A soprano insaciável | Luís Antônio Giron

busca | avançada
32662 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Vocalista da banda Big Mountain, Quino apresenta-se no Sesc Belenzinho dia 15 de dezembro
>>> Sesc Belenzinho apresenta show que celebra Declaração Universal do Direitos Humanos
>>> Mosteiro de São Bento: 50 anos da morte de Thomas Merton
>>> Residência Artística FAAP: espaço democrático onde os artistas de todo o mundo se encontram
>>> Última Terça Aberta do ano apresenta dois solos no Kasulo
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> As palmeiras da Politécnica
>>> Como eu escrevo
>>> Goeldi, o Brasil sombrio
>>> Do canto ao silêncio das sereias
>>> Vespeiro silencioso: "Mayombe", de Pepetela
>>> A barata na cozinha
>>> Uma Receita de Bolo de Mel
>>> O Voto de Meu Pai
>>> Inferno em digestão
>>> Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos
Colunistas
Últimos Posts
>>> Palestra e lançamento em BH
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
Últimos Posts
>>> A verdade? É isso, meme!
>>> Ser pai, sendo filho - poema
>>> A massa não entende
>>> ARCHITECTURA
>>> Os Efeitos Colaterais do Ano no Mundo
>>> A Claustrofobia em Edgar Allan Poe - Parte I
>>> Casa de couro V
>>> Heróis improváveis telefonam...
>>> Um lance de escadas
>>> No tinir dos metais
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Paco e Raphael Rabello
>>> Borges e Osvaldo Ferrari, Diálogos
>>> A deliciosa estética gay de Pierre et Gilles
>>> O estilo de Freddie Hubbard
>>> Cartas a um jovem escritor
>>> Livros, brinquedos, bichos de estimação e imagens
>>> 8º Cordas na Mantiqueira, em São Francisco Xavier
>>> Corpo é matéria, corpo é sociedade, corpo é ideia
>>> Mostra SP: EUA Contra Lennon
>>> Cores Paulistas e os Quatro Anos da IQ Art Gallery
Mais Recentes
>>> A revolução cubana de Emir Sader pela Moderna (1985)
>>> O beijo da mulher aranha de Manuel Puig pela Codecri (1982)
>>> Elegias de Duíno de Rainer Maria Rilke pela Globo (1972)
>>> Coisas para o povo não fazer. Carnaval em Porto Alegre (1870-1915) de Alexandre Lazzari pela Unicamp (2001)
>>> O homem e a comunicação. O livro da escrita. de Ruth Rocha. Otávio Roth pela Melhoramentos (2004)
>>> Gestão em Educação. Estratégia, qualidade e recursos de Margaret Preedy, Ron Latter, Rosalind Levacic pela Artmed (2006)
>>> Desafios da educação municipal. de Donaldo Bello de Souza, Lia C. Macedo de Faria (orgs pela DP&A (2003)
>>> Assombrações de um padre regente. Diogo Antonio Feijó (1784-1843) de Magda Ricci pela Unicamp (2001)
>>> Pajens da casa imperial. Jurisconsultos, escravidão e lei de 1871 de Eduardo Spiller Pena pela Unicamp (2001)
>>> Em defesa da honra. Moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940) de Sueann Caulfield pela Unicamp (2000)
>>> As noites do Ginásio. Teatro e tensões culturais na corte (1832-1868) de Silvia Cristina Martins de Souza pela Unicamp (2002)
>>> Castas, Estamentos e Classes Sociais de Sedi Hirano pela Unicamp (2002)
>>> Dicionário Oxford de Filosofia de Simon Blackburn pela Jorge Zahar (1997)
>>> Conjugação dos Verbos Em Português de Maria Aparecida Ryan pela Ática (2012)
>>> Em Busca do Sonho, Vinte Anos de Aventuras da Família Schurmann de Heloisa Schurmann pela Record (2006)
