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Segunda-feira, 25/4/2016
Ação Social
Ricardo de Mattos

+ de 2300 Acessos

"Transformai vossa esmola em salário" (Allan Kardec).

Temos preferido nomear "ação social", em vez de "assistência social", ao trabalho desenvolvido no âmbito do Centro Espírita por nós coadministrado. A cada semana percebemos a importância de fazer com que as pessoas atendidas sintam-se envolvidas, atuantes e participantes do trabalho que trará benefícios diretos a cada uma delas. Pessoalmente, as novidades são grandes. Por índole, respeitamos o que foi feito pelos antecessores, mas procuramos descobrir o que cabe a nós melhorar ou ampliar. Si reconhecemos que fizeram muito e foram até onde puderam, ao mesmo tempo causam-nos engulho as desculpas do "sempre foi assim" ou do "já estava assim quando cheguei".

Iniciamos pela questão terminológica. Ouvimos falar das "assistidas das quartas-feiras" desde que começamos a frequentar o Centro. A partir de agosto do ano passado assumimos a coordenação do trabalho e hesitamos quanto ao melhor modo de referirmo-nos a elas. "Pacientes" seria um pernosticismo imperdoável. Pensamos importar o termo "clientes" da Psicologia humanista-existencial, mas pensamos no "clientelismo" e na confusão entre os voluntários da casa. Além do que, o viés financeiro perceptível neste termo poderia perverter nossas intenções. Ora, queremos que as pessoas compreendam que o trabalho feito por elas reverte em benefício delas mesmas, e de nada adiantaria toda a estrutura da casa não fosse elas participarem. Almejamos fazê-las compreender que não ocupam posição passiva na pura e simples assistência material, mas que participam da edificação de uma estrutura de trabalho. Então preferimos o simples e funcional "colaboradoras".

São mulheres de idade variada que comparecem ao Centro uma vez por semana e lá passam a tarde. Alimentam-se, ouvem a preleção evangélica, realizam trabalhos manuais, alimentam-se novamente, recebem uma cesta básica conforme o dia e partem. Os trabalhos manuais são pintura em tecido, bordado, costura, tricô, crochet e, eventualmente, algum artesanato ou bijuteria. Duas frequentam a sala de alfabetização com uma professora aposentada. Nossa primeira preocupação foi demonstrar que o trabalho realizado por elas, que o pano de prato que elas pintaram ou decoraram é vendido e o dinheiro utilizado na compra dos ítens que compõem as cestas de mantimentos levadas para casa. Que o artesanato ou bijuteria trazidos por elas, si vendido, comprará o remédio ou o par de óculos que elas mesmas solicitam. Evidente que não podemos prescindir de doações externas, tanto que até ao Facebook recorremos semanalmente neste sentido. Já recorremos à imprensa local e conciliamos a arrecadação com outros eventos do Centro Espírita. O posto de tesoureiro do Centro resguarda-nos contra alguma emergência.

Tudo seria mais fácil caso a questão fosse limitada ao pagamento dos mantimentos e dos remédios. Infelizmente, trazemos em nós o gene da chatice e optamos por fazê-las compreender que todo o trabalho justifica-se porque elas estão ali, colaborando, trabalhando em conjunto entre elas e com a casa. Um passo além, e experimentamos fazê-las perceber, ao menos as mais jovens, que si elas podem estar conosco, também podem buscar trabalho regular e assalariado. Semanalmente informamo-las das vaga de emprego que levantamos nos jornais locais e na Internet. Graças aos nossos gentis próceres a economia brasileira assume feição titânica, ou seja, afunda tal como o navio Titanic. Apesar disso, foi satisfatório almoçar num shopping local e descobrir que uma delas trabalhava empenhada no balcão de outro estabelecimento da praça de alimentação. Isso arrisca-lhe a vaga? De forma alguma, pois não poderíamos punir quem busca melhorar sua vida. Sem citar nomes, informamos que uma coisa não ameaça a outra, mas que pode chegar o momento de escolher entre trabalho profissional e colaborar no Centro. E entre as alternativas, explicamos o motivo pelo qual nossa escolha pessoal recairia sobre o trabalho assalariado regular: "porque, pelo Centro, ninguém vai se aposentar".

Já encontramos uma mentalidade uniformizada? Longe disso. Funcionamos qual radar tentando captar a psicosfera do grupo. Precisamos tomar medidas disciplinares e deixar a elas a condução do problema. O papel higiênico estava sendo levado embora aos rolos, bem como o papel-toalha para enxugar as mãos. O sabonete líquido dos recipientes estava sendo levado dentro de pequenos frascos. Papel usado e fraldas deixadas de qualquer maneira. O botão da descarga, mero item decorativo. Diante dos fatos, improvisamos um fraldário e colocamos placas em cada cabine e sobre cada pia. O papel higiênico e o papel toalha passaram a ser retirados na portaria, em quantidade fixa. Fosse local de trabalho, talvez a oportunidade alcançada se perdesse. Período de experiência, concorrência desenfreada e desesperada... Melhor chamá-las à solução conjunta do problema e deixá-las decidir quanto tempo ficarão neste regime. "Eu, Fulano e Sicrano temos o banheiro masculino só para nós; vocês todas precisarão usar o banheiro feminino", alertamos.

