Sexo, drogas e rock’n’roll | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
40417 visitas/dia
862 mil/mês
Mais Recentes
>>> Em agosto, o Largo do Machado receberá a segunda edição do Hoje é dia de comer na rua
>>> ÀTMA - De que tamanho é o teu deserto?
>>> Vivo EnCena traz Paulo Betti a São Paulo com Autobiografia Autorizada
>>> EAS, novo filme de ação brasileiro tem toque de Hollywood
>>> Memória da Eletricidade realiza a terceira edição do Preserva.ME
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Apontamentos de inverno
>>> Literatura, quatro de julho e pertencimento
>>> O Abismo e a Riqueza da Coadjuvância
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 4. Museu Paleológico
>>> Um caso de manipulação
>>> Brasil, o buraco é mais embaixo
>>> Nós que aqui estamos pela ópera esperamos
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 3. Um Jogo de Poker
>>> Retratos da ruína
>>> Notas confessionais de um angustiado (VI)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
Últimos Posts
>>> Ponto cruz
>>> Elevador divino
>>> Na hora do rush
>>> Cubica(mente)
>>> Adentrando o mundo humano - Pensamento
>>> Modelar(mente)
>>> Trans(corrente)
>>> Quanto às perdas III
>>> O pão nosso de cada dia
>>> Os opostos se atraem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Leitura, curadoria e imbecilização
>>> Legião Urbana 1994
>>> Um menino à solta na Odisseia
>>> Gratitude
>>> Ajudando um amigo
>>> O Conselheiro também cozinha (e come)
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 3. Um Jogo de Poker
>>> Asno que me leve, quero, e não cavalo folião
>>> O rei nu do vestibular
>>> Telemarketing, o anti-marketing dos idiotas
Mais Recentes
>>> O Desafio de nosso Tempo ( Change and Habit)
>>> Hobbes e a Moral Política
>>> Hobbes Leviathan. Uma Visão Teológica
>>> Brevilóquio Sobre o Principado Tirânico
>>> De Cive. Elementos Filosóficos a respeito do cidadão
>>> O Problema do Ser e outros ensaios
>>> Antropologia Filosófica
>>> Merleau-Ponty na Sorbonne. Resumo de Cursos Filosofia e Linguagem
>>> Merleau-Ponty na Sorbonne. Resumo de Cursos Psicossociologia e Filosofia
>>> O Muro
>>> A Anarquia dos Valores. Será o Relativismo Fatal?
>>> Ética & Direito, Moral e Religião no Mundo Moderno
>>> Um Lugar para os Excluídos
>>> Chico Buarque
>>> Literatura comentada Oswald de Andrade
>>> Pensamentos de Freud
>>> Compreder a história da vida. Do átomo ao pesamento humano
>>> O Homem à procura de si mesmo
>>> Matrizes do Pensamento Psicológico
>>> A Natureza da inteligência
>>> O que é Vida? 50 anos depois. Especulações sobre o futuro da Biologia
>>> O que é Vida? O aspecto físico da célula viva. Seguido de Mente e Matéria e Fragmentos Autobiográficos
>>> Os Métodos De Administração De Jesus
>>> Manhã, Tarde E Noite
>>> Conte-me Seus Sonhos
>>> Cultura Pós-Moderna - Introdução às teorias do contemporâneo
>>> A Anatomia da Destrutividade humana
>>> Ter ou Ser
>>> O Espírito de Liberdade
>>> O Dogma de Cristo
>>> O mistério do homem na obra de Drummond
>>> Revista Super Interessante edição 201 - junho 2004
>>> A propriedade intelectual e as novas leis autorais - 2ª ed. revista e ampliada
>>> Vivenciando Erickson
>>> Teoria da Cultura de Massa
>>> O morro dos ventos uivantes
>>> Pecado Original
>>> História das teorias da comunicação
>>> Sobre a televisão
>>> Chatô, o rei do Brasil
>>> Estrela Solitária - um brasileiro chamado Garrincha
>>> Feira de Versos - para Gostar de Ler (vol. 36)
>>> Sementes de sol
>>> O homem que matou Getúlio Vargas
>>> Dona Benta - Comer Bem
>>> A questão judaica
>>> AION - Estudos sobre o simbolismo do Si-Mesmo
>>> Psicologia e Religião Oriental
>>> Psicologia e Religião
>>> Resposta a Jó
COLUNAS

