A soprano insaciável | Luís Antônio Giron

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Segunda-feira, 6/8/2007
A soprano insaciável
Luís Antônio Giron

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A soprano Olga Praguer Coelho continua a cantar, e bem, aos 92 anos, embora tenha sido esquecida pela música. É uma das deusas do canto nativo nos anos 20 e 30. Sua discografia atinge duas centenas de títulos, entre discos de 78 rotações e LPs, gravados no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Europa e até Oceania, onde realizou uma turnê, na década de 40. Um álbum duplo com alguns de seus mais importantes desempenhos deve sair até o fim do ano em Nova York pela BMG. Em 1998, Olga participou do programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo, e ainda quer gravar uma segunda parte, só com canções, para futura edição em CD. Atende o telefone de seu apartamento que fica no oitavo andar de um prédio em Laranjeiras, construído em um terreno da casa de sua infância. É fácil marcar a entrevista, e, à chegada, a empregada oferece água e café na tarde tórrida de fim de abril. Os fatos parecem correr de acordo com o roteiro combinado. Mas Olga, no papel de diva, impõe uma espera vagarosa. A empregada não vem mais e só se ouvem ordens da cantora, que arruma o penteado. Duas horas se passam e, por insistência da reportagem, Olga concede em surgir, com cabelos desfeitos e a boca manchada de batom.

Caminha com lentidão nervosa, de bengala. É seguida pela cachorra Pitucha, que pula ao seu colo tão logo se acomoda a uma cadeira. O sol despenca mais que a cotação da Nasdaq e o fotógrafo se esfalfa para pegar os restos da luz. A matéria parece fracassada. No entanto, ao ritmo do crepúsculo veloz do Rio, a conversa se avoluma e a senhora rejuvenesce à medida que as sombras maquiam-lhe o rosto. A diva desfia lembranças; possui o dom de convencer. Agora está com 3 anos, escapa do camarote dos pais e se apresenta ao chefe de orquestra de sopros de um navio alemão que leva a família de Salvador à primeira viagem à Europa. “Sou cantora!”, anuncia. O maestro ri, mas dá o sinal para os músicos atacarem os acordes de uma ária da opereta A Viúva Alegre, de Lehár. A menina canta em alemão, língua que aprendeu com a governanta, Christina Elizabeth, nascida em Heidelberg. Os pais e Álvaro, o irmão 7 anos mais velho, aplaudem o recital improvisado. Corre o ano de 1912.

Olga nasce em Manaus em 12 de agosto de 1909, mas sua família vem da Bahia. “Meu pai, o doutor Antônio Barreto Praguer, detestava o fato de eu ter nascido no Amazonas e fez questão de que eu fosse batizada em Salvador.”

As informações se atropelam. A memória erra por um mundo perdido que só figura nos livros, discos e filmes. A voz está quatro ou cinco graus mais grave, mas se assemelha àquela que fascinou o compositor Béla Bartók em Budapeste em 1936 com uma abordagem feroz do ponto de macumba Xangô – seu maior êxito.

Olga acompanha-se ao violão, cujos rudimentos aprendeu com Patrício Teixeira (1893-1972), mito do samba e um dos pioneiros da era elétrica. Aliás, Olga inaugurou a tecnologia ortofônica de gravação e o rádio... Para não falar de sua feérica vida amorosa: bela, talentosa e cobiçada por astros e estrelas, abandonou o casamento com o poeta Gaspar Coelho, no fim dos anos 30, em Nova York, para viver com o violonista espanhol Andrés Segovia (1893-1987). Caprichos da fatalidade.

Olga pensa que as origens familiares lhe deram parte de sua fortuna. O avô, o engenheiro Heinrich Prager, nasceu em Viena e aportou na Bahia por volta de 1880. O céu lhe remeteu à Côte D'Azur. Resolveu se instalar em Salvador, onde constituiu família. A mãe de Olga, Edelvina Alves Praguer, Lulita, queria seguir carreira como pianista e, até o episódio do navio, não imaginava o talento da filha. “Os músicos tocavam de pé e eu cantei em cima de uma mesa. Um sucesso!” Lulita passou a lhe dar aulas de piano. Aos 12 anos, mudou-se com a família para o Rio porque o pai assumiu a direção de um hospício. Olga trouxe consigo um repertório de modinhas antigas. “Papai cantava ao violão essas modinhas, que aprendeu com os escravos. Mas não queria que tocássemos pois achava que era instrumento de capadócio”, diz, explicando que “capadócios” eram os malandros que viviam de vender músicas.

Conta 13 anos quando o tio baiano, em visita ao Rio, lhe dá 60 mil réis. Com o dinheiro, Olga resolve comprar um violão. Escoltada pelo tio, vai à loja A Guitarra de Prata, na rua da Carioca. Lá, um balconista negro escolhe um bom instrumento e ela começa a ensaiar, escondida do pai, com a complacência de Lulita. “'O violão ficava na despensa da cozinha.” O pai flagra-a dedilhando o instrumento sobre a mesa da cozinha e ordena que ela o devolva à loja. “Mas acabou cedendo por causa do doutor Miguel Couto, amigo dele, que aceitou trabalhar para mim a fim de convencê-lo.”

