Leituras Inglesas (II) - E. Waugh | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
77520 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Museu de Arte Sacra de São Paulo | Salão Paulista de Arte Naïf
>>> UM JOÃO DO RIO INÉDITO
>>> Alma Despejada com Irene Ravache tem temporada no Teatro WeDo! com 24h de acesso
>>> OSGEMEOS participam de bate-papo do MAB FAAP
>>> Minicômios e Do observatório eu vi
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Uma Prévia de Get Back
>>> A São Paulo do 'Não Pode'
>>> Humberto Werneck por Pedro Herz
>>> Raquel Cozer por Pedro Herz
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
Últimos Posts
>>> Mostra Curtíssimas estreia sábado (26) no YouTube
>>> Fiel escudeiro
>>> Virtual: Conselheiro do Sertão estreia quinta, 24
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Apenas manter a loja
>>> Livros, brinquedos, bichos de estimação e imagens
>>> Confissões do homem invisível, de Alexandre Plosk
>>> Panorama Literário de 2006
>>> Outra América é Possível
>>> Lira da resistência ao futebol gourmet
>>> Meu destino é pecar
>>> Nem memórias nem autobiografia, mas Saramago
>>> O papel do escritor
>>> Aniversário
Mais Recentes
>>> O Discurso Secreto de Tom Rob Smith pela Record (2010)
>>> A Loira de Concreto de Michael Connelly pela Best Seller (1994)
>>> Mémorias de um revolucionário de Piotr Kropotkin pela Ccs (2021)
>>> Punhalada no Escuro de Lawrence Block pela Companhia das Letras (2001)
>>> O Pecado dos Pais de Lawrence Block pela Companhia das Letras (2002)
>>> O Ladrão Que Estudava Espinosa de Lawrence Block pela Companhia das Letras (2002)
>>> O Ladrão no Armário de Lawrence Block pela Companhia das Letras (2007)
>>> Três Obras Didáticas (Teatro brasileiro/Educação/Pedagogia) de Luiz de Assis Monteiro pela Confraria da Paixão (2021)
>>> O Vendido de Paul Beatty pela Todavia (2017)
>>> Lolita - Coleção o Globo de Vladimir Nabokov pela Globo (2003)
>>> As Brumas de Avalon a Senhora da Magia Livro 1 de Marion Zimmer Bradley pela Imago (1985)
>>> O Ideiador - Poema da Independência de Luiz Paiva de Castro pela Bonde (1972)
>>> O Fim de Tudo de Luiz Vilela pela Record (2016)
>>> Homens São de Marte Mulheres São de Vênus de John Gray pela Rocco (1996)
>>> A Última Delegacia de Patricia Cornwell pela Companhia das Letras (2005)
>>> Blocos uma História Informal do Carnaval de Rua de João Pimentel pela Relume Dumará (2002)
>>> O Poder do Pentagrama de Zaiplad Hcer pela Imprensa Livre (2001)
>>> A Moreninha de Joaquim M. de Macedo pela Cultrix (1968)
>>> A Terra dos Meninos Pelados de Graciliano Ramos pela Record (2006)
>>> A Morte de Artemio Cruz de Carlos Fuentes pela Abril Cultural (1975)
>>> Apelo às Trevas de Dennis Lehane pela Companhia das Letras (2003)
>>> Teresa Filósofa - Clássicos Libertinos de Anônimo do Século XVIII pela L&pm (1991)
>>> Gastão de Orleans de Alberto Rangel pela Cia Ed. Nacional (1935)
>>> Casa de Pensão 13 - Obras Imortais da Nossa Literatura de Aluisio de Azevedo pela Três (1973)
>>> 1919 de John dos Passos pela Abril (1983)
COLUNAS

Quinta-feira, 20/5/2004
Leituras Inglesas (II) - E. Waugh
Ricardo de Mattos

+ de 4400 Acessos

"Esse é o material que me é fornecido para eu fazer o meu trabalho. Se me dão uma tábua de mogno, é isso que eu tenho como material para trabalhar. E um mundo decadente é o material que me é dado" (Waugh).

Se Charles Dickens (1.812/1.870), Hector Hugh Munro (1870/1916) — mais conhecido pelo pseudónimo Saki — e Evelyn Waugh (1.903/1.966) estivessem à mesa de jantar, seria fácil perceber a diferença de humor caracterizador de cada um deles. O primeiro manteria a amenidade da conversação e talvez despertasse o riso geral contando uma breve estória ou narrando habilmente um facto qualquer. Já o terceiro murmuraria algo entredentes despertando a gargalhada surpresa de apenas dois ou três vizinhos, fazendo-os engasgar ou espirrar o vinho pelo nariz. Após o jantar, durante o café, caberia ao segundo narrar um caso mais longo, envolvendo uma lady caçadora de tigres ou uma mulher assustada por acreditar que sua melhor amiga reencarnou no corpo d'uma lontra.

