Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
27313 visitas/dia
1,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Aspirando & Expelindo
>>> EXPOSIÇÃO NA CAIXA CULTURAL RIO DE JANEIRO TRAÇA LINHA DO TEMPO DA ARTE DE FRANCISCO BRENNAND
>>> Cunha recebe Verão na Montanha - Festival levará à cidade música de qualidade e artistas renomados
>>> PUBLIQUE SEU LIVRO - SOUL EDITORA ESTÁ RECEBENDO ORIGINAIS
>>> TV Brasil exibe maratona com shows de astros como Bell Marques e Nando Reis
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 8.Heroes of the World
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 7. Um Senador
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 6. Nas Asas da Panair
>>> Como se me fumasse: Mirisola e a literatura do mal
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 5. Um Certo Batitsky
>>> A vida dos pardais e outros esquisitos pássaros
>>> Blockchain Revolution, o livro - ou: blockchain(s)
>>> Bates Motel, o fim do princípio
>>> Bruta manutenção urbana
>>> Por que HQ não é literatura?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Barrados no baile
>>> Fluxogramas
>>> Fio de Eros II
>>> Bipolaridade
>>> Filme Fisionomia Belém está disponível no Youtube
>>> Bem-vindo
>>> A vida sem calendário
>>> Avesso a fim de semana
>>> Trump e Jerusalém
>>> Circun(instâncias)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Internet & Ensino, de Júlio César Araújo
>>> O Brasil na capa da Economist
>>> Isenta, mas jamais neutra
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Jogos de escritores
>>> Discurso de formatura do Ensino Médio
>>> Discurso de formatura do Ensino Médio
>>> From push to pull
>>> João Gilberto na Casa de Chico Pereira
>>> Se quiser tirar algo de mim, tire o trabalho, a mulher não
Mais Recentes
>>> Caixão fechado- Agatha Christie - a nova aventura do detetive Poirot
>>> Um dia na Vida do Século XXI
>>> Jesus Cristo
>>> A Bíblia e seus segredos
>>> The Garden Party and Others Stories - Stage 5
>>> Tango - Livello Due B1
>>> The Great Gatsby - Intermediate Level 5
>>> Jurassic Park - Intermediate Level 5
>>> Casino Royale - Level 4
>>> Superbird - Level 2
>>> The Prince of Egypt - Brothers in Egypt - Level 3
>>> Wuthering Heights - Intermediate Level 5
>>> The Perfect Storm - Intermediate Level 5
>>> The Hound of the Baskervilles - Elementary Level
>>> Outstanding Short Stories - Level 5
>>> The Adventures of Tom Sawyer - Stage 1
>>> Grandes Mestres- sabedoria milenar hoje
>>> Lições da Cidade Questionamentos e desafios do Desenvolvimento
>>> Plano de Bairro: No Limite do Seu Bairro Uma Experiência Sem Limites
>>> Bíblia Sagrada: Edição Pastoral
>>> Minidicionário Espanhol-português Português-espanhol
>>> O espelho e outros contos machadianos
>>> 1984 (Mil novecentos e oitenta e quatro)
>>> Bia na África
>>> Felpo Filva
>>> O Gato de botas
>>> A cidade do sol
>>> Lolo Barnabé
>>> De Cara com o espelho
>>> Falando pelos cotovelos
>>> O Guardião da Bola
>>> Se essa rua fosse minha
>>> O Processo de Comunicação: introdução à Teoria e à Prática
>>> A Casinha do Tatu
>>> Novas Lições de Análise Sintática (9ª ed.)
>>> Corpo Humano - Real e Fascinante
>>> Divergente
>>> O Santuário de S. Geraldo Ano XLVI - Jan nº 4
>>> Mensageiro de Santa Rita - Janeiro - Fevereiro nº340
>>> Mensageiro de Santa Rita - Outubro nº392
>>> Mensageiro de Santa Rita - Abril nº406
>>> Mensageiro de Santa Rita - Abril nº387
>>> Estrela do Mar - Julho
>>> Estrela do Mar - Janeiro
>>> Estrela do Mar - Março
>>> Estrela do Mar - Maio
>>> Estrela do Mar - Outubro
>>> Estrela do Mar - Abril
>>> Estrela do Mar - Junho
>>> Estrela do Mar - Agosto
COLUNAS

Quinta-feira, 6/3/2008
Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha
Marcelo Spalding

+ de 20800 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Quem esteve na praia, quem pulou carnaval ou deixou o rádio sintonizado nas FMs da hora, certamente ouviu neste verão a música 3 do mais recente CD de Seu Jorge, "Burguesinha". Sambinha gostoso, com sonoridade muito semelhante ao seu sucesso anterior, "Carolina", tornou-se em pouco tempo hit do verão.

