Mamãe | Julio Daio Borges | Digestivo Cultural

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Domingo, 19/1/2014
Mamãe
Julio Daio Borges

+ de 3800 Acessos


Eu e a Mamãe na minha formatura (1997)

Para a Mamãe, como sempre, como tudo
Para o Papai, "a melhor época da vida da Mamãe"


* Hoje eu sei que nem todas as mulheres nasceram para ser mães. Felizmente, eu tive a sorte de ser filho de uma mãe vocacional. A Mamãe foi o meu primeiro amor. E ela me amou incondicionalmente. Freud, que também foi muito amado por sua mãe, escreveu: "Um homem que foi sem dúvida alguma o preferido da mãe mantém durante a vida o sentimento de um conquistador e a confiança no êxito que muitas vezes induz à concretização do sucesso". Eu nunca tive a pretensão de ser "o filho preferido", mas foi assim que eu sempre me senti. E eu tenho certeza de que foi assim que meus irmãos sempre se sentiram, também. Por causa da Mamãe. Por ela ser uma mãe incansável. Sempre disponível. Do nosso lado, contra o mundo inteiro, se fosse necessário. Cega. Fanática pelos filhos. E pelas netas... Então demorei para escrever sobre a Mamãe, porque qualquer texto que eu imaginasse seria pouco... para quem me deu tanto. Para quem me deu tudo. A Mamãe foi, provavelmente, a maior leitora do Digestivo Cultural. E eu tinha de publicar, no Digestivo, a minha homenagem a ela. Antes de ela acessar a internet, eu imprimia, para ela, a "edição" do dia. Deve haver uma montanha de Digestivos impressos no meio das coisas dela. Comentava sempre. Conhecia os colunistas pelo nome. Com o tempo, começou a me mandar e-mails. Respondia à newsletter, como se eu enviasse, manualmente, para os milhares de assinantes. Os primeiros textos sem a perspectiva de leitura dela foram muito difíceis de escrever. E este, mais ainda. Porque a nossa mãe não cabe em palavras. Assim como a vida não cabe em palavras. Mas eu devia esta homenagem a ela. Sem a pretensão de esgotá-la. Sem a pretensão de dar conta dela. Simplesmente como um filho tenta agradecer a quem lhe deu a vida.



* A Mamãe era boliviana. Por causa dela, eu e meus irmãos somos praticamente bilíngues. Uma língua a mais não é simplesmente uma outra maneira de se comunicar ― é um universo a mais, é uma visão de mundo diferente, é uma outra percepção da realidade e um outro jeito, até, de viver. Sendo assim, uma das coisas que mais me doeu, durante a partida da Mamãe, foi pensar que a Catarina, minha filha, perdeu essa chance, que eu tive ― de aprender castelhano, espanhol, com a Mamãe. A chance de poder interpretar o mundo de outro jeito, de ganhar uma ótica diferente, de enxergar a vida através de outro prisma... Nos dois anos e meio em que elas conviveram, a Mamãe, em sua disposição infinita, falou e cantou, e dançou, e brincou em castelhano com a Catarina. Tanto que, quando a Catarina começou a falar, ela misturava as línguas, chamando peixe de pescado e nos pedindo "te ayudo" (quando precisava de uma ajuda para fazer alguma coisa). Eu fico ensaiando retomar as clases de castellano da Catarina, mas, em um ano, não consegui. E, mesmo que eu consiga, nunca vou ser um verdadeiro embaixador da língua, como a Mamãe foi. Graças à Mamãe, eu nunca tive medo das línguas estrangeiras. Peguei gosto. Quando li Cem Anos de Solidão em uma semana, foi por causa dela. Depois, quando li a obra máxima da literatura espanhola, Dom Quixote, foi por causa dela também. Do mesmo modo, sempre me senti próximo da América Latina, e da civilização hispano-americana, como se fizesse parte dela, tanto quanto fiz parte do Brasil. Fazia amigos latino-americanos em viagens, porque não me sentia diferente deles. A Mamãe me passou sua civilisation (como dizem os franceses). E se eu conseguisse fazer isso pela minha filha, seria um grande acontecimento.



