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Terça-feira, 20/11/2018
Goeldi, o Brasil sombrio
Jardel Dias Cavalcanti

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As gravuras de Goeldi nos enviam para um universo sombrio. Ruas quase desertas, com figuras que mais parecem vultos, casas sem vida ou luz, um negrume que a tudo envolve, mendigos, pescadores, prostitutas, trabalhadores voltando ou indo para lugares indefinidos, dentro de uma paisagem urbana noturna, ou se preferir, soturna, lúgubre, onde a luz pouco penetra, ao contrário, pois quanto mais parece a luz quer escapar por pequenos rasgos, mas o negrume a sufoca e a impede de se manifestar.

Se há personagens, são solitários, ou quando em dupla, não se comunicam, estão envoltos numa solidão tremenda, perambulando de cabeça baixa, sob o manto da noite ou da madrugada escura, indo cada um para seu lado (como se não tivessem para onde ir, embora não deixem de caminhar), vagando feito vultos na superfície negra das gravuras de Goeldi.

Ao contrário de um modernismo otimista, provindo da Semana de Arte Moderna de 22, um modernismo nacionalista e crente quanto ao progresso de nosso país, com grandes doses de abacaxi, coqueiros, sapinhos simpáticos, bondes e postes (Tarsila, Anita), um modernismo adepto da visão de uma suposta pureza não repressivo-civilizatória (“não precisamos de Freud”, diz o Manifesto Antropofágico), ao contrário desse verniz cordial (ver o livro “Reinventando o Otimismo”, de Carlos Fico), dessa presunção de nossa superioridade cordial-rousseauniana (ver o livro “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso), inclusive de nosso destino promissor,(“Deus é brasileiro”, somos “O país do futuro”) – ao contrário desse nacionalismo (e patriotismo) a gravura de Goeldi apresenta um outro universo, aquele que soterramos sob uma cortina do autoengano.



Segundo o crítico Paulo Venâncio Filho, “a obra de Goeldi revela algo sobre nós mesmos que não gostamos de ver. Nós brasileiros, nos vemos como solares, mas nossa existência é também trágica, violenta, sombria e miserável. Ele é uma nota dissonante do modernismo. Enquanto seus contemporâneos se dedicavam às cores e ao exotismo, ele representava a solidão, um Rio de Janeiro desarranjado, desestruturado, sem ser sentimental ou panfletário. Encontrou um convívio próximo a essas coisas terríveis, uma aceitação, sem se vitimar ou se conformar. É uma visão aguda e poética da realidade.”

Goeldi foi ilustrador de Allan Poe e Dostoievski, atividade que o colocou em contato com um universo artístico onde o lado sombrio da existência se expõe, onde os subterrâneos da alma humana se revelam. Não há como escapar dessas leituras, que põem à nu aquilo que a ideologia sempre quer esconder.

Observador das existências marginais, não se solidarizou com essas figuras soturnas como um sociólogo, ou como artistas denunciadores como Portinari ou Di Cavalcanti. O que lhe interessava era penetrar mais profundamente na condição humana. Revelar o Ser desses personagens, “a matéria moral em que se tornaram sob a força da noite física”, como revelou o magnífico poema de Drummond sobre Goeldi. É como se o artista revelasse a alma dessas pessoas (ou desse mundo) indo além daquilo que Marx dizia sobre o Capital, que para ver seus estragos era necessário observar o resultado de sua força no corpo moído e deformado dos trabalhadores depois de anos da exploração de seu trabalho.

Goeldi, em sua obra, como observou a escritora Raquel de Queiroz, “resolve as nossas emoções mais subterrâneas com figuras de pavor, de solidão e tristeza”, esses personagens que “nos gritam um apelo tão profundo e dramático, despertando inesperadas emoções”.

Goeldi, como dizíamos, jamais comprou uma visão ufanista do Brasil. Aliás, incomodava-o a adesão dos nossos artistas modernistas (de vanguarda?) aos esquemas do Estado, ao sequestro de sua arte para encampar a política ideológico-nacionalista do Estado (e dá-lhes encomendas para afirmar a ideologia do Estado!). A pauta nacionalista gerava sua desconfiança quanto à institucionalização do modernismo, entregue, após 1930, às suas relações com o propósito cultural do estado-novismo, como acentuou Carlos Zilio. Manteve-se, portanto, alheio a qualquer noção rasteira de modernidade e brasilidade, aquela marcada por um referencial solar.

Artistas como Goeldi, Ismael Nery e mesmo Flávio de Carvalho, que não se adequaram à construção de uma historiografia da arte modernista de tradição nacionalista, pagaram dessa forma o preço de um isolamento no mundo da arte brasileira. Regatados, apenas posteriormente, mostram a existência de uma experiência artística em nada absorvida pelos ditames dos grupos ideológicos de sua época. Ao contrário, são a expressão mais acabada das exigências da arte moderna.



Segundo Goeldi, “o caminho do artista é o individualismo. Muita coisa está morta porque o indivíduo quase não existe, pois ele tende a opinar num sentido coletivo”. Sua ideia da singularidade da atividade artística pode ser encontrada no seu pensamento: “Nunca sacrifiquei a qualquer modismo o meu próprio eu – caminhada dura, mas a única que vale todos os sacrifícios.”

O Rio de Janeiro (o Brasil?) que brota de suas gravuras é o lugar que não acolhe, onde a solidão se expõe, a incomunicabilidade entre os seres e entre os homens e a paisagem urbana se transforma em desajuste, insatisfação, melancolia e rejeição. É o que se apresenta ao espectador.

Drummond escreveu um poema dedicado “A Goeldi”. No poema, revela-se agudamente o lado trágico da obra do artista: avenidas de assombro, casas inabitáveis, criaturas condenadas ao mundo, todo sombra, preto no preto, sol noturno, trevas, erosão do tempo no silêncio, irrealidade do real, atmosfera de chumbo, a morte comanda, negrumes, poças de solidão, e por aí vai.

Em meio ao trópico, Goeldi revela o lado sombrio do homem como resultado de sua condição existencial. Segundo Nuno Ramos, “a atração de Goeldi por figuras marginais e trabalhadores rudes adquire um novo sentido. Bêbados, miseráveis, pescadores, prostitutas mantêm com a vida uma relação mais autêntica. Em sua precariedade, levam uma vida que não oculta a fragilidade humana. Suas formas instáveis, dispersas, não resultam do confronto de uma subjetividade superior com as agruras da vida. Revelam antes uma corrosão a que ninguém escapa.”



Parafraseando Christian Prigenti, em seu livro “Para que poetas ainda?” – A arte é grande quando trata o Mal. Não quando o cura, quando quer ou acredita curá-lo: não se cura o Mal assim como não se cura o real. Mas quando visa a pensá-lo, a incluí-lo na criação como um expoente inelutável. A arte é grande quando dá forma às injunções desse Mal, quando aceita sua tortura e dá ao canto sublimado que o transmuta em beleza aquela força capaz de nos abalar.

Goeldi não fez outra coisa, revelando nas suas gravuras uma verdade que nos abala: somos um país noturno, soturno, perverso, sufocado (camuflado) pela ideologia da cordialidade, um país de alma cruel, que agora, sob as forças de uma politicagem fascistóide, começa a dar as caras, revelando o seu lado sombrio e macabro em plena luz do dia.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 20/11/2018


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