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Quinta-feira, 20/5/2004
Leituras Inglesas (II) - E. Waugh
Ricardo de Mattos

+ de 4300 Acessos

"Esse é o material que me é fornecido para eu fazer o meu trabalho. Se me dão uma tábua de mogno, é isso que eu tenho como material para trabalhar. E um mundo decadente é o material que me é dado" (Waugh).

Se Charles Dickens (1.812/1.870), Hector Hugh Munro (1870/1916) — mais conhecido pelo pseudónimo Saki — e Evelyn Waugh (1.903/1.966) estivessem à mesa de jantar, seria fácil perceber a diferença de humor caracterizador de cada um deles. O primeiro manteria a amenidade da conversação e talvez despertasse o riso geral contando uma breve estória ou narrando habilmente um facto qualquer. Já o terceiro murmuraria algo entredentes despertando a gargalhada surpresa de apenas dois ou três vizinhos, fazendo-os engasgar ou espirrar o vinho pelo nariz. Após o jantar, durante o café, caberia ao segundo narrar um caso mais longo, envolvendo uma lady caçadora de tigres ou uma mulher assustada por acreditar que sua melhor amiga reencarnou no corpo d'uma lontra.

Dickens tanto faz rir quanto chorar. Por alto, seus escritos sérios aproximam-no das irmãs Brontë. Entretanto, seu amor pelas crianças é algo que comove profundamente o leitor:

"Uma dessas calamidades públicas, vale dizer, uma criança mimada, brincava na sala, vestida de acordo com a moda mais elegante: túnica azul com cinturão negro da largura de vinte centímetros, terminando numa imensa fivela, atavio que lhe dava a aparência de um ladrão de melodrama visto através de lentes de diminuição" (conto Sentimento).

"Você certamente nunca irá encontrar qualquer dessas aflições dentro de um ônibus. (...) Outra coisa: crianças. Elas nunca são vistas dentro de um ônibus, mesmo que ocasionalmente. E se acontecesse de entrarem em um e de o veículo estar lotado, como é normalmente o caso, alguém sentaria em cima delas e nem perceberíamos sua presença" (conto Os Ônibus).

Há cerca de um ano são lançadas no Brasil traduções das obras de Evelyn Waugh. A Provação de Gilbert Pinfold, O Ente Querido e Malícia Negra. Na ordem cronológica de suas obras, A Provação de Gilbert Pinfold ocupa o último lugar — data de 1.957 — sendo o primeiro e o melhor do trio citado. N'ele o escritor sintetiza factos ocorridos consigo quando intoxicado por altas e habituais doses de soníferos. Justamente esta síntese deve tê-lo levado a escolher a ficção e a criação do personagem G. Pinfold para o seu papel. Repare-se no subtítulo que dá a entender uma amplidão de eventos: Um Fragmento de Conversa. Há no final do volume um esclarecedor apêndice com todos os transtornos sofridos por Waugh/Pinfold.

Debilitado pelo consumo exagerado de bebidas alcoólicas, acumulado com soníferos e outros medicamentos auto-ministrados, G. Pinfold decidiu viajar sozinho para o Oriente para desintoxicar e concluir um livro. As doses de medicamentos foram de tal forma excessivas e o tempo de uso tão longo, que seu sistema nervoso foi abalado e ele passou a ouvir vozes. O pior tipo de alucinação deve ser o realista. Pinfold escutava as vozes mas encontrava explicações aceitáveis, algo como problemas no sistema de comunicação interna do navio em que viajava. Aqui residia o mal, pois a razão amparou o delírio e permitiu-lhe avançar em demasia. Se fosse uma gravura e não um livro, seu título seria Os Sonhos da Razão Produzem Monstros. Sequer ao dialogar com as vozes o personagem percebeu a alucinação, pois já estava de tal modo perturbado que não teve senso crítico para analisar a solução encontrada, envolvendo telepatia. Sugiro a leitura atenta dos primeiros capítulos, pois as informações todas fornecidas foram "utilizadas" pelas vozes para a confusão de Pinfold. O resultado é engraçadíssimo, apesar de tornar a obra presa cobiçável por psiquiatras de plantão.

