Como se me fumasse: Mirisola e a literatura do mal | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
60317 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Alfredenses são receptivos, afirma turista
>>> Por um trânsito mais humano, artistas pintam os muros de escolas públicas em Embu das Artes
>>> PAULUS Editora lança a obra clássica 'A Revolução dos Bichos', de George Orwell
>>> Tik lança EP autoral que transita entre rock, jazz e indie
>>> CASA MUSEU EVA KLABIN RELEMBRA A SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 EM FESTIVAL NO MÊS DE MAIO
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
>>> Epitáfio do que não partiu
>>> Efeitos periféricos da tempestade de areia do Sara
>>> Mamãe falhei
>>> Sobre a literatura de Evando Nascimento
>>> Velha amiga, ainda tão menina em minha cabeça...
>>> G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas
>>> O último estudante-soldado na rota Lisboa-Cabul
Colunistas
Últimos Posts
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
>>> Trader, investidor ou buy and hold?
>>> Slayer no Monsters of Rock (1998)
>>> Por que investir no Twitter (TWTR34)
>>> Como declarar ações no IR
Últimos Posts
>>> Auto estima
>>> Jazz: 10 músicas para começar
>>> THE END
>>> Somos todos venturosos
>>> Por que eu?
>>> Dizer, não é ser
>>> A Caixa de Brinquedos
>>> Nosferatu 100 anos e o infamiliar em nós*
>>> Sexta-feira santa de Jesus Cristo.
>>> Fé e dúvida
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Poesia e papo furado
>>> Saints and Sinners
>>> Memorial de Berlim
>>> Caçar em campo alheio ou como escrever crônicas
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma relação orgânica com a rede
>>> BBB e Narciso
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Apesar de vocês
>>> Bloom sobre Shakespeare
Mais Recentes
>>> Só Porque Criou o Mundo Pensa Que é Deus de Henrique Carneiro Szklo pela M&m (1998)
>>> Em poder de Barba-Azul de Luisa Maria Limares pela Ouro (1978)
>>> Jane Eyre de Charlotte Bronte pela Signature (2012)
>>> Coleção Harvard de Administração - N° 11 Sebo Tradição de Nova Cultural pela Nova Cultural (1976)
>>> Desafios na Comunicação Pessoal de José Manuel pela Paulinas
>>> Interchange Level 1 Students Book With Self-study de Jack C. Richards pela Cambridge (2005)
>>> A Mulher Torta de Paulo Netho pela Formato (2009)
>>> Alma Geme de Cristina Gebran pela Topbooks (2004)
>>> Dividida entre dois Amores de Adriana Tavares de Sá pela Ouro (1977)
>>> O Anjo dos Esquecidos de Heinz G. Konsalink pela Record (2010)
>>> Atlas Ilustrdo Do Universo - Capa Dura - Astronomia de Mark A. Garlick pela Seleçoes Reader s (2021)
>>> Fundamentos da Biologia Moderna - Vereda Digital Vol único Parte III de Amabis & Martho pela Moderna
>>> Cavaleiros do Zodíaco 15 de Masami Kurumada pela Conrad
>>> Cinco Minutos a Viuvinha - Série Bom Livro de José de Alencar pela Ática (1995)
>>> Jurássico de Disney pela Abril (2015)
>>> Negrinha de Monteiro Lobato pela Brasiliense (1994)
>>> Pais Brilhantes Professores Fascinantes de Augusto Cury pela Sextante (2003)
>>> Lu Petersen - Militância, Favela e Urbanismo de Bianca Freire pela Faperj (2008)
>>> Cavaleiros do Zodíaco 7 de Masami Kurumada pela Conrad
>>> Limites exteriores da plataforma continental do Brasil conforme o direito do mar de Christiano Sávio Barros Figueirôa pela Fundação Alexandre de Gusmão (2022)
>>> O lider 360º de John C. Maxwell pela Thomas Nelson Brasil (2007)
>>> Paris - Top 10 de Vários pela Publifolha (2003)
>>> Paixões no Deserto de Barbara Cartland pela Ouro (1978)
>>> Superpato 40 Anos de Walt Disney pela Abril Jovem (2009)
>>> Bíblia do Peregrino - Novo Testamento, Encadernada de Não Localizado pela Paulus (2000)
COLUNAS

Terça-feira, 26/12/2017
Como se me fumasse: Mirisola e a literatura do mal
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 5600 Acessos



À beira do precipício que é o fim do romance Como se me fumasse, de Marcelo Mirisola, publicado pela Editora 34, aparece uma espécie de vaticínio: “Você precisa ter fé, tenha fé no mal”.

É dessa fé no mal que é feita a literatura de Mirisola. E quem aparece para abençoar o círculo infernal de sua última obra romanesca autobiográfica é nada menos que duas pestes sempre invocadas: Freud e Nelson Rodrigues (que prescindem de apresentação). Essa autopsicanálise profunda e imunda que só os grandes escritores conseguem fazer e transcender, pois que a transformam em literatura, é o que o leitor engolirá goela abaixo e com prazer em Como se me fumasse.

