Srta Peregrine e suas crianças peculiares | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

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Segunda-feira, 5/9/2016
Srta Peregrine e suas crianças peculiares
Ricardo de Mattos

+ de 1900 Acessos

"...não me fale sobre meus defeitos, eu sei sobre todos eles..." (Ismael Azevedo)

Talvez o leitor já tenha ouvido falar ou lido algo a respeito dos freaks. Há um filme norte-americano de 1932 dirigido por Tod Browning com este nome no título. O grupo de pessoas que deu origem ao termo, e posteriormente ao filme, é composto por indivíduos portadores de alguma deformidade congênita que eram apresentados como curiosidade em circos e feiras. Eram as chamadas "aberrações". Seria o caso de gêmeos xifópagos, mulheres barbadas, anões, etc. Desconfio que casos psicopatológicos e paranormais também tenham sido incluídos.

Michel de Montaigne, no segundo livro de seus Ensaios, inclui o texto nomeado De uma criança monstruosa, a respeito de pessoas que encontrou em seu tempo. Diz o filósofo: "Vi anteontem uma criança que dois homens e uma ama de leite, que se diziam o pai, o tio e a tia, conduziam para obter alguns vinténs exibindo-a por causa de sua estranheza". O texto é curto e Montaigne ainda menciona certo pastor desprovido de genitais. Sem deixar de se referir ao uso político e profético que poderia ser dado a um caso asism, o ermitão de Bordeaux conclui: "Chamamos de contra a natureza o que acontece contra o costume: tudo que existe está de acordo com ela, o que quer que seja. Que esta razão universal e natural expulse de nós o erro e o espanto que a novidade nos traz".

Estas pessoas não devem ter conhecido o melhor lado da humanidade. A família explorava-os ou abandonava-os. Entre as famílias ricas, o nascimento era ocultado e o indivíduo afastado do convívio social, seja no cômodo afastado de uma mansão, seja numa instituição. Basta lembrar da atitude do pai de Benjamin Button, no filme baseado na obra de Fitzgerald. Posso estar romantizando, mas é crível que os sobreviventes da repulsa social, quando finalmente reunidos em circos, por exemplo, tenham adotado entre si uma organização familiar.

Foi pensando em encontrar uma narrativa a respeito destas pessoas que comecei a cercar o livro O orfanato da srta Peregrine para crianças peculiares, do escritor norte-americano Ransom Riggs. Uma leitura adiada pela outra, até que, num intervalo, encontrei-o com um bom desconto. Não nego a leitura envolvente. Contudo, procurava pela narrativa fictícia, histórica ou mesclada - que deve ser o gênero dominante, no final das contas - a respeito da vida real destes indivíduos. Algo mais realista a respeito do que suportaram, do que sucumbiram e do que superaram. Deixei-me limitar pela fotografia de capa da menina levitando e pelas citações elogiosas da quarta capa. Os personagens, acrescento, não são portadores de deformidades físicas, mas detentores de habilidades paranormais.

Compreendi a ideia de Riggs e gostei. O autor reuniu diversas fotografias, descobertas sobretudo em coleções particulares e feiras, e integrou-as numa sequência que ilustra seu texto. Pode-se ler o romance sem elas, mas o resultado é pobre. É curioso saber como se deu o entrelaçamento: se a narrativa veio primeiro e as imagens depois; ou, obtidas as imagens, a criatividade do autor estabeleceu uma sequência entre elas e disto derivou o texto.

Evidente que, para o bom curso da narrativa, o autor faz os devidos agradecimentos mas não assinala nem a data provável nem a origem geográfica das fotos. Ignoro quanto ao leitor, mas fotografias em preto e branco ou em sépia, em geral, transmitem-me certa impressão sinistra. À página catorze, encontra-se a fotografia do que seria o personagem Millard. Na página 108, duas meninas vestindo preto e de costas. Na 206, uma pessoa deitada num leito. São seres humanos, são hábitos de determinadas épocas, mas a aparência do registro, o suporte, o cromo parece-me tétricos. Sequer pelas fotografias de família eu tenho grande atração.

