Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
30976 visitas/dia
949 mil/mês
Mais Recentes
>>> Peter Burke navega pela história do conhecimento para oferecer nova perspectiva da Sociedade da Info
>>> Palavras Cruzadas Brasil recebe Ignácio de Loyola Brandão ao vivo nesta quarta (24) na TV Brasil
>>> Liliane Reis entrevista Mc Soffia e Kali C no Estúdio Móvel da TV Brasil
>>> Editora Tordesilhinhas promove contação de histórias na Bienal Internacional do Livro de São Paulo
>>> Segundo romance da autora paraibana Marilia Arnaud é tema de debate em João Pessoa
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A noite em que Usain Bolt ignorou nosso Vinicius
>>> Sobre os três primeiros romances de Lúcio Cardoso
>>> Meu querido mendigo
>>> Na hora do batismo
>>> Simone Weil no palco: pergunta em forma de vida
>>> Existe na cidade alguém, assim como você...
>>> Eleições nos Estados Unidos
>>> Os dinossauros resistem, poesia de André L Pinto
>>> A que ponto chegamos, EUA!
>>> Caiu na rede, virou social
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lançamento e workshop em BH
>>> Reid Hoffman por Tim Ferriss
>>> Software Programs the World
>>> Daphne Koller do Coursera
>>> The Sharing Economy
>>> Kevin Kelly por Tim Ferriss
>>> Deepak Chopra Speaker Series
>>> Nick Denton sobre Peter Thiel
>>> Bill & Melinda Gates #Code2016
>>> Elon Musk Code Conference 2016
Últimos Posts
>>> Casulo de névoas
>>> 24 de Agosto, um dia na recente historia do Brasil
>>> Ray-Banless
>>> Primeiro Debate dos Candidatos à Prefeitura
>>> Sem palavras
>>> Contrariando os pessimistas
>>> Fervura
>>> Sobre o Encerramento das Olimpíadas do Rio em 2016
>>> Raízes
>>> Na tessitura da toalha
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Mar de Gente, de Ivaldo Bertazzo
>>> Entrevista com Sérgio Rodrigues
>>> O que é ser jornalista?
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Declínio e queda do império de papel
>>> Flip 2008, bastidores I
>>> Meu querido mendigo
>>> Choque de realidade no cinema
>>> Choque de realidade no cinema
>>> Re: Intestino Descarregado
Mais Recentes
>>> Almanaque de Bichos que dão em Gente-Vermes, Fungos,Bactérias,Virus & outros bichos. Como Reconhecer, Evitar e Tratar
>>> Quebrando as Maldições Hereditárias-O entendimento e a apropriação dos benefícios da cruz
>>> José de Alencar - Teatro Completo (2 volumes)
>>> Gonçalves Dias - Teatro Completo
>>> Leonor de Mendonça (Teatro de Gonçalves Dias)
>>> Obra dispersa - Manuel Antônio de Almeida
>>> O novo Otelo - Joaquim Manuel de Macedo
>>> Joaquim Manuel de Macedo - Teatro Completo (3 volumes)
>>> As melhores comédias de Martins Pena
>>> Comédias de Martins Pena
>>> Folhetins: A semana Lírica - Martins Pena
>>> Dramas de Martins Pena (Teatro)
>>> O Poeta e a Inquisição - Gonçalves de Magalhães
>>> Obras de D. J. Gonçalves de Magalhães (Teatro) RARIDADE
>>> A vida de Esopo e Guerras do Alecrim e da Manjerona (Duas comédias de Antonio José)
>>> Perda e Restauração da Bahia de Todos os Santos (Obra teatral do século XVII)
>>> Hay amigo para amigo (Obra teatral)
>>> A vida de esopo e Guerras do Alecrim e da Mangerona
>>> O "Judeu" no Teatro Romântico Brasileiro
>>> A Outra Crítica - Miroel Silveira
>>> Cacilda Becker - O Teatro e suas chamas
>>> João Caetano - Décio de Almeida Prado
>>> Machado de Assis - Teatro (Antologia)
>>> As noites difíceis
>>> Teatro Completo de Machado de Assis
>>> Crítica Theatral - Machado de Assis
>>> A árvore do Halloween
>>> Machado de Assis (Esaú e Jacó/Críticas Literárias/Críticas Teatrais)
>>> João Caetano dos Santos (Ensaio Biographico) - Os fluminenses no Theatro Brasileiro
>>> Figuras do Theatro - Lafayette Silva
>>> O Teatro da Minha Vida - Luiz Iglezias
>>> Artistas de Outras Eras - Lafayette Silva
>>> Sergio Cardoso
>>> Ziembinski e o Teatro Brasileiro - Yan Michalski
>>> Revista Problemas: Vianinha: 10 Anos
>>> Dulcina e o Teatro de seu tempo
>>> 30 Annos de Theatro - Humorismo
>>> A Contribuição Italiana ao Teatro Brasileiro
>>> O Palco dos Outros - Cadernos de Viagens
>>> Depoimentos III - Entrevistas com Atores e Atrizes
>>> Depoimentos I - Entrevistas com Atores e Atrizes
>>> Revista: Ciclo de Debates do Teatro Casa Grande
>>> Yan Michalski - Ciclo de Palestras sobre o Teatro Brasileiro - 2
>>> Tônio Carvalho - Ciclo de Palestras sobre o Teatro Brasileiro - 11
>>> Alcione Araújo - Ciclo de Palestras sobre o Teatro Brasileiro - 8
>>> Geração em Transe - Memórias do tempo do Tropicalismo
>>> Oficina: do Teatro ao Te-Ato
>>> Teatro Oficina - Onde a Arte não dormia
>>> Teatro - Anos 70
>>> O Sertão Medieval - Origens europeias do Teatro de Ariano Suassuna
COLUNAS