Terça-feira, 27/3/2007
Sexo, drogas e rock’n’roll
Marcelo Spalding

+ de 35200 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Você certamente já ouviu essa expressão, e se viveu a juventude pelos anos sessenta, setenta, com despreendimento o bastante e dinheiro o suficiente, é bem capaz de ter vivido na pele a fase do sexo, drogas e rock'n'roll. Confesso que passei ao largo dessa geração e nunca achei que essa filosofia de vida tivesse sido seguida à risca por muita gente, atribuindo o rótulo a mais uma simplificação midiática ou hollywoodiana. Isso até ler Tempos heróicos (Letras Brasileiras, 2006, 168 págs.)

Jakzam Kaiser narra em primeira pessoa a história de Beto, um adolescente que aos onze anos vê sua família ruir - com o pai saindo de casa para morar com outra -, cedo conhece o álcool, as drogas, o prazer do sexo livre e um pouco mais tarde a política num tempo de ditadura militar e reconstrução da UNE, a União Nacional dos Estudantes. Num momento histórico conturbado e perigoso, de muita repressão e maior ainda ânsia por liberdade, uma parcela da juventude forja sua identidade partindo para a luta, a luta física contra os grupos de bairros - e depois contra a polícia opressora - e a luta contra os costumes, jogando-se de alma nas drogas e de corpo no sexo.

O narrador baseia sua história numa espécie de inventário de suas transas, com as mais belas e variadas garotas, todas sempre disponíveis, ninfomaníacas e gostosas, além de quase todas chapadas, o que permite ao leitor mergulhar de cabeça na velha e boa expressão sexo, drogas e rock'n'roll em uma leitura leve e alucinante. No terceiro capítulo, onde a personalidade do protagonista está formada e a vida mais estabilizada, a narrativa se transforma numa sucessão de cenas tal qual videoclipe da MTV, representando talvez o ritmo de vida do protagonista ou a repetição cansativa dos fatos cotidianos.

"Domingo, sete e meia da manhã, convenção do PT na Assembléia Legislativa. Ao lado de casa. Saio com Luana, sem dormir. Olheiras fundas. Assino a lista, vejo que a manhã será chata, o pau vai comer de tarde. Volto em casa para um cochilo. Os pensamentos erram pelos escaninhos cerebrais. Penso na militância, nos nossos dogmas, em como não sabemos nada, não somos donos de porra de verdade nenhuma. Temos que buscá-la dentro de nós. Não há consciência sem convicção, e não sinto mais a mesma intensidade em relação ao PT, à militância. Acordo assustado. Luana é grupo de risco, tenho merda na cabeça, devia ter usado camisinha, mas nem tenho em casa. Almoço na mãe, a preocupação não sai da cabeça. Encontro Úrsula na convenção, só cumprimento, ela vem falar comigo, vamos para a Duque, fumamos um, transamos e paz e amor de novo. O domingão acaba em sua casa, jantando uma massa deliciosa e vendo Disque M para Matar, Hitchcock sempre bom. Mas o grilo não sai da minha cabeça."

Alguns poderão ver a obra como uma reconstrução corajosa de uma época e geração, e aí a colocariam ao lado de outras como A idade da paixão, Caminhando na chuva, Ana Sem Terra ou É tarde para saber, obras que aos poucos vão compondo de forma muito rica a história recente do Rio Grande do Sul. Mas basta terminarmos a leitura e conhecermos um pouquinho da história de Jakzam para descobrir que há muito de memórias naquelas páginas, muito mais do que de invenção.

