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Terça-feira, 21/7/2020
Um nu “escandaloso” de Eduardo Sívori
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 5100 Acessos



Uma empregada nua começa a se vestir sob a luz escassa do amanhecer. Trata-se de uma pintura que deu o que falar em Paris e na Argentina.

No ano de 1887 o pintor argentino Eduardo Sívori (Buenos Aires, 1847 - 1918) apresentou no Salão de Paris a obra O despertar da empregada doméstica (Le alavanca de la bonne), um nu realista. O quadro de Sívori foi interpretado pela crítica francesa como obra derivada da literatura de Zola, sendo um nu “excessivo” na representação de um corpo que foi visto como feio, sujo e desagradável.

Em 1887 a pintura realista já ocupava um lugar de destaque no Salão de Paris, como uma das tentativas - que surgira já na primeira metade do século XIX com os pintores românticos Delacroix e Géricault - de renovar a estética oficial do Salão, da Academia de Belas Artes e o gosto do público.

Na segunda metade do século XIX a presença de pintores como Manet, Courbet e Millet já apresentavam uma alteração iconográfica na pintura francesa (com a figuração de pessoas do povo, temas camponeses e nus, todos a partir de uma representação de caráter realista), com temas muitas vezes relacionados à literatura de Zola e Victor Hugo, nem sempre bem recebidos pelos jurados, imprensa e público.

O mesmo quadro de Sívori foi apresentado na Argentina, na Sociedad Estímulo de Bellas Artes, em 1888. A recepção não foi também positiva. O quadro tornou-se objeto de uma enorme polêmica na imprensa que qualificou a pintura de “indecente” e “pornográfica”. Em resposta, a reação de intelectuais e artistas acabou criando uma unidade em defesa da renovação da pintura moderna argentina.



O quadro O despertar da empregada doméstica tem como base uma imagem fotográfica. Há algumas diferenças entre as duas imagens. Não podemos saber se as alterações aconteceram para a exposição de Paris ou, em função das críticas após a apresentação francesa, ao ser enviado para a exposição na Argentina o artista teria retirado os elementos mais perturbadores.

Na fotografia, podemos ver sobre a mesa uma jarra e uma bandeja (elementos de higiene), usualmente usado pelas prostitutas após o coito. O que faz a imagem parecer a representação de uma “faubourgienne”, tema muito caro à vanguarda artística, tanto literária como das artes plásticas.

Na tela, esses elementos foram substituídos por um candelabro com uma vela, o que não fez com que a obra deixasse de ser classificada como a representação de uma prostituta e considerada pornográfica.

O que pode ter acontecido (uma suposição) é que a transformação do tema da “prostituta”, emergente no Salão de Paris, para o “tema social da criada”, pode ter sido considerado pelo artista para diminuir a crítica sobre a obra no momento de sua exposição na Argentina.

O tema do nu popular, de qualquer forma, já era em si mesmo um afronta à delicada pintura acadêmica dos nus mitológicos. Sabemos da recepção negativa dos nus de Manet e Courbet nos Salões de Paris.



A afronta do quadro de Sívori está relacionado à mesma questão que envolvia os escandalosos nus realistas franceses. Por exemplo, o quadro As Banhistas de Courbet, de 1853, provocou escândalo no Salão do mesmo ano, não só pela obesidade chocante do nu, mas por representar uma personagem de classe média, incompatível com as exigências da representação distanciada do real dos nus idealizados. Outra questão é que, como crítica à tradição da pintura acadêmica, Courbet elevava o tema da classe média ao nível da pintura histórica. Ainda havia o desrespeito à beleza, que agredia o regulamento da pintura dos Salões. E uma possível ironia nos gestos clássicos da moça e que se repetem na sua criada, satirizando o tema das "Dianas ao banho".

