A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
64869 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Conto HAYEK, de Maurício Limeira, é selecionado em coletânea da Editora Persona
>>> Os Três Mosqueteiros - Um por Todos e Todos por Um
>>> Sesc 24 de Maio recebe o projeto Parlavratório - Conversas sobre escrita na arte
>>> Cia Caravana Tapioca faz 10 anos e comemora com programação gratuita
>>> Eugênio Lima dirige Cia O GRITO em novas intervenções urbanas
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
>>> A história de Chieko Aoki
>>> Uma história do Fogo de Chão
>>> BDRs, um guia
>>> Iggor Cavalera por André Barcinski
>>> Dave Brubeck Quartet 1964
Últimos Posts
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
>>> Indistinto
>>> Mais fácil? Talvez
>>> Riacho da cacimba
>>> Mimético
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Uma vida bem sucedida?
>>> A morte da Capricho
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Bienal do Livro Bahia
>>> A primeira hq de aventura
>>> Como Passar Um Ano Sem Facebook
>>> Mulheres de cérebro leve
>>> O curioso caso de Alberto Mussa
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> Digestivo Cultural: 10 anos de autenticidade
Mais Recentes
>>> Os Mistérios da Rosa-cruz de Christopher Mcintosh pela Ibrasa (1987)
>>> Las Glandulas Nuestros Guardianes Invisibles de M. W. Kapp pela Amorc (1958)
>>> Experiências Práticas de Ocultismo para Principiantes de J. H. Brennan pela Ediouro (1986)
>>> As Doutrinas Secretas de Jesus de H. Spencer Lewis pela Amorc (1988)
>>> Amigos Secretos de Anamaria Machado pela Ática (2021)
>>> A Vós Confio de Charles Vega Parucker pela Amorc (1990)
>>> O Segredo das Centúrias de Nostradamus pela Três (1973)
>>> Para Passar em Concursos Jurídicos - Questões Objetivas com Gabarito de Elpídio Donizetti pela Lumem Juris (2009)
>>> Dicionário espanhol + Bônus: vocabulário prático de viagem de Melhoramentos pela Melbooks (2007)
>>> Memorias De Um Sargento De Milicias de Manuel Antônio de Almeida pela Ática (2010)
>>> Turma da Mônica Jovem: Escolha Profissional de Maurício de souza pela Melhoramentos (2012)
>>> Xógum Volume 1 e 2 de James Clavell pela Círculo do Livro
>>> Viva à Sua Própria Maneira de Osho pela Academia
>>> Virtudes - Excelência Em Qualidade na Vida de Paulo Gilberto P. Costa pela Aliança
>>> Vida sem Meu Filho Querido de Vitor Henrique pela Vitor Henrique
>>> Vida Nossa Vida de Francisco Cândido Xavier pela Geem
>>> Vida Depois da Vida de Dr. Raymond e Moody Jr pela Circulo do Livro
>>> Vícios do Produto e do Serviço por Qualidade, Quantidade e Insegurança de Paulo Jorge Scartezzini Guimarães pela Revista dos Tribunais
>>> Viagem na Irrealidade Cotidiana de Umberto Eco pela Nova Fronteira
>>> Uma Só Vez na Vida de Danielle Steel pela Record (1982)
>>> Uma Família Feliz de Durval Ciamponi pela Feesp
>>> Um Roqueiro no Além de Nelson Moraes pela Speedart
>>> Um Relato para a História - Brasil: Nunca Mais de Prefácio de D. Paulo Evaristo pela Vozes
>>> Um Longo Amor de Pearl S Buck pela Circulo do Livro
>>> Um Estranho no Espelho de Sidney Sheldon pela Circulo do Livro
COLUNAS

Terça-feira, 25/7/2017
A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2800 Acessos



A editora Iluminuras acaba de publicar A noite de um iluminado, de Pedro Maciel. O que está em jogo nesse romance é uma questão vital para a literatura contemporânea. Como lidar com o espelho quebrado da realidade e sua multiplicação de cacos e dos ecos desses cacos? É essa a obsessão da literatura verdadeiramente contemporânea, a de descobrir uma linguagem que poderia exprimir algo próximo desse mundo de miríades de pequenos átomos quebrados. Construir uma espécie de vitral com o que sobrou de nossas certezas aos pedaços, como sugeriu o dramaturgo Gerald Thomas.

Libertado das limitações das construções lógicas, científicas e da análise factual, que muitas vezes toma a mente dos escritores preocupados em dar conta da “realidade”, a literatura de Pedro Maciel se projeta como possibilidade ou tentativa de uma nova e genuína expressividade. Sem a ambição da totalidade como guia, o narrador não ocupa mais o lugar do sujeito que emite enunciados fechados, como se fosse um portador da verdade. Se para nós essa forma de se relacionar com a existência é quase um pesadelo kafkiano, para Pedro Maciel é o contrário: “Para mim, o pesadelo é um oráculo”. (p. 115)

Se seu romance (essa palavra, no caso de A noite de um iluminado, não tem relação alguma com o tradicional romance) tem como guia as estrelas, o que ele capta delas não é nenhum norte, pois o que ele vê são “reflexos das estrelas que se extinguiram há milênios”. São esses reflexos que perpassam a mente do narrador em tantas interrogações quanto respostas ao longo do livro.

