Imagens do Grande Sertão de Guimarães Rosa | Pedro Maciel

busca | avançada
54617 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Projetos culturais e acessibilidade em arte-educação em cursos gratuitos
>>> Indígenas é tema de exposição de Dani Sandrini no SESI Itapetininga
>>> SESI A.E. Carvalho recebe As Conchambranças de Quaderna, de Suassuna, em sessões gratuitas
>>> Sesc Belenzinho recebe cantora brasiliense Janine Mathias
>>> Natália Carreira faz show de lançamento de 'Mar Calmo' no Sesc Belenzinho
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
>>> Epitáfio do que não partiu
>>> Efeitos periféricos da tempestade de areia do Sara
>>> Mamãe falhei
>>> Sobre a literatura de Evando Nascimento
>>> Velha amiga, ainda tão menina em minha cabeça...
>>> G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas
>>> O último estudante-soldado na rota Lisboa-Cabul
Colunistas
Últimos Posts
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
>>> Trader, investidor ou buy and hold?
>>> Slayer no Monsters of Rock (1998)
>>> Por que investir no Twitter (TWTR34)
>>> Como declarar ações no IR
Últimos Posts
>>> Auto estima
>>> Jazz: 10 músicas para começar
>>> THE END
>>> Somos todos venturosos
>>> Por que eu?
>>> Dizer, não é ser
>>> A Caixa de Brinquedos
>>> Nosferatu 100 anos e o infamiliar em nós*
>>> Sexta-feira santa de Jesus Cristo.
>>> Fé e dúvida
Blogueiros
Mais Recentes
>>> À beira do caminho
>>> Monteiro Lobato, a eugenia e o preconceito
>>> Vale Emprego
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> internet jornalismo revolução
>>> Façam suas apostas
>>> Estômago, com João Miguel
>>> A política brasileira perdeu a agenda
>>> Iniciantes, de Raymond Carver
>>> A Teoria de Tudo
Mais Recentes
>>> Guia de Elegância de uma Reles Mortal de Helena Perim Costa pela Matrix (2006)
>>> O Processo Civil na Prática do Advogado e Tribunais Vol 2 de Iêdo Batista Neves pela Fase (1990)
>>> O Luar na Avenida da Fé de Gina Barkhordar Nahai pela Geração Editorial (2002)
>>> Projeto Emaus - Ensino Religioso - 9º Ano de Dalcides Biscalquin; Ediçoes Sm pela Sm Didáticos (2013)
>>> Moderna Plus. Literatura. Tempos, Leitores e Leituras Parte 1 de Maria Luiza M. Abaurre pela Moderna (2011)
>>> Tóxicos de Celso Delmanto pela Saraiva (1982)
>>> Jscript - Guia de Consulta Rápida de Edgard B. Damiani pela Novatec
>>> Benetton - a Família, a Empresa e a Marca de Jonathna Mantle pela Nobel (1999)
>>> A Grande Cozinha - Cozinha na Frigideira de Roberto Civita pela Abril
>>> A Teoria Social e Ambiente de Instituto Piaget pela Instituto Piaget (1998)
>>> As Noticias + Malucas do Planeta de Alessandro Bender pela Paris (2004)
>>> Jonas - o Contador de Histórias - Contos Selecionados de Jorge Pedreira de Cerqueira pela Lorenz (2013)
>>> Lei de Murphy de Gerenciamento de Projetos de Eduardo Gorges pela Brasport (2007)
>>> Atitudes Vencedoras de Carlos Hilsdorf pela Senac Sp (2003)
>>> Indomada de P. C. Cast; Kristin Cast pela Novo Seculo Sp (2010)
>>> Sagrados Corações de Sarah Dunant pela Record
>>> The Origin of Species By Mean of Natural Selection - the Descent of Ma de Charles Darwin pela Great Books
>>> A História da Felicidade de Marleine Cohen pela Saraiva
>>> Sarcoidosis: Clinical Management de Om P. Sharma pela Butterworth-heinemann (1984)
>>> Análise das Demonstrações de Ricardo J. Ferreira pela Ferreira (2007)
>>> Sic Ginecologia e Obstetrícia - Obstetrícia Vol. 1 de Fábio Roberto pela Medcel (2016)
>>> Moderne Und Postmoderne: Architektur Der Gegenwart de Architektur Der Gegenwart pela Vieweg+teubner Verlag (1988)
>>> Master Curse: o Super Cursão de Inglês de Antonio Lopes pela New York Ed
>>> Correio Braziliense Ou Armazem Literario, V. 24 de Hipólito José da Costa pela Imprensa Oficial do Estado (2002)
>>> Trouble At the Zoo - Level 2 de Rob Waring pela Thomson Heinle (2006)
ENSAIOS

