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Segunda-feira, 15/2/2016
A biblioteca de C. G. Jung
Ricardo de Mattos

+ de 4600 Acessos

"É por isso que dou tanto valor à pequena frase 'não sei'. É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa" (Wislawa Szymborska).

1 Sonu Shamdasani é professor de História de Jung no centro de História das Disciplinas Psicológicas do University College de Londres. Historiador da Psicologia e da Psiquiatria, é o principal pesquisador das bases do pensamento do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. No esplêndido livro C. G. Jung - Uma biografia em livros, sua proposta é percorrer o itinerário intelectual do pai da Psicologia Analítica. Não tivemos com a biblioteca de Jung outro contato além do mediado por Shamdasani. Abrir seu livro e admirar a profusão de ilustrações, porém, resgatou nossa lembrança das experiências análogas. De fato: lombadas lustrosas e outras se desfazendo; etiqueta de acervo em cada exemplar; brochuras ao lado de exemplares com capa dura; estantes entalhadas; manuscritos com iliminuras; volumes anteriores à imprensa. Alguns exemlares receberam o corte que alinhou suas páginas. Na encardenação, receberam douraduras. Outros exemplares tiveram as folhas cortadas para leitura e mantiveram este desalinho. Sabia o leitor que era comum as paginas de um livro virem grudadas, sendo necessário cortar entre elas para poder ler? E que muitos livros eram comprados em brochura, para só então o leitor adquirente mandar encaderná-los em harmonia com o acervo? O todo é maior que a somatória das partes - diz a Gestalt. Entretanto, mesmo folhear, sentir o papel e o cheiro de cada uma destas partes, bem como aproximar os olhos e notar a pressão dos tipos sobre o papel pode ser fascinante. Parece que foi permitido um rasgo no Tempo e pudemos piscar para o passado. Certos capítulos contêm mais ilustrações que texto, o que parece ser uma homenagem ao biografado. Concordando com o poeta e místico inglês do século XVIII, William Blake, Jung entendia que palavra e imagem são complementares. Devido a este livro, acabamos por repetir em nossa vida uma experiência do próprio analista: o sonho com livros que iria mesmo encontrar e ler.

2 Jung foi um polvo intelectual. Seus tentáculos foram direcionados a tantos interesses que podemos imaginar o trabalho de quem se diz filiado à Psicologia Analítica. O jovem que descobriu os livros por meio da biblioteca do pai demorava a voltar para a sala de aula com o livro solicitado - de propósito? - pelo professor. De Homero e Virgilius, chegou a Goethe, encantado por descobrir alguém que finalmente "levou o demônio a sério". Em Filosofia, seu encadeamento intelectual poderia não obedecer à cronologia, mas foi substancioso: partindo dos pré-socráticos, passou por Mestre Eckarth e chegou a Schopenhauer, Kant, Carus, Hartmann, Nietzsche. O que nos espanta? Para certos homens, os estudos nunca cessam. Por isso alcançaram seu lugar no mundo. No Youtube.com encontramos certa entrevista com Viktor Frankl, já idoso, na qual ele menciona "ainda estar estudando" a filosofia de Karl Popper.

3 O ingresso na faculdade de Medicina, segundo o autor, foi um compromisso com sua autonomia, a busca do sustento. Evidente que Jung não foi aluno limitado ao curricular: participava de confrarias e grupos de estudos de variados temas. Na fase final de sua formação médica, decidindo-se pela especialização, encontrou sua vocação ao ler o Manual de Psiquiatria de Richard von Krafft-Ebing. Certos livros calham de resumir ou sistematizar conteúdos que ocupam nosso espírito há tempos. Uma ideia movimenta-se, sucede outra, ambas encontram-se e, a exemplo do trapezista machadiano, ocupam a mente e ganham reforço. O encontro com determinado livro forma marcos divisores na vida e é difícil, senão inviável, querer dar outro direcionamento aos dias.

