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COLUNAS

Quarta-feira, 26/10/2016
Notas confessionais de um angustiado (V)
Cassionei Niches Petry
+ de 4000 Acessos

XXXVII.

Às vezes questiono a minha capacidade de criar algo. Será que o que escrevo pode ser chamado de criação? Percebo influências de outros escritores, cito suas obras e frases, reproduzo histórias oriundas de fontes diversas. Nada vem do nada. Só aparentemente a ideia do título do romance surgiu do nada. De algum lugar do meu inconsciente veio, mas não sei sua origem. O que é criar? Para Fayga Ostrower, em Criatividade e processos de criação, “é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo”. Mas o que é o novo? São “novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos”.

Podemos dizer, então, que criar é fazer algo diferente em relação ao que já existe. Em termos literários, é abordar temas já trabalhados por outros escritores de uma forma diferente, dando-lhes novos significados. A busca pela originalidade, portanto, passa pelo que já foi escrito. Ao escrever, a mente do escritor aciona o que leu, o que assistiu, o que ouviu e mistura tudo em forma de uma nova ficção. Os óculos de Paula segue esse caminho. Ostrower reforça que é a intuição que conduz o processo de criação:

"As diversas opções e decisões que surgem no trabalho e que determinam a configuração em vias de ser criada, não se reduzem a operações dirigidas pelo conhecimento consciente. Intuitivos, esses processos se tornam conscientes na medida em que são expressos, isto é, na medida em que lhes damos uma forma."

Por isso tenho algumas ideias para o desenvolvimento do romance e as resoluções dos conflitos, mas só as consigo visualizar quando tomam forma no papel. Se o orientador me pergunta qual meu plano, não sei responder.

XXXVIII.

O romance está repleto de associações. Ostrower escreve que as associações são “correspondências, conjeturas à base de semelhanças, ressonâncias íntimas em cada um de nós com experiências anteriores e com todo um sentimento de vida”. Fred é uma personagem que cria seus textos ou suas falas nos debates sempre associando ideias, como o mito da caixa de Pandora relacionado com o fruto proibido comido por Adão e Eva ou, o que escrevi há poucos instantes no romance, o sonho da personagem com um determinado número relacionado ao suicídio.

Essas associações, para Ostrower, “nos levam para o mundo da fantasia”, que “será povoado por expectativas, aspirações, desejos, medos, por toda sorte de sentimento e de ‘prioridades’ interiores”, que acabam influenciando o processo criativo. Não por acaso os temas do ateísmo, do suicídio e da metaficção estão presentes com ênfase em Os óculos de Paula.

O suicídio é um assunto que está entrando no enredo. Poderia fugir dele, mas é um tema que me persegue. O tema, devo frisar, não a ideia de praticá-lo. Estudei o suicídio na literatura durante o mestrado e por isso não vou deixar de continuar refletindo sobre ele, até porque enquanto se pensa sobre o suicídio, não há como praticá-lo.

XXXIX.

A maneira como estão sendo abordados os temas no meu romance o tornam próximo a um romance de ideias. Segundo David Lodge, o termo se refere ao “livro com pouco interesse narrativo, em que personagens muito bem articulados discutem entre si questões filosóficas para lá e para cá com breves intervalos para comer, beber, flertar”. Ainda segundo o escritor, esse tipo de história remonta aos diálogos platônicos e está desaparecendo, sendo também nomeado como romance de tese.

Na verdade, não são apenas questões filosóficas que aparecem no meu romance, tampouco há uma tese a ser defendida. Da mesma forma, me interessa, sim, a narrativa. A ênfase em discutir ideias vem da tentativa de enriquecer a história contada, sugerindo referências que ajudem a interpretação do leitor. Busco um leitor qualificado, não o que deseja apenas entretenimento.

Em ensaio publicado no caderno Ilustríssima, do jornal Folha de São Paulo, Leyla Perrone-Moisés escreve sobre o que ela denominou de “literatura exigente”: “São obras de gênero inclassificável, misto de ficção, diário, ensaio, crônica e poesia.” Segundo a ensaísta, os livros dessa corrente literária da atual prosa brasileira “exigem uma leitura atenta, releitura, reflexão e uma bagagem razoável de cultura, alta e pop, para partilhar as referências explícitas e implícitas”. É nesse tipo de literatura que filio meu romance. Busco o leitor ativo não o passivo, de acordo com proposto por Julio Cortázar em Rayuela.

XL.

Escrevendo um diálogo na internet entre as duas personagens principais. Se o diálogo na cafeteria foi marcado por travessões, a escolha recaiu agora nas aspas, para diferenciar as duas formas de conversa. Ambas são formas convencionais de marcar o diálogo direto, segundo Raimundo Carrero. Penso ainda em mudar para algo mais próximo a uma conversa pelo Messenger, programa no computador utilizado para conversação. Vou reavaliar isso.

Para Silvia Adela Kohan, o diálogo “permite realçar as características dos personagens, revelar seu modo de ser, indicar seu estado emocional e o grau de relação entre eles” e, no romance, contribui “para o dinamismo geral da narrativa”. Devido a isso, optei por usar o internetês “vc”, indicando a proximidade entre Fred e Paula. Porém, as demais palavras seguem uma correção linguística, tendo em vista a imagem que os dois querem ter um em relação ao outro. Quanto ao dinamismo, ele é necessário em algumas partes da história, pois de resto o romance se propõe a ser mais reflexivo.

XLI.

Estas notas chegaram a se chamar de “Diário de um fracasso anunciado”, em clara referência ao romance Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, e ao livro de memórias Da mão para a boca: crônica de um fracasso inicial, de Paul Auster. O fracasso poderia se relacionar ao insucesso dos meus projetos literários, incluindo Os óculos de Paula, conforme a nota V, ou ao fracasso da personagem Fred, relacionado ao não reconhecimento de sua literatura. O tema do fracasso está presente no mais recente romance de uma das minhas sombras literárias. Enrique Vila-Matas, Aire de Dylan.

XLII.

O problema referente ao lugar para escrever foi resolvido. Estou devidamente instalado num espaço exclusivo, rodeado pelos meus livros, ambiente perfeito onde me sinto um escritor. É o lugar onde deveria estar, mas não estou. No texto de apresentação para um ensaio fotográfico sobre o local de trabalho dos escritores, o fotógrafo Éder Chiodetto afirma que o lugar onde o escritor cria as suas histórias é “exatamente onde quase nunca está. A narrativa é seu espaço de ação.”

Quando escrevo, não estou aqui, mas sim na casa de Paula, nos lugares por onde ela anda, ou no estúdio do escritor ainda sem nome que aparece no romance. Para estar nesses lugares, no entanto, preciso sentir-me bem acomodado, com o mínimo de interferências externas, incluindo a internet, que precisa estar desconectada, em que pese a necessidade dessa ferramenta para o desenvolvimento da narrativa. Não pode faltar a xícara de café, única bebida que entra no meu ritual de escrita. William Faulkner, porém, disse que não precisava de nenhum ambiente específico para escrever: “A arte tampouco tem a ver com o ambiente; não faz diferença para ela onde estiver.”


Cassionei Niches Petry
Santa Cruz do Sul, 26/10/2016

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