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Segunda-feira, 12/10/2020
Zuza Homem de Mello (1933-2020)
Julio Daio Borges

+ de 2100 Acessos

Não deu tempo de escrever a resenha - porque ele foi embora antes -, mas uma das melhores leituras desta quarenta, para mim, foi “A Era dos Festivais: uma parábola”, que li atrasado, dezessete anos depois.

Eu achava curioso que existisse uma história do rock dos anos 80 - que é “Dias de Luta”, do Ricardo Alexandre -, mas, não, uma da MPB. Eu sabia que Ruy Castro - o biógrafo da Bossa Nova - jamais a escreveria, porque ele, justamente, para (do verbo parar) em “Garota de Ipanema” (1962). O que eu não sabia é que Zuza já a havia escrito; eu é que não havia lido...

Porque contar a história dos festivais da canção dos anos 60 é contar a história da MPB. Afinal, praticamente todos os compositores e cantores da chamada “música popular brasileira” despontaram ou se consagraram nos festivais. De Chico Buarque a Geraldo Vandré, dos baianos a Paulinho da Viola, dos Mutantes ao nosso colega de Facebook, Guarabyra, passando, evidentemente, por Edu Lobo, Dori Caymmi, Egberto Gismonti e até os Novos Baianos (entre tantos outros).

Os festivais eram “a” plataforma de lançamento da época - e “defender” uma canção era uma espécie de batismo de fogo não só para a composição em si, mas também para o compositor e para o(a) intérprete. Alguns se especializaram, como Elis Regina e Jair Rodrigues, que se tornaram estrelas dessa era; como Chico Buarque, que, nos últimos, era convidado a participar.

O que se comenta mais raramente é que uns tantos foram vaiados, como Sérgio Ricardo (que jogou seu violão na plateia) e Tom Jobim (que teve o pior momento de sua carreira defendendo “Sabiá”). Alguns se perderam, e nunca mais foram os mesmos, como Vandré (depois de “Para dizer que não falei das flores”). E alguns, inclusive, morreram, como Erlon Chaves - o grande arranjador de Wilson Simonal, uma vítima do preconceito e dos costumes da época (falo de Erlon, mas igualmente serve para Simonal).

Quando assistimos a alguma performance solta no YouTube, ou mesmo em alguma efeméride da televisão, imaginamos que a coisa ficasse restrita a uma espécie de videoclipe - ou a uma programação musical, como a da MTV -, mas foi muito do que isso. Os festivais foram uma era, de fato, como foram os Beatles, o rock dos anos 60 - pois a música transcendia a questão estética e simbolizava um momento geracional, comportamental, social, político.

Zuza acerta em não se revelar nem de esquerda e nem de direita, o que importa, para ele, é a música - e suas consequências. Mas sem partidarismos. E sem torcida organizada. Ele consegue reconstituir toda a disputa que foi “Disparada” versus “A Banda”, em 1965, sem optar por nenhuma das duas, reconhecendo os méritos de cada qual e deixando para o leitor que faça a sua escolha. Ou nem faça, porque, como sabemos, foi um empate. E que empate! Dramático... Parou - literalmente - São Paulo.

Zuza era técnico de som da TV Record no seu auge, então assistiu a tudo de camarote. Mas, além disso, teve a paciência de reconstiuir os bastidores, um pouco da história de cada personagem, contextualizando para o leitor dos anos 2000, paciente e didaticamente, num texto acessível, com rigor de músico, emoção na hora certa, entretendo e informando, conforme reza o clichê - a ponto de Daniel Piza tê-lo considerado um must-read, a “leitura da estação” (algo com que concordo).

Eu avistava o Zuza em eventos musicais pela cidade, a que eu ia pelo Digestivo. Uma vez, na entrada do ex-Palace, perguntei a ele o que achava de Maria Rita. Zuza não quis se precipitar e evitou uma crítica mais dura. Disse apenas que não havia estado com ela “ainda”, mas que achava que Maria Rita tinha “problemas de repertório” (de *escolha* de repertório). Embalado que eu estava pela “onda” Maria Rita, considerei aquilo uma injustiça, que só fui entender agora - afinal de contas, qual década pode se comparar à dos anos 60 (em termos de repertório)?

Eu não sabia, mas estava perguntando a alguém que havia feito a última entrevista com Elis Regina, horas antes de ela ter sido encontrada morta. E não imaginava que os primeiros capítulos de “A Era dos Festivais” têm como figura central, de novo, Elis. Tudo bem que eu vinha de “Furação Elis”, de Regina Echeverria, e de “Eles e eu”, as memórias de Ronaldo Bôscoli... Podia ter sido influenciado pelas minhas leituras pregressas - mas, não: “A Era dos Festivais” poderia ter se convertido numa biografia da Elis. (Leiam e me digam.)

Tudo isso - todo esse transporte - para dar um pouco da dimensão da perda de Zuza Homem de Mello. Eu já o admirava pela imprensa, pelas entrevistas, pelos artigos, por suas intervenções no rádio, na televisão, por suas aulas, as preparadas e as “de improviso” - e, não, apenas pelo seu conhecimento enciclopédico de música, mas pela sua *vivência* musical. Zuza havia estado lá, e não só como testemunha ocular da História, mas compondo a paisagem, fazendo parte da ação.

Quando Nelson Motta foi lançar seu “Noites Tropicais”, fazia questão de ressaltar que era um livro de quem *viveu* a Bossa Nova (entre outras incursões musicais). Criticava, indiretamente, o “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, que nasceu em 1948, em Caratinga (MG), e que não foi, assim, protagonista da Bossa Nova. Os livros importam mais que a troca de farpas, ainda bem. Mas o que eu queria dizer é que o Zuza poderia afirmar que, além de ter vivido, *escreveu* um livro com o rigor de um biógrafo (maior que o rigor de um memorialista). “A Era dos Festivais” é, portanto, o melhor de dois mundos. E, Zuza, vamos sentir a sua falta.


Julio Daio Borges
São Paulo, 12/10/2020


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