Hits do verão, aliás, costumam nos deixar de cabelos em pé. Quem não lembra do Netinho, do É o Tchan, do Terra Samba? Ou da terrível "Hoje é festa lá no meu Apê", do glorioso Latino? Músicas cantadas ou dançadas por pseudocelebridades, não por músicos, e com letras rasas e apelativas, apesar do tom infantil de termos como bundalelê (para mim, nada mais, nada menos que orgia, bacanal). Pois é por isso mesmo que ouvi com certa surpresa e até alegria o povo todo cantarolando e se rebolando com "Burguesinha" nas festas mais populares aqui do nosso litoral gaúcho.

A música faz parte do quarto CD solo de Seu Jorge, América Brasil, composto de onze faixas de muito samba rock e que tem recebido algumas críticas dos entendidos de música. O jornalista carioca Mauro Ferreira, por exemplo, acha que o CD "pouco oferece além das levadas, com versos-clichês sobre a falta de dinheiro e o duro cotidiano do povo brasileiro". O próprio Seu Jorge teria dito que se trata de um disco doméstico, para tocar no churrasco, no computador. Mas como não pretendo comparar Seu Jorge com ele mesmo, e sim Seu Jorge com hits de verões passados, me parece que há espaço para certo otimismo.

Em apenas 16 versos, quatro estrofes, sem contar o refrão, a letra da música composta por Seu Jorge, Gabriel Moura e Pretinho da Serrinha esbanja ironia, não a ironia cáustica de um Machado de Assis, mas a ironia acomodada e "boa praça" do samba, da bossa nova. Ao mesmo tempo em que saúda a burguesinha, um filé de moça, critica com certa veemência o capricho das nossas elites, sempre virada de costas para a realidade da população em geral, lembrando que a população não apenas não come croissant como sequer saca dinheiro, sequer faz o cabelo, espremida entre a rotina estafante e a falta de dinheiro.

No refrão, a repetição da palavra burguesinha soa como a repetição de uma condição, a burguesinha sempre será burguesinha, geração a geração terá seus caprichos satisfeitos. O que muda, de tempos em tempos, é o objeto do capricho, sendo hoje croissant ou suquinho de maçã; ontem, passeio de moto; no tempo da minha avó, meias de nylon.

É possível, admito, que as meninas de salto alto que rebolavam ao som da música na beira de uma rica praia aqui do Sul não tenham percebido essa ironia ou, até mais provável, se orgulhem de comer filé, suquinho de maçã, malhar todos os dias e ir pra casa de praia no fim de semana. Ocorre que essa geração, a minha geração, não tem lá muitas ilusões ideológicas e antes de se envergonhar pelo rótulo de "burguesa", envergonhar-se-ia com o rótulo de "trabalhadora", pois é uma geração contaminada pela lógica fácil do individualismo e seduzida pelas promessas de felicidade capitalista.

Nesse sentido, "Burguesinha" celebra o bem viver, o american way of life, sintetizando em alguns ícones o que marca a pequena burguesia, essa necessidade de mostrar-se diferenciada, consumir o que há de melhor, estar na moda, malhada, o que a torna quase um hino debochado daqueles que perseguem exatamente esse modo de vida. Mas o faz ambiguamente, e aí a beleza de qualquer arte, pois narra do ponto de vista da própria classe favorecida, estratégia formal que um crítico, falando sobre Brás Cubas, chama de "delação de classe": é evidente que se a música adota o ponto de vista da burguesinha é para ironizar sua superficialidade, revelar sua pobreza intelectual ― ainda que ironize e revele sem acusar, sem protestar ― e não realmente bajular aquelas que enfeitam os calçadões.

Decerto se comparada a outros hits de abordagem social, como algumas canções do Chico, do Legião Urbana, dos Titãs, a música parecerá própria a um passageiro hit de verão, pois tira de uma problemática profunda meia dúzia de situações, não proporcionando reflexão ou crítica. Não chega perto de um "Marvin" ou de um "Faroeste Caboclo", e nem se fale de "Gente Humilde", "Saudosa Maloca", mas talvez seja o máximo que uma canção que se quer mercadológica consiga fazer nos tempos de hoje, quando política virou motivo de chacota da imprensa e Marx uma personagem restrita aos livros de história. Não por acaso o melhor Chico de hoje está nos romances, o funk desceu os morros só com o lado chulo, o cinema transformou a história de Olga numa história de amor.

