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Terça-feira, 10/4/2018
Nobel, novo romance de Jacques Fux
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2400 Acessos



O escritor Jacques Fux acaba de publicar Nobel, romance editado pela José Olympio. O autor publicou anteriormente três outros romances: Antiterapias (Scriptum), Brochadas (Rocco) e Meshugá (José Olympio).

Em Nobel, o autor decide fazer-se de premiado e em seu discurso pelo prêmio coloca-se como “ventríloquo da memória e da obra dos outros” contemplados. Mais do que isso, decide revelar o lodaçal da vida sobre a qual se constitui a obra prima dos grandes autores premiados. É a “sórdida devassidão humana” que será recuperada da vida daqueles que “dignificaram e ampliaram a concepção da vida” pela literatura.

A tarefa é perversa. Dar prioridade aos “atos e textos infames” dos grandes escritores. Ao contrário da visão de que os autores premiados eram seres humanos sensíveis, especiais e humanistas, o romance de Fux nos oferece justamente o contrário, mostrando no seu discurso de premiado o quanto impura é essa humanidade e o quanto a arte depende justamente desse esgoto existencial para que a flor da literatura floresça.

Sem perder tempo com sofismas, decide revelar o âmago do que está por trás do desejo da arte de “desvelar a alma, as vicissitudes e a experiência humana”.

No romance de Fux não se encontra cordialidade alguma, levando-o a dizer o que todo escritor é: “Todo escritor é pedante, insolente, arrogante, vaidoso. Essa é sua essência. E mesmo que ela seja velada, não há como escondê-la. Permitam-me, portanto, expor, escancarar e assolar o lado obtuso, clandestino, furtivo e maldito – mas essencial para a criação – da nossa casta de escritores.”

O romance de Fux vai seguindo cada um dos laureados naquilo que é a matéria prima de suas criações: devassidão, ciúme, egoísmo, complexos etc. A lista começa com um dos não premiados, Franz Kafka, e outros não premiados como Jorge L. Borges, Mishima e Júlio Cortázar também merecerão comentários. Entre os premiados que têm sua vida obscura devassada estão Canetti, Sartre, Camus, Hemingway, Kawabata, Coetzee, Jelinek, Kertész, Svetlana Alexievich, Xingjian, Beckett, Isaac Singer, Garcia Márquez e Vargas Llosa. Além dos escritores, entra na panela quente dessa fritura o cientista James Watson, um dos descobridores do “modelo de dupla hélice” do DNA.

Mais do que simplesmente narrar o horror e as aberrações existenciais desses premiados, Fux faz do discurso do novo premiado o momento para revelar que é justamente essa característica que é o próprio oxigênio que alimenta a criação artística (e, por vezes, científica).

Ao escolher Kafka como o primeiro desses escritores que fizeram da desordem da vida o alimento para sua obra, cria-se uma identificação máxima dele com a maioria dos outros escritores (e do próprio autor de Nobel?), essa mistura de “Narciso com Dorian Gray” que ficcionaliza a si mesmo para viver uma vida errante, necessária para alimentar o monstro da criação. Se Kafka diz: “Tudo o que não seja literatura me aborrece e eu detesto, pois distrai-me e faz-me mal, ainda que sejam só imaginações minhas”. O novo laureado pelo Nobel se põe a desmenti-lo: “Que mentira, mítico companheiro: foram as aventuras e errâncias nas camas das mulheres – e não as letras – que compuseram o cenário perfeito para o seu Castelo, seu Veredito e para toda a minha obra!”

Buscando esse “outro” como “si mesmo” no autor de A Metamorfose, diz que estava ali recebendo o prêmio por sua obra refletir situação similar à de Kafka. Ferir o amor de Felice em negativas tentativas de constituir uma relação amorosa à dois, o que poderia destruir sua existência como escritor: “Porém, tristes senhores, o amor não me bastava. Não era suficiente. Não era honesto e nem justo diante da minha criação. A vida com ela era esfuziante, alucinante, hipnotizante... mas não me deixava esgotado, sem tempo para transcender a dor e a angústia da escrita.”

Dito isso, o mais novo premiado pelo Nobel diz que precisava se livrar do amor, razão que o levou ao prêmio. Para completar a identificação, cita Kafka: “Não há nunca suficiente solidão ao redor de quem escreve, jamais o silêncio em torno de quem escreve será excessivo, e a própria noite não tem bastante duração. Sendo assim, não pode jamais haver a nosso dispor o tempo adequado, visto que são extensas as distâncias e facilmente nos desviamos.”

Outro laureado pelo Nobel é Canetti, que na cola de Kafka apropria-se do mesmo argumento para existir como escritor e escreve sua obra O Outro Processo: as cartas de Kafka a Felice. Este “fugia porque a invenção e o desejo, além de contrários à ação e à plenitude, devem persistir apenas como pulsão na alma atormentada do escritor.” E muito mais diz o laureado sobre as estripulias perversas de Canetti, que não cabe aqui narrar indefinidamente.

