Riobaldo | Paulo Polzonoff Jr | Digestivo Cultural

busca | avançada
35732 visitas/dia
993 mil/mês
Mais Recentes
>>> Big Band Infanto-Juvenil do Guri traz o melhor do Jazz para Casa-Museu Ema Klabin
>>> Pátio Alcântara realiza a '6ª Mostra de Orquídeas'
>>> Espetáculo 'Ana Bastarda' dança o feminismo no Brasil
>>> Série Bravos! apresenta a trajetória da artista maranhense Thabata Lorena
>>> Caminhos da Reportagem discute preconceito, tabu e silêncio em torno do suicídio
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
>>> Da varanda, este mundo
>>> Estevão Azevedo e os homens em seus limites
>>> Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> No compasso de espera
>>> O que sei do tempo V
>>> É de fibra
>>> O indomável Don Giovanni
>>> Caracóis filosóficos
>>> O mito dos 42 km
>>> Setembro Paulista
>>> Apocalipse agora
>>> João, o Maestro (o filme)
>>> Metropolis e a cidade
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Meu Primeiro Livro
>>> O Conselheiro também come (e bebe)
>>> O Mistério dos Incas
>>> Black Sabbath 2013
>>> 20 anos do Dois
>>> Dentro da maré cósmica: Saint-John Perse
>>> Orquestra de Câmara F. Liszt
>>> perversão sexual
>>> Amy e a hipocrisia coletiva
Mais Recentes
>>> Revista de literatura
>>> Revista de literatura
>>> Vida acadêmica - Guia Prático do Universitário
>>> A Cidade de Mil Olhos
>>> A Saúde em Estado de Choque
>>> O Futuro do EU- um Estudo da Sociedade da Pós-Identidade
>>> Kathryn Kuhlman- uma Biografia autorizada
>>> Fundamentos de Engenharia de Petróleo
>>> Como Fazer Seu Filho Trocar O Não Pelo Sim
>>> Paratii: Entre Dois Polos
>>> Resposta Certa
>>> Lineamentos De Direito Eleitoral
>>> A Moda
>>> Comer Rezar Amar
>>> A Ponte
>>> Mais Coisas Que Toda Garota Deve Saber
>>> Agora estou sozinha... 3ª ed.
>>> A Invasão Cultural Norte Americana
>>> Manual De Ética, Redação E Estilo Zero Hora
>>> Feias, quase cabeludas
>>> Como Fazer As Pessoas Gostarem De Você À Primeira Vista
>>> Tópicos Em Bancos De Dados, Multimídia E Web
>>> O Papel Do Educador Na Era Da Interdependência
>>> Sexo Na Cabeça
>>> Comprometida - Uma história de amor
>>> O Livreiro De Cabul
>>> Disputas Antigas E Outras Citações
>>> O Levante de 44 - A Batalha Por Varsóvia
>>> BR 040 - Na Trilha Das Capitais Do Brasil
>>> Os Eleitos
>>> Cálculo Volume 2
>>> Tempo de travessia - O segredo das pedras II
>>> Contabilidade Geral Fácil
>>> Administração de Vendas - PLT
>>> Villa-Lobos e a Música Popular Brasileira: Uma Visão Sem Preconceito
>>> A Escola como Sistema Complexo- A ação, o poder e o sagrado
>>> Estudos afro-asiáticos 5 - O pensamento de Frantz Fanon...
>>> Os condenados da terra
>>> Mães Pais & Filhos
>>> Para Tarsila
>>> Corações Blues E Serpentinas
>>> Nunca Antes Na História Deste País
>>> Diário De Uma Encrenqueira - Pérolas Ou Pegas
>>> Terceirização E Multifuncionalidade
>>> Adequação Empresarial - Direção E Foco
>>> Anábase - História Da Gazeta Mercantil
>>> O Longo Inverno - A Batalha do Bulgre
>>> 30 Segundos de Televisão Valem Mais do que 2 Meses de Bienal de São Paulo - Isto é Bom ou é Ruim?
>>> Diário de Berlim Ocupada - 1945 - 1948
>>> As Leis Fundamentais Para O Crescimento Na Vida
COLUNAS >>> Especial Festas 2001

Quarta-feira, 2/1/2002
Riobaldo
Paulo Polzonoff Jr

+ de 4300 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Daniela Mountian

Vou começar este texto com o maior clichê do mundo: ano novo, vida nova. Ah, vai, confessa que você deve ter pensado nisso quando o relógio deu meia-noite. Não se envergonhe, por mais inteligente que você for, é normal. Jung, aquele filho da mãe, deve ter uma boa teoria para isso. Como não sou discípulo de Freud nem nada, apenas repito o lugar-comum das areias de todo o Brasil (perdão se você mora no interior, mas é que só consigo lembrar de anos-novos na areia da praia). Ano-novo, pois, vida nova, pois.