No quadro de Sívori é apresentada uma jovem da classe trabalhadora, num ambiente com mobiliários simples, com roupas amontoadas sobre a cama. Ela parece estar começando a se vestir. A expressão crua da materialidade do nu, este corpo que se apresenta ao espectador voyer em sua nudez poderosa, real, afirma o peso erótico da carne, em volumosos seios, braços e pernas. É como se violássemos a intimidade da criada, no seu despertar.

O quadro expõe o corpo sob uma luz que se deita sobre seu tronco e pernas, deixando os outros elementos numa leve penumbra. Seu rosto e penteados aparecem mais nítidos na fotografia do que na tela. O que reforça a presença corporal é, sem dúvida, o foco de luz que a ilumina provindo da esquerda em contraste ao fundo mais escuro da parede. O rosto ensimesmado está atento à meia que prepara para calçar. As pernas cruzadas uma sobre a outra reforçam a presença dos volumes do quadril. Os pés são pesados, podemos até dizer que são “toscos” ou maltratados, diferente das representações delicadas da pintura clássica. A pele tende ao escuro, o oposto da pintura marmórea de uma Vênus de Cabanel, apresentando variação do tom de cor em função do jogo de luz. O púbis encontra-se escondido entre as pernas cruzadas, o que não reduz a sensação de nudez absoluta da personagem no quadro.



Por causa dessa tela, Sívori é considerado o introdutor e um dos expoentes importantes do realismo pictórico argentino no final do século XIX. Filho de genovês, comerciantes ricos e armadores, entrou em contato com a pintura nos museus da Europa, onde o negócio da família o levara. Juntamente com seu irmão Alejandro, Eduardo Sívori é o grande promotor da criação da Sociedade Estímulo de Bellas Artes em 1876. Em 1883, ele fez várias colaborações artísticas na La Ilustracion Argentina, publicação fundada por Pedro Bourel. Entusiasta da arte moderna francesa, o destino que escolhe para viver alguns anos é Paris, onde frequenta a Academia Colarossi e estuda com Raphaël Collin, Puvis de Chavannes e Jean-Paul Laurens, este último professor de grande prestígio entre os artistas hispano-americanos que residem na capital francesa.

Em 1887, ele foi admitido pela primeira vez no Salão de Paris com o Le Lever de la bonne. Sívori está novamente presente no Salão de Paris em 1888 com La Mort d'un paysan e Sans famille; em 1889, com Dolce far niente e Femmes médécins; e em 1890 com Près du feu. Ele participou da Exposição Universal de 1889 e, dois anos depois, retornou a Buenos Aires, onde fez parte do grupo de artistas e intelectuais que, em 1892, fundou o Athenaeum, cujo primeiro salão, organizado no ano seguinte, oficiou como júri e expositor apresentando seis obras. Em 1894, Sívori expôs no segundo salão da Ateneo Coquetterie, Entre dos Luces e Las Guachitas, este um dos poucos trabalhos vendidos em toda a exposição.

No final do século, sua pintura tornou-se luminosa e radiante, afastando-se cada vez mais da natureza naturalista de seus primeiros trabalhos. Por outro lado, ele é reconhecido como um dos primeiros artistas argentinos a se aventurar na técnica de gravura.

Em 1905, sendo presidente da Sociedade de Estímulos, organizou a transferência para o Estado Nacional da Escola de Belas Artes fundada em 1876 por essa instituição. A Escola passou a se chamar Academia Nacional de Belas Artes, e Sívori é seu primeiro diretor adjunto, acompanhando Ernesto de la Cárcova, que é diretor. Posteriormente, ele atua como representante da Comissão Nacional de Belas Artes, dependente da entidade dedicada à organização das comemorações dos cem anos da Revolução de Maio. Esta comissão prepara a Exposição Internacional de Arte do Centenário, aberta ao público em 1910.

Artista prolífico, continuou pintando e enviando obras para os Salões Nacionais desde a sua fundação em 1911 até o ano de sua morte, que ocorreu em 1918.

O quadro O despertar da empregada doméstica encontra-se hoje no Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 21/7/2020


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