Como se me fumasse: Mirisola e a literatura do mal | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 26/12/2017
Como se me fumasse: Mirisola e a literatura do mal
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3700 Acessos



À beira do precipício que é o fim do romance Como se me fumasse, de Marcelo Mirisola, publicado pela Editora 34, aparece uma espécie de vaticínio: “Você precisa ter fé, tenha fé no mal”.

É dessa fé no mal que é feita a literatura de Mirisola. E quem aparece para abençoar o círculo infernal de sua última obra romanesca autobiográfica é nada menos que duas pestes sempre invocadas: Freud e Nelson Rodrigues (que prescindem de apresentação). Essa autopsicanálise profunda e imunda que só os grandes escritores conseguem fazer e transcender, pois que a transformam em literatura, é o que o leitor engolirá goela abaixo e com prazer em Como se me fumasse.

Os personagens de Mirisola estão longe de se apresentarem apenas como seres humanos em carne e osso. Sua autobiografia é movida, a cada momento do relato de suas peripécias, por três grupos endemoniados de conceitos que são dados pelo próprio escritor: “Memória e alucinação. Idealização e desejo. Obsessão e Ruína.”

Ruína é uma personagem central e é uma condição existencial dentro do romance. Pode ser uma alegoria da vida do artista, de sua busca constante, débil e alucinatória pelo sublime, inalcançável, mas sendo, ao mesmo tempo, o que lhe permite criar a obra desejada. Se o fracasso é a condição para que se erga o edifício trágico da existência artística, Mirisola aceitou essa vocação/danação (Van Gogh dizia que, quanto mais velho, feio e pobre ficava, mais criava obras de arte como contraposição a essa iniquidade). Ela alimenta os intercursos afetivos das suas narrativas, passando pelos amores, amizades e laços familiares - cortados pela navalha suja e contaminada da alucinação e do desejo sempre insatisfeito.

Que sua vocação artística seja o centro da trama “desordenada” do romance, pois que criada por uma memória alucinada, é o que amarra todos os personagens em laços impuros de idealização e fracassos. Seu pai vê as folhas datilografadas como lixo, seus familiares veem sua vocação como vagabundagem, seus amigos o veem como um ego ambulante e prepotente, suas amantes como uma escada para algum lugar ou lugar nenhum.

A resposta do personagem autor é o desterro social, a vida solitária, luxuriante e acabrunhada, por vezes, impiedosa com quem lhe atravessasse o caminho (haja desafetos!). Daí que de Freud se salte para Nelson Rodrigues, exibindo a cada página do romance o zoológico das falsas convenções sociais e seu resultado grotesco por todos os pastos onde o ser humano transita.

O livro trata do interesse que o autor tem pela própria vida, por seu trajeto incerto, mas demarcado por uma reflexão posterior sobre os fatos vivenciados a partir de uma avaliação crua, impiedosa, sarcástica ou até, por vezes, revendo a sua existência como uma espécie de “comédia de erros”.

Não sobra o ataque à crítica literária que o esnoba, com suas panelas de mocinhos comprometidos incestuosamente com grupos de escritores medianos que com eles vivem uma relação que permite a coexistência de lugares comuns entre a crítica e o literatos.

Como se me fumasse de Marcelo Mirisola faz da autobiografia literária um ponto alto da criação artística brasileira, engendrando uma escrita pulsante e rigorosa, que retira o fôlego do leitor numa construção narrativa destinada a nos dar a medida da existência como apenas o prenúncio de uma futura Ruína.

E há uma tese dentro do próprio livro que confirma o que se disse acima: “Escrever é espanto. E espanto é sinônimo de ignorância e selvageria, espanto é o sentimento que inaugura todos os outros, é o homem pela primeira vez diante do conhecimento e condenado à morte, espantar-se é apontar o dedo para a realidade absurda que nos envolve, e a literatura é a forma pela qual aprendi a praticar o espanto, podia ter comprado uma arma e resolvido as coisas com mais praticidade e eficiência, mas, como sou covarde, escrevo livros”.

Covarde, o autor? Não. Talvez covarde seja o leitor que vier a correr da literatura de Mirisola, dando-lhe razão sobre o poder da Ruína sobre todos nós.



Como se me fumasse

Autor: Marcelo Mirisola

Editora 34

Quanto: 41 R$ (170 págs.)


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 26/12/2017


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