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Terça-feira, 19/1/2021
Isto é para quando você vier
Renato Alessandro dos Santos

+ de 3800 Acessos



Deixa eu ver se entendi. Foi com esse comentário que, de madrugada, me ocupei sem mais nem menos. Vinha do meu cérebro, de uma das sinapses mais impacientes e histéricas. A discussão havia começado já fazia um certo tempo. A coisa ia longe. Mas, para a alegria delas, a campainha tocou: era o entregador do iFood, com as pizzas no portão, o que as apaziguou um pouco, embora o circo ainda pegasse fogo. Tudo por causa de Bernardo. O eremita? Não. Bernardo Carvalho. Há obras literárias que pedem um tempo nem sempre instantâneo para a compreensão delas. Aconteceu comigo, hoje, após ter passado alguns dias com Nove noites, romance publicado em 2003 e que, a partir de 2020, começou a fazer parte do vestibular da Fuvest.



Embora tenha outros livros de Bernardo na estante, nunca havia lido nenhum deles. Nem mesmo O filho da mãe ou Mongólia ou Aberração ou O sol se põe em São Paulo. Pouca vergonha, Renato! Eu tenho de admitir que nem sempre a gente consegue calibrar o espírito com um romance, e foi esse desequilíbrio entre obra e mundo interior que deixou Bernardo mexendo os pesinhos para frente e para trás, em silêncio, enquanto aguardava no parapeito, rodela de limão no copo de Martini, sol se pondo no horizonte batataense, Ocaso sereno. Pacientemente, pacientemente, pacientemente esperando. Veio Chklovski me falando de desautomatização. A arte como procedimento na mão esquerda, dois dedos de vodca na outra; com o sobrolho, apontou na direção de Bernardo, que a essa altura já estava diante de um bangalô, pernas cruzadas, raminho de relva no canto da boca, esperando ainda, tranquilo como aquela silenciosa aranha paciente do Whitman; perguntei se iria chover, e ele me ofereceu um pouco de ayahuasca e a narrativa difusa de Nove noites, à qual me voltei, com o espírito ajustado à razão e à calma que a leitura solicita, e cá estamos eu e você, leitor\a.

Aí, kiel vi scias, após o sábado findar quando já era madrugada de domingo, fui dormir e, de repente, como a aurora, me vejo acordado, olhando para um ponto qualquer no escuro e pensando no livro de Bernardo, tentando dar-lhe algum sentido, sem precisar ler nada em nenhum lugar. Ah, quer dizer então que todo o motivo, todo o porquê do enredo resume-se ao dia em que...

...e Bernardo, fazendo com arte & engenho seu trabalho de artesão, compondo aqui, costurando ali, imagina o procedimento todo (Chklovski), os cenários, os elementos narrativos mensurados, os personagens assinalados, o presente narrativo, a metaficção, um narrador sem nome etc., e... Pronto: eis aqui o romance Nove noites, produto híbrido entre a imaginação e a vida vivida empiricamente ao longo de décadas; memória literária fabricada + vida que segue = literatura.



Há alguma coisa extraordinária nessas obras que fazem a gente ficar pensando nelas depois da coisa finda, não? Prosa que, longe de oferecer uma resposta segura aos leitores, fica a tamborilar o picadeiro do cérebro, cá onde as coisas tendem a ser organizadas em causa e consequência ou mesmo em uma linearidade que tende a habitar a ordem onde há desordem, confusão... Em outras palavras: literatura, não é? Quer dizer... Quando ela fica a pedir da gente um sentido àquilo que, aparentemente, não parece fazer muito sentido... Um significado que possa dar nome às coisas e que possa conter, com segurança, o esperado; isto é: isto não é um cachimbo! Entendeu? Não tem importância.