A novela O Ente Querido não passa de pretexto para Waugh exercer seu sarcasmo: em quatro quintos do texto a nota predominante é a da caricatura. Temos um apanhado de legendas de charges, substituído ao final por uma torrente de humor negro. O alvo imediato da novela é o mundo do cinema norte-americano e sua periferia na primeira metade do século XX. O alvo mediato, a cultura e a sociedade norte-americanas, ridicularizadas e comparadas com a cultura e a sociedade européias em geral e com a inglesa em particular. Este Marcial moderno aproxima-se mais de Oscar Wilde d'O Fantasma de Canterville que de Henry James, do qual cito Lady Barberina. Ao último, Waugh reservou a observação: "O senhor não precisa ler muita coisa dele. Todas as histórias dele são sobre a mesma coisa: a inocência americana e a experiência européia".

Assim como em O Ente Querido, no livro Malícia Negra cabe à mordacidade do autor o papel principal. Parece obviedade falar isso d'um escritor satírico, mas é preciso ressaltar que ele não conta uma história e recheia-a aqui e ali com críticas, tal como Voltaire em seus contos e mesmo em seus textos filosóficos. Waugh, sim, parece organizar em certa seqüência tudo que conseguiu engendrar de irónico e debochado sobre determinado tema. Verifique-se o enredo frouxo, o final abrupto e a impressão será confirmada. Conhecimentos superficiais acerca das guerras africanas, também na primeira metade do século XX, bastam para a compreensão do último livro, o único até o presente ilustrado com seus desenhos. Não tiro, contudo, seu mérito pois é engraçado e não repetitivo, assim como não se pode acusá-lo de mau observador da "natureza humana". A mordacidade é uma qualidade quando abre olhos insistentes em permanecer fechados.

Tudo desenrola-se na fictícia ilha de Azânia, que segundo um mapa desenhado por Waugh, localizar-se-ia no Oceano Índico, a leste do continente africano, próxima à Somália. Parece mania de escritor de língua inglesa a criação de ilhas. Lembre-se da ilha caribenha San Marco, de Richard Powell em Don Quixote Americano; a Utopia de Morus; a Nova Atlântida de Francis Bacon; Pala, de Aldous Huxley em A Ilha. As impressões de Waugh foram colhidas nas viagens que fez à Etiópia, algumas como turista, outras como correspondente de guerra. A história é interessante.

Em outubro de 1.935, já sendo a Eritréia e a Somália colónias italianas, Benito Mussolini decidiu invadir a Etiópia, então um antigo Estado cristão e independente, para anexá-la às possessões. Antes do nome actual, a Etiópia chamou-se Abissínia; mais longe no tempo, seu nome era Aksum. As tropas italianas enviadas foram violentamente rechaçadas pelo exército etíope sob o comando do imperador Hailé Selassié (1.892/1.975). Somente em 1.936 a capital Adis-Abeba foi tomada e coroado o rei italiano Vittorio Emanuelle III como imperador dos etíopes. Hailé Selassié refugiou-se em Londres para tornar somente em 1.941, ano em que o exército inglês expulsou os ocupantes. Ainda assim, só no Tratado de Paris de 1.947 a Itália renunciou a eventuais direitos sobre o país tomado.

Hailé Selassié alcançou o império etíope liderando uma rebelião em prol da sucessão de Zauditu, filha do imperador falecido Menelík II. Segundo a tradição, o primeiro Menelík seria filho de Salomão e da rainha de Sabá. Zauditu no trono, coube a Selassié o poder de facto até assumi-lo de direito. Voltando ao seu país em 1.941, tentou introduzir reformas políticas e administrativas e governou por longo período até ser deposto em 1.974, como conseqüência de sua inabilidade na questão da Eritreia. Morreu em prisão domiciliar. Parte dos acontecimentos foi acompanhada in loco por Waugh e complementada com o que descobriu e presenciou nas suas viagens pelo leste da África. Malícia Negra começa com o novo imperador Seth ditando uma carta para seu secretário: "- NÓS, SETH, IMPERADOR DE AZÂNIA, Chefe dos Sakuyu, Senhor dos Wanda e Tirano dos Mares, Bacharel em Artes pela Universidade de Oxford...". Mesmo o escritor negando vínculos entre o imperador verdadeiro e o personagem, as semelhanças são muitas, a começar pela ocupação do trono por uma princesa real antes de Selassié e também de Seth.

Para ir além












Ricardo de Mattos
Taubaté, 20/5/2004


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