Antes de qualquer coisa, um causo. Um causo literário, por assim dizer. Há quem o considere a tragédia extrema da família, mas eu o considero apenas um marco, assim uma espécie de divisor de águas entre o certo e o duvidoso. Aconteceu na noite de Ano-Novo mais relevante dos últimos mil anos: a de 1999 para 2000. Sim, eu sei que o século não mudou nesta data, e sim de 2000 para 2001, mas a mística dos três zeros estava por toda a parte.

Eu estava deitado tranqüilamente na rede da casa de praia, sentindo aquela brisa da noite do mar. Adoro aquilo. Odeio praia, com aqueles corpos se sobressaindo de biquínis vulgares (não adianta atacar minha masculinidade, senhores leitores), mas adoro aquela brisa do mar. O calor até que me fazia bem. Sem dizer que, volta e meia, eu ia até a praia, olhar as estrelas, as ondas, compor poemas que jamais escrevi, pensar na porra da vida que tomava um rumo indesejado. Pois deitado na rede eu lia Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Vai ser muito patético se eu disse que é o melhor livro brasileiro do século 20 e quiçá um dos melhores da literatura mundial, e que assim seria reconhecido, não escrevêssemos numa língua periférica? Bem, agora á disse, não há como volta atrás. Ali lendo, sorvendo aquele desbunde lingüístico, eu também esperava uns parentes que passariam a noite conosco. A casa estava bastante calma para o horário razoavelmente avançado: oito da noite. Meu pai fazia churrasco, eu lia e bebia e fazia todo o esforço do mundo para não ficar bêbado, para continuar a leitura. Coisa rara: houve respeito e ninguém colocou músicas de mau-gosto, como é de costume. Até que.

Até que os parentes chegaram. Em duas caminhonetes e um carro. Chegaram com seus chapelões de rodeio. Chegaram gritando, dando abraços apertados demais e beijos babados. Foram estacionando seus carros na garagem e abrindo caminho por entre as comidas da ceia. E eu ali, na rede, abraçado ao Guimarães Rosa (outro ataque à minha masculinidade; pode bater que ela é forte...), começando a odiar a situação. E então, de repente, eu escuto. Não, não é Strauss. Nem é Cole Porter. Obviamente, isto está muitos degraus acima da escala evolutiva destes. Não era nem ao menos Caê ou Marisa Monte, travestidos de inteligência. Não era sequer o Roberto Carlos, que, numa última concessão, eu até suportaria. Era música sertaneja-brega mesmo. E num volume acima do recomendável pela Organização Mundial de Saúde, que nestes casos é de silêncio extremo.

Talvez motivado por um espírito de Riobaldo, levantei-me da rede e reclamei. Parece uma atitude normalíssima, mas numa família de descendentes de italianos isso é absurdo, porque se preza a felicidade (ainda que falsa) alheia, acima de tudo. O pedido para que abaixassem o volume de nada adiantou. O telefone tocava, mas ninguém conseguia falar nele porque um cantor desafinado qualquer gritava dos autofalantes do carro. Por meio de uma gambiarra, os filhos da mãe juntaram os autofalantes dos dois carros, o que tornou a situação impossível de se agüentar. Riobaldo, digo, eu, tomou dois goles de caipirinha e pediu mais uma vez que abaixassem. Num momento de descontração (que não lhe (me) é raro), sugeriu que colocassem o CD do Strauss. Ficou por isso mesmo. Até que Riobaldo levantou o bacamarte, ameaçadoramente, e se dirigiu, em cima de um cavalo de Dom Quixote, para o CD-player. O dono do barulho relutou, disse que a festa era dele também (argumento inteligentíssimo, não?). Ao que Riobaldo retrucou dizendo que o sertão era dele, empurrou o babaca da música sertaneja, pegou o CD e jogou-o na areia. Fez menção de ir pisar no disquinho, mas foi contido. Riobaldo estava feliz, naquela noite de Ano-Novo que acabara de estragar. Olhou para os lados: o silêncio. Recolheu o bacamarte, pegou seu livro novamente e foi para a rede, lê-lo.

