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COLUNAS

Quarta-feira, 26/10/2005
Sobre o gênio que é Harold Pinter
Guilherme Conte
+ de 3400 Acessos

No último dia 13 de outubro o brilhante dramaturgo inglês Harold Pinter ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Poucas escolhas poderiam ser tão acertadas. Não só pelo merecidíssimo reconhecimento de seu trabalho, mas pelos efeitos que uma premiação dessa envergadura carregam.

Pinter, nascido em 1930, é o principal dramaturgo da segunda metade do século XX. Seu texto é cortante e toca fundo na alma. Sempre com golpes precisos, atinge em cheio nas dificuldades inerentes às relações humanas. Ele mostra que viver é uma arte difícil, que exige sensibilidade.

Sua obra é muito pouco conhecida por aqui. Só há uma peça traduzida e publicada: Volta ao Lar, assinada com a habitual competência por Millôr Fernandes, e já há muito esgotada – circulou nos anos 1970 na bela coleção Teatro Vivo, da Abril. É disputada a tapa por freqüentadores de sebos.

A nossa imprensa em geral, como de praxe, bobeou (com algumas exceções, a exemplo de Mario Sérgio Conti, na NoMínimo). A imensa maioria das matérias sobre o prêmio discutiu o “lado político” de Pinter, que esculhambou recentemente Tony Blair e George Bush e se posicionou contra a invasão do Iraque.

Ok, a Academia Sueca tem se mostrado propensa, sobretudo nos últimos anos, a premiar gente que se destacou também pela atuação política. Não só escritores, mas cientistas também. Mas no caso de Pinter isso é o de menos. Sua obra é genial, de um raro talento na escrita para teatro, e ponto final. É só dar uma olhada no parecer da Academia, justificando a escolha:

"(...)Pinter devolveu o teatro a seus elementos básicos: um espaço fechado e um diálogo imprevisível, onde as pessoas perdoam umas às outras e onde não há lugar para a ambição."

Tradicionalmente os dramaturgos (e os também romancistas, mas que primaram pelo trabalho nos palcos) são marginalizados pelo Nobel. Dá para contar nos dedos: Bernard Shaw, Pirandello, O’Neill, Beckett e, mais recentemente, Dario Fo. A escolha de Pinter vem também para dar fôlego àqueles que se embrenham nessa difícil seara que é o teatro. Um texto para ser lido, falado, encenado.

A ausência de Pinter, tanto em nossas livrarias quanto em nossos palcos, é um absurdo imperdoável. Daqueles casos inexplicáveis que o Brasil tem de monte. Seguimos quase que totalmente à margem de obras de uma importância inestimável, fundamentais para as artes e para o pensamento contemporâneo de um modo geral.

É por isso que devemos aplaudir iniciativas de gente como Alexandre Tenório e de Denise Weinberg, de quem tratei em texto anterior, ou Ítalo Rossi, que encaram os textos difíceis e herméticos de Pinter com uma obstinação admirável. Mesmo que, muitas vezes, para pequenas platéias. Por quê? Porque ele tem que ser montado!

Teatro é reflexão. Tem que incomodar, fazer pensar, estimular a discussão. Bom teatro não é aquele que te dá certezas, mas aquele que te enche de dúvidas. Sófocles, Shakespeare, Bernard Shaw, Strindberg – todos, de alguma forma, inquietaram seus espectadores e continuam incomodando até hoje. Harold Pinter não encontra, atualmente, paralelo à altura neste papel.

Ficam os votos de que nossas editoras comecem a dar a Pinter sua devida importância. E que nossos diretores, atores, encenadores e produtores resolvam cada vez mais encarar esta dura e magistral obra. É um tesouro praticamente intocado.

Para ir além
http://www.haroldpinter.org

Notas

* E já que o momento é de preencher lacunas históricas, a Cosac & Naify lança com toda a pompa Esperando Godot, de Samuel Beckett, uma das maiores peças de todos os tempos. A exemplo de Volta ao Lar, de Pinter, a única tradução que havia de Godot por estas bandas era do onipresente Millôr, na mesmíssima coleção Teatro Vivo. A célebre história dos dois vagabundos que passam o tempo a esperar Godot, que já foi classificada como “a certidão de óbito da esperança”, ganha agora luxuosa edição. A tradução fica a cargo de Fábio de Souza Andrade, maior especialista em Beckett no Brasil atualmente. Ele já havia assinado a tradução de Fim de Partida, pela mesma editora, e escreveu um dos melhores estudos sobre a obra beckettiana: O Silêncio Possível, pela Ateliê Editorial. Esperando Godot é mais que necessária. É imprescindível.

* O Armazém Companhia de Teatro aportou em São Paulo com seu espetáculo A Caminho de Casa (SESC Belenzinho / R. Álvaro Ramos, 915 / (11) 6602-3700 / Sexta, 21h; sábado e domingo, 20h / R$ 15,00 / Até 13/11). São três histórias, ligadas por um atentado, que colocam a fé no centro de seus questionamentos. A primeira, de longe a melhor de todas, é um engarrafamento gigantesco (inspirada em A auto-estrada do sul, conto de Júlio Cortázar). A segunda conta a história de um menino judeu e um velho sufi. A terceira, fraca, é o diálogo entre a mãe de um homem-bomba e Deus. O texto, de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, também diretor da peça (e que dirige, também em SP, no SESC Consolação, O Pequeno Eyolf, de Henrik Ibsen), é bom e levanta questões interessantes. Visualmente muito bonito.

* Três mulheres, “amigas para sempre”, em diferentes momentos de suas vidas, se cruzando em diversos chás: de panela, de despedida, de bebê etc. Suas relações, as indas e vindas, as dificuldades, as descobertas, os diversos homens que encontram. Vontades, desejos, frustrações. É nesse universo que se encontra Chá de Setembro, de Júlio Conte (não, não é meu parente). No elenco, Lara Córdula, Lulu Pavarin, Mara Faustino e Nelson Baskerville. A direção é de Marcos Cardelíquio (em cartaz no Auditório da Aliança Francesa / R. Gal. Jardim, 182 / (11) 3188-4141 / Sábado e domingo, 18h / R$ 30,00 / Até 18/12). Um texto sensível, bem humorado e com momentos de emoção. Bonito.


Guilherme Conte
São Paulo, 26/10/2005

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