O exercício da solidão | Lucas Rodrigues Pires | Digestivo Cultural

busca | avançada
82062 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Bienal On-line promove studio visit com artista argentina Inés Raiteri
>>> Castelo realiza piqueniques com contemplação do pôr do sol ao ar livre
>>> A bailarina Ana Paula Oliveira dança com pássaro em videoinstalação de Eder Santos
>>> Festival junino online celebra 143 da cidade de Joanópolis
>>> Nova Exposição no Sesc Santos tem abertura online nessa quinta, 17/06
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
>>> 1984 por Fabio Massari
>>> André Jakurski sobre o pós-pandemia
>>> Carteiros do Condado
>>> Max, Iggor e Gastão
Últimos Posts
>>> Fiel escudeiro
>>> Virtual: Conselheiro do Sertão estreia quinta, 24
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
>>> Izilda e Zoroastro enfrentam o postinho de saúde
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Avis rara hoje no jornalismo
>>> Entrevista com Paula Dip
>>> O diabo veste Prada
>>> Entre o velho e o novo
>>> 10º Búzios Jazz & Blues II
>>> Pensar puede matar
>>> Excelentes blogs
Mais Recentes
>>> O Patinho Feio de Ruth Rocha pela Ftd (1996)
>>> Onde Nasce a Semente? de Sueli Ferreira de Oliveira pela Cpb Didaticos (2014)
>>> A Parábola do Planeta Azul de Fernando Carraro pela Ftd (1994)
>>> Os Reizinhos de Congo de Edimilson de Almeida Pereira pela Paulinas (2004)
>>> Introdução à Sociologia de Pérsio Santos de Oliveira pela Atica (2008)
>>> Guia Prático do Amadurescente de Leo Fraiman pela Do Autor (2015)
>>> Ciume Em Ceu Azul de Joel Rufino dos Santos; Rogério Borges pela Global (2006)
>>> Em Busca da EssÊncia Elementos de Redução na Arte Brasileira de Fundação Bienal pela Fundação Bienal (1987)
>>> Tudo por um Pacote de Amendoim de Gládis Maria Fernão Barcellos pela Paulinas (2010)
>>> Os Três Aviões de Andrew Carlo Chagas pela Casa (1998)
>>> Soltando os Bichos de Paulinho Pedra Azul pela (1990)
>>> O Que Seria do Branco Se Todos Gostassem do Amarelo de Hulda Cyrelli de Souza pela Cpb Didaticos (2014)
>>> Trabalho de Criança Não é Brincadeira, Não! de Rossana Ramos pela Cortez (2011)
>>> De Volta para Casa de Nye Ribeiro pela Roda & Cia (2006)
>>> Doce de Casa de Suzana Vargas pela José Olympio (1995)
>>> Passeio na Fazenda de Eliardo França; Mary França pela Atica (2000)
>>> Deus Negro de Neimar de Barros pela Do Autor (1973)
>>> Pompei Dentro e Fuori de Matteo Della Corte pela Vincenzo Carcavallo (1979)
>>> Balançando Sonhos de Salvador Barletta Nery pela Do Brasil (2008)
>>> Racismo e Anti-racismo de Zilá Bernd pela Moderna (1994)
>>> Cristologia de Raul Dederen pela Seminário Adventista (1986)
>>> Cristologia de Raul Dederen pela Seminário Adventista (1986)
>>> Comentários Sobre Daniel de Francis D Nichol pela Seminário Adventista (1987)
>>> Comentários Sobre Daniel de Francis D Nichol pela Seminário Adventista (1987)
>>> Organização e Administração de Bibliotecas de Heloisa de Almeida Prado pela Livros Técnicos (1981)
COLUNAS

Segunda-feira, 7/6/2004
O exercício da solidão
Lucas Rodrigues Pires

+ de 6000 Acessos

Solidão, amor na velhice, voyeurismo? Todos eles são temas encontrados no filme de estréia de Marcos Bernstein, O Outro Lado da Rua, mas sem dúvida: o que é ressaltado na narrativa é a solidão no fim da vida. Na primeira metade do filme, Bernstein realizou um belo tratado da solidão; na metade final, ele aponta caminhos para fugir dessa solidão com o desenvolvimento de um amor na terceira idade.

Fernanda Montenegro é Regina, aposentada moradora de Copacabana que vive sozinha com seu cachorro (algo muito próximo do que ela era em Central do Brasil, do qual Bernstein foi co-roteirista). Esporadicamente busca o neto na escola, mas recusa-se a maiores contatos com a família porque seu ex-marido - com quem parece ter havido uma desavença séria - passou a morar com o filho. Dentro de um programa da polícia ao estilo disque-denúncia, ela faz parte de um grupo de velhinhos que são informantes da polícia. Esta tarefa ela exerce com grande dedicação, o que envolve freqüentar inferninhos para descobrir aliciadores de menores e cafetões. Mas também ela executa a lição através de sua janela - observando a vida cotidiana alheia de seu apartamento -, fato que nos remete imediatamente a Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Enfim, essa é a forma de Regina enganar a velhice e o ócio permanente que a idade lhe traz.