Não que isso seja um defeito, ao contrário. Da forma como os episódios se desencadeiam, com o protagonista cada vez mais viciado em drogas e sexo e sempre se safando praticamente intacto, além de prosperar profissionalmente de forma invejável, a obra, enquanto ficção pura, soaria inverossímil. Não estamos dizendo irresponsável tampouco politicamente incorreta, os livros não estão aí para ensinar ninguém a usar camisinha ou ficar longe das drogas, mas ao leitor desavisado parece impossível que depois de tanta curtição e subversão o protagonista não fosse preso, não ficasse doente, dependente, louco, desempregado, enfim, que sobre ele não caísse nenhuma daquelas maldições que os pais e a mídia sempre reforçam.

Como não caiu, a impressão que fica para o leitor é de um saldo extremamente positivo: esquecemos que Beto é um sobrevivente que teve a sorte que faltou para um Cazuza e um Renato Russo, por exemplo. E se Beto é mesmo Jakzam, talvez um livro de memórias atraísse mais leitores e aproximasse mais o leitor, ainda que nesse caso o autor pudesse ser acusado daquelas balelas de irresponsabilidade por incentivar isso ou aquilo.

* * *

Hoje Jakzam Kaiser é editor de uma das promessas no mercado editorial brasileiro, a Letras Brasileiras, com edições cada vez mais belas, coloridas e bem acabadas (como o próprio Tempos heróicos). E do alto de seus quarenta e poucos anos, vinte de casado, conversou conosco sobre a obra e os temas que ela suscita num rápido pingue-pongue que merece ser reproduzido:

Apesar de ser sua primeira obra de ficção, há muito de sua autobiografia na história. Por que contar sua história?

Não há uma explicação, aconteceu meio por acaso. A idéia do livro era recuperar a atmosfera da época, registrar o modo de vida daquela geração. Na hora de escrever, acabei inspirado pelos autores que me fizeram a cabeça na época, Kerouac, Bukowsky, Henry Miller, Alexis Evremides (que, aliás, a Editora vai publicar)... Gente que escrevia na primeira pessoa, um jeito de escrever que sempre me pareceu mais eficiente para atingir a emoção e o ritmo que eu desejava dar ao texto. A escolha por episódios vividos ou experimentados pessoalmente, ou por amigos próximos, ou nem tão amigos assim, mas presenciados, deu-se porque o material era suficientemente rico para sustentar o projeto de criar a atmosfera da época. Também tinha o viés de mostrar o ingresso do adolescente da época no mundo adulto, como era a formação/construção das personalidades, e a opção pelo texto em primeira pessoa facilitava a tarefa.

Você acha que a história do Beto é a síntese dessa geração que cresceu na ditadura militar ou é apenas uma parte dessa geração?

Acho que é significativo da geração, sim, mas apenas parte dela teve protagonismo, quero dizer, se arriscava a realmente experimentar. Acho que a maior parte tinha vontade, mas por motivos diversos era mais espectadora.

Você acha que a juventude de hoje está muito diferente da sua, mais careta? Por quê?

Diferente, sim. Mais careta, não sei... Naquela época não tinha internet, nosso universo era a rua, o mundo real, com cheiro, toque, gosto. Tinha sangue, dor, suor e cansaço físico. Me parece que a diferença maior entre a geração atual e a minha é que a atual vive mais o mundo virtual que o real. Havia, também, uma maior consciência (ou interesse por) política, movimento estudantil... Isso perdeu-se no tempo.

Você não teme que uma história como a sua incentive os jovens a buscar nas drogas ou no sexo o sentido para uma vida sem sentido em tempos de enorme violência urbana e AIDS?

