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Quarta-feira, 1/10/2003
O que é um gênio?
Alessandro Silva

+ de 5500 Acessos

No clube de xadrez de São Paulo, há uma figura lendária. Nome: Cajá.

Certa feita - estávamos reunidos em volta de um tabuleiro - ele disse:

- Sabe o que é a inteligência? Está vendo aqueles livros - eram muitas prateleiras -, inteligente é quem depois de lê-los os resume em três frases.

Somente muito depois eu vim a saber quem era o Cajá.

Aos dezesseis, havia chegado perto do título de campeão brasileiro.

A minha estupefação ocorreu antes de tomar conhecimento de "Xadrez para Principiantes", livrinho clássico da Ediouro bastante básico e divertido. Lá narram-se histórias incríveis, feitos memoráveis de grandes campeões, como as lendárias "partidas às cegas" do grande campeão norte-americano Morphi, do cubano Capablanca e do assombroso Bob Fischer.

O contato com esse livro à época, bem como com o irônico "Mitos em Xeque", do Fernando Arrabal, dava-me a medida do gênio, indo além, um padrão de análise para o Cajá.

Pude perceber que o Cajá não gostava de banhos, falava mansamente e jamais desperdiçava um gesto ou uma palavra. Era misógino e, indo além, não tinha sexo. Tudo que tinha era massa, muita massa corporal.

Fato é que seus lances sobre o tabuleiro eram como migalhas atiradas aos pombos; com efeito, tinha algo de desprezível pelo oponente. No mais, quando metia-se numa discussão, citava Pavlov com uma segurança olímpica e dava o tema por encerrado.

Cajá então era médico epidemiologista. Dava plantão em dois hospitais nas periferias de São Paulo e deslocava-se consideravelmente entre um e outro.

Naturalmente, na rua, os transeuntes não davam um tostão furado pelo Cajá. Dir-se-ia que não passava de um mendigo.

Depois que me desliguei do clube, sua figura permaneceu para mim como o paradigma do gênio. Muito tempo depois, lendo Henry James, nada pude encontrar de semelhante em Penberton, o jovem protagonista da maravilhosa novela "O Discípulo".

Exatamente porque Penberton é apenas um garoto - extremamente frágil, bastante vivaz e cheio de curiosidades e observações que normalmente só dizem respeito ao mundo adulto.

Na época, próximo da Faculdade Getúlio Vargas, eu costumava entre uma cerveja e outra disputar uma partida de xadrez naquela lanchonete que por muito tempo caiu nas graças dos travestis e dos invertidos, "A Vassoura das Bruxas". Então, certa feita meu adversário ergueu a cabeça do tabuleiro e me disse apontando o indicador para um mendigo enrrolado em um cobertor:

- Estudou comigo na Politécnica. Falava três línguas com fluência. Ficou desse jeito depois que a mãe morreu.

Na mesma época, eu descobria os poemas daquele poeta alemão, morto muito cedo, e que nos legou "De Profundis", Georg Trakl.

O meu contato se deu através das "Investigações Filosóficas" de Wittgenstein. Na introdução, era citada uma frase do filósofo segundo a qual o maior exemplo de gênio para ele seria o de Trakl. Wittgenstein havia criado uma bolsa de auxílio aos poetas e infelizmente Trakl não pôde ser ajudado porque veio a falecer na época.

Não é preciso citar Rilke para dar crédito ao que disse o filósofo. Quem conheça basicamente a poesia de Blake ou tenha familiaridade com algum dos cantos do Inferno do Dante, entende porque Trakl era gênio. Em singelos versos, ele nos faz enxergar um mundo quase pré-histórico.

E, naturalmente, como o que observa tem muito do observado, não posso deixar de mencionar os estados de superexcitação que nos trás o mundo das "Aulas" de Ludwig Wittgenstein, sendo que aquilo que disse do seu poeta preferido, deve ser aplicado em mesma medida a ele: pois é quem nos dá ainda melhor a idéia de gênio.