Exatamente num desses exercícios de voyeur que ela vê algo que irá mudar o vazio do seu cotidiano. Certo dia, numa de suas observações noturnas de binóculo pela janela da sala, ela se detém em um dos apartamentos do prédio do outro lado da rua. Nele, ela pôde enxergar nitidamente um homem dar uma injeção em uma mulher. Crê ser um assassinato e aciona a polícia. A mulher realmente morreu, e ele, de nome Camargo (Raul Cortez), é um juiz aposentado, ex-secretário de Justiça. Diante de um ilustre, a polícia não acredita nela e pede para que não continue seu "trabalho" de informante. Desencorajada, mas persistente, ela resolve fazer uma investigação por conta própria, e cria situações para conhecer o suspeito, que se interessa por ela e inicia uma conquista. Nasce um sentimento entre ambos e, conforme ele vai se intensificando, a verdade sobre aquela morte vem à tona (uma morte consentida devido a um câncer terminal), ela se sente confortada ao seu lado, mas a sua verdade ainda não foi revelada.

Dada as linhas gerais da história, torna-se imprescindível falar sobre a maneira como Bernstein concebeu as cenas, os enquadramentos e uniu conteúdo e forma de maneira exemplar. Desde o início temos a solidão sendo delineada na vida de Regina. Não apenas o fato de ela morar sozinha, não ter muito contato com a família e amigos e se recusar a fazer parte do clube da terceira idade que se formou na praça vizinha. Vemos ela negar essa solidão, mas, ao mesmo tempo, a câmera reafirmar a todo instante seu estado de isolamento. A cena de abertura mostra bem esse deslocamento. Regina acorda e a câmera está estática do lado esquerdo da cabeceira, com a porta do quarto ao fundo. Ela se levanta, sem vermos seu rosto, e sai pela porta. Ouvimos seus passos, ela falar com o cachorro, mas a câmera não sai do quarto, permanece imóvel. Ela deixou o enquadramento, mas a câmera não quis saber dela. Permaneceu ali, filmando a cama vazia, porta aberta, sem se importar com a protagonista. Regina está solitária como esse enquadramento dela sem ela própria no quadro. Ela está fora do plano, isolada mesmo dos espectadores.

Não só nessa cena, mas também pelos espaços filmados. A toda hora Regina é mostrada em seu apartamento, numa câmera pouco móvel e absolutamente contemplativa. Quando se usa o plano-seqüência (cena filmada sem interrupções, sem o auxílio de cortes na montagem) estático, como é o caso corriqueiro em O Outro Lado da Rua, quer-se chamar a atenção para a temporalidade, pois nele não há possibilidade de sua quebra. O tempo é único, linear, contínuo, o que torna esse plano o ideal para representar um estado de solidão, o tempo morto da velhice daqueles que não tem mais o que oferecer à sociedade urbano-capitalista em que a produtividade desenfreada é a constante. Essa câmera quase parada expõe Regina a sua solidão, que se acentua pela quase ausência de diálogos e palavras. Quando se é só, falar para quê? E com quem? (Não é aleatório o fato de o contato dela com o mundo, nesse primeiro momento, ou seja, antes de conhecer Camargo, ser praticamente todo feito por telefone e jornal).

A solidão de Regina é ilustrada em outro momento: o primeiro quando ela impede um assalto num banco e, desesperada, passa a abordar as pessoas nas ruas sem que ninguém lhe dê atenção. Aflita, pega o celular, disca um número e começa a desabafar com alguém. Em seguida, temos um corte e vemos (ouvimos, na verdade) sua voz ressoar na secretária eletrônica de sua própria casa, onde só estava o cachorro. Na mesma seqüência, a solidão é reiterada quando ela desliga o celular em meio à multidão que passa por ela. Há um corte e temos Regina sozinha, no mesmo local, ruas e calçadas vazias, nenhuma alma à vista. A câmera sobe enquanto ela caminha para o meio do cruzamento, acentuando ainda mais seu estado de abandono. Claro que esta cena materializa um sentimento da personagem. Ela está no meio de uma multidão, mas no fundo está sozinha. Solidão na multidão, conceitos paradoxais.