* A Mamãe também amava música. Contava do seu pai, meu avô, que tocava violino. Orgulhosa, dizia que era afinada e "tinha ouvido". Quando desafinávamos, ela nos corrigia ― "¡Ay que sos desorejado(a)! ". Toda a minha ligação com a música vem da Mamãe. Toda a minha ligação com a cultura, portanto, vem da Mamãe ― porque a música foi a primeira forma de cultura que eu conheci. A música apurou minha sensibilidade, a música me ensinou outras linguagens, a música me transportou para mundos e me traduziu, quando eu não conhecia direito as palavras, nem os estados d'alma. "Sem a música, a existência seria um erro", escreveu Nietzsche. (Nietzsche, um músico frustrado?) Graças à Mamãe, eu aprendi a tocar um instrumento. Nunca me aventurei a ser músico ― talvez porque conheci verdadeiros músicos ―, mas sou um melômano feliz. E a música é um território de exploração praticamente infinito. A Mamãe e o Papai nos incentivaram, desde a infância, a ter nossas próprias coleções de discos. Eu tenho a minha de LPs até hoje. E a de CDs se espraia pela casa dos meus pais, ainda... Quando éramos crianças, a Mamãe gravava seus LPs em fitas cassette, para ouvir no carro ― e eu e meus irmãos, brincando de caraoquê, gravávamos nossas cantorias em cima. Na época, ela ficava bravíssima: "Gravaram em cima das minhas fitas!". Mais tarde se comovia, ouvindo aquelas crianças desorejadas entoando suas melodias... A quantos shows a Mamãe foi comigo (principalmente de música brasileira)? A quantos concertos? Depois de eu ter feito guitarra e violão, e meu irmão flauta e piano, ela resolveu aprender piano também. E tocava piano com a Catarina ― que, aliás, é super afinada e tem muito ouvido ;-)


Carolina, Diego e eu, na frente da nossa escola, o Compa (1982)

* A Mamãe sempre contava que não estudou (não fez faculdade). Fez Secretariado, porque tinha de trabalhar e porque, na sua época, "mulher não estudava". Depois fez Decoração, na Escola Panamericana de Arte. Não ter estudado numa universidade era uma frustração, mas que, acredito, ela superou estudando com a gente, desde a escola até a faculdade. Lembro da gente visitando a nossa primeira escola, o Compa. E a Mamãe anunciando: "É aqui que vocês vão estudar...". E lembro dela comigo, na aulas de Filosofia da Marilena Chauí, quando eu prestei vestibular de novo, depois de me formar na Poli, e ela me acompanhava à noite. Chamava a Marilena de "tchauí", porque, em castelhano, o "ch" tem som de "tch". Eu trabalhava no banco Itaú, na avenida no Estado e ia até a USP, passando por Moema, para jantar em casa e buscar a Mamãe. Era um trajeto e tanto, mas a cidade ainda permitia (não era intransitável como hoje). A Mamãe colocava seus óculos e fazia suas anotações. Era um curso da Marilena Chauí sobre O Discurso do Método, de Descartes, voltado para os calouros. Mesmo "não tendo estudado", a Mamãe gostava de filosofia. Sêneca era um de seus preferidos (não por acaso um "espanhol", no Império Romano). No apartamento no Guarujá, quando voltamos depois do acidente, estava na cabeceira dela. Junto com Saint-Exupéry. Também Nietzsche, por onde ela se aventurava, apesar do ateísmo. Gostava ainda de Santo Agostinho... Uma vez dei-lhe de presente um curso de filosofia, na Casa do Saber, onde reencontrei alguns professores da USP. Ela não ficou muito impressionada com o Pondé, que, naquele momento, fazia um sucesso enorme. Mas uma noite voltou para casa satisfeitíssima, ao saber que, ao longo da História, a sua religião, o cristianismo, havia sido preponderante ;-)


