Einstein e os indícios do gênio | Julio Daio Borges | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 6/12/2002
Einstein e os indícios do gênio
Julio Daio Borges

+ de 9500 Acessos
+ 3 Comentário(s)

"E a moral da história
(Que ninguém quase nunca discute)
É que a metade de cima planeja e pensa
Enquanto a metade de baixo nos determina o destino
"
(Albert Einstein, em 1946)

A biografia tem sido o gênero literário mais bem-sucedido dos últimos tempos. Permite que se mantenha a discussão num nível minimamente adequado, ao mesmo tempo em que consegue seduzir o público leigo, vendendo-se. É, para fins práticos, economicamente viável e intelectualmente suficiente. Os consumidores de livros se encantam com a possibilidade de conhecer intimamente aquele gênio, e a nata high-brow tem a oportunidade de mergulhar no universo de uma mente brilhante (excepcionalmente). Em ambos os casos, planeja-se, em silêncio, descobrir os segredos daquele sujeito, consagrado em seu tempo. A satisfação resulta, no entanto, da vivência, através da leitura, de uma época inteira. Olha-se através dos olhos do biografado (e do biografo também, claro), deixando a existência individual meio de lado e desfrutando de um panorama inteiro, num momento sui generis: as condições objetivas e subjetivas que permitiram, àquela inteligência, florescer.

É o que acontece, por exemplo, em Einstein apaixonado: um romance científico, de Dennis Overbye, pela Editora Globo. Alternando capítulos minuciosos sobre as relações do pai da relatividade com explicações sobre os conceitos físicos envolvidos em suas descobertas, Overbye nos proporciona uma leitura quase frugal, embora marcante e de uma envergadura razoável (mais de quatrocentas páginas). Os grandes livros permitem que se continue viajando através deles, mesmo que a viagem, em seu sentido estreito, se encerre. É o caso de Einstein apaixonado, que vai e volta à mente, até que se assente a poeira levantada por ele. Não há, felizmente, como dar acabamento às figuras que transcendem os séculos. (Overbye nem tenta.) Torna-se, porém, instigante explorar o que há de próprio em cada gênio - extrapolando alguns aspectos para um padrão mais vasto, quiçá universal. Seguir os passos da mente ainda em amadurecimento parece o caminho mais conveniente. E, nesse sentido, não haveria guia mais apropriado que Dennis Overbye.

Einstein apaixonado começa seu percurso com o protagonista aos 18 anos. Fora alguns flashbacks ocasionais, ficamos sabendo pouco de sua infância e adolescência. Aos 9 anos, Albert ouviria de um professor de grego que jamais chegaria a ser grande coisa na vida. Segundo a irmã, na escola, era considerado lento. Entre 10 e 12 anos, porém, Einstein descobre a matemática. No clima das férias de verão, debruça-se sobre a geometria euclidiana, encontra uma prova original para o teorema de Pitágoras e arremata todo o currículo do ginásio. Mais adiante, pela mão de um amigo universitário, atravessa a Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant, e se depara com uma influência perene: Arthur Schopenhauer. Dele, e da sua experiência como autodidata, citaria mais tarde: "Um homem pode ser ele mesmo somente enquanto está sozinho; e se ele não ama a solidão, não amará a liberdade; pois é somente quando está sozinho que ele é realmente livre."

Seus interesses filosóficos se manteriam até que se reconhecesse, estritamente, um homem de ciência. Hermann Einstein, o pai - segundo Overbye, matemático falido e empreendedor peripatético -, queria vê-lo engenheiro elétrico. Albert preferiu estudar física na Politécnica da Suíça. Nos primeiros anos em Zurique, fundaria, junto a Maurice Solovine e Conrad Habicht, a "Academia Olympia". Em encontros semanais, leriam e discutiriam grandes pensadores de seu tempo, num jantar regado a lingüiças à bolonhesa, xícaras de chá, mel e pedaços de queijo gruyère. Numa carta dessa época, tratou de registrar o Zeitgeist: "As palavras de Epicuro se aplicam a nós. Que coisa linda é a pobreza alegre!" Nessas reuniões, os três amigos descobririam Ernst Mach, autor de A ciência da Mecânica, que refutaria a noção de espaço absoluto; e Henri Poincaré, de Ciência e hipótese, que refutaria a do tempo absoluto.

