Goeldi, o Brasil sombrio | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
32216 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Andrea e Bia Jabor fazem a Festa da Árvore neste domingo!
>>> Alfabetização visual comemora 10 anos com mostra de fotografias feitas por pessoas com deficiência
>>> Musical jovem AVESSO reestreia em janeiro e traz fortes emoções no conflito de gerações
>>> Leandro Sapucahy comanda Reveillon 2019 no Jockey Club/RJ
>>> Carioquíssima realiza edição de Natal na Fábrica Bhering (RJ)
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> As palmeiras da Politécnica
>>> Como eu escrevo
>>> Goeldi, o Brasil sombrio
>>> Do canto ao silêncio das sereias
>>> Vespeiro silencioso: "Mayombe", de Pepetela
>>> A barata na cozinha
>>> Uma Receita de Bolo de Mel
>>> O Voto de Meu Pai
>>> Inferno em digestão
>>> Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos
Colunistas
Últimos Posts
>>> Palestra e lançamento em BH
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
Últimos Posts
>>> A verdade? É isso, meme!
>>> Ser pai, sendo filho - poema
>>> A massa não entende
>>> ARCHITECTURA
>>> Os Efeitos Colaterais do Ano no Mundo
>>> A Claustrofobia em Edgar Allan Poe - Parte I
>>> Casa de couro V
>>> Heróis improváveis telefonam...
>>> Um lance de escadas
>>> No tinir dos metais
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Uma Receita de Bolo de Mel
>>> Gente como a gente
>>> Memórias sentimentais de um jovem paulistano
>>> Olavo de Carvalho: o roqueiro improvável
>>> Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos
>>> O Último Samurai Literário
>>> Como Passar Um Ano Sem Facebook
>>> Naked Conversations
>>> A verdade sobre o MST
>>> O que é crítica, afinal?
Mais Recentes
>>> Os sete saberes necessários à educação do futuro de Edgar Morin pela Cortez Editora (2004)
>>> Gestão e análise de risco de crédito de José Pereira da Silva pela Atlas (1998)
>>> Economia Brasileira de Antonio Correa de Lacerda de outros pela Saraiva (2000)
>>> Código da Vida de Saulo Ramos pela Planeta (2007)
>>> Guia politicamente incorreto da história do Brasil de Leandro Narloch pela Leya (2011)
>>> Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes de Stephen R. Covey pela BestSeller (2004)
>>> A Entrevista de Seleção Com Foco Em Competências Comportamentais de Valeria dos Reis pela Qualitymark (2003)
>>> Gestão de Sonhos - Riscos e Oportunidades de Amyr Klink pela Casa da qualidade (2000)
>>> O vendedor de sonhos de Augusto Cury pela Academia (2008)
>>> Cooperativismo Democracia e Paz - Surfando a Segunda Onda de Roberto Rodrigues pela Nova bandeira (2008)
>>> O grande livro da casa saudável de Mariano Bueno pela Roca (1995)
>>> Seja Assertivo! de Vera Martins pela Campus (2005)
>>> Nascido para correr de Christopher McDougall pela Globo (2010)
>>> CBN Mundo Corporativo de Herodoto Barbeiro pela Futura (2006)
>>> Não tenha medo de ser chefe de Bruce Tulgan pela Sextante (2009)
>>> Mentes brilhantes, Mentes treinadas de Augusto Cury pela Academia (2010)
>>> Pensamento Pedagógico Brasileiro de Moacir Gadotti pela Editora Atica (1990)
>>> O homem que matou Getúlio Vargas de Jô Soares pela Companhia das Letras (1998)
>>> Elite da Tropa de Luiz Eduardo Soares pela Objetiva (2006)
>>> Dinâmicas de Grupo na Empresa, no Lar e na Escola de Lauro de Oliveira Lima pela Vozes (2005)
>>> Paulo Freire - Vida e Obra de Ana Ines Souza pela Expressão Popular (2001)
>>> A Arte e a Ciência de Memorizar Tudo de Joshua Foer pela Nova fronteira (2011)
>>> Consumismo é Coisa da sua Cabeça de Nanci Azevedo Cavaco pela Ferreira (2010)
>>> Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire pela Paz e Terra (2007)
>>> Uma Farmácia para a Alma de Osho pela Sextante (2006)
>>> CAUSOS DE PEDRO MALASARTES de Julio Emilio Braz pela Cortez (2011)
>>> D. João Carioca - A corte portuguesa chega ao Brasil (1808-1821) de Lilia Moritz Schwarcz pela Quadrinhos na Cia (2007)
>>> UM UNIVERSO NUMA CAIXA DE FOSFORO de Alexandre Rampazo pela Panda Books (2011)
>>> O menino da terra de Ziraldo pela Melhoramentos (2010)
>>> Fábulas - Monteiro Lobato de Monteiro Lobato pela Globo (2012)
>>> Princesas e Contos de Fadas Turma da Monica de Mauricio de Sousa pela Girassol (2008)
>>> O menino que aprendeu a ver de Ruth Rocha pela Quinteto Editorial (1998)
>>> Muito mais que cinco minutos de Kefera Buchmann pela Paralela (2015)
>>> Diário de um banana: A verdade nua e crua de Jeff Kinney pela V&R Editoras  (2013)
>>> Diário de um banana: dias de cão  de Jeff Kinney pela V&R Editoras  (2012)
>>> Histórias Extraordinárias - Edgard Allan Poe de Edgar Allan Poe pela Melhoramentos (2010)
>>> Se eu fosse aquilo - Para gostar de ler junior de Ricardo Azevedo pela Atica (2012)
>>> Somos Todos Diferentes: Convivendo Com a Diversidade do Mundo de Maria Helena Pires Martins pela Moderna (2001)
>>> O Visconde Partido ao meio de Italo Calvino pela Companhia das Letras (2011)
>>> Trabajo en equipo Nivel 2 - Incluye CD Audio de Santillana Espanol pela Moderna (2015)
>>> Slumdog Millionaire de Vikas Swarup pela Macmillan Readers (2015)
>>> O Morro do Vento Uivante de Emily Bronte pela José Olympio (1957)
>>> Coleção Grandes Civilizações Desaparecidas - 21 Volumes de Vários Autores pela Otto Pierre (1978)
>>> You´re a bad man, Mr. Gum! de Andy Staton pela Egmont Press (2018)
>>> As Flores do Mal de Charles Baudelaire pela Max Limonad (1981)
>>> Confesso que Vivi de Pablo Neruda pela Difel (1981)
>>> Iniciação ao Xadrez de Flavio De Carvalho Júnior pela Summus (2000)
>>> A Barcarola de Pablo Neruda pela L&pm (1983)
>>> Em Nome da Vida de Moacyr Félix pela Civilização Brasileira (1981)
>>> Discurso da Difamação do Poeta de Affonso Ávila pela Summus (1978)
COLUNAS