Segunda-feira, 14/7/2003
Imagens do Grande Sertão de Guimarães Rosa
Pedro Maciel

+ de 17700 Acessos
+ 4 Comentário(s)

“Grande Sertão: Veredas” (1956), de Guimarães Rosa, clássico da literatura brasileira deste século, inspirou o artista plástico Arlindo Daibert (1952-1993) a criar uma série exemplar de imagens do sertão. Daibert, em “Imagens do Grande Sertão”; Editora UFMG e UFJF, reinventou a paisagem remota do sertão, onde “o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. Lugar não-localizável. Lugar lúdico, metafísico, fabuloso, ligado à oralidade e ao mito. “Ilhas sem lugar”, como bem definiu Fernando Pessoa.

Os desenhos de Daibert nos remetem a um lugar assombrado, de um falar incomum, habitado por Riobaldo, o Urutú-Branco, Diadorim, cordeiro de Deus, Hermógenes, o diabo, o menino Guirigó, o cego Borromeu e Maria Boa-sorte, entre tantos outros personagens místicos, que traçam uma espécie de roteiro de Deus. Riobaldo diz que “às vezes a gente só pode ver o aproximo de Deus na figura do outro”.

O artista Daibert recria cenas como a matança dos cavalos, o duelo, o pacto do diabo; reescreve (a escrita é um caso particular do desenho, segundo Michel Butor) o mundo imaginário de Riobaldo que “conto para mim, conto para o senhor” (interlocutor letrado que nunca aparece), “uma história no meio das outras. Ao quando bem não me entender, me espere.”

Daibert, que já havia dedicado uma série ao “Macaunaíma” de Mário de Andrade, apresenta uma mostra pictórica espetacular em “Imagens do Grande Sertão”, a partir de uma variedade de procedimentos, como a xilogravura, desenho com várias técnicas e objetos. A série é resultado de um prolongado estudo do universo mágico redescoberto por Guimarães.

“Grande Sertão: Veredas” é um manual de satanismo, ação lendária, epopéia/saga do sertão e seus vazios, que é o profundo da gente mesmo; reescritura dos romances medievais, épico, discussão entre Deus e o diabo.

Riobaldo, o narrador, ex-jagunço, barranqueiro que faz um pacto com o diabo, diz: “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver — a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo (...) Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga.”

A última fala de Riobaldo a um ouvinte imaginário diz que “o diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.” A travessia do velho Riobaldo resgata uma época arcaica, anterior à escrita; rememora um tempo mítico através de histórias inimagináveis. Afinal, só não existe o que não se pode imaginar.

Diadorim, neblina de Riobaldo, é a razão dessas histórias contadas, “e estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder.”

O que sucede com o jagunço Riobaldo Tatarana, o homem sem apego nenhum, “sem pertencências”, são recordações que não se vê a olho nu, estórias sonhadas com lugares que já não são mais os mesmos, perdidos para sempre, mas achados nos escondidos dos devaneios.

Riobaldo retorna a esses lugares, como se, “tudo revendo, refazendo, eu pudesse receber outra vez o que não tinha sido, repor Diadorim em vida”. Diadorim é Reinaldo, homem-mulher, objeto de seu desejo, sua paixão pecadora, que só é descoberta como mulher após morrer lutando contra Hermógenes. Riobaldo então se pergunta: “O senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá!? Pode vir de um-que-não existe?”

A história vivida pelo barranqueiro Riobaldo, que fugia de tiro certo, virava longe no mundo, pisava espaços para correr de tiro dado, fazia todas as estradas para viver um pouquinho mais de instantes ao lado de Diadorim, que “tinha amor em mim” e, morreu desencantada, “num encanto tão terrível”.

Riobaldo quase endoidou-se ao saber que Diadorim era uma mulher. “Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero”, que, por Diadorim, “às vezes conheci que a saudade dele não me desse repouso; nem o nele imaginar. Porque eu, em tanto viver de tempo, tinha negado em mim aquele amor, e a amizade desde agora estava amarga falseada; e o amor, e a pessoa dela, mesma, ela tinha me negado. Para quê eu ia conseguir viver?”

Nota do Editor
Ensaio gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Jornal do Brasil, a 19 de junho de 1999.


