G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
59843 visitas/dia
2,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Pousada e Recanto dos Pássaros – Sítio Vô Elias Maffei
>>> Coreógrafa carioca Esther Weitzman ministra oficina gratuita de dança no Sesc Santana
>>> Caleidos apresenta “Entrevista” para gestores e professores da rede pública de São Paulo
>>> É HOJE (30/9): Mostra Imaginários no Cine Bijou
>>> Etapa apresenta concerto gratuito da Camerata Fukuda com o violinista Ricardo Herz
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rodolfo Felipe Neder (1935-2022)
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
>>> Jô Soares (1938-2022)
>>> Casos de vestidos
>>> Elvis, o genial filme de Baz Luhrmann
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
Colunistas
Últimos Posts
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
Últimos Posts
>>> Cabelos brancos
>>> Liberdade
>>> Idênticos
>>> Bizarro ou sem noção
>>> Sete Belo
>>> Baby, a chuva deve cair. Blade Runner, 40 anos
>>> Conforme o combinado
>>> Primavera, teremos flores
>>> Além dos olhos
>>> Marocas e Hermengardas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> 50 anos de Bossa Nova
>>> O humor da Belle Époque
>>> 24 de Março #digestivo10anos
>>> Lendo Virgílio, ou: tentando ler os clássicos
>>> Introdução ao filosofar, de Gerd Bornheim
>>> Kindle DX salvando os jornais?
>>> A Casa de Ramos
>>> Reconhecimento
>>> A hora exata em que me faltaram as palavras
>>> Salão do Livro para crianças
Mais Recentes
>>> Fator de Enriquecimento de Paulo Vieira pela Gente (2016)
>>> Treinamento de Líderes Voluntários de Silvino J Fritzen pela Vozes (1982)
>>> A Sentence of Life de Julian Gloag pela World Books (1967)
>>> Amanhã é Natal de Liene Collaço Paulo pela Do Autor (1997)
>>> Pequenas Quinquilharias para Colecionadores Precoces de Liluah pela Saint Germain (2002)
>>> Dogsong de Gary Paulsen pela Aladdin (1985)
>>> A Vantagem Competitiva das Nações de Michael E. Porter pela Campus (1990)
>>> Sexo e Obsessão de Divaldo Pereira Franco pela Leal (2004)
>>> Sinfonia dos Animais Noturnos de Lourenço Cazarré pela Artes Ofícios (1994)
>>> Seja Feliz, Meu Filho! de Içami Tiba pela Gente (1995)
>>> Pai sem Computador de Amilcar Neves pela Atual (1993)
>>> Vinhedo das Vontades de Eduardo Dall Alba pela Iel (2000)
>>> Adoro Problemas de Michael Moore pela Leya Casa da Palavra (2011)
>>> O Mecanismo da Vida Consciente de Carlos Bernardo Gonzáles pela Logosófica (2002)
>>> S. Rita de Cássia de L. de Marchi pela Paulinas (1979)
>>> E o Nilo Continua... de Carmen Annes Dias Prudente pela Melhoramentos
>>> Nova Lei de Falências de Emilio Sabatovski Iara P Fontoura pela Juruá (2005)
>>> A Vida e o Amor Meninas 3 a 8 Anos Meninos e Jovens de Bernardette Delarge Doutor Emin pela Rideel
>>> Contos e Cânticos de Felicidade de A Bogaz e M Couto pela Escala
>>> Simbologia Braille de Geisa Leticia Kempfer Bock pela Dioesc (2013)
>>> Nem Sempre Verdade Nem Tanto Folclore de Pedro Sampaio pela Do Autor (2007)
>>> Rumo ao Sucesso - a Jornada de Us1 Bilhão da Phison... de Ks Pua pela Age (2012)
>>> A Hora - uma Revolução na Imprensa de Lauro Schirmer pela L&pm (2000)
>>> Feng Shui - o Livro das Soluções de Nancilee Wydra pela Pensamento (2000)
>>> Fragmentos Revista Vol 1 Nº 1 de Universidade Federal de Santa Catarina pela Ufsc (1986)
COLUNAS

Terça-feira, 1/3/2022
G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 4400 Acessos



A absoluta radicalidade e contemporaneidade do teatro de Gerald Thomas está no fato de que ele quebra a todo momento o pacto apaziguador entre artista e público. Gerald Thomas retorna ao teatro com uma mensagem dentro do coquetel molotov. “Agora é Talibã!”. No início da peça a atriz segura uma garrafa com uma mensagem dentro, o barulho de um estridente raio a impede de abrir a mensagem, segue andando e, em seguida, tropeça em outra garrafa que é um coquetel molotov. Abertura necessária para se perceber o tamanho da explosão.

G.A.L.A. é uma peça polifônica, aberta ao infinito da composição e recomposição do texto, onde o dramaturgo coloca sua personagem num barco partido e afundando. O aspecto fluvial da fala descontínua, no seu vai-e-vem repetitivo, reforça o caráter burlesco de todo discurso que se pretende verdade ou explicação. Coerência para ele é “salsinha no meu sapato”, uma imagem surreal que faz jus ao universo de Gala e Dali. Num mundo delirante, um discurso delirante se faz necessário. Raros artistas conseguem navegar nesse mar de inconstância, insegurança, vertigem.