Não há dúvida de que a riqueza do romance de Pedro Maciel também deriva das experiências no campo das reflexões do narrador a respeito da própria insuficiência da nossa linguagem tradicional. À permutabilidade das experiências da vida, sua literatura responde se distanciando deliberadamente do chamado “discurso objetivo” e da chamada “realidade objetiva”. Para isso, coloca o narrador sempre em crise com a criação, consigo mesmo e com o leitor.

Se os fenômenos da realidade não podem ser abarcados como um todo, resta-lhe comungar com as indeterminações. E o livro se articula a partir de questões que vão se sobrepondo, como se um espelho quebrado pudesse, dentro de cada caco, reproduzir o próprio caos da quebradeira. Para isso, Maciel forja construções que resultam num manancial imagético surpreendente.

Em Notas sobre literatura, Adorno vaticina: “Se o romance quiser continuar fiel à sua herança realista, e dizer como o mundo realmente é, deverá renunciar a um realismo que, na medida em que reproduz a fachada, contribui apenas para favorecer a sua função de produzir ilusões.”

Adorno está falando daquele romance específico da era burguesa que sofre no século XX uma tremenda crise, não conseguindo mais dominar artisticamente a existência. Não basta mais, portanto, a linguagem do relato, já que a narrativa se tornou impossível com a desintegração da identidade da experiência no pós-guerra. Com isso, acreditava o teórico da Escola de Frankfurt, os melhores romancistas seriam justamente os que apresentam as soluções mais inteligentes para essa “crise da narrativa”. Não sendo possível uma realidade filtrada e harmonicamente falsificada (na sua suposta possível compreensão), resta uma forma de exposição que não tem mais uma preocupação sistemática, na medida em que o autor apresenta fragmentariamente e/ou livremente suas ideias.

É nesse sentido que cada ideia dentro do livro de Pedro Maciel é uma soma de diversas percepções, de perguntas que vêm e vão, retornando dentro do reflexo dos cacos miúdos que se multiplicam, se encontram e se desencontram, somando-se infinitamente em derivadas que ecoam aquilo que, por si, já era um eco. Parece que estamos navegando dentro das formulações de Guimarães Rosa no seu Grande Sertão, que, aliás, seria o instrumento mais eficaz para se entender essa nova literatura: “O que falei foi exato? Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo recruzado.”

Talvez as palavras de outro escritor, Martin Walser, em seu Unicórnio, também nos ajude a definir bem a experiência literária de Pedro Maciel: “Necessitaria de antipalavras. Palavras para a lembrança apresentam-se como um eco. Mas o eco é o próprio som, o MESMO ruído, lançado de volta ao meu ouvido.”

Um romance como esse não nos dá o norte, ao contrário, demonstra que o mapa celeste se recompõe a cada momento, já que o brilho de uma estrela não é mais o que existe, mas o que existiu. Tempo e espaço cósmicos são o laboratório dessa literatura, que não faz mais perguntas à “realidade do mundo”, mas à linguagem celeste da poesia, um espaço novo e aberto às perguntas fundamentais sobre a razão de nossa existência e um novo sentido para a escritura do romance.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 25/7/2017


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri de Jardel Dias Cavalcanti
02. Leblon de Marta Barcellos
03. Daniel Piza me fez começar a escrever de Rafael Fernandes
04. Quando o autor é protagonista do próprio romance de Marcelo Spalding
05. Agendas, papéis soltos e o dia-a-dia de Ana Elisa Ribeiro


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2017
01. A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri - 9/5/2017
02. Como se me fumasse: Mirisola e a literatura do mal - 26/12/2017
03. Amy Winehouse: uma pintura - 28/3/2017
04. Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto - 5/9/2017
05. A poesia afiada de Thais Guimarães - 3/10/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Conversas Com Joao Carlos Martins
David Dubal
Green Forest do Brasil
(1999)



Repenser La Gestion de nos Sociétés
Pierre Calame ( Coord.)
Charles Léopold Mayer
(2003)



Quem Controla Quem? Pais Ou Filhos
Lawrence Balter
Saraiva
(1990)



Rumor da Casa
Telma Scherer
7 Letras
(2008)



A Prática Profissional do Assistente Social - Vol. 1 - 1ª Edição
Myrian Veras Baptista & Odária Battini (orgs)
Veras
(2009)



Quimica na Abordagem do Cotidiano Volume 1 Modernaplus
Tito/canto
Modernaplus
(2010)



Discurso Sobre o Método
René Descartes
Hemus
(1978)



Para Sempre Alice
Lisa Genova
Harpercollins
(2015)



Instrumentação Em Cirurgia da Coluna Vertebral
Jürgen Harms e Giuseppe Tabasso
Dilivro
(2001)



O Pensamento Vivo de Chaplin
José Geraldo Simões
Martin Claret
(1984)





busca | avançada
64869 visitas/dia
2,2 milhões/mês