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COLUNAS

Sexta-feira, 3/11/2006
A volta do drugui
Luiz Rebinski Junior

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+ 1 Comentário(s)

Nova edição de Laranja Mecânica tenta dar sobrevida a um clássico engolido por uma versão cinematográfica primorosa

Laranja Mecânica (Aleph, 2004, 224 págs.) é comumente colocado ao lado de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, como parte de uma trilogia de livros que vislumbraram o futuro de forma pessimista, em que a violência e os governos totalitários se sobressaem. (Poderia facilmente figurar nesta lista o excelente Não Verás País Nenhum, do brasileiro Ignácio de Loyola Brandão). Ainda que se possa encontrar elementos comuns aos três volumes, a história de Anthony Burgess é a que mais se aproxima do que vivemos hoje em termos de caos e violência urbanos.

Mesmo que a história de Orwell tenha antecipado a era do voyeurismo televisivo (com fins políticos no caso), e Huxley previsto de forma magistral como seria, por exemplo, a felicidade química no futuro – o livro foi lançado no longínquo 1931 –, é a distopia imaginada por Burgess que está mais próxima da realidade cinzenta e turbulenta das megalópoles. Isto porque é difícil ler hoje Laranja Mecânica como uma história de ficção científica ou mesmo um romance futurista. Nada disso, a obra de Burgess é um retrato fiel ao que acontece no mundo, nos guetos e favelas das cidades industrializadas.

Escrito em 1961 após o autor receber a notícia de que morreria em menos de um ano por causa de um tumor no cérebro, o livro é ambientado em uma Londres caótica e dominada por gangues de jovens. Alex, o narrador da história, é um delinqüente juvenil que só pensa em praticar atos de violência e fazer sexo. A industrialização decadente das cidades e o crescente desemprego em massa serve como pano de fundo para Burgess criar um ambiente compatível com os atos perversos de seu narrador-personagem.

Com outros três amigos tão dementes quanto ele próprio – Pete, Georgie e Tosko, o mais imbecil e bobo –, Alex se diverte em fazer estripulias nas madrugadas, brigando com grupos rivais e tomando uma espécie de leite aditivado na “Leiteria Korova”. Filho único – mais um indício dos tempos modernos que, na época de feitura do livro, ainda estavam longe de chegar –, mente para os pais que trabalha nas madrugadas frias da capital inglesa. Na verdade, Alex é um dominador que trata os progenitores de forma rude. A liderança do jovem se faz presente também em sua gangue, que segue fielmente as palavras do líder, que é sempre quem planeja as ações do grupo.

Porém os modos radicais de Alex começam a incomodar seus companheiros de baderna, que resolvem dar uma lição no chefe, que acaba caindo em uma emboscada e sendo preso. É aí que a trama começa a dar voltas e o quebra-cabeça de Burgess vai se mostrando por inteiro.

Quando Joyce virou pop
Um dos grandes méritos do livro de Burgess é sem dúvida nenhuma a inovação lingüística empreendida pelo autor para narrar a história. Fã e leitor voraz da obra de James Joyce – o escritor escreveu uma peça musical inspirada em Ulysses –, o inglês engendrou uma forma peculiar de narrativa. Na verdade, Burgess praticamente criou um novo vocabulário para narrar as desventuras de Alex e seus companheiros. Influenciado pela língua russa, já que antes de terminar o romance partira com a mulher para uma viagem a Leningrado, o autor teve a brilhante idéia de juntar expressões de origem eslava com termos e gírias em inglês. Aí surge o peculiar léxico utilizado pelos arruaceiros do romance, a linguagem “nadsat”.

Com a idéia Burgess consegue duplo êxito: tanto do ponto de vista da forma literária, já que o livro dá novo respiro ao gênero romance, quanto da ótica particular da história contada em Laranja Mecânica, que ganha um caráter peculiar e autêntico. Tão autêntico que essa característica causou um grande estranhamento à época do lançamento do livro. Termos como “drugui” (amigo), “flatblocos” (apartamentos), “grazni” (sujo) e “horrorshow” (ótimo, excelente) certamente deixavam o leitor dos anos 60 confuso. Diferentemente da nova versão brasileira, lançada pela editora Aleph, as primeiras edições não traziam nem um tipo de “tradução” para os termos “nadsat”. Isso com certeza deixava o tomo ainda mais instigante e surpreendente. É louvável, é verdade, a coragem de Burgess em não fazer concessões em sua escrita, mesmo sabendo da grande possibilidade que havia de o leitor mais preguiçoso largar o livro nas primeiras dez páginas.

