A Fera na Selva, filme de Paulo Betti | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 22/5/2018
A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
Jardel Dias Cavalcanti
+ de 9100 Acessos



Com adaptação da novela A Fera da Selva, de Henry James, eis que chega aos cinemas brasileiros um filme que é uma lufada poesia no nosso tão desencantado e comercial cinema atual.

O filme tem tripla direção: Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel, que participa como diretor e fotógrafo do filme. Um trio de criadores para lá de inventivos e que fez da novela de Henry James uma belíssima “transcriação” para as telas (para usar um termo caros aos tradutores-poetas Haroldo e Augusto de Campos).

Adaptando a locação para a cidade de Sorocaba, cidade do interior paulista onde Paulo Betti nasceu, e da qual rememora várias vivências, o filme não deixa de reproduzir a intensidade existencial da novela de Henry James. É ali que os dois personagens, João e Maria, começam uma vida juntos após um reencontro marcado pela lembrança de uma revelação feita por João anos antes.

A transferência da locação para Sorocaba foi muito feliz, em razão das escolhas da paisagem, filmada em tom intimista e com belíssima fotografia, e mesmo a ambientação interior, como a casa dos personagens e a livraria Flor de Lis, também se constituem no filme como locais silenciosos e reflexivos, sendo a presença dos móveis, estantes de livros e a luz dos ambientes importantes na realização dessa introspecção necessária ao drama interior de João. A voz do narrador (José Mayer) foi uma escolha perfeita para o tom da novela, o que engrandeceu o filme.

Um filme de certa forma proustiano, que partiu de locações cheias de lembranças do passado do diretor, como o toque do sino da igreja (Proust puro), o som dos grilos, a visão da ferrovia, da lua, o rádio do carro, as paisagens naturais, a linha do Trópico de Capricórnio, os ambientes domésticos e a presença de pessoas da região que de alguma forma passaram pela vida de Paulo Betti.

O momento crucial do filme é quando, em um segundo encontro por acaso, Maria relembra João da confissão que ele a havia feito na época em que se viram pela primeira vez. João, apesar de se lembrar de tê-la visto em outra época, não se lembrava da confissão. No entanto, vai se recordando aos poucos e atônito pede a Maria que a partir daquele momento não o deixe mais.

Interrogado por Maria sobre o que seria esse acontecimento, João tenta lhe explicar: “Bem, digamos que é uma coisa que eu devo esperar – encontrar, encarar, ver irromper subitamente na minha vida; possivelmente destruindo a consciência de qualquer outra coisa, possivelmente me aniquilando; possivelmente, por outro lado, apenas alterando tudo, atingindo a raiz do meu mundo e me deixando à mercê das consequências, qualquer que seja a forma que elas assumam.” Maria tenta interpretar esse sentimento aniquilador como se fosse a espera de uma paixão arrebatadora, o que João contesta. “Você se apaixonou, e isso não representou o cataclismo esperado, não se revelou o grande evento?” pergunta Maria? E João, imediatamente, responde: “Aqui estou eu, como pode ver. Não foi esmagador.”

A interrogação de Maria continua: “É uma sensação de violência iminente?”

Ao longo dos questionamentos de Maria, João começa a gostar de retomar seu drama existencial e explica: “Não penso na coisa como necessariamente violenta, quando vier. Só penso nela como algo natural e, acima de tudo, inconfundível. Penso nela simplesmente como a coisa. A coisa em si vai parecer natural.”

A partir daí eles começam a produzir novos encontros até o ponto de fazerem um acordo de ficarem juntos esperando o momento crucial da vida de João.

O filme consegue encadear através de um narrador onisciente* (ver nota) os pequenos momentos da vida dos dois, como a criação da livraria, a frequentação aos eventos musicais, os passeios pela paisagem e o envelhecimento de ambos e os próprios pensamentos que os acometem nessa vida conjunta.

A fotografia e o movimento da câmera em vários momentos do filme nos fazem ter a sensação de que algo os espreita de longe, a fera na selva do título, esse algo que produzirá o cataclismo de João.



A força teatral dos diálogos e a voz em off do narrador coloca o espectador próximo ao texto límpido e forte de Henry James e reforça ainda mais a presença do drama de João sem precisar se embrenhar em fanfarronices visuais. A imagem límpida do cinema, como a da escrita de Henry James, cria o clima intimista necessário à revelação da crise que abate o personagem, que a cada dia vai se tornando mais e mais angustiado. Em alguns momentos, até a presença da loucura parece estar tomando-o e ele tem consciência disso. Mas essa hipótese é afastada, dada a certeza de João desse acontecimento que lhe espera em alguma esquina da vida.