Os personagens de Mirisola estão longe de se apresentarem apenas como seres humanos em carne e osso. Sua autobiografia é movida, a cada momento do relato de suas peripécias, por três grupos endemoniados de conceitos que são dados pelo próprio escritor: “Memória e alucinação. Idealização e desejo. Obsessão e Ruína.”

Ruína é uma personagem central e é uma condição existencial dentro do romance. Pode ser uma alegoria da vida do artista, de sua busca constante, débil e alucinatória pelo sublime, inalcançável, mas sendo, ao mesmo tempo, o que lhe permite criar a obra desejada. Se o fracasso é a condição para que se erga o edifício trágico da existência artística, Mirisola aceitou essa vocação/danação (Van Gogh dizia que, quanto mais velho, feio e pobre ficava, mais criava obras de arte como contraposição a essa iniquidade). Ela alimenta os intercursos afetivos das suas narrativas, passando pelos amores, amizades e laços familiares - cortados pela navalha suja e contaminada da alucinação e do desejo sempre insatisfeito.

Que sua vocação artística seja o centro da trama “desordenada” do romance, pois que criada por uma memória alucinada, é o que amarra todos os personagens em laços impuros de idealização e fracassos. Seu pai vê as folhas datilografadas como lixo, seus familiares veem sua vocação como vagabundagem, seus amigos o veem como um ego ambulante e prepotente, suas amantes como uma escada para algum lugar ou lugar nenhum.

A resposta do personagem autor é o desterro social, a vida solitária, luxuriante e acabrunhada, por vezes, impiedosa com quem lhe atravessasse o caminho (haja desafetos!). Daí que de Freud se salte para Nelson Rodrigues, exibindo a cada página do romance o zoológico das falsas convenções sociais e seu resultado grotesco por todos os pastos onde o ser humano transita.

O livro trata do interesse que o autor tem pela própria vida, por seu trajeto incerto, mas demarcado por uma reflexão posterior sobre os fatos vivenciados a partir de uma avaliação crua, impiedosa, sarcástica ou até, por vezes, revendo a sua existência como uma espécie de “comédia de erros”.

Não sobra o ataque à crítica literária que o esnoba, com suas panelas de mocinhos comprometidos incestuosamente com grupos de escritores medianos que com eles vivem uma relação que permite a coexistência de lugares comuns entre a crítica e o literatos.

Como se me fumasse de Marcelo Mirisola faz da autobiografia literária um ponto alto da criação artística brasileira, engendrando uma escrita pulsante e rigorosa, que retira o fôlego do leitor numa construção narrativa destinada a nos dar a medida da existência como apenas o prenúncio de uma futura Ruína.

E há uma tese dentro do próprio livro que confirma o que se disse acima: “Escrever é espanto. E espanto é sinônimo de ignorância e selvageria, espanto é o sentimento que inaugura todos os outros, é o homem pela primeira vez diante do conhecimento e condenado à morte, espantar-se é apontar o dedo para a realidade absurda que nos envolve, e a literatura é a forma pela qual aprendi a praticar o espanto, podia ter comprado uma arma e resolvido as coisas com mais praticidade e eficiência, mas, como sou covarde, escrevo livros”.

Covarde, o autor? Não. Talvez covarde seja o leitor que vier a correr da literatura de Mirisola, dando-lhe razão sobre o poder da Ruína sobre todos nós.



Como se me fumasse

Autor: Marcelo Mirisola

Editora 34

Quanto: 41 R$ (170 págs.)


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 26/12/2017


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Profissão sem fé de Daniela Sandler
02. Quem sou eu? de Paulo Polzonoff Jr


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2017
01. A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri - 9/5/2017
02. Como se me fumasse: Mirisola e a literatura do mal - 26/12/2017
03. Amy Winehouse: uma pintura - 28/3/2017
04. A poesia afiada de Thais Guimarães - 3/10/2017
05. Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto - 5/9/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




T. N. T Nossa Força Interior
Claude M. Bristol
Ibrasa
(1980)



Via Coraçao - Caminhos da Transformaçao
Horácio Netho
Alfabeto
(2011)



A Mágica da Arrumação
Marie Kondo
Sextante
(2015)



Radiotherapy For Head and Neck Cancers
K. K. Ang e Johannes
Lea & Febige
(1993)



How to Run For Local Office
Robert J. Thomas
Boji Books
(1999)



Ética
Newton Bignotto e Outros
Companhia das Letras
(1992)



A Sentinela (lacrado)
Lya Luft
Record
(2005)



Informações Básicas Sobre Materiais Asfálticos
Diversos
Não Encontrada



Diálogo Sobre Etiqueta no Facebook .
Leandra Zanqueta
Dracaena
(2014)



Bem Aventurados os Aflitos
Richard Simonetti
Ceac
(2009)





busca | avançada
60317 visitas/dia
1,8 milhão/mês