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Segunda-feira, 18/11/2002
Casimiro de Brito
Maria João Cantinho

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"C'est pourquoi j'ai rêvé d'une oeuvre qui n'entrerait dans aucune catégorie, qui n'appartiendrait à aucun genre, mais qui les contiendrait tous; une oeuvre que l'on aurait du mal à définir, mais qui se définirait précisément par cette absence de définition (...) un livre enfin qui ne se livrerait que par fragments dont chacun serait le commencement d'un livre."
Edmond Jabès, Aely

"A casa de meu avô ficou sempre/ inacabada, a infância que lá vivi/ também(...)"
Casimiro de Brito, fragmento 140, do Livro das Quedas

Começar por definir a sua poesia pela "errância" ou inacabamento talvez pareça vago, mas aliar essa ideia à de uma elevadíssima concentração do instante, na escuta original do mundo e no modo atento de percepção que procura trazer o mundo à palavra e à letra, é a melhor forma de aceder à obra de Casimiro de Brito, de 64 anos, poeta, romancista, ensaísta, e que conta com 40 livros publicados, mantendo uma intensa actividade como presidente do P.E.N. clube desde há seis anos, dirigindo os festivais de Poesia de Lisboa, Porto Santo e Faro e em permanente intercâmbio com poetas do mundo inteiro.

Casimiro de Brito começou a publicar cedo. Aos dezoito anos saiu o seu primeiro livro de poesia, Poemas da Solidão Imperfeita (1957), obra que um dos críticos mais importantes da época considerou "extraordinária". O sentido crítico que nele existe, fortemente entranhado, fê-lo suspeitar imediatamente do acolhimento favorável. Conhece, por essa altura, o poeta António Ramos Rosa, numa ligação de amizade que mantém ainda hoje. O jovem fazia o curso "English by radio" da BBC e foi seleccionado para passar uma temporada numa universidade inglesa. Em Londres, onde viveu até 1968, ficou alojado no apartamento de um professor de estudos orientais, cuja biblioteca lhe permitiu o encontro com a poesia japonesa. Fascinado, traduziu haikais e a leitura apaixonada da poesia japonesa marcar-lhe-ia decisivamente o rumo da sua própria poética. A extrema condensação do haiku e o choque provocados pela sua leitura são, desde logo, características que irão contaminar o seu trabalho.

Ao regressar a Faro, no Algarve, funda, com António Ramos Rosa, os "Cadernos do Meio-Dia" projecto do qual nasceria o movimento poesia 61, integrando poetas como Luiza Neto Jorge, Fiama Pais Hasse Brandão, Gastão Cruz, Maria Teresa Horta, Casimiro de Brito. Esse movimento haveria de marcar a poesia portuguesa, tendo sido importante na criação de uma contra-corrente literária. Num país em que a ditadura amarfanhava e sufocava todos os movimentos literários que não se integrassem no panorama do regime político, a revista seria apreendida pela censura. Aparece, depois a colecção, "A Palavra", publicando aí o seu terceiro livro Telegramas, que inaugurou a sua nova fase poética, após o primeiro de António Ramos Rosa, O Grito Claro. O seu dinamismo e espírito de iniciativa foram-lhe preciosos, pois ele próprio ajudava a compôr os livros, enquanto trabalhava noutras coisas para custear as edições. Desse tempo, guarda a memória do universalismo de Ramos Rosa, que lhe facilitaria e abriria as portas para um mundo poético mais amplo e que extravasava os limites geográficos do país.