O pai manda chamar Patrício Teixeira, afamado professor de violão das moças da sociedade. “Era um negro com linda voz de barítono. Arnaldo Guinle o descobriu. Trabalhava como chofer dele. Aí Arnaldo o despachou para a vida artística. Falava bem e ensinava eu e meu irmão por cifras de acordes.” Aos 15 anos, por estímulo do professor, estréia num palco, num dos prédios da Exposição de 1922, no centro do Rio, em espetáculo promovido pela poetisa Ana Amélia Carneiro de Mendonça. Logo se dá um recital, acompanhando-se ao violão, na Escola Nacional de Música. “Papai ficou furioso, mas se emocionou.”

Conhece o poeta Gaspar e se apaixonam. “Queríamos casar, mas ele era pobre. Tive de convencer meu pai de que podia trabalhar para ajudar Gaspar. Daí comecei a dar aulas de violão para moças.” Em 1928, Patrício leva-a ao microfone da Rádio Clube do Brasil (a primeira emissora comercial brasileira), onde mantém um programa. Canta acompanhada por Patrício, ganha fama. “O estúdio ficava perto do prédio da Caixa Econômica, e a gente cantava por um vidro. O speaker ficava do outro lado, sinalizando.” A cantora se embaraça para adaptar violão e voz a um mesmo microfone. “Não estava acostumada aos aparelhos.” Pelo “aquário”, a governanta alemã está de prontidão.

Para consolidar carreira, estuda harmonia com o compositor Lorenzo Fernandez. Em 1929, o empresário Fred Figner, pai de uma amiga, convida-a para gravar na Casa Edison, na cúpula do Teatro Fênix. Patrício e Canhoto, ao violão, acompanham seu primeiro disco, para o selo Odeon, com a embolada “A mosca na moça” e o samba do norte “Sá querida”, da também cantora Celeste Leal Borges. “Celeste era minha aluna de violão e sua música me agradou. Foi o começo.” O disco, lançado em dezembro de 1929, causa repercussão. Olga é recebida pela nata musical brasileira. Torna-se amiga dos cantores Francisco Alves e Carmen Miranda. Conhece os compositores Sinhô e Noel Rosa, “que não tinha o céu da boca”.

Casa-se aos 22 anos, realiza temporada na Rádio Belgrano em Buenos Aires. “Carmen me avisou que o dono da emissora explorava os cantores, e era verdade. Mas devo muito ao público de Buenos Aires.” Recorda da timidez de Francisco Alves: “Fez excursões com Patrício. Mudo em palco, tinha vergonha de repórter.” A mulher de Chico, Célia Zenatti, de tão ciumenta, não deixa o marido ser fotografado com outras mulheres. Faz exceção a Olga, por ser casada. Olga inaugura a Rádio Tupi, em 25 de setembro de 1935. O cantor mexicano Pedro Vargas aparece por lá no início do ano seguinte. “Os artistas brasileiros boicotaram Pedro e fui a única a lhe dar boas-vindas. Ficamos tão amigos que fez questão de gravar, em dueto, ‘Boi, boi, boi’ no meu terceiro disco na Victor.” A sessão aconteceu em abril e foi lançado em julho de 1936. O motivo baiano “Boi, boi, boi” figura no lado B; na face contrária, o duo interpreta “Canto de expatriação” (Humberto Porto). Na rádio, Olga se especializa em folclore planetário; apresenta um programa, no qual explica o conteúdo das canções. Não agrada a todo o mundo. Aluna da Escola Nacional de Música, é apoiada por Lorenzo Fernandez, conhece Heitor Villa-Lobos (que lhe sugere uma interpretação em acelerando do ponto Xangô, para imitar o movimento do transe das mães-de-santo), contrata aulas de canto com a russa Riva Pasternak e a italiana Gabriela Besanzoni (1890-1962) – contralto romana famosa por sua Carmen. “A voz dela era grave. Dizem que gostava de mulher”, revela. “Foi perseguida por uma fã excêntrica. Um escândalo. Mas comigo nunca houve nada. Era um modelo para mim. Fiquei frustrada quando me disseram que eu não era contralto. Gabriela me ensinou a importância da respiração.”