Abuelita Carmen, mãe da Mamãe

* No auge da minha fase Deus ― Um Delírio, a gente discutia religião. Depois que a minha avó partiu ― a abuelita Carmen, mãe da Mamãe ―, ela perguntou "no que eu acreditava". Tentei sair pela tangente, dizendo que "ninguém sabia ao certo". Mas ela me confrontou: "Mas e você? No que você acredita?". E eu respondi ― como um discípulo de Dawkins ― que não acreditava em nada. Quando a Mamãe se foi, eu me arrependi dessa resposta. Porque ela procurava um consolo, e eu não consegui disfarçar a minha descrença na vida após a morte... Hoje eu admiro, por exemplo, a relação que a minha avó tinha com a morte. Uma relação de muita naturalidade, com se fosse algo cotidiano, e não estivesse tão longe de nós. Do alto do seu misticismo, ela pedia para a Mamãe calçar seus sapatos assim que ela morresse: "Por si hay dónde caminar...". A abuelita Carmen morreu em casa, a Mamãe me ligou assim que percebeu, eu fui correndo, e, quando cheguei, a primeira coisa que a Mamãe fez foi calçar-lhe os sapatos... Minha avó não queria morrer no hospital: "No hay dónde velar...". E, numa de nossas últimas conversas, falou que tinha sonhado com um filho meu: "Soy el hijo de Dayo!", a criança teria proclamado. (Ela me chamava de "Dayo", com "y".) Eu e a Carol não havíamos nos casado ainda. Mas gosto de pensar que foi a Catarina, que apareceu no sonho da sua bisavó. (A declaração até combina com ela...) Às vezes no almoço, a Mamãe filosofava: "Quando a pessoa morre... parece que a gente entende melhor a pessoa". E hoje me orgulho da minha formação religiosa. Até como cultura geral. (Embora não seja praticante.) Sonhei tanto com a Mamãe que até perdi a conta... Algumas vezes ela me dava umas broncas, só que eu acordava e "esquecia". Talvez quisesse me dizer que era melhor ser místico que ateu. E que a abuelita Carmen tinha razão ;-)


Mamãe e a Catarina, no primeiro aniversário dela (2011)

* Era a família que a Mamãe colocava acima de todas as coisas. E foi a sua maior lição para nós. Ela perdeu o pai com 2 anos de idade, viu sua mãe, viúva com menos de 30, se casar de novo, viu o casamento não dar certo, ganhou mais uma irmão, viu sua família se desagregando... Conheceu o Papai quando veio para São Paulo, em 1965, aos 16 anos. Contava sorrindo que ele era "metido" e que um dia lhe perguntou: "Você já teve algum namorado brasileiro? Então eu vou ser o primeiro?". Namoraram 7 anos, um dia a Mamãe se encheu e voltou para a Bolívia: "Não queria mais saber dele ― mas ele veio atrás de mim!", ela ria. Casaram-se em 1973, no ano seguinte à formatura do Papai, em Engenharia Civil, no Mackenzie. Nasci em 1974. Meu irmão, Diego, em 1975 e minha irmã, Carolina, em 1979. Quando casei com a Carol e principalmente quando a Catarina nasceu, em 2010, eu percebi que "família" era um construção. Não é algo que já vem pronto; e não fica pronto nunca ― a gente tem de trabalhar, diariamente, para estruturar, para manter, para aperfeiçoar. Como a Mamãe trabalhou. Às vezes ela se ressentia de ter parado de trabalhar "fora" quando casou; outras vezes sugeria que não pudesse ser tão admirada quanto "uma grande executiva"... Mas, para nós, foi o melhor negócio. Uma coisa que o Papai também nos proporcionou. O casamento e a família também são empreendimentos, também são "empresas", no sentido mais amplo. O sonho da Mamãe era ter uma família. E ela teve. Acredito que, junto com o Papai, realizou-se plenamente. Claro: nós queríamos ela "para sempre"; e ela poderia ter sido avó por mais tempo... Mas isso não diminui a obra dela aqui na Terra. Uma obra-prima. Uma obra que devemos continuar. Uma obra que deixa um exemplo.



* A Mamãe era como um sol na nossa vida. Era tão vital que oxigenava toda a família e, quando ela se foi, o baque foi tão grande que o mundo perdeu parte do seu colorido. Como a vida poderia continuar sem ela? Para onde foi seu brilho? Algumas coisas haviam perdido a graça para sempre. Porque a graça não eram as coisas ― a graça era ela... Uma metáfora que eu encontrei para a morte são aqueles erros de "continuidade" nos filmes: a pessoa está lá; de repente, na próxima cena, não está mais. E a nossa cabeça tem de dar conta. Por mais que a morte seja um dado da realidade, nossa cabeça insiste em colocar a pessoa lá, em alguns momentos da nossa vida ― porque sempre foi assim... "Tão estranho... morte", a Mamãe mesmo dizia. "A gente não vale nada", era uma frase que ela repetia. Ou então: "A gente morre à toa"... Apesar de um certo fatalismo, se eu pudesse sintetizar a "filosofia de vida" da Mamãe em uma frase seria carpe diem, do poeta Horácio. Porque ela nunca se deixou abater, nem pela morte da própria mãe. Não deixou que seu luto interferisse na sua disposição de fazer a vida prosseguir, desde as rotinas da casa até o próprio núcleo familiar. Eu não me lembro dela abatida. Triste, sim, mas nos motivando sempre, fazendo-se presente, conservando os laços, celebrando cada conquista, festejando como só ela sabia... Perdemos nossa cheerleader... A Mamãe tinha o dom de fazer todo mundo se sentir especial, único. Eu e a Carol achamos engraçado quando mais de uma amiga dela veio nos dizer que "era sua melhor amiga"... "Não chora, mi hijo", ela diria. "Bobagem..." Mas eu chorei, sim. Chorei, principalmente, pela Catarina. Porque ela também havia perdido sua cheerleader. Porque, se nós tivéssemos metade da animação da Mamãe para encarar a vida, nada nos abateria...