4 Carl Jung teve envolvimento mais que superficial com o espiritualismo e com a prática mediúnica. O contato primeiro deu-se por intermédio do livro encontrado na biblioteca paterna de um amigo. Eis aqui uma lacuna de Shamdasani, pois ficamos querendo saber que livro foi este. Dos autores consultados pelo psicólogo, há nomes que nos são completamente desconhecidos - Görres, Passavant, Eschenmayer. Outros constam de nossa prórpria coleção, como William Crookes, Carl du Prel e Justinus Kerner. A obra magna do alemão Kerner, A vidente de Prevorst, serviu de base para preleções no Instituto Federal Suíço de Tecnologia. Entre nós, ainda encontra-se disponível no mercado, mas foi traduzida da versão francesa simplificada.

5 A crer em suas palavras, Jung alternava a leitura maciça de textos psiquiátricos - cinquenta volumes de setecentas páginas cada, de pediódico especializado - com obras que abordavam a mediunidade, mas levando-a para o campo do psicologismo. Trata-se, por exemplo do livro Das Índias ao planeta Marte: um estudo de caso de sonambulismo com glossolalia, de Théodore Flournoy, psicólogo suíço que se dividia entre o laboratório e as sessões mediúnicas. Reuniões assim não foram estranhas também a Jung, que participou daquelas em que sua prima Helene Preiswerk atuava como médium. Realmente, sua dissertação para formar-se médico intitulou-se "Sobre a psicologia e a patologia dos fenômenos chamdos ocultos: um estudo psiquiátrico". Todavia, entre mediunidade e esquizofrenia - a antiga "demência precoce"-, ele prefiriu a segunda opção para Helene.

6 Da leitura dos autores espiritualistas Jung parece ter tirado a base de, ao menos, uma de suas teses. Segundo Carl du Prel, os sonhos teriam capacidade de cura. Esta hipótese mantida e adiante conciliada com suas conclusões a respeito dos símbolos levou Jung a formular uma teoria dos sonhos diversa da freudiana. Para Freud, os sonhos seriam nossa psicose diária em que as defesas arrefecem e os conflitos emergem. Para Jung, ao contrário, os sonhos e os símbolos identificáveis trariam justamente a solução dos conflitos.

7 Os tentáculos expandem-se A partir de 1909 dedica-se ao estudo da mitologia, do folclore e da religião. Foram temas que o acompanharam a vida toda, a ponto de ele afirmar que não poderia haver Psicologia sem o estudo da História. Com isto, fez um paralelo psicológico à Lei de Haeckel, segundo a qual "a ontogênese recapitula a filogênese", ou seja, o desenvolvimento fisiológico individual apresenta os mesmos passos do desenvolvimento da espécie. Descobrindo a filosofia indiana, atracou-se com o estudo das obras trazidas do Oriente apra o Ocidente, iniciado em 1804 por Duperion. O que significou para Jung outro enorme volume de leitura. Pode ser encontrada em sua biblioteca a coleção Os livros sagrados do Oriente editada por Max Müller em cinquenta volumes. O livro de Shamdasani mostra as descobertas de Jung ao transitar entre Ocidente e Oriente. Há menção sobre o olhar dele para o Norte. Contudo, si há no livro algo que aluda ao olhar do psiquiatra para o Sul, passou-nos despercebido. E o que há no Sul? Há toda a África, continente que ele visitou e onde hospedou-se com tribos nativas.

8 Em torno de 1.912, Jung reconheceu a insuficiência da erudição e da ciência para aquisição de conhecimento acerca da psychè humana. É igualmente recomendável o contato com o mundo em toda sua variedade. A despeito deste reconhecimento, a erudição foi uma característica sua. De qualquer forma, esta concepção teve desdobramento espiritual, psicológico e acadêmico. A atitude geral foi coerente.