A Oralidade como "Infância" da Poesia
A determinar uma origem ou um despertar para a música e poder criador da palavra poética, Casimiro de Brito indica duas fontes em simultâneo, que nele se cruzaram: a infância e a oralidade: "da memória oral à onomatopeia e desta à epopeia vai um salto". Experiência viva dessa escuta do mundo, a par de uma atenção ao sentido rítmico da palavra aponta a sua infância, marcada por uma austeridade que é característica dos habitantes da serra algarvia e essa austeridade também lhe imprimiu um cunho decisivo na depuração e sobriedade da escrita. Um ascetismo que há-de transparecer cada vez mais, sobretudo no modo como "o poeta transforma o elemento efémero e casuístico em esquema universal". Uma transmudação que reconhece como essencial e que, na verdade, o deslumbrará, ao descobri-la na poesia japonesa. Esta descoberta, conjugando-se com a do budismo, permitiu-lhe a compreensão de uma concepção a-histórica e oriental do tempo, uma concentração do olhar no fragmento. E é essencialmente de uma estética do fragmento que importa aqui falar, e que subjaz a toda a sua obra, exemplarmente ostentada no verso em que diz "A casa do meu avô ficou sempre/ inacabada, a infância que lá vivi/ também(...)", encontrando-se assim, e de forma quase obsessiva, a ligação entre tempo e infância, lugar de retorno nostálgico, em que a infância surge como o modo de romper a continuidade daquele, instaurando o instante "cheio". No mesmo poema, o poeta diz: "(...)Uma casa humilde,/ mudável, interrompida/ é uma espécie de poema onde o desejo de/ permanecer é mais intenso/ do que o desejo de pronunciar a palavra/ "perfeição": uma coisa viva/ jamais é perfeita(...)". Cada coisa conquista a sua plenitude à luz da organicidade que dela irradia, transformando-a em coisa viva, transbordante e possuidora do excesso que habita (e simultaneamente resiste) toda a poesia, no limite do dizer, em coisa "falante", nascida para o sentido e para a linguagem, iluminando-se-se a partir de si própria e da sua finitude, da sua imperfeição e carácter fragmentário. O sentido do fragmento nasce do próprio instante e da concentração temporal nele existente, do Aqui e Agora. Por isso, cada poema também deve ser lido ao centro, para que da concentração do olhar surja a contemplação da origem e do fim do poema, da palavra e da coisa. Cada aforismo, cada haiku é simultaneamente um ovo e uma pedra.

Porém, a compreensão só pode advir da articulação do tempo a-histórico com aquele em que vivemos, quotidiano, onde o intemporal se revela, em cada uma das partes, reclamando o todo, a pertença. A estética do fragmento, neste caso, recordando o belo texto de Jabès (gentilmente cedido pelo poeta) com que dei mote ao texto, recusa a ideia de um acabamento ou de uma definição da obra, fazendo-se esta à medida que se escreve cada poema, isto é, definindo-se precisamente pela ausência da sua definição, avançando contra as evidências do formal, do estabelecido, recusando o acabamento, a perfeição, abraçando o segredo e a escuridão do mundo. Como Casimiro de Brito gosta de recordar, "o poeta é aquele que trabalha com o segredo", habitando o umbral do querer dizer das línguas, do mundo, na ameaça constante do emudecimento da matéria. Paradigma dessa concepção afigura-se certamente Livro das Quedas, assumindo plenamente essa utopia da linguagem.

Em criança, o poeta passava vários dias na casa dos avós, na serra do Algarve, que "não eram letrados, mas possuíam uma biblioteca oral fascinante". Havia o hábito de se juntarem à noite, na hora da ceia, à lareira e as histórias iam-se contando, sendo partilhadas por todos. Esse hábito da infância cravou-se-lhe na memória, determinando-lhe uma orientação poética contaminada pelo mundo e pela presença das coisas, fortemente enraizada na concretude e sensorialidade do mundo. Lembra-se de conhecer todos os frutos e árvores que o avô lhe mostrava, durante o dia. À noite chegava-lhe a magia e o ritmo da palavra, da história, num universo em que o mundo e a palavra se entrelaçavam intensamente. A proximidade com António Aleixo, poeta popular, em criança, também foi um privilégio da sua formação, como reconhece. A influência directa e simultânea de um pai que pouco falava, restringindo-se a poucas palavras, e a da mãe que passava "os dias a falar", marcou-lhe a constante oscilação que existe na sua obra, entre a síntese e a análise, entre o haiku, o aforismo e os romances longos que também escreveu, num diálogo que sempre se conciliou.

