Quarta-feira,
4/3/2009 Na Natureza Selvagem, de Sean Penn Julio
Daio Borges
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Digestivo nº 405 >>>
“A alegria de viver surge nos nossos encontros com novas experiências, e, portanto, não existe felicidade maior do que a de ter um horizonte em constante mutação, e, para cada dia, ter um novo e diferente sol”. Assim falava Alexander Supertramp. Depois de se formar, Christopher McCandless resolveu mandar uma banana para seus pais “materialistas, manipuladores e dominadores”, destruiu todos seus cartões de crédito, livrou-se de todos seus documentos e doou suas últimas economias para uma instituição de caridade, a fim de sair numa cruzada solitária pelos Estados Unidos da América, tendo, como objetivo final, viajar até o Alasca e vivenciar sua natureza selvagem em primeira mão. Até aí nenhuma novidade, em termos de ambição, não tivesse McCandless existido de fato – e realizado tal façanha, rompendo com a família por mais de dois anos, e morrendo, de inanição e fome (por descuido), no mesmo Alasca, sem nunca mais retornar. Foi no início dos anos 90. Jon Krakauer transformou em livro, em 1996, Sean Penn transformou em filme (roteirizando e dirigindo), no ano retrasado, e agora podemos assistir em DVD, com trilha premiada de Eddie Vedder e atuação “hipnótica” (segundo Roger Ebert) de Emile Hirsch – como “Alex Supertramp”, codinome de Christopher McCandless, em sua jornada vertiginosa e fatal. Leitor de Tolstói, Thoreau e Jack London, “Surpertramp” deixaria, ainda, um diário, cartas e máximas quase filosóficas: “Tantas são as pessoas que vivem infelizes e que, contudo, não tomam a iniciativa de mudar sua própria vida – afinal, estão condicionadas a uma existência de 'segurança, conformismo e conservadorismo'; os quais, aparentemente, trazem paz de espírito – embora, na realidade, nada possa haver de mais danoso ao espírito humano do que um 'futuro seguro'”. Paisagens deslumbrantes e personagens exóticos completam o quadro. A crítica foi praticamente unânime. Afinal de contas, não é todo dia que “o melhor ator de sua geração” realiza, na direção e no roteiro, um projeto tão pessoal.
>>> Into the Wild
"Na natureza selvagem" é mesmo um belíssimo filme. A cena da capa do DVD é emblemática, no sentido de que Supertramp queria muito mais da vida, muito mais do que o conforto, a família e as pessoas ao seu redor poderiam oferecer. Sean Penn acertou em cheio ao escolher Emile e pontua o filme com trechos de desilusão, esperança e amizade. Afinal, como conclui o próprio, são os encontros com as pessoas que realmente valem a pena na vida. Ótimo poder conhecer Alexander Supertramp e sua viagem.
tô na espreita pra ver se passa na minha cidade... até por outros filmes "parecidos" que gosto - "inocência selvagem", "dersu uzala", "homem urso", "montanha dos gorilas" - mas, sem deslumbramento, quero entender essa de morrer de fome por descuido, parece morrer como escravo do senhor liberdade e bem maltratado - bad trip. fora ideias religiosas, Francisco (o de Assis) fez o mesmo, sofreu muito e curtiu muito mais cercado de Clara e amigos... ah, sim, o Sean Penn tem valido cada vez mais o ingresso e/ou a locadora (eu e meu filho assistiremos ainda umas quatro ou cinco vezes "I'am Sam") construindo uma bela e sólida carreira, depois de sandices juvenis rsrsrs - very good trip!
A vida, que muitos passam anos procurando, Chris MacCandless encontrou em quase 1/4 de século. Qual o sentido da vida, afinal? Encontrar seu caminho - ainda que seja breve e viver conforme as escrituras -, ou lutar para viver um século sem encarar a vida de frente, se escondendo pelos cantos e driblando a morte? Li o livro "Into The Wild - O Lado Selvagem" e assisti ao filme "Na natureza Selvagem". Acredito que ele tenha encontrado, em sua breve jornada, a paz interior, deixando um rastro de otimismo e amizades verdadeiras, encontrando a luz que todos buscamos e morrendo com a paz espiritual almejada. Excelente texto, Borges, principalmente pelo desfecho.
Bem, eu não gosto do Sean Penn, principalmente depois que ele deixou de ser um bom ator de comédias e resolveu provar que é capaz de ter uma profundidade intelectual qualquer, emulando Ingmar Bergman ou algo assim. O filme não se sustenta em seu roteiro triste e rígido (sim, rígido), é monótono e o brilho (se tiver algum) vem exclusivamente da fotografia. Diálogos previsíveis, situações previsíveis, déjà-vu e o final borocochô que Sean Penn prepara pacientemente para incomodar os espectadores. Como sempre. Incomodar o público é uma intenção e já deixou de ser lugar comum para se tornar cacoete dos cabeções anos 60. Ou seja, dá um pouco de preguiça de Sean Penn. Mas eu também tenho uma preguiça mortal só com a idéia básica do BBB, por exemplo. E a audiência é enorme. Acho que sou mais outsider do que Sean Penn é capaz de imaginar, eheheh. Além disso, e para ninguém me acusar de intelequitual, o Sean Penn tem uma cara de chupa ovo.
Belíssismo filme... Mas me parece que a "lição" é dizer que não existe possibilidade de retorno à natureza, pois o mito da pureza dela é destruído quando ele é envenenado pela própria natureza ao comer uma planta, que, sem as informações dos livros (domínio da ciência sobre a natureza), se tornou fatal para ele. A natureza é um mito. E é um perigo, pois cria e destrói na mesma medida. O que é da natureza o homem não come.
Graças a Deus tenho ranço de hiponguice encrustado e quando vi a capa do filme, fui direto nele. Depois que fui ver que era do Sean Penn. Fiquei embasbacada. Muito forte, muito bom. E aconteceu uma gracinha, ainda: enquanto eu o via, quis me fotografar e o fiz. Tirei um autoretrato pela primeira vez assim: vendo um filme. De tão mexida que fiquei. A hiponguice de novo "gritou", achei lindo!
O livro ainda é melhor, assim como "No ar rarefeito". O que Krakauer quer discutir não é a constatação de que a sociedade é ruim e que é justificável romper paradigmas. Este é um ideal romântico. Em ambos os livros (e no filme excepcional) este ideal se choca com o mundo real. Até que ponto um ideal romântico justifica uma atitude extrema?