No cerne dessa perseguição ao “âmago da criação”, Fux (ou o laureado?) vai revelando que “são as traições, as imposturas e as vilezas que nos incitam a escrever e a combater.” Nessa tríade de escritores, Kafka, Canetti, Fux, cada um usurpando do outro, nasce a definição: “Nós somos cúmplices e membros dessa corja incorrigível de escritores estelionatários.”

“Será que a ficção é honesta?”, clama o personagem (autor?) de Nobel. Como diz o laureado, “Sou quem subjuga, viola e profana. Aquele que usurpa e abusa, e ainda se lisonjeia por isso. Sou escritor!”

Depois Sartre é quem entra no círculo infernal de Nobel. Sua vida sexual devassa com Simone de Beauvoir, os dois escolhendo ninfetinhas para uso pessoal na cama e outros ménages dos autores, como o da participação do autor do famoso documentário Shoah, Claude Lanzmann, que foi amante de Simone, e também Deleuze, que entra nesse meio libidinoso por vias tortas para viver também seu inferno amoroso.

Sartre recusou não só o prêmio Nobel, mas a Legião de Honra e ingressar no Collège de France, dizendo que “nenhum escritor deve deixar-se transformar em Instituição, mesmo que isso se verifique pela mais honrosa forma”. Atitude que parece torná-lo um puro sangue da literatura. No entanto, em seu discurso o novo laureado o coloca em maus lençóis, devassando algumas contradições de sua existência: “Senhores, ele não passou de mais um escritor decrépito sonhando compor algo de notável, inédito e original.” E mais, “ao contrário de Camus e Malraux, que apostaram suas vidas nos anos da guerra, não parece que Sartre tenha arriscado demais com sua militância (...)”, o que se comprova pela sua “apatia e da prudência que ele mostrou diante dos nazistas quando as batatas queimavam.”

A irmã de Lanzmann, Évelyne, entra nesse círculo dantesco, tornando-se amante de Sartre e Deleuze: “O encontro entre Évelyne, Sartre e Deleuze foi condenado ao inferno. Ao inferno sartreano e ao Vale de Dante: o Vale da Floresta dos Suicidas.”

Segundo o laureado, ao ir compondo essa salada de infâmias dos escritores, sua conclusão só pode ser a de que “todos os atos literários não passam de infâmias e baixezas”. Habitar o inferno é algo claro para o laureado: “a Academia, os pares, a vaidade, a solidão, a busca dilacerante pelas palavras não escritas.”

Ao longo de Nobel vai-se constituindo a revelação da sordidez do mundo literário e a consequente criação de obras primas que refletem ou se alimentam da baixeza, da hipocrisia, do egocentrismo. E avisa o novo laureado: “São esses infames que os senhores vêm condecorando ao longo dos anos... e é um deles que acabam de premiar.”

Camus, outra alma atormentada, premiado também, trata do suicídio como único problema filosófico relevante e adverte que “matar-se, em certo sentido é confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que a não compreendemos.”

Para ampliar o “zoológico nobélico”, cita Hemingway, para dizer que o que lhe interessa no seu discurso de novo laureado são “as memórias do subsolo e as profundezas.” Pois, “lá dentro, cravadas, enterradas e enevoadas, asseguro, estão todas as palavras que contribuíram para a presença dos escritores” no Nobel. E resume: “a obra de Hemingway foi apenas uma procrastinação do suicídio.”

Para o autor de Nobel (ele mesmo um agraciado, na sua fantasia de escritor), todos os escritores no fundo almejam a mesma coisa, a glória, mesmo ela sendo construída no desespero. Para isso cita, a partir de Shakespeare, o momento do suicídio de Cleópatra como a metáfora do próprio anseio do escritor: “Dê-me o meu manto, coloque a minha coroa, eu tenho anseios imortais em mim”.

Infame, o novo laureado quer corromper as regras dos discursos dos premiados. O que faz é “um discurso herético: síntese da essência humana.” Citando Maeterlinck, diz: “Quando chegamos a um certo momento da vida, há mais prazer em dizer a verdade do que coisas para impressionar.” Eis aí a tônica do discurso do laureado, falar sobre o subterrâneo, aquilo que se esconde sob a máscara de um humanismo utópico, mas impossível de ser atingido até pelos mestres escritores que sempre alimentaram nosso espírito, eleitos pela própria civilização como exemplos de virtudes.

O caso do escritor japonês Osamu Dazai, o “poeta do desespero”, clarifica essa ideia da ausência de virtude. “Ele coagiu a esposa, Hatsuyo, a se matarem durante o ato sexual. Sobreviveram, e esse prazer mortal transformou-se em mote para quase dez livros.” O escritor ainda “confessou odiar todo o processo de composição e escrita (...) constatou toda a inutilidade, repugnância e perversão da literatura.”

