Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge | Digestivo Cultural

busca | avançada
66765 visitas/dia
1,7 milhão/mês
Digestivo Cultural
O que é?
Quem faz?

Audiência e Anúncios
Quem acessa?
Como anunciar?

Colaboração e Divulgação
Como publicar?
Como divulgar?

Newsletter | Disparo
* RSS, Twitter e Facebook
Últimas Notas
>>> Diálogos de Platão, pela editora da Universidade Federal do Pará
>>> Porta dos Fundos
>>> Os Enamoramentos, de Javier Marías
>>> One Click, a História da Amazon, de Richard L. Brandt
>>> Amores & Arte de Amar, de Ovídio
>>> Gonzaga - De Pai pra Filho, de Breno Silveira
>>> Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade
>>> Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke
Temas
Mais Recentes
>>> O Corno em Série
>>> A Cidade do Improvável
>>> Um Lugar para Fugir Antes de Morrer
>>> O goleiro que ganhou o Nobel
>>> O Amor é Sexualmente Transmissível
>>> Na minha internet foi assim, e na sua?
>>> Um livro canibal
>>> Toda poesia de Paulo Leminski
>>> A via férrea da poesia de Mario Alex Rosa
>>> Garanto que você não vai gostar
Colunistas
Mais Recentes
>>> Millôr Fernandes
>>> Daniel Piza (1970-2011)
>>> Steve Jobs (1955-2011)
>>> 11/9: Dez Anos Depois
>>> Séries de TV
>>> Discoteca Básica
Últimos Posts
>>> Waldemar Falcão #EuMaior
>>> Barbara Abramo #EuMaior
>>> O turista cinéfilo
>>> Flávio Gikovate #EuMaior
>>> Vanete Almeida #EuMaior
>>> Space Oddity de David Bowie
>>> Ivan Lessa no Observatório
>>> Subversão Cultural
>>> AnaE manda avisar
>>> Caro Francis
Mais Recentes
>>> Sergio Britto & eu
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Joey e Johnny Ramone
>>> A Cultura do Consenso
>>> De Kooning em retrospectiva
>>> Delírios da baixa gastronomia
>>> Jane Fonda em biografia definitiva
>>> Psicodelia para Principiantes
Mais Recentes
>>> Luis Salvatore
>>> Catarse
>>> Chico Pinheiro
>>> Sheila Leirner
>>> Guilherme Fiuza
>>> Antonio Henrique Amaral
Mais Recentes
>>> 40 mil seguidores no Twitter
>>> Comentários via Facebook
>>> Obrigado, Daniel Piza
>>> Seção Mais Acessados
>>> Digestivo no Facebook
>>> Você no Twitter do Digestivo
Mais Recentes
>>> Freud Básico
>>> Redação Oficial para Concursos
>>> Dicionário de Filosofia
>>> Como os Mercados Quebram
>>> Educação, Imagem e Mídias
>>> Monteiro Lobato - Livro a Livro
>>> O Poder da Energia
>>> Jardim de Inverno
>>> Na Cozinha com Nigella
>>> Notas Sobre o Anarquismo
Mais Recentes
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> A teoria do caos
>>> Outsider: quem não se enquadra
>>> A fragilidade dos laços humanos
>>> Como escrever bem — parte 2
>>> Como escrever bem — parte 1
>>> Matinas sobre a Serrote
>>> Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica
>>> Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica
>>> Um contrabaixo na contramão
Mais Recentes
>>> Meu encontro com Paulo Coelho no Varal do Brasil
>>> Lançamento do livro "O Ídolo de Madeira"
>>> Grupo Gattu reestreia comédia policial no Teatro do Corinthians
>>> Estudantes de Design utilizam técnicas de teatro para testar a usabilidade de produtos
>>> Números extraordinários marcam encerramento do concurso da iStockphoto
>>> Mistura de ritmos embala noites do Santa Marta
>>> Exposição do artista José Diniz dá origem a seminário
>>> O REI DAS ORQUIDEAS
>>> UniBrasil promove curso internacional de Direito Constitucional Latino-Americano
>>> Bourjois traz linha Flower Perfection ao Brasil
COLUNAS

Terça-feira, 14/8/2012
Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Duanne Ribeiro

+ de 2000 Acessos

Christopher Nolan conclui sua trilogia. Se Batman Begins foi bom e Batman: O Cavaleiro das Trevas ótimo, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge fica entre os dois. É um filme diferente, com menos enfoque em cenas de ação e mais em desenvolvimento psicológico do protagonista. O filme se passa oito anos após o término do precedente, com Bruce Wayne "aposentado" da atuação como Batman, e seu alter-ego é visto como criminoso pela polícia local. A cidade, antes violentíssima, está praticamente pacificada, e um vingador não parece ser necessário. Surge no entanto uma nova ameaça - Bane, líder de uma espécie de exército-seita - e ele se sente impelido a voltar à ativa. A obra se inspira vagamente em duas séries clássicas das histórias em quadrinhos do herói: Queda do Morcego e Terra de Ninguém.