Coincidência ou não, ao fim da vida Wittgenstein vestia-se, tal como o Cajá, como um farroupilha.

Coincidência ou não com uma das particularidades do Cajá, a crermos nas notas de sala de aula compiladas por seus alunos em "Aulas", Wittgenstein sustentava uma segurança olímpica ao, muito decartianamente, pôr as coisas em dúvida.

Não obstante, há gradação de opiniões quanto à determinação exata do termo "gênio".

A crer em meu amigo Heraldo Vasconcellos, que gosta de citar o Millôr, a literatura talvez seja a prática que melhor define o gênio. Porque ele diz em relação aos enxadristas:

- Inteligência para quê? Para jogar xadrez?

Se é a capacidade de expressar-se laconicamente o que define o gênio, então é natural que pensemos em Rimbaud, pois ninguém mais do que ele levou tão ao limite um poder de comunicação elíptico ( sem considerar aqui o experimentalismo de Ezra Pound ).

( Quanto a James Joyce, é melhor não falarmos, pois Deus pode se sentir ofendido. )

Toda essa questão do gênio ocorre-me agora por um motivo.

Tem a ver com alguns poemas do Manuel Bandeira.

É sabido que "Libertinagem" é um dos livros exigidos para os vestibulandos da Fuvest. Sendo assim, é muito natural nos perguntarmos porquê de uma banca docente exigir de nós que saibamos, a exemplo, como funciona um liquidificador mas não uma batedeira, porque "Libertinagem" e não "Gabriela Cravo e Canela".

Confesso que mui presunçosamente, eu ataquei o material quase como um cão raivoso, afinal de contas, descobrir que o que nos pedem é simples como uma bolha de sabão é como descobrir que a mentalidade de quem nos pede é simples como um canudinho.

Agora me ocorre a palavra simples. Simples é o que são os poemas de "Libertinagem", são de uma simplicidade quase prolixa.

Sei que correrei o risco de escapar um pouco do meu tema, mas é que necessito dizer que, a mim não restam dúvidas, Manuel Bandeira fez pelo Brasil aquilo que Whitman fez pelos USA.

Um indivíduo, um poeta, constrói um poema que nos conta que sua primeira namorada, aos seis anos, foi um porquinho da índia. Isso nos põe perplexos exatamente por nos fazer interrogar: porque um tal poema foi aceito?

A chave para compreender Bandeira é aceitar a loucura de forma tão plena quanto desavisada, pois em "Libertinagem" reside uma espécie de loucura tão infantil quanto sábia. Ela nos põem de pé atrás, na verdade nos desarma. E é nisso que reside sua grandeza.

Aquela velha raposa ( O Bandeira ) deve ter percebido em dado momento que o que se produzia em matéria de literatura em sua época estava de tal modo eivado de competição, de academicismo, de preciosismo literário, que o que deveria levar adiante era exatamente o oposto de uma obra de punho e colarinho; em suma, que exatamente o ideal a se fazer era cantar com um lirismo quase santo em suas pretensões. O resultado dessa inclinação pura, em pôr de parte o mal, e por extensão, o egoísmo e as querelas de ciúmes que presidem muito naturalmente aos meios literários, em suma, o modo que encontrou para exorcizar a sua "fogueira de vaidades", foi através de um estado de espírito tão puro quanto não-competitivo, bem ao modo de Paul Valery.

Gasta-se uma hora na leitura de "Libertinagem" e a princípio nós vamos subestimar seu conteúdo. Mas com o passar dos dias a coisa vai fazendo efeito, vão nossos gestos sendo invadidos daquela alegria vadia

Uns tomam éter, outros cocaína
Já tomei tristeza, hoje tomo alegria

Até que nos põem perplexos.

No Brasil, o que me dá hoje em dia melhor a idéia de gênio são os poemas de "Libertinagem", do Manuel Bandeira.


Alessandro Silva
São Paulo, 1/10/2003


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