Pedro Maciel
Belo Horizonte, 14/7/2003

Mais Pedro Maciel
Mais Acessados de Pedro Maciel
01. Italo Calvino: descobridor do fantástico no real - 8/9/2003
02. A arte como destino do ser - 20/5/2002
03. Antônio Cícero: música e poesia - 9/2/2004
04. Imagens do Grande Sertão de Guimarães Rosa - 14/7/2003
05. Nadja, o romance onírico surreal - 10/3/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/8/2003
12h15min
Acho que "Grande Sertão: Veredas" é mais do que o ápice de um grande mestre da Literatura Brasileira. Para mim "Grande Sertão: Veredas" representa o ápice da forma, do "logos", em toda a Literatura Mundial! Que outro escritor dominou, sobrepujou, derreteu, forjou, temperou... até transformar a Língua, até recriá-la... como um instrumento único, vivo e distinto de expressão? Que outro escritor ousou (e conseguiu!) alcançar as inconcebíveis profundidades abissais ao buscar o que é apenas intuído pelo homem mas jamais revelado... e em um exercício visionário de roçar as profundidades ocultas do universo humano, decidiu resvalar em um ser-não-ser que é, e também não é, mas que mesmo assim é tudo, e pode não ser nada? O mundo de Guimarães Rosa é o mundo de todo mundo, da gente comum que vive a aventura incomum de tentar entender... o que não pode ser entendido. O amor, em "Grande Sertão: Veredas", atinge uma dimensão tão complexa em toda a simplicidade simplória da vida vivida bruta, que ao leitor atônito, o ato de virar mais uma página do livro se converte em um gesto de aventura: é preciso reunir coragem para ler mais, sentir, tentar entender toda a magia absurda de um universo tão próximo e tão distante, feito de terra, de pobreza, de ignorância, de sabedoria, de valentia, de amor impossível de entender de tão grande, tão grande, feio e bonito quanto o sertão primitivo que o gerou. João Guimarães Rosa ainda não foi descoberto. Nem mesmo no Brasil.
[Leia outros Comentários de Roberto Ferreira Val]
21/8/2003
17h33min
Caro Pedro Maciel:gostei de seu artigo, relembrança de duas personalidades -Arlindo Daibert e Guima- o Daibert foi um grande artista e era formado em literatura,caso raro na arte brasileira. Quanto ao Guimarães Rosa,sua prosa poética,nascida do jeito de falar do sertão somada ao conhecimento que tinha da língua alemã, não há adjetivos que o qualifiquem.Valeu a lembrança de duas personalidades que já começam a ficar esquecidas.AB
[Leia outros Comentários de AlbertoBeuttenmüller]
18/9/2008
10h52min
Acho que nunca iremos cansar de falar sobre/em "Grande Sertão: Veredas", onde Guimarães Rosa faz uma recriação magnífica e audaciosa da linguagem em forma de espetáculo, para que nós, leitores, possamos degustar gota a gota, "recondicionando-a" inventivamente, saindo do lugar-comum a fim de dar maior grandeza ao discurso. Toda a narrativa é marcada pela oralidade (Riobaldo conta seus casos a um interlocutor), portanto, sem possibilidades de ser reformulado, já que é emitido instantaneamente. Ainda tem-se as dúvidas do narrador e suas divagações, onde é percebida a intenção de Riobaldo em reafirmar o que diz utilizando a própria linguagem. O falar mineiro, delicioso e dengoso, associado a arcaísmos, brasileirismos e neologismos faz com que o autor extrapole os limites geográficos de Minas. A linguagem ultrapassa os limites "prosaicos" para ganhar dimensão poético-filosófica.
[Leia outros Comentários de Maria Generosa]
18/9/2008
15h12min
Bem merece um exemplar de imagens dos sertões a obra de Guimarães Rosa. Não conheço na literatura brasileira força do verbo que ultrapasse "Grande Sertão: veredas". Certamente adquiro um exemplar da obra de Arlindo Daibert em breve!
[Leia outros Comentários de Sílvio Medeiros]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Curso Preparatório Enem - Ciências Humanas História II Vol 12
Abril
Abril
(2010)



Reuniões Podem Funcionar - o Novo Método de Interação
Michael Doyle David Straus
Summus
(1976)



Intimas...! Notas Pessoais de Meditação
Lopez Arroniz
Santuário de Aparecida
(1969)



O Poder de Deus e a Força dos Santos
Eli Corrêa
Eli Corrêa
(2007)



Discurso de Primavera e Algumas Sombras
Carlos Drummond de Andrade
Record
(1977)



Five Little Pigs
Agatha Christie
Harper Collins
(2009)



O Controle Ideológico na Usp (1964-1978)
Outros; Heloísa Daruiz Borsari
Adusp
(2004)



The Splintered Kingdom - a Novel
James Aitcheson
Source Books Landmark
(2014)



Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas
Wanderley Oliveira pelo espírito Ermance Dufaux
Harmonia interior
(2011)



Contos Surrealistas e Satíricos
Alberto Moravia
Difel
(1986)





busca | avançada
54617 visitas/dia
1,8 milhão/mês