A obra tem qualidades. A preocupação de Nolan com o realismo é a maior delas: além do lado subjetivo do Batman, percorremos os problemas corporais que causam sua vida de vingador, e as exigências de exercício constante. Os outros personagens também têm caracterizações sempre próximas do plausível. Bane é forte como personagem pela união da falta de expressão facial (pela máscara) com um pensamento aparentemente calculista, planejado, e a presença física intimidadora. A Mulher Gato nunca se chama assim, e só delicadamente dá a impressão de orelhinhas de felina, por causa dos óculos especiais: não é mais uma "fantasiada", assim como outro personagem que surge pela primeira vez na nova série também não é. Há também problemas: lacunas de verossimilhança e ingenuidade do enredo (um exemplo está na batalha final Batman/Bane) e, principalmente, um teor ideológico intenso, que prejudicou sobremaneira meu envolvimento com a narrativa.

Essa ideologia será criticada abaixo - não por suas teses, mas pelo modo insidioso com que é introduzida: ela faz o filme funcionar como uma longa "falácia do espantalho", distorcendo a posição de seus oponentes até o ponto em que sejam simples de negar. É nela que quero me focar. Este artigo acaba sendo um texto mais direcionado para quem assistiu o filme - tudo que segue contém spoilers - portanto convido o leitor a retornar com a obra vista. No entanto, ele é legível como debate de ideias, para quem não pretende ver este Batman: o que trago, em suma, é uma leitura cultural-política de "terrorismo", "revolução" e "liberalismo".

Não pretendo justificar a necessidade dessa crítica à ideologia no corpo da coluna; se o leitor quiser impugnar a utilidade ou plausibilidade de um debate assim a respeito de uma história de um homem vestido de morcego, podemos discutir nos comentários.

Bane é os 99%
"Alguns homens só querem ver o mundo queimar". Comentei com um amigo essa frase do segundo filme da trilogia, fascinante pelo seu elogio à desordem (visível, por exemplo, nos posts que inspirou, como esse). Esse meu amigo retrucou com algo perspicaz: a tese, vinda da boca do mordomo inglês Alfred, é sintomática do pensamento do colonialismo britânico de tempos passados (no diálogo, o mordomo cita a incursão em Burma, atual Myanmar) e pinta o "terrorismo" como uma atitude destacada da razão; não há que compreendê-lo, basta combatê-lo (para um contraponto, leia a resenha de Virtude e Terror, antologia de Slavoj Zizek, por Vladimir Safatle). O Cavaleiro das Trevas Ressurge é construído sobre esse tipo de visão enviesada e/ou redutora de temas sociais, e é isso o que pretendemos demonstrar.

No país que assistiu em 2011 a expansão do movimento Occupy e do slogan "Nós somos os 99%" desde Wall Street para cerca de 600 comunidades norteamericanas e 95 cidades de 82 países, Nolan lança uma caricatura da crítica à riqueza e do status quo. A Mulher Gato diz: "Há uma tempestade chegando, senhor Wayne. Você e seus amigos vão se perguntar como puderam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós". É quase uma paráfrase do slogan mencionado, com o acréscimo da "tempestade", que remete a Bob Dylan em A Hard Rain's Gonna Fall, também de uma época de mudanças sociais. Há, assim, ao menos dois caminhos para que o público caracterize essa posição como típica de algo conhecido, e para ver tal posição derrogada: a chuva pesada que cairá será, enfim, o ataque de Bane que é descrito logo abaixo, e a Mulher Gato, como se pode prever, se arrependerá.

Há também o escárnio sobre a bolsa de valores: quando Bane a invade, alguém diz que não tem dinheiro ali; ele responde: "Sério? E o que vocês todos fazem aqui?". A ironia indica o despeito social possivelmente descrito por sim, é claro que há dinheiro, velhos vencedores e uma filiação tremenda com o poder. Bane por um instante é esse ressentimento. E também para que vejamos, de duas formas diferentes, que esse ressentimento é inapropriado.

Liberalista, Conservador, Apolítico
A primeira é a visão liberalista de mundo implicada. Em dado momento, Bruce Wayne - o Batman - pergunta ao funcionário que gere sua empresa porque pararam de financiar um orfanato. A resposta é que sem lucro essa ajuda não é possível. A melhora social se vincula aqui diretamente com o crescimento da iniciativa privada, sob a qual recai o financiamento destinado a menores carentes. Repare na ausência do Estado, que outrossim é sempre posto como poder corrupto ou ineficiente, seja Legislativo ou Executivo (um exemplo: o prefeito, diz-se, demitiria em breve o Comissário Gordon, ao fim do filme um herói) - é a indústria e seu modelo administrativo o ideal (a Corporação Wayne é quem desenvolve uma fonte de energia limpa superior a qualquer outra, além de um arsenal poderoso; mas com a sensatez de aguardar pelas "mãos certas" para entregar o material). O enredo comporta de certa forma até o mito do self-made man: Miranda Tate conta como nasceu pobre e se alegrava com uma fogueira, e agora é bilionária.