Precisamos aprender a lidar com duas alternativas: dar o peixe e ensinara pescar. Regra: ensinar a pescar. Semanalmente precisamos entregar alguns peixes, mas os casos são sempre distintos. A mais antiga universidade local encaminhou-nos um senhor com um pedido de cesta básica, o que atiçou nossa curiosidade. Como eles sabem de nosso trabalho? O boletim que preparamos no começo do ano chegou até eles? Ou a assistente social veio a uma de nossas reuniões públicas e recebeu o panfleto com o pedido de mantimentos? Lá esteve, de qualquer forma, um senhor constrangido que recebeu o auxílio. Explicamos que, caso necessário, poderia retornar no mês seguinte. Por outro lado, um guardador de carros vez ou outra aparece pedindo mantimentos. Ele faz sua arrecadação pessoal pela região, de modo que não é muito o que lhe damos. Diante de nossa parcimônia, foi reclamar para uma das trabalhadoras mais respeitadas de nossa casa que "é pouco o que o Centro dá". Acabou ouvindo dela que "o pouco está sendo dividido entre muitos, e aqueles que doavam alimentos para o Centro perderam seus empregos e logo eles que arriscam entrar na divisão deste pouco".

Triste realidade. Observamos, também, que cada colaboradora compõe uma família de cinco pessoas, em média. Na última semana registramos quarenta colaboradoras, significando cerca de duzentas pessoas envolvidas direta ou indiretamente pela atividade no Centro.

No último trimestre de 2015 ficamos todos entusiasmados com a arrecadação geral: dinheiro, alimentos, roupas e demais itens. No primeiro trimestre de 2016, consideradas as contas e tributos da estação, percebemos um declínio também geral. Em 2015, nossa despensa ficou de tal forma abarrotada que pudemos dividir o excedente com cinco outras instituições. Agora em 2016, trabalhamos com uma, no máximo duas semanas de vantagem. O grupo das colaboradoras é dividido em quatro subgrupos. Toda semana, cada integrante de um dos subgrupos recebe sua cesta. Ao final do mês, todas as colaboradoras receberam mantimentos. Olhando o calendário sobre a mesa e lembrando do que há no estoque, verificamos que a distribuição da próxima semana está garantida. A da seguinte...

Não é isto que nos preocupa. A falta de vaga de trabalho para anunciar entristecer-nos-ia mais do que meia dúzia de pacotes de macarrão a adquirir. Preparar o refeitório na noite anterior, antes do trabalho mediúnico, garantindo ambiente limpo, organizado, iluminado e arejado, afigura-se-nos tão relevante quanto organizar nossa fala semanal - recados, informações e, por vezes, o próprio estudo do Evangelho Segundo o Espiritismo - de maneira compreensível. Porque temos nossa base familiar, afetiva e profissional. Aprendemos que, embora trabalhemos sobre um fundamento doutrinário específico, não devemos impor nossas convicções sob pena de negarmos ajuda a quem, sabe-se lá, vem colecionando "nãos". Porque a ajuda não parte de nós, mas passa por nós. Porque o trabalho não é de um só, mesmo que regras humanas imponham um responsável. Porque quando ocupamos uma posição, duas regras impõem-se. A primeira, não atrapalhar; a segunda, começar a ajudar. Porque há Alguém que tudo vê e que pode estar exercendo sua Misericórdia não em relação ao beneficiário da ação, mas em relação a nós mesmos, conferindo-nos alguma utilidade em Seus planos.

Sobre a atuação do mundo invisível, arquivamos uma ocorrência. Em dezembro passado, adquirimos os itens solicitados para montagem das cestas de Natal das colaboradoras. Voltamos do atacadista, guardamos o carro e começamos a descarregar a mercadoria. Uma voluntária avisa-nos da presença de uma senhora em busca de mantimentos, e antes que ela terminasse de falar, a própria solicitante alcança-nos e conta sua história. Ela é diarista, mas naquela específica semana não pôde trabalhar, e portanto, receber, porque sua patroa contraíra dengue. Tomando seu carrinho de feira, fomos até a despensa onde o abastecemos. Entregamos de volta em suas mãos e tornamos a descarregar as compras do carro. De volta à despensa, fomos surpreendidos por uma doação de mantimentos chegada naquele instante. Ou seja, foi imediatamente reposto aquilo que acabáramos de entregar. Para alguns, mera coincidência. Para nós, foi como se alguém dissesse: "continua, que estamos na retaguarda".


Ricardo de Mattos
Taubaté, 25/4/2016


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