Se houve alguma espécie de parceria intelectual, porém, esta se manifestaria na relação com Mileva Maric, colega de física e futura esposa. Overbye inicia suas observações sobre a mãe de Einstein, Pauline Koch, revelando que ele sempre seria um problema para as mulheres. As disputas entre Pauline e Mileva seriam eternas, por causa da origem sérvia (da última) e do instinto dominador (da primeira). Sobre a nora, a sogra afirmaria: "Ela é uma leitora de livros, como você - mas você precisa de uma esposa". Além disso, era absolutamente inaceitável, para os pais de Albert, que, em plena universidade, ele já se desse ao luxo de ter uma companheira (sem haver casado), vivendo em pecado desbragadamente. As bodas, no entanto, viriam logo, com a primeira gravidez de Mileva. Para que se tenha a dimensão de sua importância como colaboradora, contudo, Overbye recorre à biografia de Peter Miechelmore e a Hans Albert (segundo filho do casal): depois de seis semanas de trabalho no texto que introduziria o princípio da relatividade, Einstein passaria quinze dias de cama, enquanto Mileva conferia e reconferia cada passagem.

Sobre a relatividade, explicações existem às pencas. Nenhuma talvez tão clara quanto a do próprio Albert, em seu artigo histórico, "Eletrodinâmica dos corpos em movimento", publicado no Annalen der Physik, a 26 de setembro de 1905. Para provar que o espaço e o tempo não eram absolutos, Einstein partiria das equações de James Maxwell (pai do eletromagnetismo) e das transformações de Hendrik Lorentz (que asseguravam a velocidade da luz). O exemplo clássico, usado pelo próprio Einstein, é o do trem, das varas e dos relógios. Supondo que um passageiro viaja a uma velocidade constante e que um raio de luz percorre a vara que ele tem à mão, indo e voltando - qual será a percepção de um observador, fora do trem, sobre o mesmo fenômeno? De acordo com as palavras de Albert, o segundo veria a vara do primeiro ser percorrida em tempo menor, quando a luz estivesse se movimentando no mesmo sentido do trem; e em tempo maior, quando estivesse se movimentando no sentido contrário. Por conseqüência: sendo a velocidade da luz uma constante, o espaço diminuiria ou aumentaria proporcionalmente ao tempo - esticando ou encurtando a vara, conforme o movimento.

Se o intercâmbio científico com Einstein se relevaria não menos que ideal para Mileva, naqueles primeiros artigos em Zurique, essa atmosfera jamais se repetiria em Praga ou em Berlim (outras paragens em que a família se estabeleceria, de acordo ao reconhecimento crescente obtido por Albert). Para quem sonhava com uma trajetória de descobertas e conquistas, a dois, bem no estilo Pierre e Marie Curie, Mileva teve suas expectativas frustradas pelos deveres de esposa e mãe: não concluiu seu curso de física, teve um filho permanentemente doente (Eduard Einstein) e viu seu marido afastar-se progressivamente. Emergia então seu humor sombrio, tipicamente eslavo, roubando-lhe a juventude e a beleza. Se os anos a mais e o andar claudicante não chegariam a incomodar o jovem Albert, mais tarde, no adulto, produziriam conclusões tremendas: "O casamento é a tentativa malsucedida de tirar algo de duradouro de um acidente." E sobre assumir um compromisso com uma mulher mais velha: "Em dez anos, ela não irá mais satisfazê-lo; você achará que o casamento é um grilhão insuportável; ela se tornará insanamente ciumenta." Foi o que aconteceu.

Numa de suas peregrinações a Berlim, sempre envolto com os mistérios quânticos, Albert, visitando parentes, reencontrou uma prima que lhe pareceu justo o oposto de Mileva: loira, clara, de olhos azuis e com um jeito gemütlich (acolhedor) de ser. Era Elsa. Segundo Overbye, "já fazia dez anos desde a última vez em que uma mulher sorrira para ele e parecera feliz em estar com ele". Foi o suficiente: começaram a se corresponder; e a agendar encontros secretos. Mileva, como não poderia deixar de ser, transformou a vida de Albert num inferno. De início, não aceitou a separação no papel (embora a física já fosse irrevogável, a essa altura do campeonato). Para arrasá-lo, voltou os filhos contra ele, obstruindo qualquer comunicação e interceptando toda correspondência. Desse golpe, Einstein jamais se recuperaria. Sobre o episódio todo, Hans Albert sentenciaria cinqüenta anos depois: "Ninguém tem o direito de esperar uma infância feliz."

