Omissão | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
61604 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Centro em Concerto - Palestras
>>> Crônicas do Não Tempo – lançamento de livro sobre jovem que vê o passado ao tocar nos objetos
>>> 10º FRAPA divulga primeiras atrações
>>> Concerto cênico Realejo de vida e morte, de Jocy de Oliveira, estreia no teatro do Sesc Pompeia
>>> Seminário Trajetórias do Ambientalismo Brasileiro, parceria entre Sesc e Unifesp, no Sesc Belenzinho
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
Colunistas
Últimos Posts
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
Últimos Posts
>>> Melhores filme da semana em Cartaz no Cinema
>>> Casa ou Hotel: Entenda qual a melhor opção
>>> A lantejoula
>>> Armas da Primeira Guerra Mundial.
>>> Você está em um loop e não pode escapar
>>> O Apocalipse segundo Seu Tião
>>> A vida depende do ambiente, o ambiente depende de
>>> Para não dizer que eu não disse
>>> Espírito criança
>>> Poeta é aquele que cala
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O Precioso Livro da Miriam
>>> Perfil (& Entrevista)
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Aconselhamentos aos casais ― módulo I
>>> Violões do Brasil
>>> Heróis improváveis telefonam...
>>> A esquerda nunca foi popular no Brasil
>>> Na minha opinião...
>>> Amores & Arte de Amar, de Ovídio
>>> VOCÊS
Mais Recentes
>>> Palavras de Sempre de Helen Exley pela Eko
>>> Emprego de a a Z de Max Gehringer pela Globo (2008)
>>> A Agressão Humana de Anthony Storr pela Zahar (1976)
>>> Um Homem Chamado Luís de Roberto Brunelli pela Loyola
>>> Gerenciamento de Pessoas Em Projetos de Varios Autores pela Fgv (2010)
>>> Walking Dead, the - Rise of the Governor de Robert Kirkman pela St Martins Press (2011)
>>> Turma da Mônica Jovem - Número 22 de Mauricio de Sousa pela Panini / Planet Manga (2010)
>>> Blender 2. 6 Conception, Rendu et Animation de Décors et Scènes... de Matthieu Dupont de Dinechin pela Eyrolles (2012)
>>> Biologia para um Planeta Sustentável - Caderno de Revisão de Armênio Uzunian pela Harbra (2016)
>>> Periodontia - 3ª Edição Revista e Ampliada de Herbert F. Wolf; Edith M.; Klaus H. Rateitschak pela Artmed (2006)
>>> Cruzando Continentes de Richard Amante pela Pasavento (2017)
>>> Olhos de Espanto de Nina Schilkowsky pela Jaguatirica (2015)
>>> Marketing de Varejo de Eliane de Castro; Mauro Pacanowski e Outros pela Fgv Ed. (2008)
>>> Aforismos para a Sabedoria de Vida de Arthur Schopenhauer pela L&pm Pocket (2021)
>>> Madame Bovary de Gustave Flaubert pela Publifoha
>>> Musashi: o Livro dos Cinco Anéis (em Portuguese do Brasil) de Miyamoto Musashi pela Novo Seculo (2017)
>>> Lern-und Arbeitsbuch Entwicklungs-politik de Franz Nuscheler pela J. h. w dietz (1991)
>>> Blender 2. 5 Lighting and Rendering de Aaron W. Powell pela Packt (2010)
>>> A Vida Não Tem Preço de Eduardo Marafanti pela Libratrês (2006)
>>> Mediunidade Seus Aspectos Desenvolvimento e Utilização de Edgard Armond pela Aliança (1999)
>>> A Caçada de Steve Barlow; Steve Skidmore pela Rocco (2007)
>>> O Pequeno Príncipe (edição de Bolso) de Antoine de Saint-exupéry pela Caminho Suave / Edipro (2018)
>>> Bandeira do Divino de Edson Ubaldo pela Ed. do Escritor (1977)
>>> Previdência Complementar de Adacir Reis e Outros pela Rt (2017)
>>> Marcuse Em Quadrinhos de Nick Thorkelson; Angela Davis - Prefácio pela Veneta (2020)
COLUNAS

Segunda-feira, 28/11/2016
Omissão
Ricardo de Mattos

+ de 4400 Acessos

"Este é um tema ao qual retornaremos, mas desde agora é importante ressaltar como ambas as partes, as vítimas e os opressores, tinham viva a consciência do absurdo e, portanto, da não credibilidade daquilo que ocorria nos Lager(campos de concentração), e podemos aqui acrescentar (...) nos hospitais para os deficientes mentais"(Primo Levi).