Amigas: Suely, Tia Lilian, Bia, Mamãe e Tia Christina (mãe da Carol)

* Foi numa quarta-feira, dia 9 de janeiro de 2013. Era um fim de tarde, eu estava tentando voltar a caminhar na praça, quando ouvia o "segundo movimento" da Sétima de Beethoven e imaginei uma cena de filme, em câmara lenta ― um acidente ocorrendo vagarosamente... A quilômetros dali, no Guarujá, a Mamãe estava atravessando a rua, perto do shopping, quando foi atropelada por uma bicicleta, que vinha na direção contrária. Ela caiu de costas no chão, bateu a cabeça, perdeu os sentidos e foi colocada num banco. Quando recobrou a consciência, a guarda municipal já havia sido chamada ― e conduziu a Mamãe até o apartamento. Ao chegar lá, porém, a Mamãe começou a vomitar, a suar e a sentir tontura. A guarda municipal achou melhor levá-la ao hospital. Nessa hora, o zelador, que foi acompanhá-la, ligou para o Papai. A Mamãe passava o mês de janeiro no Guarujá, há mais de 20 anos, porque amava o mar e se sentia revigorada quando voltava. Geralmente, o Papai a levava no fim de semana e ela passava o resto da semana lá, até ele voltar. Quando soubemos, fomos eu, o Papai e o Diego para o Guarujá. No hospital, a Mamãe estava numa maca, inconsciente, porque havia sentido muita dor e estava sedada. Com a nossa chegada, finalmente a Mamãe foi levada para fazer uma tomografia. Foi constatado um sangramento e o neurologista veio nos pedir autorização para operá-la naquela hora. Como sua pressão não se estabilizava, ela não podia ser removida para São Paulo. Na sala de cirurgia, ela teve uma parada cardíaca. Conseguiram reanimá-la e o sangramento foi drenado. A Mamãe foi colocada em coma induzido ― mas nunca mais voltou... Não apresentava reflexos, seu cérebro foi deixando de ser irrigado e, dias depois, constataram morte cerebral. Numa última tentativa, trouxemos ela para São Paulo, mas o diagnóstico não mudou. A Mamãe durou uma semana, ao todo.


Foto do calçadão do Guarujá, tirada pela Mamãe (2012)

* Papai, Diego e Carolina ficaram em estado de choque, desde o dia do acidente. Ficamos eu, a Carol e o Marcelo (da Carolina), acompanhando os boletins, pensando em alternativas, contatando médicos em São Paulo. Também a prima Mária, que foi fundamental para que conseguíssemos a remoção da Mamãe para São Paulo. Como ela corria risco de vida, no transporte, o hospital, no Guarujá, não queria autorizar sua saída. Nenhuma empresa de UTI móvel queria transportá-la. E nenhum médico queria acompanhá-la na ambulância. Mas conseguimos a autorização do hospital com uma carta de próprio punho; conseguimos uma ambulância de uma empresa de um "amigo de amigo"; e conseguimos um jovem médico que assumiu a responsabilidade durante o transporte. Conseguimos, ainda, um leito de UTI, em São Paulo. Ela chegou num sábado quase de madrugada, e durou até quinta-feira, também de madrugada. Foi um alento para a família e acho que, se pudesse escolher, ela preferia terminar seus dias em São Paulo mesmo, cidade onde passou a maior parte da vida (ainda que amasse o Guarujá). Como teve morte por acidente, passamos a madrugada de quinta, 17, na delegacia (pois era necessário um "B.O."). E amanhecemos no IML... Além do choque do acidente, do agravamento da situação e da velocidade com que tudo aconteceu, cada um desses detalhes foi uma experiência à parte. E até hoje eu não sei onde encontrei forças para lutar contra um destino que parecia, e foi, inexorável. Talvez porque estivesse lutando ― junto com a Carol, o Marcelo e a Mária ― pela nossa cheerleader; e a Mamãe na fronteira entre a vida e a morte, mais uma vez, nos inspirava... Mesmo não tendo mudado o final da história, fiquei muito orgulhoso de termos tentado o que foi possível; e o que parecia impossível, também. O que me motivava é que ela teria feito a mesma coisa ― por qualquer um de nós.