O cenário belíssimo, ao mesmo tempo perturbador/desolador, remete ao cinema de Fellini e às imagens românticas da barca da morte (e o primeiro objeto encontrado pela atriz é uma caveira). Um mundo afundando durante uma festa de gala. No auge do capitalismo, um planeta que não suporta mais a apropriação brutal de seus elementos naturais. A imagem do barco afundando com a foto ao fundo de duas torres (gemêas) de fábricas poluentes reforça a ideia do abismo em que a mais avançada das civilizações tecnológicas se meteu.

Pelas recordações das destruições que estão subjacentes na peça, da história (campos de concentração) à arte (de Guernica de Picasso à música dodecafônica e a afônica literatura de Beckett), G.A.L.A. não se furta ao desvario de apontar o mundo quebrado das vidas humanas e da arte como metáfora de um mundo eternamente destruído.

Tempestades interrompem a fala da personagem, sustos necessários para paralisar qualquer tentativa de emitir verdades, explicações, sugestões de caminhos. Gerald Thomas sempre questionou o papel do artista como criador de plausibilidade. Ordenar e compreender o mundo como num laboratório de ciências exatas não é o caminho para a arte.



Não é de hoje que Gerald Thomas sente na pele as dores do mundo, mas não se ressente do presente em nome de um passado nostálgico. Fatalista – "é o que temos para hoje" – assume colocar na mesa a desintegração do homem na forma da desintegração da linguagem. Nisso ele é mestre.

O texto de G.A.L.A. deliberadamente escamoteia o discurso, deixando rarefeitas as falas, mas amplia as zonas de tensão com a música, o cenário e os trejeitos de Gala (a excepcional teatralidade da atriz Fabiana Gugli). Pratos sendo quebrados ressoam uma alma quebrada ou se quebrando. Sancho, personagem ausente/presente seria a metáfora do teatro – e de todos nós – lutando contra moinhos de vento. Em uma conversa por what’s sobre críticas sucessivas ao poder, Gerald me sentenciou, fatalista: “É difícil quebrar o muro”.

Talvez haja em G.A.L.A. uma tentativa do teatro de Gerald Thomas de quebrar a memória constante do desastre – essa “faísca que atravessa os séculos”: “Pois a ruína não está mais lá! Beckett não está mais lá! Para de ficar idolatrando os cacos desesperançosos da história. Para!”. Mas não abre mão de deslocar ou truncar a narrativa. Pois no lugar das ruínas, das bombas caindo sobre nossas cabeças, estamos numa pandemia social do distanciamento total uns dos outros. Gala e Sancho se falam virtualmente, não se abraçaram depois dos seus enlaces e as mãos que se encontram no final da peça são intermediadas pelo computador que nos aproxima afastando. Como disse o próprio G. Thomas na entrevista que se seguiu à peça, Michelângelo não imaginava que entre o dedo de Deus e o de sua criação apareceria uma rachadura. Essa rachadura é o símbolo da vida humana, imperfeita, incoerente, absurda. Também é o teatro de Gerald Thomas.

G.A.L.A. não se furta, no entanto, de detratar o mundo atual, o mundo “asfixiado pelo próprio desespero”. Não surpreende que a última imagem da peça, as mãos dadas entre a atriz e a mão que sai do computador, seja a do fogo consumindo-os.



Para ir além
A peça pode ser vista no YouTube.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 1/3/2022


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Elvis, o genial filme de Baz Luhrmann de Jardel Dias Cavalcanti
02. Eu, o insular Napumoceno de Renato Alessandro dos Santos
03. Sabemos pensar o diferente? de Guilherme Carvalhal
04. Lançamento de Viktor Frankl de Celso A. Uequed Pitol
05. Isto não é um trote de Marta Barcellos


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2022
01. Gramática da reprodução sexual: uma crônica - 7/6/2022
02. Risca Faca, poemas de Ademir Assunção - 15/2/2022
03. G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas - 1/3/2022
04. O canteiro de poesia de Adriano Menezes - 31/5/2022
05. Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça - 26/4/2022


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A Família Criativa
Daisaku Ikeda
Brasil Seikyo
(1998)



A Fábrica e a Cidade Ate 1930
Nicolina Luiza de Petta
Atual
(2004)



Paul Gauguin -mestres das Artes (1997)
Mike Venezia
Moderna
(1997)



A Metamorfose - Clássicos da Literatura Universal 2
Franz Kafka - Tradução Torrieri Guimarães
Ediouro
(1998)



Bloomberg By Bloomberg - Confira!
Michael Bloomberg
John Wiley Trade
(2001)



David - uma Liçao de Vida e de Marketing
Portes David de Mendonça
Futura
(2003)



A Tarde da Sua Ausência
Carlos Heitor Cony
Companhia das Letras
(2003)



Um Barril de Risadas
Jules Feiffer (autor), Carlos Sussekind
Cia das Letras
(2003)



Encontro na Montanha Vermelha - J. J. Benitez
J. J. Benitez
Planeta



Ecos Ecológicos: uma Jornada Em Defesa do Meio Ambiente
Luizinho Bastos - Livro Autografádo
Paulinas
(2007)





busca | avançada
59843 visitas/dia
2,0 milhão/mês