Mais tarde, já na adolescência, começou a escrever poesia para os jogos florais e a leitura foi ganhando terreno na sua vida. Dessa época data a deslumbrada descoberta da sexualidade e da natureza, a importância do mar e a sua relação com a luz, que foram determinantes no modo como lhe definiram a sensualidade da escrita, na contraposição entre os elementos dionisíaco e apolíneo, tanto da arte, como da vida.

Casimiro de Brito frequentou a Escola Comercial de Faro e começou a trabalhar cedo, mas foi como bancário - uma profissão que ocupou 37 anos da sua vida - que alimentou o vício da escrita. Casou com Maria de Jesus, de quem teve dois filhos, Sílvia e Luís Brito. Auto-didacta convicto, recusou sempre o formalismo académico, afirmando que "os poetas são diferentes, generalistas, não é preciso passar pelos cursos para escrever poesia. Os poetas mais velhos que marcaram a poesia portuguesa, como Helder, Ramos Rosa, Sophia, Eugénio de Andrade, não são académicos, mas auto-didactas". A formação académica dá o cânone, a forma, mas o poeta, sobretudo se domina a tradição, corre sempre o risco de se transformar num "sofista", usando a forma poética de modo puramente retórico e fechado, aniquilador. Só a contaminação do mundo é que pode salvá-lo desse formalismo. O poeta está "antenado" com o mundo, com a Pólis, por ele perpassa todo o devir e mudança e é justamente o "sofrimento" que é transfigurado na poesia, animando-a no seu interior. Desse modo, como "pára-raios" que recebe em si o "raio", ele rompe e contraria a vocação formal.

À questão de saber se a imersão no seio da Pólis transforma o poeta num sujeito ético, a resposta não parece líquida, pois, antes de mais, ele revela um olhar demasiado crítico para aceitar placidamente a poesia enquanto tal. Imediatamente, a questão suspende-se na dúvida de Casimiro de Brito: "O que é, afinal, a ética? Será ela mais que uma construção artificial para preservar a ordem e o poder?" Recorrendo à afirmação de Antonio Porchia, em Voces Nuevas, de que "Y si lo anormal fuese realmente anormal no existiría", então o mal também não é anormal, mas constitutivo do mundo e intrínseco ao seu devir. O poeta acrescenta, num tom polémico: "Os homens não cometem erros. Ou fazem ou não fazem". Mas, se o tom polémico ameaça um relativismo que põe em causa a crença num humanismo ingénuo, todavia, a poesia auto-sustenta-se e brota dessa ironia, "a de transformar em beleza pura a miséria do mundo", numa hesitação entre o sofrimento silencioso e o grito. Casimiro de Brito não deixa de lembrar o pertinente caso, a propósito, na questão Adorno versus Celan, condensada na afirmação daquele, de que é "impossível escrever poesia após Auschwitz". Permanece no ar a questão: será ético escrever poesia face ao horror do sofrimento humano? Daí que a questão do poeta como sujeito ético resvale facilmente para uma visão demasiado linear do problema.