Terça-feira, 20/11/2018
Goeldi, o Brasil sombrio
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 1800 Acessos



As gravuras de Goeldi nos enviam para um universo sombrio. Ruas quase desertas, com figuras que mais parecem vultos, casas sem vida ou luz, um negrume que a tudo envolve, mendigos, pescadores, prostitutas, trabalhadores voltando ou indo para lugares indefinidos, dentro de uma paisagem urbana noturna, ou se preferir, soturna, lúgubre, onde a luz pouco penetra, ao contrário, pois quanto mais parece a luz quer escapar por pequenos rasgos, mas o negrume a sufoca e a impede de se manifestar.

Se há personagens, são solitários, ou quando em dupla, não se comunicam, estão envoltos numa solidão tremenda, perambulando de cabeça baixa, sob o manto da noite ou da madrugada escura, indo cada um para seu lado (como se não tivessem para onde ir, embora não deixem de caminhar), vagando feito vultos na superfície negra das gravuras de Goeldi.

Ao contrário de um modernismo otimista, provindo da Semana de Arte Moderna de 22, um modernismo nacionalista e crente quanto ao progresso de nosso país, com grandes doses de abacaxi, coqueiros, sapinhos simpáticos, bondes e postes (Tarsila, Anita), um modernismo adepto da visão de uma suposta pureza não repressivo-civilizatória (“não precisamos de Freud”, diz o Manifesto Antropofágico), ao contrário desse verniz cordial (ver o livro “Reinventando o Otimismo”, de Carlos Fico), dessa presunção de nossa superioridade cordial-rousseauniana (ver o livro “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso), inclusive de nosso destino promissor,(“Deus é brasileiro”, somos “O país do futuro”) – ao contrário desse nacionalismo (e patriotismo) a gravura de Goeldi apresenta um outro universo, aquele que soterramos sob uma cortina do autoengano.



