Ecos digitais: poema-em-música | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

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COLUNAS

Quinta-feira, 4/1/2007
Ecos digitais: poema-em-música
Elisa Andrade Buzzo

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+ 1 Comentário(s)


foto: Sissy Eiko

Subindo a escada em caracol, era irresistível tocar os gatos de mosaico colorido. Petrificados nas muretas ascendentes, dando boas-vindas a quem chegasse.

- Estou esperando uma amiga, ela já deve estar chegando...

Annita justificava o atraso da apresentação do poema-em-música logo que me aproximava do alpendre. Passava das 21h no Terraço Poético da Oficina de Criação Literária, ministrada por Regina Gulla.

Com as luzes da sala desligadas, a iluminação provinha unicamente de um abajur num canto, proporcionando uma claridade amarelada difusa no ambiente. As cadeiras brancas do alpendre rapidamente foram transportadas até lá, onde estava o saxofonista, Rogério. Ao seu lado, Silvio se preparava atrás de um laptop. E Annita, por sua vez, colocara-se junto a ele, portando um maço de papel sulfite e microfone.

É com leves meneios de cabeça que Silvio vai comunicando a Annita suas entradas na performance:

Não suporto a visão dos acidentes que se distribuem pela auto-estrada
sigo acumulando desculpas justificativas convincentes por mais um atraso ou
[ausência
Tenho náuseas ao tentar olhar a cena do desastre
ao mesmo tempo amoleço ao mesmo tempo me esforço para acelerar - o carro [não obedece
mas sei que nada pode passar de um delírio passageiro
as manhãs nunca passam como gostaríamos

(1)

Sua voz ao ler o texto é ofegante, resultado da transformação feita no computador. O compositor Silvio Ferraz diz que no poema "Desalinhamentos" o que acontece é que "a voz é fragmentada e ao mesmo tempo encavalada à voz original, isto dá a sensação de que a respiração está fora de lugar". O software utilizado foi desenhado em um ambiente de programação, o MAX/MSP. "Cada software que desenhamos é compreendido como um patch, um pedaço que pode ser acoplado a outros softwares (outros patches ou subpatches), como nas colchas de retalhos (patchwork). São simulações de instrumentos eletrônicos de transformação de áudio, só que agora mais versáteis, e totalmente interligáveis", explica Silvio, que também é professor do Departamento de Música da Unicamp.

Como as alterações produzidas na voz "são quase que casuais", sua capacidade de experimentar e intuir estão em jogo neste processo. "Não existe este elo sentido-efeitos sonoros empregados. O que acontece é que o texto recebe um impacto do som e se fragmenta como se fosse leitura. A idéia primeira era imaginar um jeito de ler para os outros como se os outros é que estivessem lendo", conta.

Do alto da escada, um menino vai descendo os degraus de madeira, chega até a metade e permanece com a cabeça pendida, estático. Continua a descer, passa espremendo-se entre as cadeiras da sala, até que se senta numa delas. O boné vermelho chamuscando o ar.

Peço que não toquem mais em mim
e fico citando a tarde em um misto de amarelo e medo inconsistente
fico citando a tarde decomposta em palavras esquisitas,
cansado que estou de tratos, e maus tratos, à beira da cama
não tenho mais como esconder a fragilidade dos meus ossos
nem as cavernas que se aprofundam sob os olhos
então o que fazer
onde resgatar um resquício de dignidade
onde encontrar um lapso de vida nesta vida esfacelada?
fico citando a tarde, cavoucando a tarde entre os dentes, entre os dentes
subdivido minhas vértebras ao infinitesimal
multiplico minhas vértebras perfurando o abismo,

(2)

Em "A última tarde", Annita conta que o efeito pretendido foi fazer uma espécie de mantra no jeito de ler, como uma reza, na tentativa de manter a mesma nota na leitura. Annita Costa Malufe também é jornalista e autora do livro de poemas Fundos para dias de chuva (7 Letras, 2004, 50 págs.) e do ensaio Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (Annablume, 2006, 177 págs.), sobre uma das poetas que fazem parte de suas referências. Atualmente prepara tese de doutorado sobre poesia contemporânea no Departamento de Teoria e História Literária da Unicamp. A leitura dos textos na performance deixa artificialidade e grandiloqüência de lado, e opta por "manter uma mesma entonação, sem enfatizar sílabas, sem enfatizar musicalidade, uma coisa mais lisa". Para ela a voz da poesia contemporânea é mais próxima do cotidiano e da linguagem coloquial.

A explicação técnica dada por Silvio neste caso é que "um outro sinal é gerado pelo computador e multiplicado pelo sinal da voz, o que a acaba distorcendo levemente, mas mantendo um som contínuo, como uma espécie de eco afinado". Ele distingue o poema-em-música de uma vertente da poesia chamada poesia sonora. Esta "tem o foco na poesia, é uma poesia de palavras que se tornaram sons". Comparando com a poesia sonora, o poema-em-música "não subentende uma união, uma coerência entre forma do texto e forma da música, entre sonoridades do texto e sonoridades musicais, é simplesmente a ampliação do potencial dramático de uma leitura de poema através de sua transformação em música, música aqui entendida como história, ou processo, de transformação de um som".

"Poesia sonora é hoje um nome genérico que designa uma espécie de experimentalismo poético baseado na voz humana e suas possibilidades expressivas" - a definição é de Philadelpho Menezes, no encarte do CD Poesia Sonora - do fonetismo às poéticas contemporâneas da voz (1996). Philadelpho foi professor do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP até sua morte, em 2000, e grande divulgador e realizador de poesia sonora no Brasil. O que acontece a partir da década de 1990 com o lançamento do seu livro, Poesia Sonora - Poéticas experimentais da voz no século XX.