Quinta-feira, 6/3/2008
Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha
Marcelo Spalding

+ de 17100 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Quem esteve na praia, quem pulou carnaval ou deixou o rádio sintonizado nas FMs da hora, certamente ouviu neste verão a música 3 do mais recente CD de Seu Jorge, "Burguesinha". Sambinha gostoso, com sonoridade muito semelhante ao seu sucesso anterior, "Carolina", tornou-se em pouco tempo hit do verão.

Hits do verão, aliás, costumam nos deixar de cabelos em pé. Quem não lembra do Netinho, do É o Tchan, do Terra Samba? Ou da terrível "Hoje é festa lá no meu Apê", do glorioso Latino? Músicas cantadas ou dançadas por pseudocelebridades, não por músicos, e com letras rasas e apelativas, apesar do tom infantil de termos como bundalelê (para mim, nada mais, nada menos que orgia, bacanal). Pois é por isso mesmo que ouvi com certa surpresa e até alegria o povo todo cantarolando e se rebolando com "Burguesinha" nas festas mais populares aqui do nosso litoral gaúcho.

A música faz parte do quarto CD solo de Seu Jorge, América Brasil, composto de onze faixas de muito samba rock e que tem recebido algumas críticas dos entendidos de música. O jornalista carioca Mauro Ferreira, por exemplo, acha que o CD "pouco oferece além das levadas, com versos-clichês sobre a falta de dinheiro e o duro cotidiano do povo brasileiro". O próprio Seu Jorge teria dito que se trata de um disco doméstico, para tocar no churrasco, no computador. Mas como não pretendo comparar Seu Jorge com ele mesmo, e sim Seu Jorge com hits de verões passados, me parece que há espaço para certo otimismo.

Em apenas 16 versos, quatro estrofes, sem contar o refrão, a letra da música composta por Seu Jorge, Gabriel Moura e Pretinho da Serrinha esbanja ironia, não a ironia cáustica de um Machado de Assis, mas a ironia acomodada e "boa praça" do samba, da bossa nova. Ao mesmo tempo em que saúda a burguesinha, um filé de moça, critica com certa veemência o capricho das nossas elites, sempre virada de costas para a realidade da população em geral, lembrando que a população não apenas não come croissant como sequer saca dinheiro, sequer faz o cabelo, espremida entre a rotina estafante e a falta de dinheiro.

No refrão, a repetição da palavra burguesinha soa como a repetição de uma condição, a burguesinha sempre será burguesinha, geração a geração terá seus caprichos satisfeitos. O que muda, de tempos em tempos, é o objeto do capricho, sendo hoje croissant ou suquinho de maçã; ontem, passeio de moto; no tempo da minha avó, meias de nylon.

É possível, admito, que as meninas de salto alto que rebolavam ao som da música na beira de uma rica praia aqui do Sul não tenham percebido essa ironia ou, até mais provável, se orgulhem de comer filé, suquinho de maçã, malhar todos os dias e ir pra casa de praia no fim de semana. Ocorre que essa geração, a minha geração, não tem lá muitas ilusões ideológicas e antes de se envergonhar pelo rótulo de "burguesa", envergonhar-se-ia com o rótulo de "trabalhadora", pois é uma geração contaminada pela lógica fácil do individualismo e seduzida pelas promessas de felicidade capitalista.

Nesse sentido, "Burguesinha" celebra o bem viver, o american way of life, sintetizando em alguns ícones o que marca a pequena burguesia, essa necessidade de mostrar-se diferenciada, consumir o que há de melhor, estar na moda, malhada, o que a torna quase um hino debochado daqueles que perseguem exatamente esse modo de vida. Mas o faz ambiguamente, e aí a beleza de qualquer arte, pois narra do ponto de vista da própria classe favorecida, estratégia formal que um crítico, falando sobre Brás Cubas, chama de "delação de classe": é evidente que se a música adota o ponto de vista da burguesinha é para ironizar sua superficialidade, revelar sua pobreza intelectual ― ainda que ironize e revele sem acusar, sem protestar ― e não realmente bajular aquelas que enfeitam os calçadões.