Ah... não mesmo! Tenho dois filhos, um de doze e um de oito, que irão ler o livro um dia. Pensei nisso, que eles podiam usar o livro como pretexto pra "liberar" geral, entender que estavam sendo incentivados... Mas eu acredito, sinceramente, no exercício do livre arbítrio baseado na liberdade individual. Se o cara quiser usar drogas ou ter sexo promíscuo, não tenho nada a ver como isso. Vou rezar para meus filhos sobreviverem à curiosidade natural da adolescência/juventude e à explosão dos seus hormônios. E confiar que os eduquei e preparei bem para enfrentarem o mundo lá fora. É só o que um pai pode fazer. Ademais, um cara que tem acesso ao livro tem recursos e informações pra usar camisinha - se trepar sem plastificar o pau porque acha que tem o corpo fechado é problema dele. E quanto aos tempos de enorme violência urbana... tudo que acontece hoje já acontecia naquela época. Pode estar mais generalizado, pode ter maior cobertura na mídia. Mas seqüestro, crime organizado, traficante, turma barra pesada, a não-confiança na polícia, tudo isso já existia. A diferença é que a omissão do Estado aumentou.

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 27/3/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Longa vida à fotografia de Fabio Gomes
02. Um Cântico para Rimbaud, de Lúcia Bettencourt de Jardel Dias Cavalcanti
03. O Que Podemos Desejar; ou: 'Hope' de Duanne Ribeiro
04. Malcolm, jornalismo em quadrinhos de Luís Fernando Amâncio
05. Eleições nos Estados Unidos de Marilia Mota Silva


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2007
01. Sexo, drogas e rock’n’roll - 27/3/2007
02. Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum - 31/7/2007
03. Com a palavra, as gordas, feias e mal amadas - 30/1/2007
04. Estrangeirismos, empréstimos ou neocolonialismo? - 1/5/2007
05. Abuso sexual de crianças: do silêncio para a tela - 29/5/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
27/3/2007
11h30min
Marcelo, mais uma vez adorei a sua análise sobre o livro "Tempos Heróicos". Como o anterior, "A Idade da Paixão", a gente fica querendo ler, para também ter opinião e ver se é isso mesmo. Como remanescente dessa época, embora fosse eu adolescente , deve ser interessante reviver aqueles momentos pela ótica de um jovem que também viveu aquilo tudo com intensidade. Ainda mais que sou leitora insistente dos beats, ainda os acho geniais e atuais (apesar da lama). Parabéns pelo seu texto e pela entrevista. Continue nos trazendo seus textos. Sempre fazem bem à alma. Bjs. Adriana
[Leia outros Comentários de Adriana]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




CINQUENTA TONS DE CINZA
E. L. JAMES
INTRÍNSECA
(2012)
R$ 9,99



CONTOS FANTÁSTICOS DO SÉCULO XIX ESCOLHIDOS POR ITALO CALVINO
ITALO CALVINO
COMPANHIA DAS LETRAS
(2011)
R$ 10,00



UM SONHO DENTRO DE MIM
JULIO EMILIO BRAZ
MODERNA
(2005)
R$ 3,00



MURDER IN THE CIA
MARGARET TRUMAN
FAWCETT
(1988)
R$ 10,00



A MÁGICA
MARTYN BEDFORD
RECORD
(2002)
R$ 25,00



THE GREEKS
JEAN-PIERRE VERNANT
THE UNIVERSITY OF CHICAGO PRESS
(1995)
R$ 49,00



NA ESPERANÇA DE UMA NOVA VIDA
IRENE PACHECO MACHADO PELO ESPIRTO LUIZ SÉRGIO
NÃO CONSTA
R$ 3,00



A CONFRARIA
JOHN GRISHAM
ROCCO
(2000)
R$ 10,00



CORDÉIS DE NATAL (CAIXINHA COM 5 CORDÉIS) - LITERATURA DE CORDEL
LUIZ DE ASSIS MONTEIRO
CONFRARIA DA PAIXÃO
(2015)
R$ 18,00



QORPO SANTO - AS RELAÇÕES NATURAIS E OUTRAS COMÉDIAS
QORPO SANTO
MOVIMENTO
(1976)
R$ 15,00





busca | avançada
40417 visitas/dia
862 mil/mês