Dickens tanto faz rir quanto chorar. Por alto, seus escritos sérios aproximam-no das irmãs Brontë. Entretanto, seu amor pelas crianças é algo que comove profundamente o leitor:

"Uma dessas calamidades públicas, vale dizer, uma criança mimada, brincava na sala, vestida de acordo com a moda mais elegante: túnica azul com cinturão negro da largura de vinte centímetros, terminando numa imensa fivela, atavio que lhe dava a aparência de um ladrão de melodrama visto através de lentes de diminuição" (conto Sentimento).

"Você certamente nunca irá encontrar qualquer dessas aflições dentro de um ônibus. (...) Outra coisa: crianças. Elas nunca são vistas dentro de um ônibus, mesmo que ocasionalmente. E se acontecesse de entrarem em um e de o veículo estar lotado, como é normalmente o caso, alguém sentaria em cima delas e nem perceberíamos sua presença" (conto Os Ônibus).

Há cerca de um ano são lançadas no Brasil traduções das obras de Evelyn Waugh. A Provação de Gilbert Pinfold, O Ente Querido e Malícia Negra. Na ordem cronológica de suas obras, A Provação de Gilbert Pinfold ocupa o último lugar — data de 1.957 — sendo o primeiro e o melhor do trio citado. N'ele o escritor sintetiza factos ocorridos consigo quando intoxicado por altas e habituais doses de soníferos. Justamente esta síntese deve tê-lo levado a escolher a ficção e a criação do personagem G. Pinfold para o seu papel. Repare-se no subtítulo que dá a entender uma amplidão de eventos: Um Fragmento de Conversa. Há no final do volume um esclarecedor apêndice com todos os transtornos sofridos por Waugh/Pinfold.

Debilitado pelo consumo exagerado de bebidas alcoólicas, acumulado com soníferos e outros medicamentos auto-ministrados, G. Pinfold decidiu viajar sozinho para o Oriente para desintoxicar e concluir um livro. As doses de medicamentos foram de tal forma excessivas e o tempo de uso tão longo, que seu sistema nervoso foi abalado e ele passou a ouvir vozes. O pior tipo de alucinação deve ser o realista. Pinfold escutava as vozes mas encontrava explicações aceitáveis, algo como problemas no sistema de comunicação interna do navio em que viajava. Aqui residia o mal, pois a razão amparou o delírio e permitiu-lhe avançar em demasia. Se fosse uma gravura e não um livro, seu título seria Os Sonhos da Razão Produzem Monstros. Sequer ao dialogar com as vozes o personagem percebeu a alucinação, pois já estava de tal modo perturbado que não teve senso crítico para analisar a solução encontrada, envolvendo telepatia. Sugiro a leitura atenta dos primeiros capítulos, pois as informações todas fornecidas foram "utilizadas" pelas vozes para a confusão de Pinfold. O resultado é engraçadíssimo, apesar de tornar a obra presa cobiçável por psiquiatras de plantão.

A novela O Ente Querido não passa de pretexto para Waugh exercer seu sarcasmo: em quatro quintos do texto a nota predominante é a da caricatura. Temos um apanhado de legendas de charges, substituído ao final por uma torrente de humor negro. O alvo imediato da novela é o mundo do cinema norte-americano e sua periferia na primeira metade do século XX. O alvo mediato, a cultura e a sociedade norte-americanas, ridicularizadas e comparadas com a cultura e a sociedade européias em geral e com a inglesa em particular. Este Marcial moderno aproxima-se mais de Oscar Wilde d'O Fantasma de Canterville que de Henry James, do qual cito Lady Barberina. Ao último, Waugh reservou a observação: "O senhor não precisa ler muita coisa dele. Todas as histórias dele são sobre a mesma coisa: a inocência americana e a experiência européia".

Assim como em O Ente Querido, no livro Malícia Negra cabe à mordacidade do autor o papel principal. Parece obviedade falar isso d'um escritor satírico, mas é preciso ressaltar que ele não conta uma história e recheia-a aqui e ali com críticas, tal como Voltaire em seus contos e mesmo em seus textos filosóficos. Waugh, sim, parece organizar em certa seqüência tudo que conseguiu engendrar de irónico e debochado sobre determinado tema. Verifique-se o enredo frouxo, o final abrupto e a impressão será confirmada. Conhecimentos superficiais acerca das guerras africanas, também na primeira metade do século XX, bastam para a compreensão do último livro, o único até o presente ilustrado com seus desenhos. Não tiro, contudo, seu mérito pois é engraçado e não repetitivo, assim como não se pode acusá-lo de mau observador da "natureza humana". A mordacidade é uma qualidade quando abre olhos insistentes em permanecer fechados.