Esta coluna deriva da leitura de Holocausto brasileiro, o mui premiado livro da jornalista mineira Daniela Arbex. É um excelente trabalho a respeito de horrenda História, a saber, o hospital "Colônia", situado na cidade de Barbacena, estado de Minas Gerais. Ninguém que se diga de alguma forma vinculado às profissões "psi" (psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e estudantes) deve deixar de lê-lo, visto ser ótimo mantenedor de pés ao solo. Teorias revelam a maior ou menor maestria de quem as elaborou; abordagens psicoterapêuticas são interruptores que acendem as lâmpadas que nos permitirão enxergar na escuridão. Contudo, caro leitor, o que você toca ao esticar o braço?

É um livro-reportagem no qual os fatos históricos são acrescentados ao correr do texto. Nos últimos capítulos é que se fica sabendo que parte da área territorial do manicômio foi construída sobre a propriedade de Joaquim Silvério dos Reis, tristemente imortalizado como o traidor de Tiradentes. O Colônia foi fundado em 1903 e sua característica manteve-se até o último quinto do século XX, quando a reforma psiquiátrica, impulsionada pelas ideias do psiquiatra italiano Franco Basaglia, tomou força e prevaleceu. "Qual característica", poderá perguntar o leitor. A desumanização, responde Arbex, da qual tudo deriva: recebimento de pessoas com ou sem diagnóstico de doença mental, descaso com as efemérides climáticas - fosse qual fosse a temperatura, a roupa, quando havia, era a mesma -, superlotação, violência geral e sexual, péssima alimentação, ausência de higiene e de saneamento, trabalho escravo e uso de seres humanos como cobaias e como fundamento para angariar maiores insumos financeiros. O Colônia foi local - não o único, diga-se - onde psicofármacos e eletrochoques não visavam o tratamento, mas a contenção, e a lobotomia foi prática corrente. A autora, em diversas passagens, avisa que esta prática cirúrgica de secção dos lobos temporais ainda não foi abandonada em outros locais do país.

Até o horror deve ser dosado. Desta forma, Arbex intercala no livro alguns capítulos sobre finais, senão felizes, ao menos satisfatórios. Como a história de Geralda Siqueira Santiago, enviada ao Colônia aos catorze anos pelo patrão que a engravidou. Lá teve seu filho e dele foi separada, mas reencontrou-o décadas mais tarde e restabeleceu a convivência. Não é a história de vida que alguém deseje ter. Todavia, na graduação "horror", está um nível acima do episódio da interna Sueli Rezende, que teve apenas um encontro rápido com uma de suas duas filhas, sem saber do vínculo parental entre elas. E na iniciativa de reumanização, pode-se aclamar o exemplo da freira Mercês Hatem Osório, que estruturou um verdadeiro lar para sete egressos do manicômio.