Segundo o crítico Paulo Venâncio Filho, “a obra de Goeldi revela algo sobre nós mesmos que não gostamos de ver. Nós brasileiros, nos vemos como solares, mas nossa existência é também trágica, violenta, sombria e miserável. Ele é uma nota dissonante do modernismo. Enquanto seus contemporâneos se dedicavam às cores e ao exotismo, ele representava a solidão, um Rio de Janeiro desarranjado, desestruturado, sem ser sentimental ou panfletário. Encontrou um convívio próximo a essas coisas terríveis, uma aceitação, sem se vitimar ou se conformar. É uma visão aguda e poética da realidade.”

Goeldi foi ilustrador de Allan Poe e Dostoievski, atividade que o colocou em contato com um universo artístico onde o lado sombrio da existência se expõe, onde os subterrâneos da alma humana se revelam. Não há como escapar dessas leituras, que põem à nu aquilo que a ideologia sempre quer esconder.

Observador das existências marginais, não se solidarizou com essas figuras soturnas como um sociólogo, ou como artistas denunciadores como Portinari ou Di Cavalcanti. O que lhe interessava era penetrar mais profundamente na condição humana. Revelar o Ser desses personagens, “a matéria moral em que se tornaram sob a força da noite física”, como revelou o magnífico poema de Drummond sobre Goeldi. É como se o artista revelasse a alma dessas pessoas (ou desse mundo) indo além daquilo que Marx dizia sobre o Capital, que para ver seus estragos era necessário observar o resultado de sua força no corpo moído e deformado dos trabalhadores depois de anos da exploração de seu trabalho.

Goeldi, em sua obra, como observou a escritora Raquel de Queiroz, “resolve as nossas emoções mais subterrâneas com figuras de pavor, de solidão e tristeza”, esses personagens que “nos gritam um apelo tão profundo e dramático, despertando inesperadas emoções”.

Goeldi, como dizíamos, jamais comprou uma visão ufanista do Brasil. Aliás, incomodava-o a adesão dos nossos artistas modernistas (de vanguarda?) aos esquemas do Estado, ao sequestro de sua arte para encampar a política ideológico-nacionalista do Estado (e dá-lhes encomendas para afirmar a ideologia do Estado!). A pauta nacionalista gerava sua desconfiança quanto à institucionalização do modernismo, entregue, após 1930, às suas relações com o propósito cultural do estado-novismo, como acentuou Carlos Zilio. Manteve-se, portanto, alheio a qualquer noção rasteira de modernidade e brasilidade, aquela marcada por um referencial solar.

Artistas como Goeldi, Ismael Nery e mesmo Flávio de Carvalho, que não se adequaram à construção de uma historiografia da arte modernista de tradição nacionalista, pagaram dessa forma o preço de um isolamento no mundo da arte brasileira. Regatados, apenas posteriormente, mostram a existência de uma experiência artística em nada absorvida pelos ditames dos grupos ideológicos de sua época. Ao contrário, são a expressão mais acabada das exigências da arte moderna.



Segundo Goeldi, “o caminho do artista é o individualismo. Muita coisa está morta porque o indivíduo quase não existe, pois ele tende a opinar num sentido coletivo”. Sua ideia da singularidade da atividade artística pode ser encontrada no seu pensamento: “Nunca sacrifiquei a qualquer modismo o meu próprio eu – caminhada dura, mas a única que vale todos os sacrifícios.”

O Rio de Janeiro (o Brasil?) que brota de suas gravuras é o lugar que não acolhe, onde a solidão se expõe, a incomunicabilidade entre os seres e entre os homens e a paisagem urbana se transforma em desajuste, insatisfação, melancolia e rejeição. É o que se apresenta ao espectador.