Definido este estado de solidão da personagem, será a relação com outro personagem que fará com que dentro dela nasça uma necessidade antes não desabrochada. À medida que vai conhecendo Camargo, percebe que a vida não é apenas aquilo. Mesmo em sua idade, algo em torno de 65, 70 anos, o amor é possível e ela pode e deve amar. Eis a parte que introduz o drama e a conseqüente transformação no clímax (sim, todo filme tem que trazer um conflito que levará a uma transformação, mesmo que seja a manutenção de um estado inicial). Como lidar com um amor que nasceu entre ambos, mas que deve enfrentar uma verdade não revelada ainda - ela quem viu ele matar a mulher e que chamou a polícia. Como ele reagirá quando souber disso?

Fazer um filme que fala sobre o amor entre duas pessoas na velhice é como andar num fio de navalha. Primeiro porque o mundo do amor parece, hoje, restrito ao da juventude ou no máximo ao da fase adulta, madura, mas nunca na terceira idade. Assim, retratar dois velhos descobrindo o amor sem soar piegas ou nonsense é algo desafiador. Segundo: quando os corpos não são um atrativo para uma cena de amor e/ou sexo (como é sempre que um casal jovem e bonito se relaciona), torna-se mais delicada a sua representação. Para cair no ridículo seria um pequeno passo. Por esses dois obstáculos Marcos Bernstein ultrapassou, graças aos excelentes desempenhos dos dois atores veteranos.

Ao mesmo tempo que se faz delicada a filmagem de um tema assim, por outro lado o sentimento entre os personagens é reforçado justamente por essa ausência do sex appeal. Assim, o que se realiza soa mais real, mais sensível, mais até, digamos, puro, pois envolve uma aura de amor verdadeiro, amor em estado bruto, sem o impacto inicial do apelo da beleza física. Um amor que está no primitivismo da espécie, a necessidade de sobrevivência e vida em sociedade. Sintomático que no fim da vida, quando mais se precisa do outro, é o momento que mais se está só. Regina era solitária e Camargo passou a ser. Duas almas que se encontraram no ocaso da vida em situações distintas, mas na mesma solidão que os liga. Não apenas a solidão os unirá, mas também o amor, que não tem idade pra desabrochar, como diz o clichê mais autêntico. E que melhor remédio para a solidão do que o amor?

O Outro Lado da Rua é mais um belo exemplar de um cinema que coloca as possibilidades da linguagem cinematográfica a favor do conteúdo. A forma de filmar, fugindo da mesmice da televisão e daqueles originários dela que se aventuram pelo cinema, apresenta uma engrenagem que nos faz pensar e contemplar por total uma obra sincrética por excelência. O Outro Lado da Rua nos mostra que cinema é mesmo audiovisual (som e imagem) e conteúdo (a mensagem, o texto), sem falar de representação. Sai-se do filme na certeza de ter apreciado uma verdadeira obra de cinema, na medida exata de emocionar sem a necessidade afoita das palavras ou da apelação fácil do melodrama. É poesia em imagens, coisa rara hoje em dia.



Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 7/6/2004


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A pérola do cinema sul-americano de Guilherme Carvalhal
02. Texto Otimista de Fim de Ano de Duanne Ribeiro
03. A Poética do Chá de Felipe Leal
04. Natureza Humana Morta de Vicente Escudero
05. O Artista de Duanne Ribeiro


Mais Lucas Rodrigues Pires
Mais Acessadas de Lucas Rodrigues Pires em 2004
01. Olga e a história que não deve ser esquecida - 30/8/2004
02. Os narradores de Eliane Caffé - 5/2/2004
03. Quem tem medo de Glauber Rocha? - 19/7/2004
04. As garotas do Carlão - 13/9/2004
05. Cazuza e o retrato do artista quando jovem - 5/7/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Temas de Processo Civil - Estudos Em Homenagem ao Professor Jorge
Kiyoshi Harada
Juarez de Oliveira
(2000)



Estruturas Filosóficas e Afins
Paulo Augusto Proença Rosa
Do Autor



Memorial a Destempo
Vivaldi Moreira (dedicatória)
Imprensa Oficial Mg
(1986)



O Melhor da Arte do Próximo Oriente
Carmen Gómez Urdánez
G Z Edições
(1997)



O Traje e a Aparência nos Autos de Gil Vicente
Eneida Bomfim
Loyola; Puc Rj
(2002)



Direito Administrativo
Sonia Yuriko Kanashiro Tanaka
Malheiros
(2008)



O Problema do Trabalho
Alceu Amoroso Lima (2ª Edição)
Agir
(1956)



Essas Coisas Ocultas
Heather Gudenkauf
Harlequin Books
(2011)



Ser Mãe é Sorrir Em Parafuso
Lô Galasso
Integrare
(2007)



A Rã Que Não Sabia Que Estava Cozida e Outras Lições
Olivier Clerc
Bertrand Brasil
(2008)





busca | avançada
82062 visitas/dia
2,7 milhões/mês