Mamãe e Catarina, no Dia das Crianças (2010)

* Achei a Mamãe estranha desde o Natal anterior ao acidente, e comentei com a Carol. Quando nos cumprimentamos por telefone, no Ano Novo, ela exclamou: "Que bom falar com você, que bom ouvir sua voz...!" No domingo imediatamente anterior ao acidente, ela me ligou do Guarujá e interrompeu a ligação, para ver uma notícia de um dono de restaurante, na praia da Enseada, que havia morrido barbaramente, depois de discutir com um cliente... Ela estava impressionada. E, na manhã do acidente, ela me telefonou, mas nos falamos rápido, eu estava de saída... Foi a última vez que conversamos. A gente havia mudado de casa ― eu, a Carol e a Catarina ―, e a Mamãe me perguntou se eu estava gostando... Se eu sentia saudade da vida antes da mudança... Também me disse, profeticamente, que, em 2013, eu teria "muito trabalho"... Soou estranho, e eu novamente comentei com a Carol, que perguntou: "Mas ela quis dizer 'trabalho' em que sentido?". Só fui entender ao longo do ano... que foi trabalhosíssimo... Passei 2013 tentando não acreditar que fosse o ano mais difícil da minha vida, para não me desanimar mais ainda. Mas claro que foi o mais difícil... Quando a família perde um de seus pilares, não tem como não abalar todas as estruturas... E quando a vida perde quem te deu a vida, muitas coisas perdem ― mesmo que momentaneamente ― o sentido...



* Agora vem a parte mais estranha de todas: eu continuei sentindo a presença da Mamãe, mesmo depois do acidente, mesmo depois da morte. Mesmo agora. Quando ela estava em coma profundo, durante uma visita, mexeu o ombro, assim que encostei nele. "Mamãe, se você estiver me ouvindo, mexa o ombro de novo", pedi, e ela mexeu. Felizmente eu já havia falado, naquele mesmo dia com a Carol, o quanto amava ela, o quanto ela era importante, e o quanto sentíamos a falta dela, já no hospital... Em 2009, quando a Mamãe fez 60 anos, escrevi uma carta, dizendo que o legado mais importante, dela e do Papai, era a base emocional ― minha, do meu irmão e da minha irmã. E o Diego escreveu: "Você é a pessoa mais importante da minha vida". Ela, com os olhos marejados, parou de ler, nos encarou e declarou: "E vocês são as pessoas mais importantes da minha vida". Todos nós choramos naquele dia... No Natal daquele mesmo ano, ela escreveu: "O maior presente, neste ano, são vocês que vão nos dar... É a Catarina!". E, para a sorte da Catarina, ela foi uma avó fanática. Passava um dia inteiro por semana com ela. Quando pedi se ela poderia passar dois, ela aceitou na hora. Ainda dizia para a Carol: "Se eu pudesse passar mais tempo com ela...". Pena que durou pouco. A Catarina tinha a idade que a Mamãe tinha quando perdeu seu pai. A Catarina ainda tem fragmentos das palavras, dos números e das canções que a abuelita, a "Vovó Carminha", lhe ensinou. E eu tenho a missão dar continuidade, embora seja tão doloroso... Eu sempre fui muito ligado a ela e, uma vez, ela me disse: "Você parece meu irmão". Fazemos aniversário com dez dias de diferença e ela contava que, quando eu ia nascer, no dia do aniversário dela (que antecede o meu) "quase teve um troço". Num bilhete de aniversário, para ela, escrevi: "Obrigado por me ensinar a felicidade". E ela me respondeu por escrito: "Eu não tinha essa pretensão". Não tinha, mas ensinou ― a todos nós. Obrigado, Mamãe ;-)



Julio Daio Borges
São Paulo, 19/1/2014


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