Drummond escreveu um poema dedicado “A Goeldi”. No poema, revela-se agudamente o lado trágico da obra do artista: avenidas de assombro, casas inabitáveis, criaturas condenadas ao mundo, todo sombra, preto no preto, sol noturno, trevas, erosão do tempo no silêncio, irrealidade do real, atmosfera de chumbo, a morte comanda, negrumes, poças de solidão, e por aí vai.

Em meio ao trópico, Goeldi revela o lado sombrio do homem como resultado de sua condição existencial. Segundo Nuno Ramos, “a atração de Goeldi por figuras marginais e trabalhadores rudes adquire um novo sentido. Bêbados, miseráveis, pescadores, prostitutas mantêm com a vida uma relação mais autêntica. Em sua precariedade, levam uma vida que não oculta a fragilidade humana. Suas formas instáveis, dispersas, não resultam do confronto de uma subjetividade superior com as agruras da vida. Revelam antes uma corrosão a que ninguém escapa.”



Parafraseando Christian Prigenti, em seu livro “Para que poetas ainda?” – A arte é grande quando trata o Mal. Não quando o cura, quando quer ou acredita curá-lo: não se cura o Mal assim como não se cura o real. Mas quando visa a pensá-lo, a incluí-lo na criação como um expoente inelutável. A arte é grande quando dá forma às injunções desse Mal, quando aceita sua tortura e dá ao canto sublimado que o transmuta em beleza aquela força capaz de nos abalar.

Goeldi não fez outra coisa, revelando nas suas gravuras uma verdade que nos abala: somos um país noturno, soturno, perverso, sufocado (camuflado) pela ideologia da cordialidade, um país de alma cruel, que agora, sob as forças de uma politicagem fascistóide, começa a dar às caras, revelando o seu lado sombrio e macabro em plena luz do dia.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 20/11/2018


Quem leu este, também leu esse(s):
01. As palmeiras da Politécnica de Elisa Andrade Buzzo
02. Como eu escrevo de Luís Fernando Amâncio
03. Do canto ao silêncio das sereias de Cassionei Niches Petry
04. Vespeiro silencioso: "Mayombe", de Pepetela de Renato Alessandro dos Santos
05. Uma Receita de Bolo de Mel de Heloisa Pait


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2018
01. Entrevista com a tradutora Denise Bottmann - 26/6/2018
02. A Fera na Selva, filme de Paulo Betti - 22/5/2018
03. O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro - 3/4/2018
04. Desdizer: a poética de Antonio Carlos Secchin - 7/8/2018
05. Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos - 16/10/2018


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




ALEIJADINHO HOMEM BARROCO, ARTISTA BRASILEIRO
MARIA ALZIRA BRUM LEMOS
GARAMOND
(2008)
R$ 12,00



EDUCAÇÃO EMOCIONAL
EMÍDIO BRASILEIRO / MARISLEI BRASILEIRO
BOA NOVA
(2015)
R$ 19,90



DOIS AMIGOS E UM CHATO (HUMORISMO BRASILEIRO)
STANISLAW PONTE PRETA
MODERNA
(1986)
R$ 4,50



BEELZEBUB'S TALES TO HIS GRANDSON - VOL. I
G. I. GURDJIEFF
THE ARKANA BOOKS
(1985)
R$ 220,00
+ frete grátis



A IRMÃ DO SOL
ANDREW LANG
GLOBAL
(2010)
R$ 9,30



LADRÃO DE CADÁVERES
PATRÍCIA MELO
ROCCO
(2010)
R$ 10,00



AS 63 PARÁBOLAS DO DIVINO MESTRE JESUS
RIZZARDO DA CAMINO
AURORA
R$ 40,00



QUE FAREI COM ESTE LIVRO?.
JOSE SARAMAGO
COMPANHIA DAS LETRAS
(2018)
R$ 20,00



HISTÓRIA DA MINHA VIDA - CHARLES CHAPLIN
CHARLES CHAPLIN
JOSÉ OLYMPIO
(1966)
R$ 35,00



O HOMEM DAS CAVERNAS
SAM E BERYL EPSTEIN
RECORD
(1964)
R$ 10,00





busca | avançada
32216 visitas/dia
1,1 milhão/mês