Tudo desenrola-se na fictícia ilha de Azânia, que segundo um mapa desenhado por Waugh, localizar-se-ia no Oceano Índico, a leste do continente africano, próxima à Somália. Parece mania de escritor de língua inglesa a criação de ilhas. Lembre-se da ilha caribenha San Marco, de Richard Powell em Don Quixote Americano; a Utopia de Morus; a Nova Atlântida de Francis Bacon; Pala, de Aldous Huxley em A Ilha. As impressões de Waugh foram colhidas nas viagens que fez à Etiópia, algumas como turista, outras como correspondente de guerra. A história é interessante.

Em outubro de 1.935, já sendo a Eritréia e a Somália colónias italianas, Benito Mussolini decidiu invadir a Etiópia, então um antigo Estado cristão e independente, para anexá-la às possessões. Antes do nome actual, a Etiópia chamou-se Abissínia; mais longe no tempo, seu nome era Aksum. As tropas italianas enviadas foram violentamente rechaçadas pelo exército etíope sob o comando do imperador Hailé Selassié (1.892/1.975). Somente em 1.936 a capital Adis-Abeba foi tomada e coroado o rei italiano Vittorio Emanuelle III como imperador dos etíopes. Hailé Selassié refugiou-se em Londres para tornar somente em 1.941, ano em que o exército inglês expulsou os ocupantes. Ainda assim, só no Tratado de Paris de 1.947 a Itália renunciou a eventuais direitos sobre o país tomado.

Hailé Selassié alcançou o império etíope liderando uma rebelião em prol da sucessão de Zauditu, filha do imperador falecido Menelík II. Segundo a tradição, o primeiro Menelík seria filho de Salomão e da rainha de Sabá. Zauditu no trono, coube a Selassié o poder de facto até assumi-lo de direito. Voltando ao seu país em 1.941, tentou introduzir reformas políticas e administrativas e governou por longo período até ser deposto em 1.974, como conseqüência de sua inabilidade na questão da Eritreia. Morreu em prisão domiciliar. Parte dos acontecimentos foi acompanhada in loco por Waugh e complementada com o que descobriu e presenciou nas suas viagens pelo leste da África. Malícia Negra começa com o novo imperador Seth ditando uma carta para seu secretário: "- NÓS, SETH, IMPERADOR DE AZÂNIA, Chefe dos Sakuyu, Senhor dos Wanda e Tirano dos Mares, Bacharel em Artes pela Universidade de Oxford...". Mesmo o escritor negando vínculos entre o imperador verdadeiro e o personagem, as semelhanças são muitas, a começar pela ocupação do trono por uma princesa real antes de Selassié e também de Seth.

Para ir além












Ricardo de Mattos
Taubaté, 20/5/2004


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A proposta libertária de Gian Danton
02. Michelle Campos e a poesia dentro do oco de Jardel Dias Cavalcanti
03. Networking para crianças? de Raquel Oguri Ribeiro
04. Diário da Guerra do Corpo de Vicente Escudero
05. Maurice de Guilherme Pontes Coelho


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2004
01. A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón - 9/9/2004
02. Equador, de Miguel Sousa Tavares - 29/7/2004
03. O Livro das Cortesãs, de Susan Griffin - 4/3/2004
04. História e Lenda dos Templários - 1/4/2004
05. Mínimos, Múltiplos, Comuns, de João Gilberto Noll - 1/7/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Lecole de Chateaubriand À Proust
Jérome Leroy (une Anthologie Presentée)
Librio
(2000)



Diet Book Junior
Lara Natacci Cunha
Mandarim
(2000)



Escrevendo pela Nova Ortografia - 3ª Edição
Instituto Antonio Houaiss
Publifolha
(2009)



Elite da Tropa
Luiz Eduardo Soares
Objetiva
(2006)



Sítio do Picapau Amarelo Conforme na Tv (capa Verde)
Baseado na História de Monteiro Lobato
Rio Gráfica Ed



Sartre A-t-il un Style?; Remarques Sur Lanalyse Textuelle
Cahiers Danalyse Textuelle, Nº4 de 1962
Les Belles Letres
(1962)



O retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde
Penguin Companhia
(2015)



Inflation and the Use of Indexing in Developing Countries
Gustav Donald Jud (capa Dura)
Praeger (ny)
(1978)



Crimes Tropicais
Ricardo Alcântara
Escrituras
(2009)



Metodologia Científica
João Álvaro Ruiz
Atlas
(1979)





busca | avançada
77520 visitas/dia
2,7 milhões/mês