A Delicadeza dos Hipopótamos, de Daniel Lopes | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 1/9/2015
A Delicadeza dos Hipopótamos, de Daniel Lopes
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 3500 Acessos


"Caminhei muitas noites por esta trilha de pedras até chegar à aldeia de minha infância". Não é Kafka quem escreveu esta frase, mas poderia ter sido. Na verdade, esse é o início do romance A delicadeza dos Hipopótamos, de Daniel Lopes, publicado pela Editora Terracota, de São Paulo, em 2014.

Numa espécie de retorno à terra natal, o personagem Léo encontrará os hipopótamos do título, que não são outra coisa que os habitantes desse mundo fantasmagórico e, por vezes, grosseiramente real, de pessoas do seu passado, que transtornam a sua mente.

Que trilhas de pedras seriam essas que o personagem trilhou? Seria uma metáfora do seu desenvolvimento (e desencantamento) vivido fora da aldeia de sua infância? E porque os habitantes desse lugar ao qual retorna agora seriam transformados em hipopótamos?

Perto do fim do romance, esclarece-se a angústia da trilha de pedras: "Eu poderia contar tudo o que me aconteceu na cidade grande. Poderia falar das noites que passei em claro, bebendo café, fumando e tentando escrever. Poderia falar das mulheres, sempre as mulheres! Enigma molhado. Poderia falar das bocas de porco e dos lugares elegantes em que trabalhei. Poderia falar de como bebi e me droguei e de como depois parei de beber e me drogar. Eu poderia contar tanta coisa... MAS NÃO AQUI."

Talvez a vida de Léo tenha sido a mesma vida dos hipopótamos (apesar do deslocamento espacial), entregues ao vazio cotidiano, na perseguição de suas obsessões, que no fim... "vão dar em nada, nada, nada". Talvez o "ser hipopótamo" nunca saiu de dentro dele, embora o deslocamento para o universo urbano oferecesse outras diversões e ansiedades.

O pessimismo de Léo ao longo do livro tem sua fonte na origem, como tenta esclarecer o personagem: "Pode até acontecer de a origem ser o vazio e, neste caso, feito um Gautama Ocidental, um Schopenhauer primitivo, erguerei altar em homenagem ao nada."


A reflexão filosófica que procede deste entendimento desumaniza a figura do personagem, que sabe que, apesar de sua capacidade de pensar, de "olhar para deus" e "sondar as estrelas", todos serão "devorados por vermes da mesma maneira que os porcos". Uma reflexão alegórica, como numa pintura barroca, onde a reflexão diante da caveira anuncia uma redenção pelo encontro com o sublime espiritual. No caso de Léo, talvez sem redenção, como veremos à seguir.

"Cada um tem seu fardo", diz Léo em outro momento reflexivo. Esse peso da existência, talvez fruto das frustrações, dos amores mal amados, dos sonhos que seriam fiascos, transtorna seu olhar, sem, no entanto, deixar de redimir os hipopótamos, seus iguais, que gritam por uma "delicadeza", mesmo sendo suas existências pesadas na balança do fardo que carregam.

O conflito entre espírito e carne, quase a natureza de Léo, mortifica sua existência, envenena seus pensamentos. Não o deixa ser espírito, pois sempre há a exigência da carne. Léo contorce-se como o "Escravo" de Michelângelo em seu conflito platônico entre o desejo do sublime-espiritual e os desejos terrenos e prosaicos da carne. Não há imagem melhor disso que a seguinte passagem:

"O estado natural do eu não é de gota, mas de Oceano. Por isto, o eu tenta das mais variadas formas romper os limites, cindir a casca... Tenta a arte, tenta o amor, tenta a amizade, mas enquanto há a carne, e a carne veste o corpo, estamos todos inapelavelmente condenados à mais terrível solidão."

As metáforas são terríveis quando fala da carne, mas deixando claro que o conflito arte X vida se dá numa única vertente, a dos apelos do corpo que adoecem o espírito: "... a carne é um invólucro frágil para ser rasgada pela luz. Criam-se chagas na pele, forma-se sífilis no espírito. Brota o pus em qualquer orifício."


Há uma espécie de esgrima baudelairiano no romance, que se revela nessa tensão entre a existência prosaica e o espírito tensionado do personagem - que se sabe prosaico e ao mesmo tempo capaz de pensar sua própria nulidade, enquanto os hipopótamos apenas "vivem" rumo à sua destruição inconsciente. A frieza do personagem, que exibe sua perfeita e irônica consciência diante do "teatro do mundo", pode ser vista na passagem abaixo:

"Depressa, Léo. Seu pai está encrencado lá no bar, disse o Gordo ainda menino, mas já com as primeiras manchas de vitiligo pelas mãos. Tive que fingir desespero. As palavras dele não falaram, caíram no oco dentro de mim. Achei que ficaria melhor num filme melodramático hollywoodiano com uma música que insinuasse tensão e as legendas fluorescentes embaixo: "PREOCUPEM-SE!" Que é para não restarem dúvidas quanto ao que devemos sentir no teatro dos dias."

Esse distanciamento, motor da reflexão de qualquer categoria, de qualquer criação filosófica ou artística, aproxima e afasta ao mesmo tempo a existência de Léo da existência dos hipopótamos. Daí o transtorno sempre presente na mescla dos estados físico e psicológico que promovem uma autocorrupção de si mesmo: "A insônia piora o que já é difícil".

Nunca ele próprio, mas "o espectro de si mesmo" é que procura um livro em que "as pistas estivessem por toda parte, mas o mistério não encontrasse solução, como na vida." Essa vida insolúvel é tensão constante. "Como dançar se, como disse Nietzsche, é aos homens espirituais que a vida impõe sua mais forte oposição? Como dançar sobre a corda bamba se mal conseguimos nos equilibrar para seguir adiante?"

O "sim à vida", proclamado por Nietzsche contra o niilismo de Schopenhauer, não é propriedade da vida de Léo. Personagem atormentado pela existência, nem escrever o liberta da prisão. Para ele o pior só amplia o pior: "Procurei a origem da angústia e só encontrei mais angústia".


Perdido o sentido de tudo, Léo parece não colocar nada no lugar, nem a aventura da literatura como libertação do peso do viver. Não aceita, talvez, que para ser artista, é do prazer dessa consciência do vazio da existência que brotará a arte. E a carne, matéria da vida, é o elemento que impede o espírito de encontrar, não a paz, mas o sentido transfigurado da vida na criação: a arte, essa mentira que torna a vida suportável. Mas como, se para Léo, não há sentido? O que lhe sobra é um desejo diáfano: "Gostaria de poder acreditar em alguma mentira que fizesse sentido..."


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 1/9/2015


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