A segunda é a ideia conservadora de "revolução". Após explodir vários pontos de Gotham, dentro de um estádio arrasado, Bane discursa à massa: "Não viemos como conquistadores, mas como libertadores, para retornar o controle dessa cidade a seu povo". Na sequência, ele liberta prisioneiros de uma cadeia citada no início como destino de milhares de membros do crime organizado, chamando-os "oprimidos". O vilão se arroga uma revolução em nome da liberdade, do povo, dos oprimidos. São palavras, no filme, sem conteúdo, como se fossem só o negativo de qualquer coisa instituída antes. São ademais termos carregados e apontam para correntes ideológicas, em geral a esquerda, em específico o comunismo. Um exemplo dessa última ideia ocorre quando uma amiga da Mulher Gato lhe diz que tal residência é agora casa de todos - "de forma perfeitamente comunista", descreve o crítico Christian Toto. Ainda mais: o país de origem do cientista que altera um reator em arma nuclear para Bane é a Rússia - vilã típica em filmes hollywoodianos, por motivos simples de aferir.

A revolução de Bane é sobretudo vazia em forma e fato. Em primeiro lugar, o espectador não pode crer nela nem por um instante: sabemos que a bomba nuclear com que Bane ameaça a todos e impede que saiam da cidade explodirá de qualquer forma. Além disso, ele se mantém poderoso após a intervenção (o conquistador que negou ser). Por fim, não há, ecoando o Alfred colonialista, sentido ou objetivo: o que ele instaura é só barbárie. Assim como vê Hobbes, encerrado o Estado só há guerra de todos contra todos: o filme nos mostra os indivíduos sem capacidade de organização ou agência, entregues às gangues; a única instituição de pé é uma paródia do Judiciário. Apolítica, a revolução de Bane é um elogio ao status quo anterior, a opção mais sólida frente a mudanças que são irracionais ataques à democracia. Juntando as duas ideias apresentadas, temos uma proposta social clara, coroada pela defesa da coerção além da lei, para manter a lei: "Às vezes, as regras se tornam grilhões", diz Gordon...

Conforme diz Mark Fisher, no Guardian: "O Cavaleiro das Trevas Ressurge desenha linhas nítidas: comentários anticapitalistas são aceitáveis, mas qualquer ação direta contra os ricos ou lances revolucionários pela redistribuição da propriedade levam ao pesadelo distópico. (...) O filme pelo menos expôs a duplicidade e a violência necessárias para preservar as ficções em que os conservadores querem que acreditemos - mas demonizou a ação coletiva contra o capital, ao passo em que nos pede para ter esperança e fé em um rico purificado". Prefiro não me colocar, pelo menos nesta coluna, contra capitalistas ou conservadores, tampouco defender ou atacar o liberalismo ou o movimento Occupy. Meu foco é o esquema falacioso da produção de Nolan, e o empobrecimento de debate que pode causar, no que se refere a recobrir as ideias do adversário com distorções que impedem a sua compreensão.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 14/8/2012

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Manauara ou Manauense de Marcela Ortolan
02. Toda poesia de Paulo Leminski de Humberto Pereira da Silva
03. A via férrea da poesia de Mario Alex Rosa de Jardel Dias Cavalcanti
04. Pieguice ou hipocrisia? de Rosângela Vieira Rocha
05. Sábia, rubra, gorda (e gentil) de Adriana Baggio


Mais Duanne Ribeiro
Mais Acessadas de Duanne Ribeiro em 2012
01. Èpa Bàbá Oxalá! na Nota de Real - 3/4/2012
02. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge - 14/8/2012
03. Cinco Sugestões a Autores de Ficção Científica - 7/2/2012
04. O Menino que Morre, ou: Joe, o Bárbaro - 8/5/2012
05. Bnegão, Rodrigo Campos; e mais - 5/6/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Bertrand Brasil
José Olympio
Globo Livros
Editora Conteúdo
Madras Editora
WMF Martins Fontes
Best Seller
Intrínseca
Hedra
MercadoLivre
Companhia das Letras
Nova Fronteira
Editora Francis
Editora Perspectiva
Editora Record
Civilização Brasileira
Cortez Editora
LIVROS


ÓDIO AO OCIDENTE


O LIVRO DE JOANNA


FERRO E O VOTO SECRETO


NELSON FELIX


CAÇADORA DE ESTRELAS


INTRODUÇÃO À TEORIA GERAL DA ADMINISTRAÇÃO


ÉMILE E SOPHIE OU OS SOLITÁRIOS


O CULTO DO AMADOR


MUNCLE TROGG


CIÊNCIA DO FUTURO


O LIVRO DE HIRAM


O TEATRO E SUA REALIDADE


O GIRASSOL NA VENTANIA


A LIDERANÇA SEGUNDO PETER DRUCKER


NOITE INFELIZ


busca | avançada
66765 visitas/dia
1,7 milhão/mês