Dois minutos mais tarde, novos apertos de mão, desta vez contidos. Feliz Ano-Novo daqui e dali, todos muito polidos e mentirosos. Os invasores fugiam da fúria literária de Riobaldo, às 23h30. Passaram o Ano-Novo lá deles na estrada, por certo comendo seu franguinho com farofa, enquanto Riobaldo, já um tanto esmorecido pela caipirinha, tentava dormir.

Pois é, este texto era para, na verdade, falar sobre as resoluções de Ano-Novo. Às vezes acontece isso: o texto que é para ser e não é. A história se impôs às minhas modestas pretensões para 2002. Ao contrário de todo mundo, eu quero é fumar. Não cigarro, mas um charuto bem bom, destes que se paga uma fortuna. Gosto besta, sô. Também não quero parar de beber. Só vou mesmo é mudar a marca e a idade de meu uísque, de um Red Label, 8 anos, para um Chivas, 12 anos. Amar vou continuar amando, quiçá com um pouco menos de poesia e um pouco mais de pragmatismo, como me ensina a vida neste momento. Vou escrever muito e até já cadastrei um blog para publicar as crônicas que escreverei diariamente. Vou ler Guerra e Paz, finalmente e de uma vez por todas, eu prometo. E vou reler Grande Sertão: Veredas (aliás, vou fazer isso agora mesmo), que é para ser Riobaldo de novo, quando precisar.


Paulo Polzonoff Jr
Curitiba, 2/1/2002


Quem leu este, também leu esse(s):
01. As crianças do coração do Brasil de Elisa Andrade Buzzo
02. A noite do meu bem, de Ruy Castro de Julio Daio Borges
03. Radiohead e sua piscina em forma de lua de Luís Fernando Amâncio
04. Um Oscar para Stallone de Luís Fernando Amâncio
05. Carta aberta a quem leu Uma Carta Aberta ao Brasil de Adriane Pasa


Mais Paulo Polzonoff Jr
Mais Acessadas de Paulo Polzonoff Jr em 2002
01. Alice no País de Freud, Marx ou Hegel - 16/1/2002
02. Dois Idiotas - 13/2/2002
03. Ele, Francis - 6/2/2002
04. Riobaldo - 2/1/2002
05. Pode guerrear no meu território - 30/1/2002


Mais Especial Festas 2001
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
12/12/2008
17h47min
Cara, a internet tem destas coisas. Vc escreveu este texto faz tempo, e só agora eu o leio, e ao ler, penso em todas as vezes que tive vontade de incorporar, não o Riobaldo, mas o Wolverine, e sair rasgando quem me enchia a paciência. Embora goste muito de minha família - daquele jeito peculiar que a gente gosta de parente - não foram poucas as vezes em que quis fazer algo parecido. Diz aí? Desopilou o fígado? Eu me amarrei só de ler. Um abraço.
[Leia outros Comentários de Ronaldo ]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A VIA DE CHUANG TZU
THOMAS MERTON
VOZES
(2002)
R$ 40,00



JOGO DE EXTORSÃO 8001X
R. J. KAISER
BEST SELLER
(2003)
R$ 15,00



COMO IMPLANTAR UMA ÁREA DE COMUNICAÇÃO INTERNA
PAULO CLEMEN
MAUAD
(2008)
R$ 21,90



POR QUE ALMOCEI MEU PAI
ROY LEWIS
COMPANHIA DAS LETRAS
(1993)
R$ 20,00



O PRAZER DA LEITURA - COMO A ADAPTAÇÃO DE CLÁSSICOS AJUDA A FORMAR LEITORES
MÁRIO FEIJÓ
ÁTICA
(2010)
R$ 24,00



A BRUXA DE PORTOBELLO
PAULO COELHO
PLANETA
(2006)
R$ 6,00



A MAGIA EXISTE?
SILAS GUERRIERO
PAULLUS
(2003)
R$ 13,00



SEREIS UMA SÓ CARNE
FELIPE R.Q.AQUINO
RABONI
(1994)
R$ 7,50



LEGADO DE HONRA
JAMES A. MICHENER
RECORD
R$ 6,30



EL TEATRO DE STANISLAVSKI - V.O. TOPORKOV
V.O. TOPORKOV
BIBLIOTECA DEL PUEBLO - CUBA
(1962)
R$ 120,00





busca | avançada
35732 visitas/dia
993 mil/mês