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Quarta-feira, 15/1/2020
Notas confessionais de um angustiado (Final)
Cassionei Niches Petry

+ de 800 Acessos

LIX

O que move a narrativa é o conflito. Para Koch, “o conflito — isto é, algum embate a ser resolvido entre as pessoas — é a única coisa que nos faz perguntar: O que vai acontecer? O leitor que não se interessar por isso não vai se interessar pela leitura, e ponto final”. Em Os óculos de Paula, a expectativa do leitor deve relacionar-se ao envolvimento dos protagonistas, se vão levar adiante o caso amoroso, se o marido dela ou a esposa dele irão descobrir. As ideias discutidas durante o enredo também são conflitos em que se busca uma solução: Paula irá adiante com suas indagações metafísicas? Fred continuará pensando no suicídio somente no seu aspecto teórico? São esses os suspenses que buscam prender o leitor na história. Ao mesmo tempo, porém, pretendo provocar reflexão, incomodar quem está lendo, pois minha ideia de obra de arte segue nesse sentido.

LX

Uma das preocupações na elaboração do romance Os óculos de Paula é o tempo da narrativa. A história se passa na maioria das vezes no espaço temporal relativo ao reencontro da Paula e do Fred. Também é narrado um passado comum aos dois, quando namoravam na faculdade, e o passado da infância, com fragmentos da vida de cada um. Busquei não marcar os planos no tempo verbal. Todos estão no pretérito. O contexto vai revelar ao leitor sobre que época se refere o que se está lendo. Há ainda o plano do escritor, que, por sua vez, está no presente. (...)

O que aconteceu com as personagens no passado pode explicar suas ações no presente. Por que Fred se tornou ateu? Por que ele se preocupa tanto com o tema do suicídio? Por que Paula é insegura nas suas escolhas e se baseia muito na opinião das outras pessoas?

LXI

Já escolhi, dentre as possibilidades que tinha, o final da história. Escrevi um esboço das dez últimas páginas. Já sei aonde tenho que chegar, mas ainda falta muito para atingir um número considerável de laudas para que possa chamar Os óculos de Paula de romance.

Não digo que passo por um bloqueio criativo, mas estou numa fase da história em que não consigo pôr no papel o que tenho em mente ou anotado nas folhas de um caderno de capa azul, fragmentos soltos cujos motivos pelos quais anotei eu não lembro mais. O prazo é o maior motivador e desmotivador ao mesmo tempo. Sempre que sinto a aproximação da data da entrega, acabo sempre conseguindo concluir meus projetos de escrita. Por outro lado, o prazo retira do texto uma qualidade maior que ele poderia ter.

LXII

Uma mudança no romance. A primeira, o uso do pronome de tratamento “você” no lugar da segunda pessoa “tu”, mesmo nos diálogos entre Fred e Paula. Um motivo é deixar a narrativa menos regionalizada; o outro é não usar a inevitável mistura de tratamento, que deixa o texto muito pobre gramaticalmente. (...)

Pensei num narrador que, ao mesmo tempo em que focasse em Paula — um narrador em 3ª pessoa parcial, portanto —, soubesse de aspectos da história além dos relacionados a essa personagem apenas. Ele sabe, mas omite, ou melhor, sugere, deixando um suspense ao final dos curtos capítulos e, quando dá a voz ao Fred, ele se esconde ou sai em disparada como escreveu Vargas Llosa, pois deixa a personagem expor seus pontos de vista sem o filtro do narrador.

LXIII

Relendo a obra do Rubem Fonseca, percebo que há uma influência do autor na minha escrita, mas não a que comumente influencia os demais escritores, que é o tema da violência urbana, mas sim com relação às citações às vezes enciclopédicas outras vezes literárias, principalmente as que aparecem na fala de personagens. O orientador já havia se referido a esse ar professoral do Fred como um possível problema na narrativa, mas permaneci firme no propósito, pois tinha a ideia de revelar traços da personalidade da personagem através de seus discursos em rodas de amigo ou nas postagens do blogue. As divagações enciclopédicas e literárias servem para, além de dar indícios do que pode acontecer, retardar a narrativa.