9 Espiritualmente, ficamos sabendo que suas reflexões a partir da Imitação de Cristo, obra escrita pelo místico Tomás de Kempis levaram-no a concluir: "imitar verdadeiramente a Cristo não significa imitar alguém, mas seguir seu próprio caminho, o que significa não mais chamar-se cristão". Cristo afirmou: "tome sua cruz e siga-me". Porém, também afirmou n'outra passagem: "sois deuses, podereis fazer aquilo que faço e muito mais". Deuses em formação diante do Deus que é. Cristo oferece um roteiro, mas não tira a individualidade da cruz. De Jung somos levados a Kierkgaard, nas páginas de Temor e Tremor: "gerações inumeráveis conheceram de cor, palavra por palavra, a história de Abraão; porém quantos tiveram insônia por causa dela?".

10 Psicologicamente, a busca do mito individual refletiu-se no próprio estudioso. Como o psicanalista superou seu Édipo? Qual o sentido da vida do logoterapeuta? A resposta é necessária. De forma equivalente, ele percebeu que a condição para buscar o mito sob o qual vive o paciente seria o analista deter a mesma informação a seu próprio respeito. A investigação não foi levada adiante sem incômodos. Entre eles, o revelado em por Jung em carta ao romeno Mircea Elíade, profundo estudioso das religiões. Desconfiado de si, menciona a suspeita pessoal de esquizofrenia. Jung deu grande vazão à análise de suas "fantasias", como são referidas no livro de Shamdasani. Agora é difícil definí-las: sonhos em vigília? Transe? Imaginação ativa? Seja como for, destinou-lhes energia, tempo, escrita e desenhos, muitos desenhos. Por meio destas fantasias, Jung encontrou Filemon, personagem da mitologia latina que ele assumiu como "personalidade mana", assim como Basilides posteriormente. Shamdasani aproxima Filemon e Basilides dos heterônimos de Fernando Pessoa, o que é interessante quando se pensa na carta do poeta português ao crítico Casais Monteiro, datada de treze de janeiro de 1935, na qual narra a gênese dos heterônimos. O material obtido na persecução do mito foi registrado nos "livros negros", cadernos pretos de capa dura. Na verdade é autoanálise, mas num aprofundamento pouco divulgado e menos ainda compreendido. Após mil páginas - literalmente - de registro de suas visões, Jung resolveu dedicar-se à caligrafia. O que significa dizer que a partir de 1.915 ele passou a transcrever seu texto a mão, em pergaminho, nos moldes dos copistas medievais. Para ajudar a posteridade de estudiosos, preencheu as páginas de um grande volume, adrede encomendado, ora com textos, ora com imagens e mandalas que por si só são prenhes de conteúdo. Este monumento, o Livro vermelho - liber novus pode ser encontrado nas livrarias: ou numa grande e pesada versão integral e ilustrada, ou numa versão menor desprovida de gravuras, o que perde a graça. O próprio Shamdasani é o responsável pela publicação.

11 Na vida acadêmica, as divergências teóricas entre Freud e Jung foram exploradas, inclusive, no cinema - veja-se Um método perigoso. O primeiro contato entre eles ter-se-ia dado em 1906, por iniciativa de Jung. É mais correta a informação de que Jung e Freud desenvolveram suas prórpias carreiras, caminharam alguns anos juntos, compartilharam informações a respeito de temas comuns e então afastaram-se. O próprio suíço reclamava de ser visto como um descendente teórico e rebelde do austríaco, reconhecendo-se discípulo de Bleuler, Janet e Flournoy no artigo escrito a respeito do cisma.

12 Si entendermos que o inconsciente não foi descoberto por Freud, mas teve no psicanalista seu principal investigador, aceitamos como evidente a ideia de que outras cabeças detiveram-se a respeito do assunto, palpitante ao menos desde Schopenhauer. Jung também teve sua linha de investigação, mas afirmou maior ligação teórica com as filosofias de Carl Gustav Carus e Eduard von Hartmann. Decorre disto a rejeição da leitura "psicanalítica" de sua obra. Hartmann teria traduzido a "vontade" de Schopenhauer em inconsciente, além de semear a noção de um inconsciente "transindividual e coletivo". Outro ponto de divergência entre Freud e Jung parte da mitologia básica. Enquanto para aquele, Édipo foi "o mito", este admite outros mitos de igual importância jazendo no recôndito da alma. Os assuntos entrelaçam-se. O livro de Shamdasani, além da tourneé pela biblioteca junguiana, apresenta uma boa visão dos passos da Psicologia nas primeiras décadas do século XX.