Em Barbacena existem, atualmente, as chamadas residências terapêuticas. Nos casos gerais, podem ser considerados modelos avançados de tratamento do doente mental. No caso dos egressos do Colônia, farejo mais o Estado tentando atenuar a porcaria que fez. Conheço, aqui em Taubaté, uma casa onde residem três irmãos sexagenários e doentes mentais. Estudaram até onde foi possível e nunca foram empregados. Não acredito que se possa alegar qualquer omissão dos familiares, pois utilizaram os recursos de que dispunham. Dentro de casa, sabe-se lá que crises foram enfrentadas. Na comunidade, são bem aceitos. Posso dizer que esta residência terapêutica surgiu espontaneamente numa cidade em que coexistem Centros de Apoio Psicossocial (CAPS), derivados da reforma psiquiátrica baseada na tese antimanicomial, e doentes com maior ou menor grau de agressividade que perambulam por suas ruas. O que há no município, há no país. A evolução para maior qualidade de vida é lenta, mas possível. Possível, mas dependente dos sujeitos envolvidos, entre os quais identificamos, numa escala do maior para o menor grupo, os acomodados, os beneficiários e os insurgentes. Os acomodados serão aqueles que a nada se propõem, mesmo percebendo os erros, pois entendem "que tudo sempre foi assim e não será você quem mudará o mundo". Os beneficiários, sustentados pelos acomodados, darão de ombros e tirarão proveito da miséria alheia. Daniela Arbex revela que o Colônia foi ponto final de doentes oriundos do país inteiro e, quanto mais chegavam, mais dinheiro podia-se pedir. Dadas a penúria do hospital, não é difícil imaginar onde este dinheiro foi parar. Caro leitor: mesmo num simples brechó de centro espírita, com a declarada função de obter fundos para a obra social da casa, em que peças podem ser adquiridas por migalhas, sempre haverá comprador querendo "desconto". Esta mentalidade, alçada a postos administrativos e fantasiada com rótulo adequado, pode produzir monstros.

Quanto aos insurgentes, estes parecem encontrar em determinada missão a resposta à Vontade de Sentido mencionada por Viktor Frankl. Deparam-se com algo e sabem que não poderão passar adiante. A própria autora dá-nos disto prova, mas ela cita, também, pessoas como os psiquiatras Ronaldo Simões Coelho e Francisco Paes Barreto. Ronaldo foi dos primeiros a escancarar a situação do Colônia perante a classe médica e perante a sociedade, tendo como resultado imediato uma ordem de assinatura do próprio pedido de demissão. Já Francisco Paes Barreto, também por divulgar o que viu no Colônia, chegou a responder a um processo administrativo perante o Conselho Regional de Medicina, no qual sua ética profissional foi questionada. No âmbito da imprensa, Arbex cita os jornalistas Luiz Alfredo Ferreira e Hiram Firmino, que escreveram reportagens sobre o hospital. E o cineasta Helvécio Ratton, que produziu o documentário Em nome da razão, no qual a trilha sonora foi substituída pelos sons locais. Diante destes nomes, percebe-se a relevância do trabalho de pessoas externas à instituição que buscaram auxílio através da quebra do silêncio. Contudo, foi indispensável que pessoas internas à instituição reconhecessem o problema e providenciassem de dentro para a fora a ruína do hospital.

Diversas bocas compararam o Colônia aos campos nazistas de concentração. "Campo de concentração" é algo que faz parte da realidade do Brasil ao menos desde o começo do século XX, quando Raquel de Queiroz, no romance de estréia O Quinze, menciona lugares assim em cidades nordestinas para onde dirigiam-se os retirantes da seca. Os termos são estes: campo de concentração. Quem duvidar que consulte a obra. No caso do hospital Colônia, é preocupante perceber que ele foi criado em 1903 e ultrapassou, com o mesmo perfil, as duas guerras mundiais, subsistindo até 1979 quando o psiquiatra Jairo Toledo assumiu sua direção e passou a realizar reformas práticas. A segunda guerra mundial terminou em 1945 e ninguém notou alguma semelhança entre as atrocidades reveladas e o que acontecia no quintal de casa?

No prefácio ao livro de Arbex, Eliane Brum sintetiza: "Ao expor a anatomia do sistema, a repórter ilumina um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, de funcionários e também da sociedade. É preciso perceber que nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a nossa omissão". A omissão é um vício que se expressa em dimensão individual e social, não se restringindo a esta ou aquela classe profissional ou instituição. Ignóbil, sempre terá uma máscara mais ou menos conveniente, com maior ou menor poder de persuasão do próprio mascarado e dos circunstantes. No que se refere à aproximação do hospital Colônia aos campos de extermínio nazistas, e no que se refere à omissão da sociedade, fui remetido a dois autores: Primo Levi e Rollo May.