>>> As Cidades do Brasil - Florianópolis de José Geraldo Couto e Caio Vilela pela PubliFolha (2006)
>>> Recursos Pesqueiros Estuarinos e Marinhos do Brasil de Melquíades Pinto Paiva (Coord.) pela Ufc (1997)
>>> La Nausée de Jean-Paul Sartre pela Le Livre de Poche (1966)
>>> A Fishkeeper's Guide to Marine Fishes de Dick Mills pela Salamander (1985)
>>> Nada de Novo no Front de Erich Maria Remarque pela Edibolso (1977)
>>> O Médico e o Monstro de Robert Luis Stevenson pela Bup (1963)
>>> Teoria e Prática em Aquarismo Marinho de W. Naccarato pela Direkta (1983)
>>> Cristo Minha Vida de Clarence J. Enzler pela Paulinas (1974)
>>> Princípios de Filosofia de René Descartes pela Guimarães (1984)
>>> Problemática de Estética e Estética Fenomenológica de Moritz Geiger pela Progresso (1958)
>>> O Papel da Violência na História de Friedrich Engels pela Poveira
>>> Le Nouveau Roman de Jean Ricardou pela Editions du Seuil (1973)
>>> Quints 1, 2, 3, 4, 5 - The Cleanup de Little Golden Book pela A Golden Book (1990)
>>> Winnie the Pooh and the Missing Bullhorn de Walt Disney's pela A Golden Book (1991)
>>> Mickey's Christmas Carol de Walt Disney Productions pela A Golden Book (1991)
>>> The Little Mermaid de Walt Disney Pictures pela A Golden Book (1991)
>>> Lady and the Tramp de Walt Disney's pela A Golden Book (1991)
>>> Geografia Interativa 8º Ano: A estrutura do Poder: América e África de Luís Roberto Halama e Sandra Lessa da Silva Ferreira pela Casa Publicadora Brasileira (2011)
>>> História Interativa: 9º Ano: Integrada de Ubirajara F. Prestes Filho e Edson Xavier pela Casa Publicadora Brasileira (2012)
>>> Geografia Interativa 9º Ano: Recursos Naturais, Europa, Ásia e Oceania de Luís Roberto Halama e Sandra Lessa da Silva Ferreira pela Casa Publicadora Brasileira (2012)
>>> Ensino Religioso: Conexão Essencial: 8ª Série - 9º Ano de Adolfo S. Suárez e Marcos De Benedicto e Rodrigo P. Silva pela Casa Publicadora Brasileira (2012)
>>> O caso Oppenheimer de Heimar Kipphardt pela Brasiliense (1966)
>>> Renato Russo - O filho da Revolução - Edição especial de Carlos Marcelo pela Agir (2009)
>>> Renato Russo - O filho da Revolução de Carlos Marcelo pela Agir (2013)
>>> A Fera de Macabu (A História e o Romance de Um Condenado à Morte) de Carlos Marchi pela Record (1998)
>>> Foklore fondano de Insegnante Dario Lo Sordo pela Associazione maestri Cattolici
>>> A Assombração da Casa da Colina de Shirley Jackson pela Suma (2018)
>>> A Assombração da Casa da Colina de Shirley Jackson pela Suma (2018)
>>> O Demônio do Meio Dia um Anonimato da Depressão de Andrew Solomon pela Companhia das Letras (2018)
>>> O Demônio do Meio Dia um Anonimato da Depressão de Andrew Solomon pela Companhia das Letras (2018)
>>> O Demônio do Meio Dia um Anonimato da Depressão de Andrew Solomon pela Companhia das Letras (2018)
>>> Fogo & Sangue - Volume 1 de George R. R. Martin pela Suma (2018)
>>> Fogo & Sangue - Volume 1 de George R. R. Martin pela Suma (2018)
>>> Apontamentos De Viagem de Moraes, Joaquim De Almeida Leite pela Penguin Companhia (2011)
>>> Apontamentos De Viagem de Moraes, Joaquim De Almeida Leite pela Penguin Companhia (2011)
ENSAIOS

