A casa de Robinson | Guilherme Pontes Coelho | Digestivo Cultural

busca | avançada
75359 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Cia Fragmento de Dança lança seminário “Amor Mundi – Pensando com Hannah Arendt”
>>> Realidade e ficção na Terça Aberta na Quarentena de agosto
>>> OBMJazz: OBMJ lança primeiro clipe de novo projeto
>>> Serginho Rezende é entrevistado por Zé Guilherme na série EntreMeios
>>> TOGETHER WE RISE TRAZ UMA HOMENAGEM ÀS PESSOAS QUE FIZERAM PARTE DA HISTÓRIA DO GREEN VALLEY
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A desgraça de ser escritor
>>> Um nu “escandaloso” de Eduardo Sívori
>>> Um grande romance para leitores de... poesia
>>> Filmes de guerra, de outro jeito
>>> Meu reino por uma webcam
>>> Quincas Borba: um dia de cão (Fuvest)
>>> Pílulas Poéticas para uma quarentena
>>> Ficção e previsões para um futuro qualquer
>>> Freud explica
>>> Alma indígena minha
Colunistas
Últimos Posts
>>> Uma aula com Thiago Salomão do Stock Pickers
>>> MercadoLivre, a maior empresa da América Latina
>>> Víkingur Ólafsson toca Rameau
>>> Philip Glass tocando Mad Rush
>>> Elena Landau e o liberalismo à brasileira
>>> O autoritarismo de Bolsonaro avança
>>> Prelúdio e Fuga em Mi Menor, BWV 855
>>> Blooks Resiste
>>> Ambulante teve 3 mil livros queimados
>>> Paul Lewis e a Sonata ao Luar
Últimos Posts
>>> Coincidência?
>>> Gabbeh
>>> Dos segredos do pão
>>> Diário de um desenhista
>>> Uma pedra no caminho...
>>> Sustentar-se
>>> Spiritus sanus
>>> Num piscar de olhos
>>> Sexy Shop
>>> Assinatura
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Nelson Freire em DVD e Celso Furtado na Amazônia
>>> Um caos de informações inúteis
>>> Asia de volta ao mapa
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Parei de fumar
>>> Ford e Eastwood: cineastas da (re)conciliação
>>> Amor à segunda vista
>>> O Gmail (e o E-mail)
>>> Diogo Salles no podcast Guide
Mais Recentes
>>> Em Meu Próprio Caminho de Allan Watts pela Siciliano (1992)
>>> Cama de Gato de Kurt Vonnegut pela Record (1991)
>>> A História Secreta de Donna Tartt pela Companhia das Letras (1995)
>>> Os Invictos de William Faulkner pela Arx (2003)
>>> Paralelo 42 de John dos Passos pela Rocco (1987)
>>> Para onde você vai com Tanta Pressa de Christiane Singer pela Martins Fontes (2005)
>>> Carta Sobre o Comércio do Livro de Denis Diderot pela Casa da Palavra (2002)
>>> Rimas da Vida e da Morte de Amos Óz Amós Oz pela Companhia das Letras (2008)
>>> Uma Desolação de Yasmina Reza pela Rocco (2001)
>>> O Fio Perigoso Das Coisas de Michelangelo Antonioni pela Nova Fronteira (1990)
>>> Hacia un Teatro Pobre de Jerzy Grotowski pela Siglo Veintuno (1970)
>>> Este é Orson Welles de Peter Bogdanovich pela Globo (1995)
>>> À Espera do Tempo Filmando Com Kurosawa de Teruyo Nogami pela Companhia das Letras (2010)
>>> Invisible Man de Ralph Ellison pela Penguin (2009)