Curioso é uma música dessas ser acolhida pela própria "burguesia" como seu hit de verão, tocar em caras festas de carnaval, sofisticados luaus à beira mar, festivais adolescentes, carros importados. Alguns mais otimistas dirão que é fruto de uma gradual tomada de consciência, o que pode ser um pouco verdade, mas pode apostar que verão que vem, ou no outro, volta um hit da Kelly Key, do Leonardo, do Latino. E cantaremos sem culpa tal qual a neta do Gerdau há de estar cantarolando "burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha"...


Marcelo Spalding
Porto Alegre, 6/3/2008


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Ah!... A Neve de Marilia Mota Silva
02. Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor de Jardel Dias Cavalcanti
03. Livro das Semelhanças, de Ana Martins Marques de Jardel Dias Cavalcanti
04. Brochadas, romance inquietante de Jacques Fux de Jardel Dias Cavalcanti
05. O que está por baixo do medo de usar saia? de Adriana Baggio


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2008
01. Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha - 6/3/2008
02. O melhor de Dalton Trevisan - 27/3/2008
03. Nossa classe média é culturalmente pobre - 21/8/2008
04. Cartas a um jovem escritor - 31/1/2008
05. Literatura é coisa para jovem? - 11/9/2008


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/3/2008
10h16min
Muito boa a análise; percepção fina da realidade. Parabéns.
[Leia outros Comentários de Roberta Resende]
8/3/2008
10h51min
Abordagem bem real a respeito de um fenômeno que ocorre no Brasil, de norte a sul. Lembrei-de de uma época em que "Vai Passar" foi a música do momento. Tocava nos mais diversos ambientes: desde a burguesia mais característica ao habitante da favela. Pena que isso é igual a cometas, só ocorre de tempos em tempos, muito distantes. Bom texto.
[Leia outros Comentários de Adriana Godoy]
11/3/2008
19h39min
Gostei do texto do senhor Spalding. Essa dissecação desta canção do seu Jorge está repleta de boas referências, não só musicais como também histórico-culturais. A ironia mencionada também passa a ser recurso no derradeiro parágrafo. Com essa estrutura de texto, utilizando-se desses recursos, fica um gosto de quero-mais, de se aprofundar talvez por um assunto como luta de classes, ou qualquer outro grande tema: mas isso caberia melhor num livro.
[Leia outros Comentários de Thiago L. Pierroni]
12/4/2009
11h36min
Concordo com a Adriana. Também lembrei do período ditatorial, pois todos cantam, inclusive as patricinhas (burguesinhas). Seu Jorge apenas expôs o cotidiano das "filhinhas de papai", sem precisar dizer que são fúteis de forma explícita... Cabe ao ouvinte compreender.
[Leia outros Comentários de Joelma Aragão]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




HISTORIA DEL TEATRO EUROPEO (DESDE LA EDAD MEDIA HASTA NUESTROS DIAS) (5 VOLUMES)
G.N.BOIADHIEV; A. DZHIVELÉGOV Y S. IGNATOY
EDITORIAL NACIONAL DE CUBA
R$ 210,00



TÉCNICAS DE RELAXAMENTO
PETHÖ SANDOR
VETOR
(1974)
R$ 20,00



COLAS BREUGNON - NOBEL DE LITERATURA DE 1915
ROMAIN ROLLAND
OPERA MUNDI
(1973)
R$ 40,00



AU PAYS DES ANTIQUAIRES
ANDRÉ MAILFERT
ERNEST FLAMMARION
(1954)
R$ 50,00



PELOS CAMINHOS DA HISTÓRIA
ADHEMAR MARQUES
POSITIVO
(2006)
R$ 60,00



O BEIJO INFAME
TONI MARQUES
RECORD
(2011)
R$ 30,00



MOMENTOS COM DEUS DEVOCIONAL PARA CASAIS
JAMES E SHIRLEY DOBSON
BETÂNIA
(2004)
R$ 10,00



DA MORTE, METAFÍSICA DO AMOR, DO SOFRIMENTO DO MUNDO
ARTHUR SCHOPENHAUER
MARTIN CLARET
(2001)
R$ 5,40



AMORES PERFEITOS
JOSÉ ÂNGELO GAIARSA
GENTE
(1994)
R$ 8,90



SCHELLING - OS PENSADORES
COLEÇÃO OS PENSADORES
ABRIL CULTURAL
(1980)
R$ 9,00





busca | avançada
27313 visitas/dia
1,0 milhão/mês