Escrevi há pouco um capítulo em que Fred discorre sobre esse assunto depois de ler um livro do autor de Bufo & Spallanzani. Tenho em mente dar indícios ao leitor, que podem ser falsos, de que Fred é “o escritor” que aparece na história, apesar de este escritor, na sua última aparição, ter insinuado que seria, na verdade, o marido de Paula. Desejo manter esse suspense até o desfecho da narrativa, que já está delineado.

Quem narra a história? É a pergunta que ainda quero deixar sem resposta para o leitor. É uma espécie de “narrador não-confiável”, na acepção de David Lodge, com o objetivo de “revelar a lacuna entre as aparências e a realidade e mostrar como os seres humanos distorcem e ocultam essa última”. O narrador é uma das personagens, mas conta a história sobre o seu ponto de vista, no caso, a favor da ficção: “Assim como no mundo real, precisamos ter alguma forma de distinguir a verdade da mentira do mundo imaginário do romance para que a história desperte nosso interesse.”

LXIV

A narrativa se encaminha para o clímax. Ela seguiu um determinado ritmo, criou alguns conflitos. Agora, porém, precisa crescer e provocar um momento de maior tensão que deve se manter até o desfecho que, pretendo, surpreenda o leitor. David Lodge escreve que a “maioria das narrativas traz um elemento de surpresa. Se conseguimos prever todas as reviravoltas de uma determinada trama, é muito improvável que ela nos cative. Mas, além de convincentes, as reviravoltas precisam ser inesperadas.”

As reflexões de Fred com relação ao suicídio são indícios do que vai acontecer, porém, quem vai cometer o suicídio deve ser uma incógnita para o leitor, assim como quem está narrando a história. Para Forster, o “mistério é essencial para um enredo e não pode ser apreciado sem inteligência [...]. Para apreciar um mistério, parte da mente deve ser deixada para trás, matutando, enquanto que a outra parte deve prosseguir seu caminho”.

Para representar o clímax, decidi narrar com mais detalhes uma cena de sexo entre Paula e Fred. A relação sexual é uma espécie de narrativa, com seu início lento, que vai crescendo até atingir o orgasmo, que é o clímax. Antes de chegar a esse momento máximo com Fred, Paula é interrompida por uma ligação que incidirá no desfecho da história, na verdade o falso final.

LXV

É preciso terminar a narrativa. Um final foi escrito, porém a história não terminou: "Talvez devêssemos distinguir entre o fim da história de um romance — a resolução ou a não-resolução deliberada das questões narrativas levantadas na mente do leitor — e a última ou as últimas páginas do texto, que muitas vezes funcionam como uma espécie de epílogo ou post-scriptum, uma desaceleração suave do discurso antes da parada final", escreveu LODGE.

As páginas derradeiras correspondem mais do que um retardamento. Na verdade, há um novo elemento que fecha o enredo, mas que proporciona uma nova leitura. Há uma ficção dentro de outra ficção e tudo que aparecera até agora resulta em novo significado e o final, por sua vez, fica aberto para interpretações. Surge um conflito que vai ficar sem solução, salvo na mente do leitor. (...)

NOTA FINAL

Li muito nos últimos meses sobre técnicas literárias para produzir esse trabalho. O que não está nessas notas é porque não foi útil para a elaboração do romance, pelo menos conscientemente: “É o feeling, em suma, [...] que dá ao escritor o ritmo das frases, a extensão dos episódios, as proporções dos elementos que se alternam, de modo que os diálogos deem lugar a uma descrição, um resumo da narrativa, ou uma ação concreta", escreveu John Gardner. Algumas escolhas no processo se deram em virtude não do que os teóricos me diziam, mas do que eu com leitor pensava que era melhor, tendo em vista as centenas de romance que já li.

Busquei refletir sobre o processo de criação de uma forma que pode ser resumida nessas palavras de Milan Kundera: "Uma teoria ágil e prazerosa; assim é como teoriza um romancista: conservando a sua própria linguagem com ciúme, fugindo do jargão dos eruditos." Ao mesmo tempo em que precisava escrever um trabalho acadêmico, a escrita não poderia destoar da própria narrativa. Logo, as reflexões são de um escritor, não de um teórico, mas um escritor que precisava teorizar e se utilizar de teóricos para refletir. Foi esse círculo urobórico que procurei seguir, sabendo que correria o risco de engolir a própria cauda.


Cassionei Niches Petry
Santa Cruz do Sul, 15/1/2020


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