Com a mãe, Olga viaja a São Paulo e visita o crítico Mario de Andrade, recomendada por Fernandez, para convidá-lo para o recital. “Mario era todo empinado e afetado. Queria entender de música, mas não entendia. Recebeu-me sem educação. Fiquei de pé diante dele, sentado, embora houvesse outras cadeiras no escritório.” Mario examina o programa e exclama: “Tudo errado! A senhora deveria cantar só música brasileira!” Olga retruca: “O programa está aprovado por Fernandez, que sabe mais de música que o senhor. Aliás, o senhor pode me devolver o ingresso. É melhor que não vá ao concerto!” E se retira. O recital é um sucesso; contam-lhe que Mario estava na platéia. Crítica dele não sai no jornal. Felizmente, ele não tem influência no Rio. Com a ajuda de um fã, Macedo Soares, ministro das Relações Exteriores, Olga é nomeada por Getúlio Vargas representante da música brasileira na Europa “sem ônus para o Tesouro Nacional”. Mesmo assim, Soares paga a viagem para ela e Gaspar. O casal embarca no Graff Zeppelin rumo a Berlim, na última viagem que o dirigível faz na América. Após cinco dias no balão, chega à capital alemã a tempo de participar do encerramento das Olimpíadas. “Fui convidada ao camarote brasileiro, que ficava do lado esquerdo do de Hitler. Conheci o sujeito, que me pareceu impertinente. Recusei-me a dizer heil, Hitler.” A conselho de Villa-Lobos exige que as rádios alemãs transmitam os recitais em ondas longas para que o público local possa conhecer o folclore brasileiro. Viaja pelo continente com a exigência das ondas longas. No teatro Nacional de Budapeste, sente alívio. “Estava longe de casa. Se fosse vaiada, ninguém saberia. Aí me avisaram que Bartók estava na primeira fila. Gelei, mas depois ele foi ao camarim me elogiar. Gostou do folclore brasileiro, especialmente por causa do ritmo.”

Consagrada, de volta ao Brasil, Olga arranja mais viagens. Por indicação de Villa-Lobos e do escritor Erico Verissimo, é convidada pelo governo americano para se apresentar em Washington e Nova York. Em 1938, canta na Casa Branca para Eleanor Roosevelt e assina contrato com a RCA Victor. Ela e Gaspar se instalam num apartamento na Sétima Avenida, defronte ao Central Park. Seu concerto no Town Hall é um sucesso. A crítica solta rojões. Camargo Guarnieri a convoca para lançar árias suas, para inveja de Elsie Houston (1902-1943), soprano amiga de Mario de Andrade que, até a chegada de Olga, tinha monopólio do folclore verde-amarelo em Nova York. “Elsie falava mal de mim e brigava com todos. Era problemática. Casou-se com um barão belga, que a roubava. Terminou por se atirar do seu quarto de hotel em Manhattan, deixando o filho de 11 anos à janela e Camargo Guarnieri à espera dela na estação, pois iam fazer um recital em Washington.”

Tudo corre bem para Olga e Gaspar. Ele se emprega na CBS como locutor. Então aparece Andrés Segovia, grisalho e Don Juan. “Era fascinada por ele desde os 15 anos. Acompanhei a carreira dele pelos jornais espanhóis que Lorenzo Fernandez assinava. Ele me cumprimentou dizendo: 'A sus pies'. Irresistível. Primeiro, recebi-o no apartamento. Servi-lhe um jantar baiano e lhe apresentei uma amiga cubana assanhada. Segovia me convidou para ir a seu quarto de hotel, para me ensinar segredos de sua nova técnica de violão”, lembra. “O hotel ficava perto da minha casa. Era um quarto sem suíte, só com a cama. Ensaiávamos ali mesmo. Ele acariciava minha mão, eu resistia, e até me confessei a um padre francês na igreja de St. Patrick. Tinha o recital marcado para Washington e ele quis ir no mesmo vagão, só que Gaspar não gostou. E não é que ele se hospedou no mesmo hotel que nós?” Em Washington, o romance se revela irresistível. Olga separa-se de Gaspar e segue o violonista em suas turnês intermináveis. A partir de então, a carreira da soprano ganha força: percorre o mundo, desbrava públicos para a música brasileira, como em Báli e Nova Zelândia. Com Segovia, gera dois filhos, Miguel e Glória - que, porém, adotaram Gaspar como pai real, já que o virtuose não tinha tempo para a família. “Minha vida com Segovia durou duas décadas. Foi internacional, de hotel em hotel, até que ele, aos 70 anos, se enfeitiçou por uma aluna de 20 anos, a 'inocente' Emilia. Teve um filho com ela. Gaspar ainda vivia quando da separação. Devotou-se a meus filhos. Foi locutor até morrer. Poeta, traduziu para o português, em versos, as legendas do filme Hamlet, com Lawrence Olivier. Nunca deixou de me amar.”

A gente deve se resignar ao destino, aconselha. O dela foi pontuado por colcheias de sorte. A noite agora se completa e Olga não atenta em ligar o abajur. Despede-se na penumbra, rechaçando fontes externas de luz. Sua glória - ou desforra - é cantar vivendo.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no "Caderno Fim de Semana", da Gazeta Mercantil, a 4 de maio de 2001.


Luís Antônio Giron
São Paulo, 6/8/2007

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