O novo laureado também aproveita para criticar o sentido do prêmio: “Sei que receber o Nobel é uma tentativa malsucedida de domesticação da obra e do autor. Um desejo de enquadrar, classificar, entender e propagar ideias que se encaixam aos pensamentos do status quo dos senhores, energúmenos acadêmicos.” E sua revolta é abandonar a literatura: “deixo claro que nunca mais escreverei nem receita de bolo.”

Não só a literatura, mas a ciência é premiada por pesquisas que muitas vezes são criadas a partir de ideologias racistas, como o caso das pesquisas sobre o DNA, de James Watson. No caso, se premiou a descoberta da “dupla hélice” que nasceu do interesse da ciência em provar a superioridade de uma raça sobre outra.

A falaciosa virtude e corretude contemporâneas também é criticada pelo autor ao discutir o prêmio de Derek Walcott, em 1992. Walcott é visto como o representante da transgressão, que se define nos termos seguintes: “A verdadeira poesia é a possibilidade de afrontar. De abalar. De desestruturar a ordem, o conceito, a teoria, a forma, a ética e a moral.”

Walcott sabia as regras para ganhar o Nobel: “O mundo da literatura é muito político. A chave para ganhar um Nobel é manter seus lábios em constante movimento, bajular e puxar o saco das pessoas certas o tempo todo.” Para o novo laureado, “Essa foi sua verdadeira labuta. A poesia, apenas fachada e hobby.”

No entanto, “sua genialidade é inconteste.”. Segundo o autor de Nobel, ele iluminou o sentido da arte como um todo, aquela arte que transcende a história: “Para todo poeta, é sempre de manhã no mundo. A História é uma noite esquecida, e de insônia; a História e o medo estão sempre ao nosso começo, porque o destino da poesia é apaixonar-se diariamente pelo mundo, apesar da História.”

As questões sobre a lisura dos premiados é sempre colocada em questão, afinal, revelando-se que a alma da literatura é essa mesma, o lodo existencial de cada autor, essa fértil terra onde brota a melhor flor literária. Aquilo que o discurso dos premiados não revela: “a verdadeira e inacessível história é aquela relegada e varrida para debaixo do tapete.”

O autor de Nobel transfigura-se nesses personagens/autores, pois também exerce o mesmo ofício, identificando-se inclusive com o mundo criado por eles: “o mundo inventado por Borges é o lugar em que vivo.”

A questão colocada, “como você pode ser um grande escritor, se você é apenas um homem medíocre?” vai se respondendo ao longo de Nobel, pensada na afirmação de que a energia do mal, a perversão do homem pelo desejo, é quem cria a força literária. “Há algo de ético e de nobre, ou apenas de podre e de infame, no calabouço da vida?”

A conclusão deixada pelo autor de Nobel (ou no discurso do novo laureado) é sintética e clara: “É uma contradição inerente aos escritores. A presença do paradoxo, do absurdo, da incompatibilidade dos desejos, medos e predileções é parte inseparável da escritura. E, quanto mais sujeira, mais força criativa.”

Aqueles que submergiram, que têm o eu fragmentado, que sofreram a arbitrariedade bárbara da história, esses são os melhores escritores, segundo o laureado. Por isso, grandes foram os “sobreviventes” do holocausto, os suicidas Paul Celan e Primo Levi.

“É por isso que eu gosto do vulgar, do baixo, do vil. Do fator humano e mesquinho da literatura, que se transmuta em histórias apócrifas e fantásticas, as quais os escritores-alquimistas transfiguram em narrativas e odisseias.” Eis o segredo dos premiados, vivendo nesse espaço do vil, aquilo que na verdade é sua verdadeira humanidade.

Beckett é um dos citados pelo novo laureado, já que estamos entrando no mundo das experiências inenarráveis e inomináveis, insuficientes e limitadas. Algo como: é possível a poesia depois dos campos de concentração, como problematizava Adorno? Aqui entra Beckett: “Nomear, não, nada é nominável, dizer, não, nada é dizível, o que então, não sei, não devia ter começado.”

A conclusão sobre a literatura deixada pelo laureado é terrível. E ela provém de Beckett, “que nos presenteou com a afronta da existência vazia. Seguiremos, inúteis, preenchendo lacunas, silêncios e orifícios. Para nada amigos. Textos e palavras para nada.

Sendo o “outro” desses autores, o laureado (e o autor Fux) torna-se “o inseto que acordou metamorfoseado em escritor. (...) Ele se tornou seus fantasmas personagens. E, junto com eles, enlouqueceu.”

Todo esse delírio torna-se o livro Nobel, que agora apreciamos como uma das belas obras do jovem e talentoso escritor Jacques Fux.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 10/4/2018


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