Buell Quain aportou nos desalentados trópicos na década de 1930. Foi um antropólogo norte-americano que quis vir ao Brasil para viver entre os índios Krahô e, deles, registrar seus costumes, sua vida, suas tradições. A experiência não deu muito certo, uma vez que terminou com o suicídio do pesquisador e, também, com um monte de coisa arrastada para baixo do tapete, isto é, coisas sem explicação, que ficam à espera de alguém que dê sentido a elas, e quem foi esse alguém? Sim: Bernardo.

Carvalho, ou melhor, seu narrador alter ego, juntou uma coisa (um artigo sobre o antropólogo, lido por acaso) com outra (uma experiência pessoal que se liga a um passado familiar e ao Xingu, além da suposição de que um nome, ouvido da boca de um moribundo em um hospital pudesse ser, talvez, o de Quain) e, demãos e demãos depois, nasceu Noive noites, romance que vestibulandos vêm desbravando com dedicação e, certamente, bem mais felizes do que outros que, antes deles, tiveram de, com Peri, arrancar aquela palmeira que vai servir de cavalinho-de-pau anfíbio a Cecília & o guarani, em um dos finais que, se Alencar fosse pop, seria dos mais hippies da história da literatura brasileira, com o casal ninado nos braços da natureza, flores atrás da orelha, sem lenço e sem documento, mas, em vez disso, O guarani tem um dos mais mornos – nem frio nem quente – desenlaces aos quais um romance já foi submetido, mesmo com aquela enchente de Arca de Noé. Não fosse este Noive noites, provavelmente, outro Alencar estaria sobre o criado-mudo dos adolescentes, e nada mais fora de nossa realidade contemporânea do que aquela colonização feminina à qual Iracema se submete, após compartilhar o segredo da Jurema com seu gajo do além-mar: “O coração da esposa está sempre alegre junto de seu guerreiro e senhor”. Sério, América?!



Eis então que, longe do céu do Ceará, de tabajaras e de pitiguaras, o Xingu e o pulmão amazônico compõem parte do cenário onde dois narradores põem a narrativa de Nove noites em perspectiva: Manoel Perna, um velho engenheiro brasileiro amigo de Quain, por nove noites não consecutivas, conviveu com o americano e pôde ouvir dele a história em fragmentos contada pelo antropólogo. É do engenheiro o bordão “isto é para quando você vier”, endereçado – por que não? – a nós, leitores, mas, principalmente, ao outro narrador, o qual não sabemos o nome, mas que é, supostamente, abre aspas, o autor (fecha aspas); isto é, dentro da metaficção pós-moderna que alimenta a verossimilhança do romance, o instinto de leitor vai avisando que poderia ser o autor – e, de certa maneira, suspendendo a descrença, muitos leitores acreditam ser mesmo, ignorando a regra número 1 das narrativas literárias, isto é, narrador não é autor. Deu certo, não é, Bernardo? Pois bem, será esse segundo narrador anônimo que vai pôr ordem no labirinto em ponta-cabeça... Aliás, vale recomendar não estragar a surpresa – que nem é lá assim uma grande surpresa! –, porque [isto é para quando você vier] há coisas que é melhor deixar que fiquem onde estão, à espera de alguém. Assim, lá pelo fim, como sói acontecer, o romance de Bernardo estará desvendado, o narrador, o mistério e a coisa toda no seu devido lugar, certo?

Simples assim, não?

Não.

Leitores vão acordar de madrugada, mirando a parede escura e, lá, verão passar imagens do romance que, sem ordem aparente, ficarão à espera da ordem que nossa imaginação tanto espera pôr em livros que nos tiram o sono. O bom é descobrir que tal resposta encontra-se onde obras nem sempre fáceis nem sempre descartáveis residem.

É o caso deste Nove noites?

Bem, isto...

Nota do Autor
Renato Alessandro dos Santos, 48, é autor de Lado B: música, literatura e discos de vinil, de Todos os livros do mundo estão esperando quem os leia (volumes I e II), de O espaço que sobra, seu primeiro livro de poesia (todos publicados pela Engenho e arte), além de outras obras.



Renato Alessandro dos Santos
Batatais, 19/1/2021


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