O poeta e a sua "musa vigiada"
O poeta reconhece, a seu lado e constantemente, a presença da musa (o seu "anjo bom", como gosta de chamar-lhe). O "anjo bom" ou a musa inspira-lhe a frase que lhe "cai em cima", o sopro genesíaco do poema, acordando-o pela madrugada, por volta das quatro, sob o efeito da urgência, registando ainda uma frase às escuras, para que ela não lhe escape. No entanto, esse sopro é tenazmente vigiado pelo seu "anjo mau", o sentido crítico que o faz rever a escrita, furtando-a à sentimentalidade e à subjectividade, revisão que, na maior parte das vezes, demora anos a fazer-se, tal como um vinho - a sua outra paixão, além do amor - demora a decantar. Ao longo dos anos, nesse processo de escrita moroso e lento, de total entrega, em que reconhece a poesia como a única via de acesso e auto-conhecimento do mundo e da vida, Casimiro de Brito publicou Poemas Orientais (1963), Jardins de Guerra (1966), Negação da Morte (1974), Zen, Zénites (1979), Ode & Ceia (1985) que recebeu o prémio Versília, de Viareggio, de 1985, para "Melhor Obra Completa Estrangeira", Subitamente o Silêncio (1991), Intensidades (1995), Opus Affettuoso seguido de Última Núpcia (1997), tendo recebido o prémio de Poesia do P.E.N. Clube, Arte Pobre (2000), À Sombra de Bashô (2001), Duas Águas e um Rio, em co-autoria com António Ramos Rosa (1989), Animal Volátil, em co-autoria com Rosa Alice Branco (2002), Da Frágil Sabedoria (2001), Na Barca do Coração (2001), entre muitos outros. Outra vertente, não menos importante da sua obra é o ensaio, tendo publicado Prática da Escrita (1977) e Vagabundagem na Poesia de António Ramos Rosa (2001), assim como experimentou, ainda, a ficção, com os romances Imitação do Prazer (1991), Pátria Sensível (1983) e Nós, Outros (1979), em parceria com Teresa Salema, com quem viveu. A sua obra poética encontra-se traduzida em várias línguas, desde o japonês ao espanhol, traduzida igualmente para corso e flamengo.

Representado em mais de uma centena de antologias de poesia em todo o mundo, a sua vida é uma roda-viva, viajando permanentemente de encontro em encontro, de um festival de poesia a outro, onde descobre talentos e fala disso com apaixonada intensidade. Tendo dirigido revistas literárias como Loreto 13 (órgão da associação Portuguesa de Escritores), é actualmente co-director da revista luso-brasileira de poesia Columba e responsável pela colaboração portuguesa na revista internacional Serta e director da "colecção do Grito Claro". Ainda este ano, saiu a tradução de Nem Mestre nem Servidor e outros Poemas, na Belgica (de Robert Massart) e na Suécia (tradução de Lasse Söderberg).

A Poesia como ars moriendi: Livro das Quedas
Desde sempre, Casimiro de Brito trouxe bem consciente a ideia arquitectónica de uma obra, que se foi desenvolvendo como uma "tapeçaria", onde os diversos livros se ligavam entre si, definindo Labyrinthus (publicado em 1981 e a sair brevemente em segunda edição) que recebeu o Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, como livro de charneira e que operava a transição para uma nova fase da sua poética.

As diversas fases encontram-se de tal modo entrelaçadas com os acontecimentos da sua vida que a ideia de uma fusão entre arte e vida se torna inevitável. A última revolução interior, que o próprio acaso se encarregou de transformar em destino, foi o casamento com Susana Tavares Pedro, paleógrafa, 30 anos mais nova, com quem vive e de quem tem um filha, Diana, com 6 anos de idade.

O nascimento de Diana, ocorrido na mesma semana da morte de um amigo querido, essa súbita convulsão acordando-o para a violência simultânea da vida e da morte, deram-lhe o "clique", originando a ruptura com a obra anterior. Concentrou-se no gesto de escrever cada poema como o último. Julgou que eles seriam poucos, mas contém já centenas de poemas que tenciona juntar numa edição que se intitulará Livro das Quedas, de publicação ainda não prevista. Por enquanto, vai fazendo sair alguns, numa edição que terá o nome de O Pó das Sandálias, e publicando-os de forma avulsa, em diversas revistas, dando-os a conhecer nos Festivais de Poesia, retomando o espírito do trovador, que ia deixando as suas trovas aqui e ali, como um verdadeiro nómada da poesia.

Nota do Editor
Texto publicado originalmente na Revista Storm, editada por Helena Vasconcelos em Portugal. (Foi mantida intacta também a grafia original.)


Maria João Cantinho
Lisboa, 18/11/2002


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O Muro de Palavras de Pedro Bidarra
02. Presenças de Paula Ignacio
03. Autoajuda e Poesia de Mariana Portela
04. O mal de Vila-Matas de Luiz Rebinski Junior
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