G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
45137 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Circomuns Com Circo Teatro Palombar
>>> Prêmio AF de Arte Contemporânea abre inscrições para a edição comemorativa de 10 anos
>>> Inscrições abertas para o Prêmio LOBA Festival: objetivo é fomentar o protagonismo de escritoras
>>> 7ª edição do Fest Rio Judaico acontece no domingo (16 de junho)
>>> Instituto SYN realiza 4ª edição da campanha de arrecadação de agasalhos no RJ
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jensen Huang, da Nvidia, na Computex
>>> André Barcinski no YouTube
>>> Inteligência Artificial Física
>>> Rodrigão Campos e a dura realidade do mercado
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
Últimos Posts
>>> O mais longo dos dias, 80 anos do Dia D
>>> Paes Loureiro, poesia é quando a linguagem sonha
>>> O Cachorro e a maleta
>>> A ESTAGIÁRIA
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Micronarrativa e pornografia
>>> Os dois lados da cerca
>>> A primeira vez de uma leitora
>>> Se eu fosse você 2
>>> Banana Republic
>>> Da Poesia Na Música de Vivaldi
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Construção de um sonho
>>> Quem é mesmo massa de manobra?
>>> A crise dos 28
Mais Recentes
>>> Coleção Enciclopédia Disney - 8 Volumes de Disney pela Planeta (2001)
>>> Fórum dos Coordenadores de Joaquim Barbosa / Bárbara Sicardi pela Metodista (2003)
>>> O Último Portal de Eliana Martins / Rosana Rios pela Seguinte (2003)
>>> Batman Planetary - Edição de Luxo de Warren Ellis - John Cassaday - Dc Comics pela Panini (2014)
>>> Mentes Tranquilas, Almas Felizes de Joyce Meyer pela Thomas Nelson (2001)
>>> Democracia Francesa de V Giscard D Estaing pela Difel (1977)
>>> Esperança Viva - Uma Escolha Inteligente de Ivan Saraiva pela Casa Publicadora (2016)
>>> Manual Merck de Veterinaria de Merck pela Roca (2001)
>>> Conjugar Es Fácil En Español De España Y De América (spanish Edition) de González Hermoso, Alfredo pela Edelsa Grupo Didascalia (1997)
>>> Amy, Minha Filha - Amy, My Daughter de Micht Winehouse pela Record (2012)
>>> Avaliação da Inteligência de Marília Ancona-Lopez pela E.p.u (1987)
>>> O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon pela Jose Olympio (1973)
>>> Contos E Lendas - Os Doze Trabalhos De Hércules de Christian Grenier - Carlos Fonseca ilustrador pela Cia Das Letrinhas (2013)
>>> Educação do Olhar Vol2 de Vários Autores pela Mec (1998)
>>> Tres Sombras de Cyril Pedrosa pela Quadrinhos Na Cia (2019)
>>> Federico Garcia Lorca - Obra Poetica Completa de Federico Garcia Lorca pela Unb - Martins Fontes (1990)
>>> Postura Profissional do Educador de Ana Maria Santana Martins pela Jcr (1999)
>>> Fale Tudo Em Inglês! - Inclui Cd Audio de José Roberto A. Igreja pela Disal (2007)
>>> Prazeres da Docência de Magalli B. Picchi pela Arte & Ciência (2003)
>>> Pequeno Dicionário Ilustrado Palavras Inventadas de Marcelo Godoi pela Sagui (2007)
>>> O que é Música de J. Jota de Moraes pela Brasiliense (1983)
>>> Para os Filhos dos Filhos dos Nossos Filhos de José Pacheco pela Papirus (2008)
>>> Liderando Crianças com Excelêcia de Márcia S.Ribeiro pela Videira (2008)
>>> Linguagem e Escola: Uma Perspectiva Social de Magda Soares pela Atica (1986)
>>> Regras Oficiais De Voleibol de Vários Autores pela Nd-sprint (1998)
COLUNAS

Terça-feira, 1/3/2022
G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas
Jardel Dias Cavalcanti
+ de 5800 Acessos



A absoluta radicalidade e contemporaneidade do teatro de Gerald Thomas está no fato de que ele quebra a todo momento o pacto apaziguador entre artista e público. Gerald Thomas retorna ao teatro com uma mensagem dentro do coquetel molotov. “Agora é Talibã!”. No início da peça a atriz segura uma garrafa com uma mensagem dentro, o barulho de um estridente raio a impede de abrir a mensagem, segue andando e, em seguida, tropeça em outra garrafa que é um coquetel molotov. Abertura necessária para se perceber o tamanho da explosão.

G.A.L.A. é uma peça polifônica, aberta ao infinito da composição e recomposição do texto, onde o dramaturgo coloca sua personagem num barco partido e afundando. O aspecto fluvial da fala descontínua, no seu vai-e-vem repetitivo, reforça o caráter burlesco de todo discurso que se pretende verdade ou explicação. Coerência para ele é “salsinha no meu sapato”, uma imagem surreal que faz jus ao universo de Gala e Dali. Num mundo delirante, um discurso delirante se faz necessário. Raros artistas conseguem navegar nesse mar de inconstância, insegurança, vertigem.