>>> The Plot Against America de Philip Roth pela Vintage (2005)
>>> Vida, o Filme. Como o Entretenimento Conquistou a Realidade de Neal Gabler pela Companhia das Letras (1999)
>>> Rituais de Sofrimento de Silvia Viana pela Boitempo (2012)
>>> Um Sussuro nas trevas de H. P. Lovecraft pela Francisco Alves (1983)
>>> O Aleph de Jorge Luis Borges pela Globo (1992)
>>> O Deslumbramento (le Ravissement de Lol. V. Stein) de Marguerite Duras pela Nova Fronteira (1986)
>>> O Segredo do Padre Brown de G. K. Chesterton pela Círculo do Livro (1986)
>>> Se Não Agora, Quando? de Primo Levi pela Companhia das Letras (1999)
>>> O compromisso da fé de Emmanuel Mounier pela Duas Cidades (1971)
>>> A Doutrina Secreta - Vol. 6 de Helena Petrovna Blavatsky pela Pensamento (1989)
>>> A Doutrina Secreta - Vol. 2 de Helena Petrovna Blavatsky pela Pensamento (1989)
>>> O Livro Tibetano Dos Mortos de Hans Evans-Wentz pela Pensamento (1989)
>>> Milarepa de Hans Evans-Wentz pela Pensamento (1990)
>>> A Jornada do Herói Vida - Obra Joseph Campbell de Phil Cousineau pela Saraiva (1994)
>>> O Tarô Mitológico - uma Nova Abordagem para a Leitura do Tarô de Juliet Sharman-burke e Liz Greene pela Siciliano (2002)
>>> Curso De Psicologia Geral Vol. IV de A. R. Luria pela Civilização Brasileira (1979)
>>> Breton - Trotski: por uma Arte Revolucionaria Independente de Valentim Facioli (org) pela Paz e Terra (1985)
>>> Manifestos do Surrealismo de André Breton pela Moraes (1969)
>>> Os Cantos de Maldoror de Conde de Lautréamont pela Moraes (1970)
>>> Escritos de Antonin Artaud de Artaud e Claudio Willer (org.) pela Lpm (1983)
>>> Memória de um Amnésico de Erik Satie pela Hiena (1992)
>>> Contos Cruéis de Villiers de Lisle-adam pela Iluminuras (1987)
>>> A Cruzada das Crianças de Marcel Schwob pela Iluminuras (1987)
>>> Moralidades Lendárias Fábulas Filosóficas de Jules Laforgue pela Iluminuras (1989)
>>> Caos - Crônicas Políticas de Pier Paolo Pasolini pela Brasiliense (1982)
>>> Os Jovens Infelizes - Antologia de Ensaios Corsários de Pier Paolo Pasolini pela Martins Fontes (2013)
>>> A Maçã no Escuro de Clarice Lispector pela Francisco Alves (1992)
>>> As Ultimas Palavras do Herege de Pier Paolo Pasolini pela Brasiliense (1983)
>>> Triângulo das Águas de Caio Fernando Abreu pela Siciliano (1997)
>>> Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles pela Nova Fronteira (1989)
>>> A Importância do Ato de Ler de Paulo Freire pela Cortez (1989)
>>> As Idades da Vida de Romano Guardini pela Quadrante (1997)
>>> Cruz E Sousa E Baudelaire Satanismo Poético de Márie Helene Catherine Torres pela Ufsc (1998)
>>> A Morte dos Deuses de Michel Henry pela Jorge Zahar (1985)
>>> Vida Emocional dos Civilizados de Melanie Klein / Joan Riviere pela Zahar (1962)
>>> Um Simples Livro De Culinária Para As Classes Trabalhadoras de Charles Elmé Franvatelli pela Angra (2001)
COLUNAS