Outra característica que ajuda a manter em pé a obra, que já tem mais de 40 anos, diz respeito aos hábitos de Alex. O pequeno drugui é um apaixonado por música, mais especificamente por Ludwig van Beethoven. Tudo bem que hoje é preciso andar muito para achar um adolescente que goste de música clássica. Mesmo assim, a paixão do protagonista por música e as referências às novas sonoridades e tendências que estavam surgindo ajudam a dar frescor à trama. É claro que não se pode negar a infinita contribuição dada por Stanley Kubrick, que filmou a história na década de 70. Alias, é o longa-metragem de Kubrick o responsável pela fama de Laranja Mecânica no Brasil. O filme é de longe mais conhecido do que o livro em nosso país. Com uma atuação primorosa de Malcolm McDowell, a película virou peça cult por aqui. Pena que o mesmo não tenha acontecido com o texto que deu vida à obra-prima do cineasta inglês, autor de mais alguns pares de clássicos do cinema.

A idéia inovadora da narrativa de Laranja Mecânica aproxima Burgess de escritores como William Burroughs, que fez de seus experimentos literários uma forma de subversão. A falta de vírgulas, pontos e as constantes aliterações do texto seguem a lógica despirocada do personagem Alex. Talvez isso seja o mais interessante na obra: o texto parece seguir o mesmo caminho tresloucado do protagonista. Os dois andam juntos em uma sinergia fora do comum. Não contente em narrar em primeira pessoa a história, Alex dá o tom da forma narrativa.

É fato que as junções de palavras e o vocabulário “nadsat” como um todo foram os maiores desafios para a tradução, que fez escolhas acertadas em expressões intraduzíveis, apostando em formas familiares aos adolescentes brasileiros como o famigerado “tipo assim”. É engraçado também ver como a ironia de Alex, mesmo nos momentos mais dramáticos da trama, não perde o tom. Alex por vezes se refere a ele próprio como se estivesse falando de outra pessoa. O sentimento de autocomiseração chega a ser cômico – em muitos trechos pode-se ler o personagem se apresentando como “vosso humilde narrador” ou “vosso humilde e sofredor narrador”.

O drugui encarcerado
A começar pelo título do romance, tudo em Laranja Mecânica é estranho. A expressão é uma gíria inglesa que significa “algo de muito estranho”, conforme escreve o tradutor Fábio Fernandes na excelente introdução do livro, que conta ainda com um texto explicando como foi a tradução da obra. Mas na história de Burgess “Laranja Mecânica” é o nome de um livro de um escritor que tem a casa arrombada – e a mulher estuprada – pela gangue do pequeno Alex logo no começo da narrativa.

Se por um lado a forma do romance é inovadora, o enredo não fica atrás. Logo após a emboscada armada pelos ex-parceiros, Alex é preso e enviado a um presídio. Condenado a 14 anos de prisão, é escolhido para ser cobaia em um experimento que visa transformar homens perversos em criaturas doces, que abominam a violência. Na verdade o protagonista é submetido a uma lavagem cerebral, chamada “Técnica Ludovico”, tão cruel quanto os atos que praticava na rua.

Porém a liberdade, conquistada com muita dificuldade pelo narrador, é mais um tormento na vida do jovem Alex, que reencontra seus ex-comparsas em situações pouco cômodas. Mesmo não sendo um livro eminentemente político, Burgess faz uma ácida crítica aos métodos do sistema carcerário e ao capitalismo como um todo. Afinal, as gangues retratadas ali foram inspiradas nos grupos que começavam a pipocar no começo dos anos 60 nas capitais industrializadas. Jovens que em geral eram tolhidos dos empregos que os homens do capital tanto prometeram. Adolescentes que pouco mais de uma década depois tentariam virar o jogo com o som sujo do punk rock. Isso dá ao livro de Burgess um caráter futurológico e apocalíptico que, por incrível que pareça, se mantém atual. A cena de Alex sem saber o que fazer ao final da história, com apenas 21 anos e sem rumo nem expectativa é uma ótima metáfora de nossos tempos. Um mundo em que as oportunidades que se abundam são, para muitos, invisíveis.

Para ir além






Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 3/11/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
5/11/2006
23h09min
Bem lembrado; o melhor livro de Anthony Burgess, ainda que ele não o considerasse, nem de perto, como uma das melhores coisas que escreveu. Escreveu o livro quase como um desabafo, um trabalho que considerava parte da terapia que ele, Burgess, se impôs, depois de ter vivido um trauma semelhante ao do seu personagem, o escritor. Burgess, que reciclava seu próprio choque, não esperava que o livro tivesse tal impacto nas outras pessoas. É um livro atípico porque o estilo de Burgess é cauteloso, racional, "britânico", mas a crueza do tema abriu brechas e vazou na escrita, compondo uma obra que resiste à passagem do tempo porque se insere, folgadamente, no sentimento frio e niilista daquilo que chamamos de modernidade. A gente lê o livro e leva alguns "toltchoques horrorshow" na cabeça; é o próprio Burgess revidando, meio puto, contra aquilo que Hanna Arendt chamou de banalização do mal.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
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