Este livro de Riggs, o primeiro de uma trilogia, envereda-se pela fantasia. Há uma fenda no tempo que permite o trânsito entre a época atual e determinado dia do passado. Por que há crianças vivendo numa determinada casa em remota ilha do litoral britânico, o que as permite continuar vivendo em determinado dia, como este dia renova-se e quais as ameaças que sofrem formam a base do romance e da trilogia. O segundo volume, A cidade dos etéreos, eu não li e não sei se lerei. Pelo que pude descobrir o folhear um exemplar, o esquema de fotos e texto será mantido.

Se o leitor prestar atenção, há aspectos psicológicos que merecem atenção, como a superproteção e a rejeição plena do horror do mundo. As crianças são mantidas num mundo a parte, impedidas de crescer no físico, embora amadurecidas mentalmente. São mantidas neste meio superprotegido, ainda que anseiem conhecer o que veio depois. Na senhorita Peregrine, reconhecemos a afeição pelas crianças, mas reconhecemos o autoritarismo e a insegurança. Quando uma criança escapa de debaixo das asas de Peregrine e vem para a atualidade, seu corpo envelhece em seguida, ajustando-se. Foi interessante Riggs ter delineado esta situação, pois resume o que já vimos acontecer com uma pessoa o outra: no momento em que elas consentem em abandonar seu mundo interior e ter contato com a realidade exterior, há perceptíveis mudanças biológicas e de humor.

Gide

Terminei O imoralista, do francês André Gide, prêmio Nobel de literatura de 1947. O que encontramos foi a jornada de autodescobrimento do personagem Miguel e a incompatibilidade desta jornada com o estilo e vida herdado de seus pais e com o casamento celebrado. Tenho entendido que por "moral" pode-se entender certa lei não escrita derivada dos costumes (mores) vinculados ao tempo-espaço. À regionalidade da moral opõe-se a universalidade dos valores, o que torna necessário discriminar com maior cuidado o que um autor ou outro quer dizer com "valores morais". A oposição de Miguel à moral vigente não é uma bandeira que ele levanta, mas uma consequência da jornada que faz ao centro de si. Reconhece naqueles de sua sociedade a máscara da chamada civilização, mas prefere envolver-se com tipos diversos em busca da humanidade autêntica. Portanto, o personagem parece ser mais "amoral" do que "imoral".

Porque a autodescoberta para o personagem foi uma eclosão e não um processo, houve prejuízo para ele e para os que estavam a sua volta. A propriedade rural da família foi desperdiçada por sua incúria. É difícil cuidar daquilo pelo que não se interessa e entre o baixo - mas constante - rendimento e o descarte, esta opção prevaleceu. A esposa que dele cuidou durante a tuberculose, dele adquiriu a doença sem que houvesse reciprocidade de atenção. Gide consegue fazer-nos imaginar o que foi para Marcelina acompanhar seu marido pela Europa e pelo norte da África sem que estivesse sequer em condições de sair do quarto. O que resta de polêmico em Gide é a pedofilia. No começo do romance, Miguel aproxima-se de meninos e pode-se entender que ele tenta aproximar-se do menino que foi um dia. A ausência de erotismo permite que se interprete desta maneira, que se enxergue no autor uma tentativa de confronto coma s idades pelas quais já passou, na tentativa de desvendar o que possa ter dado errado, o que possa tê-lo feito deixar de lado sua autenticidade. Nas últimas páginas, porém, a pedofilia é clara. Perdoe-me o leitor se falo algo que o fere, mas entendo que orientação sexual envolve decisão, nem que seja a decisão de aceitar e deixar fluir uma tendência inata. Crianças não têm condições de decidirem-se neste campo e devem ser mantidas física e psiquicamente intactas, ainda que cuidadosamente esclarecidas.

Mengele

Se a Logoterapia de Viktor Frankl foi posta à prova nos campos de extermínio, como ele mesmo afirmou, entendo necessário recolher informações a respeito do meio, do campo onde suas observações desenvolveram-se. Por isso a leitura de Mengele, o último nazista de Gerald Astor. Na coluna anterior, assinalei que a narrativa de uma vítima e testemunha ocular destes campos causou-nos pouca impressão. Há uma certa imprecisão no referencial de Astor - o psiquiatra Lyfton é mencionado diversas vezes mas anda consta da bibliografia, acabo de revê-la -, mas suas páginas trazem uma renovação do horror. Ao mesmo tempo, reforça a importância deste Logos que organiza a vida e impulsiona o indivíduo para frente a despeito do que ele possa ver ao seu redor.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 5/9/2016


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