Quarta-feira, 23/6/2010
A casa de Robinson
Guilherme Pontes Coelho

+ de 3200 Acessos
+ 1 Comentário(s)


Sven Fennema © (http://www.boundlessmind.net/)

Aos olhos do pai, o filho pródigo será sempre o mais amado, sempre perdoado por sua prodigalidade, por sua vida errante. Este filho que traz tanto sofrimento à casa talvez mereça mais amor que os demais por ser tão estranho à própria família ― ele é o próximo de que fala aquele mandamento, o outro tão diferente de mim a quem devo amar como a mim mesmo. É mais que amor paternal, é o amor para com o gênero humano. Para o pai, ao contrário dos irmãos obedientes e perpetuadores da tradição familiar, seja ela qual for, o filho pródigo é a ruptura com toda a cultura em que ele foi gerado, com todo o trabalho realizado pelos pais pela prosperidade familiar. Ele é niilista, é destruidor. O filho pródigo, além de alienígena, é muito perigoso.

Ele volta para casa. Por vontade própria. É como um estranho batendo à porta. O próximo. Perigoso.

É aí, na chegada do errante, que começa o romance Em casa (Nova Fronteira, 2010, 352 págs., tradução de Adriana Lisboa), de Marilynne Robinson.

O nome deste errante é Jack Boughton. Um dos oito filhos do reverendo Robert Boughton, um septuagenário já aposentado, viúvo, que nunca saiu de sua cidade, Gilead, no interior do estado de Iowa, e que então mora com a filha caçula, Glory, uma mulher de trinta e tantos. Estes três personagens alimentarão as tensões de que é feita esta narrativa.

Jack passara vinte anos sem retornar à casa paterna. Nem a morte de sua a mãe o trouxe a Gilead. Vinte anos consumidos à semelhança daquele filho pródigo da parábola de Lucas. A inquietação que ele trouxe à família, contudo, não é somente por conta de sua partida e de seus destinos desconhecidos. Desde pequeno, Jack já ostentava um diabo interior insaciável, que fez fama em toda a cidade. Ladrão, alcoólatra, vagabundo, desempregado; motorista imprudente, pai irresponsável. Ele sempre foi o perigo.

Sua juventude pouco amistosa, seu espírito indômito e mesmo sua idade criaram a distância inconciliável entre ele e os irmãos mais novos, principalmente Glory. Ela, saída havia pouco de um relacionamento aviltante (extorsionário, casado), volta para casa para se recuperar e para cuidar do pai enfermo. Seu voo para fora de Gilead foi desastroso e traumatizante e isso contribui para sentir uma certa admiração ressentida da liberdade autocrática de Jack.

Um homem estigmatizado por todo o desperdício de vida que já cometeu, sofrendo o peso da imutabilidade do passado e buscando sua redenção. Uma mulher devota, tristonha, sem nenhum tipo de alternativa senão a casa em que sempre viveu com o patriarca, homem tão dedicado a Deus a ponto de lhe ser impessoal. E ele, o pai, reverendo Boughton, presbiteriano, vivendo próximo à morte e ainda incapaz de perdoar seu filho errabundo e inconsequente. Ao verão de 1956, estas três pessoas estarão juntas, sob o teto da casa que conhecem tão bem, a casa que testemunhou toda a vida dos Boughton e que, mesmo vazia, é carregada daquele ar opressivo e inescapável dos valores cristãos intrínsecos àquela família.

O romance é belo do início ao fim. Uma prosa simples e fluida, intimista, para falar de pessoas espiritualmente ricas, mas em desentendimento com o mandamento supremo da cristandade, amar ao próximo, e seu corolário imediato, perdoá-lo.

Marilynne Robinson é cristã, protestante, congregacionista. Nasceu em 1947, em Sandpoint, cidadezinha no interior de Idaho, Estados Unidos. Mora em Iowa City, Iowa, onde é professora de criação literária na universidade do estado. Em casa é seu terceiro romance, o segundo publicado no Brasil, ambos pela Nova Fronteira. O primeiro, Gilead, é narrado pelo reverendo John Ames, um congregacionista, vizinho e melhor amigo do reverendo Boughton. (O nome de Jack, na verdade, é John Ames Boughton, em tributo ao amigo e companheiro espiritual.) Há protestantismo em todo lugar, tanto na cultura da própria autora quanto nos personagens de sua criação, nos dilemas por eles vividos e, em relação ao Em casa, na maneira como são narrados ― uma releitura da parábola do filho pródigo.