Segunda-feira, 6/8/2007
A soprano insaciável
Luís Antônio Giron

+ de 6800 Acessos

A soprano Olga Praguer Coelho continua a cantar, e bem, aos 92 anos, embora tenha sido esquecida pela música. É uma das deusas do canto nativo nos anos 20 e 30. Sua discografia atinge duas centenas de títulos, entre discos de 78 rotações e LPs, gravados no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Europa e até Oceania, onde realizou uma turnê, na década de 40. Um álbum duplo com alguns de seus mais importantes desempenhos deve sair até o fim do ano em Nova York pela BMG. Em 1998, Olga participou do programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo, e ainda quer gravar uma segunda parte, só com canções, para futura edição em CD. Atende o telefone de seu apartamento que fica no oitavo andar de um prédio em Laranjeiras, construído em um terreno da casa de sua infância. É fácil marcar a entrevista, e, à chegada, a empregada oferece água e café na tarde tórrida de fim de abril. Os fatos parecem correr de acordo com o roteiro combinado. Mas Olga, no papel de diva, impõe uma espera vagarosa. A empregada não vem mais e só se ouvem ordens da cantora, que arruma o penteado. Duas horas se passam e, por insistência da reportagem, Olga concede em surgir, com cabelos desfeitos e a boca manchada de batom.

Caminha com lentidão nervosa, de bengala. É seguida pela cachorra Pitucha, que pula ao seu colo tão logo se acomoda a uma cadeira. O sol despenca mais que a cotação da Nasdaq e o fotógrafo se esfalfa para pegar os restos da luz. A matéria parece fracassada. No entanto, ao ritmo do crepúsculo veloz do Rio, a conversa se avoluma e a senhora rejuvenesce à medida que as sombras maquiam-lhe o rosto. A diva desfia lembranças; possui o dom de convencer. Agora está com 3 anos, escapa do camarote dos pais e se apresenta ao chefe de orquestra de sopros de um navio alemão que leva a família de Salvador à primeira viagem à Europa. “Sou cantora!”, anuncia. O maestro ri, mas dá o sinal para os músicos atacarem os acordes de uma ária da opereta A Viúva Alegre, de Lehár. A menina canta em alemão, língua que aprendeu com a governanta, Christina Elizabeth, nascida em Heidelberg. Os pais e Álvaro, o irmão 7 anos mais velho, aplaudem o recital improvisado. Corre o ano de 1912.

Olga nasce em Manaus em 12 de agosto de 1909, mas sua família vem da Bahia. “Meu pai, o doutor Antônio Barreto Praguer, detestava o fato de eu ter nascido no Amazonas e fez questão de que eu fosse batizada em Salvador.”

As informações se atropelam. A memória erra por um mundo perdido que só figura nos livros, discos e filmes. A voz está quatro ou cinco graus mais grave, mas se assemelha àquela que fascinou o compositor Béla Bartók em Budapeste em 1936 com uma abordagem feroz do ponto de macumba Xangô – seu maior êxito.

Olga acompanha-se ao violão, cujos rudimentos aprendeu com Patrício Teixeira (1893-1972), mito do samba e um dos pioneiros da era elétrica. Aliás, Olga inaugurou a tecnologia ortofônica de gravação e o rádio... Para não falar de sua feérica vida amorosa: bela, talentosa e cobiçada por astros e estrelas, abandonou o casamento com o poeta Gaspar Coelho, no fim dos anos 30, em Nova York, para viver com o violonista espanhol Andrés Segovia (1893-1987). Caprichos da fatalidade.

Olga pensa que as origens familiares lhe deram parte de sua fortuna. O avô, o engenheiro Heinrich Prager, nasceu em Viena e aportou na Bahia por volta de 1880. O céu lhe remeteu à Côte D'Azur. Resolveu se instalar em Salvador, onde constituiu família. A mãe de Olga, Edelvina Alves Praguer, Lulita, queria seguir carreira como pianista e, até o episódio do navio, não imaginava o talento da filha. “Os músicos tocavam de pé e eu cantei em cima de uma mesa. Um sucesso!” Lulita passou a lhe dar aulas de piano. Aos 12 anos, mudou-se com a família para o Rio porque o pai assumiu a direção de um hospício. Olga trouxe consigo um repertório de modinhas antigas. “Papai cantava ao violão essas modinhas, que aprendeu com os escravos. Mas não queria que tocássemos pois achava que era instrumento de capadócio”, diz, explicando que “capadócios” eram os malandros que viviam de vender músicas.