Nessa tradição concretista, Annita acredita que se perde o "recheio do discurso", por ser "uma poesia mais seca, mais fragmentária." Assim, há cerca de dois anos, quando se apresentou com Silvio, inaugurando o poema-em-música no Centro Cultural da Fiesp ("O livro das sonoridades"), o fluxo da oralidade, que já a influenciava, passou a operar mais ainda em sua escrita. Agora, ela diz que pensa "cada vez mais em poemas maiores, com versos longos", e "mais no fuxo sonoro que conduz as palavras." Seguiram-se em 2006 outras apresentações, duas no Sesc Vila Mariana, no Encuentro Internacional de Compositores de Chile, em três capitais do nordeste no projeto da Funarte Circulação de Música de Concerto e na Segunda Bienal de Música Brasileira Contemporânea de Mato Grosso, dentre outras. Em algumas apresentações o piano é incorporado e, segundo Silvio, "na partitura do piano, assim como faz a voz, são pouquíssimas as articulações e a ênfase é dada às mudanças de densidade, num contraponto à mesma idéia que se passa na leitura."

Os poemas levam o ouvinte-leitor a movimentos circulares, muitas vezes através do recurso da repetição. Nas leituras para a performance, Annita tenta encontrar a sonoridade que estaria "embutida" em cada poema, "mas de repente você lê e encontra outra voz". Por isso sua leitura é "lisa" a fim de que "não seja uma voz que imponha muito, que não direcione muito a escuta" e deixa "um espaço para você poder ouvir outras vozes até." Desta maneira, "o significado vai entrando de uma forma mais sensorial".

Silvio lembra que poema-em-música é o poema virando música e a música, esta nova música de sons, virando poema." Nesse trâmite, a voz da poeta alinhavada pelo computador pode ser clara-ecoada, fina-fibrosa. E o menino de boné vermelho aplaude a música. Ou o poema? O espaço é de livres releituras nesta nova poética da voz.

preciso prever os limites do corpo o quanto antes
os limites do corpo; os limites das minhas mãos; os limites da mesa e a beira
[da cabeceira;
minha língua à beira do limite

(...)

Poemas citados

(1) "Desalinhamentos" (Annita Costa Malufe)

Não suporto a visão dos acidentes que se distribuem pela auto-estrada
sigo acumulando desculpas justificativas convincentes por mais um atraso ou
ausência
tenho náuseas ao tentar olhar a cena do desastre
ao mesmo tempo amoleço ao mesmo tempo me esforço para acelerar - o carro não obedece
mas sei que nada pode passar de um delírio passageiro
as manhãs nunca passam como gostaríamos
já me acostumei, mesmo sem rádio ou toca-fitas
já me acostumei
a ensaiar um enfarte no meio da avenida
a temer um desmaio em horas impróprias
me acostumei com o sal ao redor dos lábios salvando a pressão
que costuma baixar no calor
me acostumei mesmo com o carro a cena os desastres
rompendo o concreto pela manhã
mas mesmo assim não suporto
não suporto a visão dos acidentes que se distribuem
nem mesmo o acúmulo de justificativas desculpas
por mais um atraso
mais uma ausência uma falta
enquanto um cão se debate no asfalto
e algumas pessoas se reúnem para assistir

(2) "A última tarde" (Annita Costa Malufe)

Peço que não toquem mais em mim
e fico citando a tarde em um misto de amarelo e medo inconsistente
fico citando a tarde decomposta em palavras esquisitas,
cansado que estou de tratos, e maus tratos, à beira da cama
não tenho mais como esconder a fragilidade dos meus ossos
nem as cavernas que se aprofundam sob os olhos então o que fazer
onde resgatar um resquício de dignidade
onde encontrar um lapso de vida nesta vida esfacelada?
fico citando a tarde, cavoucando a tarde entre os dentes, entre os dedos
subdivido minhas vértebras ao infinitesimal
multiplico minhas vértebras perfurando o abismo,
uma caverna sempre mais funda do que a outra
multiplico ao infinito a duração desta tarde e peço
que não toquem mais em mim
que não me toquem com seus fios, tubos, bisturis
que não me toquem mais com sua ciência tão exata,
não mais agora, pois
devo enaltecer a duração desta tarde
que contém todas as outras tardes todos os outros dias e noites
que já esqueço
no minuto seguinte já esqueço já não cabe mais lembrar
já não cabem mais lembranças nesta tarde
que cito e recito entre meus dentes e dedos perfurados
onde resgatar um fiapo de dignidade em meio a estes fios
em meio a estes tubos e fios que tentam manter meu organismo ordenado?
subdivido esta tarde, repetição nua de tantas outras tardes,
subdivido ao infinitesimal
e distribuo as palavras sobre a folha pedindo
que não toquem mais em mim
que não me toque mais o mundo nem mesmo o oxigênio
que não me toque mais o que me for exterior
que deixem minha ferida viver
ao menos nesta tarde

Nota da autora desta coluna: o texto foi produzido para o Rumos Itaú Jornalismo Cultural, edição 2004/2005.

Para ir além






Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 4/1/2007


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/1/2007
19h40min
Maravilhosa a narrativa sobre a poesia e a música... Uma aventura literomusical... Os sons e as palavras trançadas e entrelaçadas nas entrelinhas, feitos estrelinhas no fundo azul.
[Leia outros Comentários de Clovis Ribeiro]
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