Embora haja religião envolvida no romance, o grande mérito dele é transcender o aspecto meramente religioso e desenvolver um drama de valor espiritual. O reverendo Boughton tem um filho com talentos especiais para desgraça e o amor de pai, natural, vive em falso equilíbrio com o amor professado, obrigatório. Ignorante sobre a fronteira que divide o reverendo do pai, Robert Boughton vê a morte se aproximar e não sabe como perdoar aquele filho multívago que o visita, não mais uma criança, mas um homem adulto, mais próximo da velhice que da juventude. Um homem que desenvolveu uma aguda inteligência, leitor ávido que adquiriu uma erudição peculiar para desmascarar hipocrisias. O que o reverendo Boughton tem diante de si é um antagonista espiritual. Um traidor, diria, acredito, Nilton Bonder.

Se o pai na parábola de Lucas perdoa seu filho perdulário, e o veste com a melhor roupa, e o calça com sandálias novas, e lhe sacrifica um novilho cevado para lhe oferecer uma festa, porque seu filho "estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado", se na Bíblia o pai é só amor e perdão, na casa de Robinson este pai é dúvida. E mais.

Para ir além






Guilherme Pontes Coelho
Águas Claras/Brasília, 23/6/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Alice in Chains, Rainier Fog (2018) de Luís Fernando Amâncio
02. Crônica de Aniversário de Julio Daio Borges
03. Nos tempos de Street Fighter II de Luís Fernando Amâncio
04. Nós o Povo de Marilia Mota Silva
05. Do inconveniente de ter escrito de Cassionei Niches Petry


Mais Guilherme Pontes Coelho
Mais Acessadas de Guilherme Pontes Coelho em 2010
01. Nas redes do sexo - 25/8/2010
02. A literatura de Giacomo Casanova - 19/5/2010
03. O preconceito estético - 29/12/2010
04. O retorno à cidade natal - 24/2/2010
05. O mundo pós-aniversário - 3/2/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
25/6/2010
05h02min
O livro de Marillyne Robinson, pelo visto, aborda o elo do sentimentalismo, buscando resgatar o sentimento e o olhar bíblico do processo da vida real. Ou seja: o idealismo fantasioso do milagre. E a santa e sagrada família. Mas o negócio é que tudo isto não faz parte do mundo real, é apenas um sonho frustado fundamentado em valores forjados, pela religião. E a tal religião que força, pra continuar explorando, os desgraçados, seguidores, como vacas de presépios. Como diria Karl Marx, "A religião é o ópio do povo". E quantas são as gentes viciadas?
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A POESIA NO BRASIL
SONIA BRAYNER
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(1970)
R$ 6,90



CRISTO, NOSSA PAZ - RETIRO POPULAR 2009
DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA
CANÇÃO NOVA
(2008)
R$ 5,00



GRANDE CRÔNICA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL VOLUME 2
READERS DIGEST
READERS DIGEST
(1969)
R$ 16,90



SOMBRAS QUE ASSOMBRAM - O EXPRESSIONISMO NO CINEMA ALEMÃO
SESC
SESC
(2013)
R$ 5,00



TARÔ MÁGICO DAS BRUXAS - 1ª EDIÇÃO ACOMPANHAM 45 CARTAS
TAMINA THOR
PALLAS
(2005)
R$ 63,95



CABEÇA DE NEGRO
PAULO FRANCIS
NOVA FRONTEIRA
(1979)
R$ 12,00



ADMINISTRANDO SISTEMA DE INFORMAÇÃO ESTUDO DE VIABILIDADE
ENRICO G F POLLONI
FUTURA
(2000)
R$ 17,84



MAGISTRATURA DO TRABALHO - SÉRIE PROVAS E CONCURSOS
OTAVIO CALVET
ELSEVIER
R$ 31,82



VERENOR A VINGANÇA DE KHAOS
MARCELO LACERDA
LEITURA
(2008)
R$ 7,90



MULHERES DE AÇO E DE FLORES
FÁBIO DE MELO
GENTE
(2008)
R$ 6,99





busca | avançada
75359 visitas/dia
2,6 milhões/mês