Conta 13 anos quando o tio baiano, em visita ao Rio, lhe dá 60 mil réis. Com o dinheiro, Olga resolve comprar um violão. Escoltada pelo tio, vai à loja A Guitarra de Prata, na rua da Carioca. Lá, um balconista negro escolhe um bom instrumento e ela começa a ensaiar, escondida do pai, com a complacência de Lulita. “'O violão ficava na despensa da cozinha.” O pai flagra-a dedilhando o instrumento sobre a mesa da cozinha e ordena que ela o devolva à loja. “Mas acabou cedendo por causa do doutor Miguel Couto, amigo dele, que aceitou trabalhar para mim a fim de convencê-lo.”

O pai manda chamar Patrício Teixeira, afamado professor de violão das moças da sociedade. “Era um negro com linda voz de barítono. Arnaldo Guinle o descobriu. Trabalhava como chofer dele. Aí Arnaldo o despachou para a vida artística. Falava bem e ensinava eu e meu irmão por cifras de acordes.” Aos 15 anos, por estímulo do professor, estréia num palco, num dos prédios da Exposição de 1922, no centro do Rio, em espetáculo promovido pela poetisa Ana Amélia Carneiro de Mendonça. Logo se dá um recital, acompanhando-se ao violão, na Escola Nacional de Música. “Papai ficou furioso, mas se emocionou.”

Conhece o poeta Gaspar e se apaixonam. “Queríamos casar, mas ele era pobre. Tive de convencer meu pai de que podia trabalhar para ajudar Gaspar. Daí comecei a dar aulas de violão para moças.” Em 1928, Patrício leva-a ao microfone da Rádio Clube do Brasil (a primeira emissora comercial brasileira), onde mantém um programa. Canta acompanhada por Patrício, ganha fama. “O estúdio ficava perto do prédio da Caixa Econômica, e a gente cantava por um vidro. O speaker ficava do outro lado, sinalizando.” A cantora se embaraça para adaptar violão e voz a um mesmo microfone. “Não estava acostumada aos aparelhos.” Pelo “aquário”, a governanta alemã está de prontidão.

Para consolidar carreira, estuda harmonia com o compositor Lorenzo Fernandez. Em 1929, o empresário Fred Figner, pai de uma amiga, convida-a para gravar na Casa Edison, na cúpula do Teatro Fênix. Patrício e Canhoto, ao violão, acompanham seu primeiro disco, para o selo Odeon, com a embolada “A mosca na moça” e o samba do norte “Sá querida”, da também cantora Celeste Leal Borges. “Celeste era minha aluna de violão e sua música me agradou. Foi o começo.” O disco, lançado em dezembro de 1929, causa repercussão. Olga é recebida pela nata musical brasileira. Torna-se amiga dos cantores Francisco Alves e Carmen Miranda. Conhece os compositores Sinhô e Noel Rosa, “que não tinha o céu da boca”.

Casa-se aos 22 anos, realiza temporada na Rádio Belgrano em Buenos Aires. “Carmen me avisou que o dono da emissora explorava os cantores, e era verdade. Mas devo muito ao público de Buenos Aires.” Recorda da timidez de Francisco Alves: “Fez excursões com Patrício. Mudo em palco, tinha vergonha de repórter.” A mulher de Chico, Célia Zenatti, de tão ciumenta, não deixa o marido ser fotografado com outras mulheres. Faz exceção a Olga, por ser casada. Olga inaugura a Rádio Tupi, em 25 de setembro de 1935. O cantor mexicano Pedro Vargas aparece por lá no início do ano seguinte. “Os artistas brasileiros boicotaram Pedro e fui a única a lhe dar boas-vindas. Ficamos tão amigos que fez questão de gravar, em dueto, ‘Boi, boi, boi’ no meu terceiro disco na Victor.” A sessão aconteceu em abril e foi lançado em julho de 1936. O motivo baiano “Boi, boi, boi” figura no lado B; na face contrária, o duo interpreta “Canto de expatriação” (Humberto Porto). Na rádio, Olga se especializa em folclore planetário; apresenta um programa, no qual explica o conteúdo das canções. Não agrada a todo o mundo. Aluna da Escola Nacional de Música, é apoiada por Lorenzo Fernandez, conhece Heitor Villa-Lobos (que lhe sugere uma interpretação em acelerando do ponto Xangô, para imitar o movimento do transe das mães-de-santo), contrata aulas de canto com a russa Riva Pasternak e a italiana Gabriela Besanzoni (1890-1962) – contralto romana famosa por sua Carmen. “A voz dela era grave. Dizem que gostava de mulher”, revela. “Foi perseguida por uma fã excêntrica. Um escândalo. Mas comigo nunca houve nada. Era um modelo para mim. Fiquei frustrada quando me disseram que eu não era contralto. Gabriela me ensinou a importância da respiração.”