No entanto, a vida dos dois vai sendo levada, sempre guiados pelo comentário angustiado da e sobre a espera de que “a coisa” algum dia se manifeste. Até à velhice e à morte de Maria, que antes já lhe interrogava sobre o fato do cataclismo já ter acontecido, e do qual “ele se limitara a arregalar os olhos estupidamente, sem entender a saída que ela lhe oferecia.”

Se algo aconteceu, foi no coração dela, que o amou desde sempre. Ele, no entanto, só no fim da vida, dentro do cemitério, terá sua revelação. Diante do absoluto vazio de sua vida, preenchido pela angústia da espera, descobre que “ela era o que havia lhe faltado”. O que no filme é imagem, a desolação de saber que perdeu a vida na espera de que algo cataclismático o abatesse, no livro fica clara a revelação de que tipo de homem se tratava: “Tinha sido o homem do seu tempo, o homem, ao qual nada no mundo havia acontecido. (...) Era isso o que ela havia visto, enquanto ele ainda não via, de modo que agora ela servia para lhe trazer a verdade.”

No fim da novela de Henry James o narrador explica que acontecimento tão esperado era esse, do qual ele não tinha consciência: “A saída teria sido amá-la, então, e só então, ele teria vivido. Ela, sim, vivera – quem agora poderia dizer com que paixão?- uma vez que o amara pelo que ele era; ele, ao contrário, nunca havia pensado nela (ah, isso agora era claro a ponto de ofusca-lo) senão na frieza do seu egoísmo e à luz do uso que poderia fazer dela.”

A fera deu o bote. E ela, Maria, rezara para que ele não soubesse que o bote aconteceria nesses termos, na autoconsciência do fracasso de ter vivido com ela sem aproveitar o amor total, a entrega absoluta ao outro no seu dia a dia. O horror havia se cumprido, enfim, com gosto amargo.

Ao ver o sofrimento e as lágrimas de um homem no cemitério, diante do túmulo da amada que perdera há muito tempo, João recebe o abraço da fera. O filme consegue com grande riqueza poética relatar esse momento que acometeu o personagem, esse instante de terror que foi a revelação, fazendo-o cair sobre o túmulo de Maria, traduzindo muito bem o final da novela de Henry James:

“Viu a Selva de sua vida e a Fera à espreita; então, enquanto olhava, percebeu como que por uma vibração no ar, que ela se erguia, enorme e horrenda, para o salto que o aniquilara. Seus olhos se turvaram – a Fera estava perto; e, virando-se instintivamente, em sua alucinação, para evitá-la, tombou de rosto sobre o túmulo.”

Uma questão que nos fica, diante do filme e do livro de Henry James, é a pergunta sobre quem era realmente a Fera; seria a paixão e a vida entregue à outra pessoa, ou seria a morte, a autoconsciência paralisante da morte, que nos congela impedindo que vivamos. João já havia se apaixonado antes, mas não fora o acontecimento de sua vida. Algo além da paixão (esse acontecimento que desestrutura a razão), o que poderia ser?

O filme, fazendo uso da música de Gilberto Gil, escutada pelos dois personagens numa estação de rádio, no mesmo momento, diz que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. A vida em si, vivida intensamente, na riqueza dos pequenos detalhes que a compõem, como uma música que ouvimos, amamos, mas não tememos perder ao desligar do rádio. Mesmo sabendo que a morte é uma certeza, a vida se justifica por si mesma na intensidade em que é vivida. É o "Sim" de Nietzsche contra o niilismo de Schopenhauer.



NOTAS:

1- O narrador onisciente, também chamado de onipresente, é um tipo de narrador que conhece toda a história e os detalhes da trama. Além disso, ele tem conhecimento sobre seus personagens, desde sentimentos, emoções e pensamentos. Nesse tipo de foco narrativo, a história é geralmente narrada em terceira pessoa e, portanto, o narrador não participa das ações.

2- (Os trechos do livro de Henry James aqui citados foram retirados da edição de A Fera da Selva, publicado pela Cosac & Naify, com belíssima tradução do crítico José Geraldo Couto).

3- Dados sobre o filme, visite o site:

http://www.aferanaselva.com.br


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 22/5/2018

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