Por causa dos quanta, Albert agitaria reiteradamente a comunidade científica. Sua primeira incursão no assunto, por conta de um artigo de Max Planck (inventor do quantum), lançaria uma nova teoria sobre os Lichtquanten ou os quanta de luz. Einstein enxergava a incompatibilidade entre o eletromagnetismo e a matéria - o que o obrigara a enfrentar também Maxwell. Graças a experiências com a chamada "radiação de corpo negro", o raio de luz, antes entendido como um continuum de energia, de repente se revelara um conjunto de pequenos pacotes discretos. Overbye usa o exemplo do "beberrão que só consegue tomar cerveja em canecas de meio litro", para ilustrar que Albert descobrira uma natureza mais tendente às goladas do que ao fluxo intermitente de energia. Ademais, a idéia da luz emitida em partículas estava mais de acordo com a teoria atômica, provada igualmente por Einstein, em outro artigo, dessa vez sobre o movimento browniano. Aos 30 anos, já havia dado passos decisivos nos principais domínios da física.

"Uma pessoa encontra coisas verdadeiramente novas somente na juventude. Mais tarde, ela se torna mais experiente, mais famosa, e mais burra." Embora tenha afirmado isso, Einstein só encontraria a solução definitiva para os problemas que o atormentavam dez anos depois. Com a teoria geral da relatividade. Através dela e de suas infatigáveis provas (Overbye: "trabalhara tão arduamente que era estranho que uma pessoa pudesse agüentar aquilo"), previra a curvatura do espaço-tempo, por meio de um campo gravitacional, estendendo aquela conversa de trens, varas e relógios ao universo inteiro. Claro que com os devidos aperfeiçoamentos e modificações. O reconhecimento experimental, de todo esse arcabouço, se daria por ocasião do eclipse de 1919. Observada a deflexão da luz, na prática, estavam estampadas as manchetes nos jornais: "Revolução na Ciência. Nova Teoria do Universo? Idéias Newtonianas Derrubadas." Era o fim de uma era de trabalho cavalar, nuvens de fumaça, taças de café, lingüiça frita e biscoitos pelo chão - combinados aos ataques sucessivos de estômago. O mesmo que iria matá-lo, a 18 de abril de 1955, depois do Nobel, em Princeton. Mas a missão já estaria cumprida. E o mundo nunca mais seria o mesmo.

"Um homem pode fazer o que ele quer,
mas ele não pode querer tudo o que ele quer.
"
(Arthur Schopenhauer, citado por Albert Einstein, em 1929)

Para ir além






Julio Daio Borges
São Paulo, 6/12/2002


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
6/12/2002
13h17min
Prezado Julio, Seus inteligentes textos espicaçam nossa memória. Permita-me, por favor, algumas linhas aos leitores. Gostaria de recomendar a estes o simpático "ABC da Literatura", de Bertrand Russel. Esse "opúsculo" nos faz desdobrar em esforços de imaginação para visualizarmos o Universo depois de Einstein. A biografia de James Joyce por Richard Elmann também retrata um gênio, porém não da ciência, mas da literatura, e mais especificamente da prosa. O autor reúne fatos que nos mostram como um mendigo alcoólatra de mente medieval pôde fazer pelas letras aquilo que o gênio de Einstein fez pela física. Para os que gostam do gênero, há ainda o espantoso relato biográfico do "escolástico" marxista Louis Althusser, "O Futuro Dura Muito Tempo". E como dura...
[Leia outros Comentários de Diogo]
17/12/2002
11h15min
Diogo, você me desculpe a demora na resposta. Obrigado por chamar meus textos de inteligentes. Agradeço igualmente a recomendação de Bertrand Russell (embora lembre sempre do conceito não muito elevado que Wittgenstein fazia desses volumes "não-filosóficos" do autor de Principia mathematica). De Elmann, tenho a biografia de Oscar Wilde; vou procurar a de Joyce. Abraços, valeu pela mensagem, Julio
[Leia outros Comentários de Julio Daio Borges]
18/12/2002
11h07min
Prezado Julio, Gostaria de retificar o nome “ABC da Literatura” para “ABC da Relatividade”, este sim o “opúsculo” escrito por Bertrand Russel. Não obstante, o lapso não deixa de ser sugestivo, pois enquanto eu escrevia, pensava em Literatura, mais especificamente em Joyce, que por sua vez foi bastante ajudado por Ezra Pound, este sim autor do “ABC da Literatura” — livro que deveria ser pendurado no pescoço de todo pretenso literato. Não deixa de ser significativa também a tentativa do autor de “ABC da Literatura” de elevar as Letras ao status de Ciência, muitas vezes lançando mão de métodos comparativos utilizados pelos Biólogos para estudar Poesia, tomando os poemas por “lâminas” — o que deu a muitos ( inclusive aos três pedreiros patetas denominados “poetas concretos” ) ensejo para a comparação de Einstein com Pound. Disso tudo, podemos concluir: nossos lapsos nos instilam. No mais, Freud explica…
[Leia outros Comentários de Diogo]
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