Com a mãe, Olga viaja a São Paulo e visita o crítico Mario de Andrade, recomendada por Fernandez, para convidá-lo para o recital. “Mario era todo empinado e afetado. Queria entender de música, mas não entendia. Recebeu-me sem educação. Fiquei de pé diante dele, sentado, embora houvesse outras cadeiras no escritório.” Mario examina o programa e exclama: “Tudo errado! A senhora deveria cantar só música brasileira!” Olga retruca: “O programa está aprovado por Fernandez, que sabe mais de música que o senhor. Aliás, o senhor pode me devolver o ingresso. É melhor que não vá ao concerto!” E se retira. O recital é um sucesso; contam-lhe que Mario estava na platéia. Crítica dele não sai no jornal. Felizmente, ele não tem influência no Rio. Com a ajuda de um fã, Macedo Soares, ministro das Relações Exteriores, Olga é nomeada por Getúlio Vargas representante da música brasileira na Europa “sem ônus para o Tesouro Nacional”. Mesmo assim, Soares paga a viagem para ela e Gaspar. O casal embarca no Graff Zeppelin rumo a Berlim, na última viagem que o dirigível faz na América. Após cinco dias no balão, chega à capital alemã a tempo de participar do encerramento das Olimpíadas. “Fui convidada ao camarote brasileiro, que ficava do lado esquerdo do de Hitler. Conheci o sujeito, que me pareceu impertinente. Recusei-me a dizer heil, Hitler.” A conselho de Villa-Lobos exige que as rádios alemãs transmitam os recitais em ondas longas para que o público local possa conhecer o folclore brasileiro. Viaja pelo continente com a exigência das ondas longas. No teatro Nacional de Budapeste, sente alívio. “Estava longe de casa. Se fosse vaiada, ninguém saberia. Aí me avisaram que Bartók estava na primeira fila. Gelei, mas depois ele foi ao camarim me elogiar. Gostou do folclore brasileiro, especialmente por causa do ritmo.”

Consagrada, de volta ao Brasil, Olga arranja mais viagens. Por indicação de Villa-Lobos e do escritor Erico Verissimo, é convidada pelo governo americano para se apresentar em Washington e Nova York. Em 1938, canta na Casa Branca para Eleanor Roosevelt e assina contrato com a RCA Victor. Ela e Gaspar se instalam num apartamento na Sétima Avenida, defronte ao Central Park. Seu concerto no Town Hall é um sucesso. A crítica solta rojões. Camargo Guarnieri a convoca para lançar árias suas, para inveja de Elsie Houston (1902-1943), soprano amiga de Mario de Andrade que, até a chegada de Olga, tinha monopólio do folclore verde-amarelo em Nova York. “Elsie falava mal de mim e brigava com todos. Era problemática. Casou-se com um barão belga, que a roubava. Terminou por se atirar do seu quarto de hotel em Manhattan, deixando o filho de 11 anos à janela e Camargo Guarnieri à espera dela na estação, pois iam fazer um recital em Washington.”