O químico e escritor Primo Levi foi sobrevivente dos campos de extermínio. As circunstâncias de sua morte são questionadas. Teria mesmo caído da escada ou jogado-se do andar onde morava? Em caso de suicídio, podemos verificar se não seria uma vítima a longo prazo. Em sua mais recente obra traduzida, Os afogados e os sobreviventes, no qual revisa seu outro trabalho intitulado É isto um homem?, Levi faz incomodas perguntas sobre a passividade dos judeus e sobre a exclusividade de culpa dos oficiais nazistas. Lembra que "os primeiros insultos, os primeiros golpes não vinham dos SS, mas de outros prisioneiros, de 'colegas', daqueles misteriosos personagens que também vestiam o mesmo uniforme de listras recém-vestidos pelos novatos". A pergunta mais direta do autor é: "que pode fazer cada um de nós para que, neste mundo pleno de ameaças, pelo menos esta ameaça seja anulada?". No meio que você frequenta, caro leitor, o que você viu de errado e o que você fez pela mudança? O que o fez agir e o que o calou?

Já o psicólogo existencialista nova-iorquino Rollo May posiciona-se de maneira polêmica em relação às orientações profissionais recebidas pelos profissionais da área "psi". Deixando claro que não se trata nem de uma posição anti-intelectualista, nem excludente da busca de evidências, May preocupa-se com o uso de desculpas contra o engajamento. "Porque ainda não sei tudo o que se possa saber a respeito de certo assunto, nada posso fazer", seria o modelo por ele analisado e rejeitado. Adiante no texto, capítulo 14 do livro "A psicologia e o dilema humano", o autor observa que não basta uma cosmovisão positiva nem a busca do que é bom ou belo. O detentor de algum conhecimento deve preparar-se para reconhecer o mal e o que falta ser aperfeiçoado, identificar o que causa problema e buscar a solução. "Não se alcança o Céu voltando as costas para o Inferno" é uma inspiração que nos acompanha há alguns anos.

Olhando no espelho, minha consciência moral não me acusa de omisso. Repudio-a e, não poucas vezes, criei situações embaraçosas além as quais não se poderia continuar um trabalho sem resolvê-las. Infelizmente contabilizo no meu curriculum a percepção de ter defendido um ideal acompanhado por quem aproveitava da movimentação em benefício próprio. Mesmo diante de situações que não dependem mais de mim para serem solucionadas, sempre mantenho um olhar desconfiado para tentar perceber algo que eu ainda possa fazer. Recebi demais do Autor da Vida para simplesmente contentar-me com os valores de fruição.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 28/11/2016


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Neon Genesis Evangelion de Duanne Ribeiro


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2016
01. A biblioteca de C. G. Jung - 15/2/2016
02. Omissão - 28/11/2016
03. Livrarias - 30/5/2016
04. Ação Social - 25/4/2016
05. Srta Peregrine e suas crianças peculiares - 5/9/2016


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Tres Noites de Paixão
Luna Caliente
Geração
(2012)



Meu Livro de Histórias Bíblicas
Não Encontrado
Não Encontrado



Os Maiores Clássicos do Homem de Ferro - Volume 1
Marvel
Panini Comics
(1979)



Sempre Viva
Antonio Callado
Circulo do Livro
(1988)



Manual de Administração de Pessoal Relações Industriais
Flávio de Toledo
Atlas
(1960)



Poemas de Amor
Walmir Ayala
Ediouro
(1991)



Plantas de Interior - para Todas as Estações
Patrick Mioulane
Europa América
(1989)



Estado e Capital Ferroviário Em São Paulo
Guilherme Grandi
Alameda
(2013)



Técnico e Analista. Teoria Unificada - Coleção Concursos
Marcelo Tadeu Cometti
Saraiva
(2014)



O Apanhador no Campo de Centeio
J. D. Salinger
Do Autor





busca | avançada
61604 visitas/dia
1,8 milhão/mês