13 Foi em 1908 que Jung adquiriu o terreno às margens do lago de Zurique, onde ergueu sua casa e a tão sonhada biblioteca. "Mais que fortuna e fartura o jovem estudante sonhava com uma biblioteca bem equipada". A frase latina vocatus atque non vocatus, deus aderit, que significa "chamado ou não, Deus estará presente" foi comum a dois frontispícios. O primeiro, da entrada da própria casa. Quem chegar pela porta principal e para cima olhar, deparar-se-á com ela. O segundo, seu ex libris colocado no começo de cada volume. Ex libris são selos personalizados, na maioria das vezes artisticamente elaborados, que determinam a propriedade de um livro e integram-no em determinada coleção. Segundo Shamdasani, para Jung tornou-se o mesmo entrar em casa e abrir um livro. Porque o mesmo verso encontra-se na lápide de seu túmulo, podemos acrescentar uma citação do próprio psiquiatra: "um livro abre outro".

14 Mantendo o paralelo livro-casa, podemos dizer que a vida de C. G. Jung rendeu dois volumes. Além da casa onde residiu com a família, comprou um segundo terreno onde mandou erguer outra moradia. Este refúgio ficou conhecido como "A torre de Bollingen". No estilo do filósofo francês Michel de Montaigne, lá retirava-se para ler, refletir e escrever. A mais que Montaigne, Jung treinava caligrafia, desenhava, pintava e entalhava em pedra. Ou simplesmente divertia-se com as crianças no raso d'água, incógnito do caminhante comum, para quem podia passar por um aldeão.

15 Há passagens que revelam o posicionamento de Jung diante de grandes nomes da Literatura de sua época. Thomas Mann residiu um período na vizinhança, mas não há registro de encontro entre o psiquiatra e, para utilizar suas palavras, o "vampiro sulamericano" - Julia Mann, mãe do escritor, era brasileira. Os livros Sidarta e O lobo da estepe, de Hermann Hesse, foram considerados bons romances introdutórios à psicologia junguiana. No Sidarta, inclusive, encontra-se a adaptação daquilo que Jung disse a respeito de deixar de ser cristão para imitar ao Cristo. O livro Prometeu e Epimeteu, de Karl Spitteler, ganhador do prêmio Nobel de 1.919, foi uma das bases do volumoso tratado Tipos psicológicos. Partindo da caracterização dos dois irmãos, Jung formulou os conceitos de introversão e de extroversão, chaves de sua teoria da personalidade. Quando expandiu sua busca do mito para além das obras eruditas, alcançando as populares, encontramos Jung leitor de - bravo! - Simenon. Em relação a James Joyce, permitiu-se o sarcasmo. Para ele, Ulysses seria como um verme: "cortado ao meio, que desenvolve uma cauda para a parte que ficou com a cabeça, e uma cabeça para a parte onde ficou a cauda". Todavia, em 1934 Joyce recorreu a Jung para o tratamento de sua filha Lucia.

16 Enfim, a alquimia, que para muitos ficou conhecida como a prática de se tentar converter metais diversos em ouro. Segundo alertado por Shamdasani, não foi isso que teria chamado a atenção de Jung. Reduzida e apresentada como uma prática inviável, por concessão tida com antecessora da química, neste livro a alquimia é lembrada principalmente por ser um ramo filosófico que buscou fornecer ao ser humano elementos para a transformação interior. Originalmente, o ouro seria o símbolo da pureza de alma, sendo as paixões humanas obstáculos para alcançá-la. O proprio roteiro traçado por Shamdasani foi iniciado com o relato do sonho de Jung com livros de alquimia. Encerrando-o neste assunto, o autor fez a serpente morder a própria cauda. No que tange a livros, cadernos de nota, índices e desenhos, o capítulo sobre a relação de Jung com a alquimia é o mais extenso em ilustrações.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 15/2/2016


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