila-Matas, em Suicídios exemplares. São contos que têm como ligação as tentativas dos personagens de tirarem a própria vida. Tentativas, no entanto, frustradas. No primeiro conto, o narrador nos conceitua a morte voluntária: “um movimento solitário, afastado de todos os olhares, perpetrado na sombra e no silêncio.” Quando projeta “saltar no vazio”, porém, muda de ideia ao contemplar a beleza do lugar escolhido.

No conto “Rosa Schwarzer volta à vida”, a protagonista tem uma vida aparentemente pacata, trabalhando como vigilante em um museu e sendo uma boa dona de casa, que cuida do marido e dos filhos. Uma pintura no museu, porém, a perturba. Trata-se de "O príncipe negro", de Paul Klee. Ela se encanta com o quadro e ouve “o sedutor chamado do príncipe que, para convidá-la a entrar e se perder na tela, envia o altivo som de tambor de seu país, o país dos suicidas.” Segue a história com seu aniversário frustrado e as várias tentativas de se matar (“Esta vida pra quê?”), que esbarram, porém, na preocupação dela em relação ao marido (“enganando-a descaradamente todos os dias com a vizinha (...), era merecedor de compaixão, e precisava ser ajudado”) ou com os filhos (“logo se deu conta que seu filho precisava muito dela” ou “ seu pobre filho, seu querido Hans, merecia jantar comida quente aquela noite”). Como se nota, a razão para se matar era fugir da vida em que não era reconhecida pelo que fazia, mas o motivo para não cometer era o ato de fazer aquilo pelo qual não era reconhecida.

Como o título do volume sugere, os suicídios que não se concretizam é que devem servir como exemplo. Pensar sobre o suicídio é uma maneira de pensar sobre a própria vida. E, no momento que a vida é o foco de nossa atenção, tudo o mais pode ser esquecido.

Um texto recente sobre o tema é “A suicida”, uma das narrativas que compõe a obra O livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna. O protagonista, que está na capital tcheca para escrever um romance, depara-se com uma jovem prestes a se jogar da Ponte Carlos, sobre o rio Moldávia. Ao tentar dissuadi-la, acaba envolvendo-se com ela, passam a noite juntos, mas cedo da manhã ela sai e joga-se da ponte. Nesse caso, não fica claro o motivo de seu ato. Ao perguntá-la sobre os motivos, a jovem dissera que não saberia explicar, apesar de revelar que havia um homem por quem se apaixonara, mas que não entedia sua melancolia. “Pois sou fraca do pulmão e não faço nada para melhorar.” A noite de amor foi para ela apenas um adiamento do que já estava decidida a fazer. Quando se decide que a vida não vale mais a pena, dificilmente se volta atrás. Uma hora ou outra, o fato se consuma.

O poeta britânico John Donne, por sua vez, escreveu uma espécie de tratado sobre o suicídio, com mais de 200 páginas, chamado Biathanatos, publicado somente depois de sua morte. Nessa obra, está uma das melhores metáforas para o tema, mas que limita essa decisão extrema a um fator: “Quando em qualquer momento uma aflição me assalta, penso ter as chaves da prisão em minha própria mão e nenhum remédio se apresenta tão rapidamente ao meu coração como minha própria espada.” (Trecho citado em Demônio do meio dia: uma anatomia da depressão, de Andrew Solomon.)

Se a literatura pode responder qual o sentido da vida, não sabemos. Tampouco achamos respostas para o suicídio nas obras que tratam do tema. Talvez não ter respostas seja o sentido disso tudo, ainda mais se a continuarmos buscando. Se paramos de buscar o conhecimento, aí sim a vida deixa de ter sentido. Adiar a resposta definitiva, buscar respostas diferentes, fazer novas perguntas: todas são formas de continuar deixando minha espada bem guardada na bainha.


Cassionei Niches Petry
Santa Cruz do Sul, 13/4/2016


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