O cenário belíssimo, ao mesmo tempo perturbador/desolador, remete ao cinema de Fellini e às imagens românticas da barca da morte (e o primeiro objeto encontrado pela atriz é uma caveira). Um mundo afundando durante uma festa de gala. No auge do capitalismo, um planeta que não suporta mais a apropriação brutal de seus elementos naturais. A imagem do barco afundando com a foto ao fundo de duas torres (gemêas) de fábricas poluentes reforça a ideia do abismo em que a mais avançada das civilizações tecnológicas se meteu.

Pelas recordações das destruições que estão subjacentes na peça, da história (campos de concentração) à arte (de Guernica de Picasso à música dodecafônica e a afônica literatura de Beckett), G.A.L.A. não se furta ao desvario de apontar o mundo quebrado das vidas humanas e da arte como metáfora de um mundo eternamente destruído.

Tempestades interrompem a fala da personagem, sustos necessários para paralisar qualquer tentativa de emitir verdades, explicações, sugestões de caminhos. Gerald Thomas sempre questionou o papel do artista como criador de plausibilidade. Ordenar e compreender o mundo como num laboratório de ciências exatas não é o caminho para a arte.



Não é de hoje que Gerald Thomas sente na pele as dores do mundo, mas não se ressente do presente em nome de um passado nostálgico. Fatalista – "é o que temos para hoje" – assume colocar na mesa a desintegração do homem na forma da desintegração da linguagem. Nisso ele é mestre.

O texto de G.A.L.A. deliberadamente escamoteia o discurso, deixando rarefeitas as falas, mas amplia as zonas de tensão com a música, o cenário e os trejeitos de Gala (a excepcional teatralidade da atriz Fabiana Gugli). Pratos sendo quebrados ressoam uma alma quebrada ou se quebrando. Sancho, personagem ausente/presente seria a metáfora do teatro – e de todos nós – lutando contra moinhos de vento. Em uma conversa por what’s sobre críticas sucessivas ao poder, Gerald me sentenciou, fatalista: “É difícil quebrar o muro”.

Talvez haja em G.A.L.A. uma tentativa do teatro de Gerald Thomas de quebrar a memória constante do desastre – essa “faísca que atravessa os séculos”: “Pois a ruína não está mais lá! Beckett não está mais lá! Para de ficar idolatrando os cacos desesperançosos da história. Para!”. Mas não abre mão de deslocar ou truncar a narrativa. Pois no lugar das ruínas, das bombas caindo sobre nossas cabeças, estamos numa pandemia social do distanciamento total uns dos outros. Gala e Sancho se falam virtualmente, não se abraçaram depois dos seus enlaces e as mãos que se encontram no final da peça são intermediadas pelo computador que nos aproxima afastando. Como disse o próprio G. Thomas na entrevista que se seguiu à peça, Michelângelo não imaginava que entre o dedo de Deus e o de sua criação apareceria uma rachadura. Essa rachadura é o símbolo da vida humana, imperfeita, incoerente, absurda. Também é o teatro de Gerald Thomas.

G.A.L.A. não se furta, no entanto, de detratar o mundo atual, o mundo “asfixiado pelo próprio desespero”. Não surpreende que a última imagem da peça, as mãos dadas entre a atriz e a mão que sai do computador, seja a do fogo consumindo-os.



Para ir além
A peça pode ser vista no YouTube.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 1/3/2022

Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2022
01. Gramática da reprodução sexual: uma crônica - 7/6/2022
02. Risca Faca, poemas de Ademir Assunção - 15/2/2022
03. Guignard, retratos de Elias Layon - 13/12/2022
04. Neste Momento, poesia de André Dick - 20/9/2022
05. G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas - 1/3/2022


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Practical Chinese Qigong For Home Health Care
Jin Ce / Hu Zhanggui / Jin Zhenghu
Foreign Languages Press
(1996)



Boitempo- Esquecer Para Lembrar
Carlos Drummond De Andrade
Companhia Das Letras
(2017)



Razão e Sentimentos 332
Jane Austen
Nova Fronteira
(1996)



Recordes do Homem
Recordes do Homem
Ciranda Cultural
(2014)



O Aprendiz
Egidio Trambaiolli Neto
Ftd
(1999)



Uma Antologia Bêbada
Vários Autores
Mercearia São Pedro
(2004)



Revista Stereo Review - Octuber 1984
Cbs Magazines
Cbs Magazines
(1984)



O Império do Divino Em Paraty
Ana Cristina Nadruz
Imperial Novo Milênio
(2008)



Hei de Vencer
Arthur Riedel
Pensamento



Quem Ama, Educa!
Içami Tiba
Gente
(2002)





busca | avançada
45137 visitas/dia
2,3 milhões/mês