Tudo corre bem para Olga e Gaspar. Ele se emprega na CBS como locutor. Então aparece Andrés Segovia, grisalho e Don Juan. “Era fascinada por ele desde os 15 anos. Acompanhei a carreira dele pelos jornais espanhóis que Lorenzo Fernandez assinava. Ele me cumprimentou dizendo: 'A sus pies'. Irresistível. Primeiro, recebi-o no apartamento. Servi-lhe um jantar baiano e lhe apresentei uma amiga cubana assanhada. Segovia me convidou para ir a seu quarto de hotel, para me ensinar segredos de sua nova técnica de violão”, lembra. “O hotel ficava perto da minha casa. Era um quarto sem suíte, só com a cama. Ensaiávamos ali mesmo. Ele acariciava minha mão, eu resistia, e até me confessei a um padre francês na igreja de St. Patrick. Tinha o recital marcado para Washington e ele quis ir no mesmo vagão, só que Gaspar não gostou. E não é que ele se hospedou no mesmo hotel que nós?” Em Washington, o romance se revela irresistível. Olga separa-se de Gaspar e segue o violonista em suas turnês intermináveis. A partir de então, a carreira da soprano ganha força: percorre o mundo, desbrava públicos para a música brasileira, como em Báli e Nova Zelândia. Com Segovia, gera dois filhos, Miguel e Glória - que, porém, adotaram Gaspar como pai real, já que o virtuose não tinha tempo para a família. “Minha vida com Segovia durou duas décadas. Foi internacional, de hotel em hotel, até que ele, aos 70 anos, se enfeitiçou por uma aluna de 20 anos, a 'inocente' Emilia. Teve um filho com ela. Gaspar ainda vivia quando da separação. Devotou-se a meus filhos. Foi locutor até morrer. Poeta, traduziu para o português, em versos, as legendas do filme Hamlet, com Lawrence Olivier. Nunca deixou de me amar.”

A gente deve se resignar ao destino, aconselha. O dela foi pontuado por colcheias de sorte. A noite agora se completa e Olga não atenta em ligar o abajur. Despede-se na penumbra, rechaçando fontes externas de luz. Sua glória - ou desforra - é cantar vivendo.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no "Caderno Fim de Semana", da Gazeta Mercantil, a 4 de maio de 2001.


Luís Antônio Giron
São Paulo, 6/8/2007

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Palhaços e candidatos de Luís Antônio Giron


Mais Luís Antônio Giron
Mais Acessados de Luís Antônio Giron
01. Paulo Coelho para o Nobel - 21/11/2005
02. Villa-Lobos tinha dias de tirano - 3/11/2003
03. JK, um faraó bossa-nova - 6/2/2006
04. A blague do blog - 11/8/2003
05. Francisco Alves, o esquecido rei da voz - 5/8/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




REGRAS OFICIAIS DE BASQUETEBOL - 2001-2002
CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE BASQUETE
SPRINT
(2001)
R$ 10,00



ISTO NÃO É AMOR
PATRICK J. CARNES
BEST SELLER/ CÍRCULO DO LIVRO
(1991)
R$ 125,00
+ frete grátis



ALCANCE A INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA EM 30 DIAS
DÉBORA SMITH PEGUES
PROPÓSITO ETERNO
R$ 17,74



VEXAME
PAUL BLUSTEIN
RECORD
(2002)
R$ 23,00



A ELABORAÇÃO DO TEXTO - PARÁGRAFOS E TÓPICOS FRASAIS - VOL. 02
WILSON ROBERTO C. ALMEIDA
ESCALA
R$ 6,90



CREPÚSCULO / LUA NOVA / ECLIPSE / AMANHECER / A HOSPEDEIRA
STEPHENIE MEYER
INTRÍNSECA
(2009)
R$ 54,90



OS SANTOS ÍCONES. UM SINAL DA GRAÇA
CÉLIA DIAS
RCC BRASIL
(2008)
R$ 15,00



O ACASO E A NECESSIDADE
JACQUES MONOD
VOZES
(1976)
R$ 12,00



O ÚLTIMO ALQUIMISTA - CONDE DE CAGLIOSTRO, MESTRE DA MAGIA NA ERA DA RAZÃO
IAIN MCCALMAN
ROCCO
(2004)
R$ 19,75



VOCÊ A ALMA GÊMEA DO NEGÓCIO.
ROBERTO SHINYASHIKI
GENTE
(2001)
R$ 10,00





busca | avançada
32662 visitas/dia
1,1 milhão/mês