Decerto se comparada a outros hits de abordagem social, como algumas canções do Chico, do Legião Urbana, dos Titãs, a música parecerá própria a um passageiro hit de verão, pois tira de uma problemática profunda meia dúzia de situações, não proporcionando reflexão ou crítica. Não chega perto de um "Marvin" ou de um "Faroeste Caboclo", e nem se fale de "Gente Humilde", "Saudosa Maloca", mas talvez seja o máximo que uma canção que se quer mercadológica consiga fazer nos tempos de hoje, quando política virou motivo de chacota da imprensa e Marx uma personagem restrita aos livros de história. Não por acaso o melhor Chico de hoje está nos romances, o funk desceu os morros só com o lado chulo, o cinema transformou a história de Olga numa história de amor.

Curioso é uma música dessas ser acolhida pela própria "burguesia" como seu hit de verão, tocar em caras festas de carnaval, sofisticados luaus à beira mar, festivais adolescentes, carros importados. Alguns mais otimistas dirão que é fruto de uma gradual tomada de consciência, o que pode ser um pouco verdade, mas pode apostar que verão que vem, ou no outro, volta um hit da Kelly Key, do Leonardo, do Latino. E cantaremos sem culpa tal qual a neta do Gerdau há de estar cantarolando "burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha"...


Marcelo Spalding
Porto Alegre, 6/3/2008


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Quando (não) li Ana Cristina César de Ana Elisa Ribeiro
02. Antes que seque de Guilherme Pontes Coelho
03. O que você vai ser quando crescer? de Fabio Gomes
04. A coerência de Mauricio Macri de Celso A. Uequed Pitol
05. Armando Freitas Filho, dossiê na Palavra de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2008
01. Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha - 6/3/2008
02. O melhor de Dalton Trevisan - 27/3/2008
03. Cartas a um jovem escritor - 31/1/2008
04. Nossa classe média é culturalmente pobre - 21/8/2008
05. Literatura é coisa para jovem? - 11/9/2008


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/3/2008
10h16min
Muito boa a análise; percepção fina da realidade. Parabéns.
[Leia outros Comentários de Roberta Resende]
8/3/2008
10h51min
Abordagem bem real a respeito de um fenômeno que ocorre no Brasil, de norte a sul. Lembrei-de de uma época em que "Vai Passar" foi a música do momento. Tocava nos mais diversos ambientes: desde a burguesia mais característica ao habitante da favela. Pena que isso é igual a cometas, só ocorre de tempos em tempos, muito distantes. Bom texto.
[Leia outros Comentários de Adriana Godoy]
11/3/2008
19h39min
Gostei do texto do senhor Spalding. Essa dissecação desta canção do seu Jorge está repleta de boas referências, não só musicais como também histórico-culturais. A ironia mencionada também passa a ser recurso no derradeiro parágrafo. Com essa estrutura de texto, utilizando-se desses recursos, fica um gosto de quero-mais, de se aprofundar talvez por um assunto como luta de classes, ou qualquer outro grande tema: mas isso caberia melhor num livro.
[Leia outros Comentários de Thiago L. Pierroni]
12/4/2009
11h36min
Concordo com a Adriana. Também lembrei do período ditatorial, pois todos cantam, inclusive as patricinhas (burguesinhas). Seu Jorge apenas expôs o cotidiano das "filhinhas de papai", sem precisar dizer que são fúteis de forma explícita... Cabe ao ouvinte compreender.
[Leia outros Comentários de Joelma Aragão]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




CURANDO A ALMA MASCULINA - O CRISTIANISMO E A JORNADA MÍTICA
DWIGHT H JUDY
PAULUS
(1998)
+ frete grátis



DEL RORAIMA AL ORINOCO
THEODOR KOCH-GRUNBERG
ARMITANO
(1981)
+ frete grátis



HEGEL
FRANÇOIS CHÂTELET
ZAHAR
(1995)
+ frete grátis



MEMÓRIAS DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE COMPUTAÇÃO
ROBERTO DA SILVA BIGONHA
SBC
(2014)
+ frete grátis



CÂNTICOS DE SALVAÇÃO PARA CRIANÇAS - COM PAUTA MUSICAL - VOLUME 3
DR. ANTÔNIO ALMEIDA - MARIA OLINDA SIQUEIRA
APEC
(1988)
+ frete grátis



AUDITORIA 
MARCELO CAVALCANTI ALMEIDA
ATLAS
(1996)
+ frete grátis



PLUMAS NEGRAS
MARGERY ALLINGHAM
JOSÉ OLYMPIO
(1986)
+ frete grátis



MOVIMENTOS SOCIAIS, POLÍTICAS SOCIAIS E QUESTÃO SOCIAL: ELEMENTOS PARA UMA ANÁLISE DA REALIDADE NO BRASIL E AMÉRICA LATINA
ORG: LUCÍ FARIA PINHEIRO
GRAMMA
(2011)
+ frete grátis



ESTRATÉGIA COMPETITIVA
MICHAEL E. PORTER
CAMPUS
(2004)
+ frete grátis



O HOMEM ESPIRITUAL ( AQUELE QUE É ESPIRITUAL)
LEWIS SPERRU CHAFER
IBR
(1986)
+ frete grátis





busca | avançada
30976 visitas/dia
949 mil/mês