Eu e as Copas | Julio Daio Borges | Digestivo Cultural

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COLUNAS >>> Especial Copa 2006

Sexta-feira, 2/6/2006
Eu e as Copas
Julio Daio Borges

+ de 5100 Acessos

Não, não adianta, não lembro nada da Copa de 1978.

* * *

Em 1982, eu tinha um tio fanático por futebol que morava em casa. Eu ia com ele ao supermercado, passar na banca de jornal e comprar figurinhas ou o próprio álbum de figurinhas — não lembro mais.

Não estou certo mas, se não me engano, era um álbum que você completava com figurinhas que vinham dentro dos chicletes Ping Pong. Um colega sortudo, na escola, comprou uma caixa de chicletes de hortelã e saíram vários "Canarinhos" de uma vez, uma das figurinhas mais difíceis. Também comprei uma caixa na padaria perto da minha casa — com esse meu tio, é claro — mas não tive a mesma sorte.

O duro, depois, foi dar conta dos chicletes sem embalagem, que tinham de ser mastigados rápido para não endurecer e estragar. Eu e meu irmão fazíamos competição: chegávamos a mastigar seis chicletes ao mesmo tempo cada um. Lembro do gosto doce até hoje. Acho que nunca mais comi chiclete de hortelã...

Ainda na escola, a onda era o "bafo": bater figurinhas com a mão em forma de concha; cada um (cada competidor) colocava uma figurinha sua no bolo; quem virasse as figurinhas "batendo", levava.

Eu não sei se era "bom de bafo". Não lembro mais. Acho que não era, não. Os meninos chegavam com aqueles bolos de figurinhas, presas com elástico e era como num jogo de cartas: as figurinhas mais raras só podiam ser "batidas" com figurinhas da mesma raridade.

Os meninos se juntavam em volta e torciam. Ou apenas comentavam.

Lembro mais do meu tio me explicando quem eram os jogadores. Quem era ruim; quem era bom. Ríamos da feiúra alheia ou até elogiávamos a beleza de algum jogador. Eu acho que não completei nenhuma seleção no álbum. Devo tê-lo guardado.

Lembro pouco do fatídico jogo do Brasil contra a Itália, que desclassificou nossa seleção... O Éder, que era bom de escanteio, mas que não adiantou... O Telê Santana, que também não adiantou — que foi muito xingado na época, mas que agora, depois de morto, parece que se santificou...

* * *

De 1986, eu lembro mais.

Acompanhava mais os jogos, graças ao meu melhor amigo, que era um palmeirense, digamos, roxo. Comentava os jogos televisionados todos os dias na escola. Quase todos os jogos. Ou, pelo menos, assim me parecia.

Era a onda da "Laranja Mecânica", a seleção da Dinamarca, e esse meu amigo imitava os trejeitos do Silvio Luiz na transmissão. Ele e um outro amigo — de quem sou amigo até hoje — adoravam as piadas do Silvio Luiz durante o jogo. (Acho que gostavam até mais que do jogo...) Depois, na outra escola, estudei com o filho do Silvio Luis, o Souza — mas aí não fiz amizade.

A Dinamarca dava de goleada nas outras seleções, mas, de repente, perdeu de goleada para a Espanha (que, depois, perdeu para o Brasil) — e aí acabou.

Uma das noites de que mais me lembro daquele ano foi a da festa junina, que coincidiu, justamente (ou injustamente), com a derrota do Brasil para a França. Lembro, vivamente, da cara da menina por quem eu era apaixonado — embora ela tivesse me dado um fora no ano anterior — triste. Todo mundo, na realidade, estava com cara de velório. Fazia frio e tivemos uma festa junina mixuruca. (Minha musa, ainda assim, estava linda para o meu gosto e usava uma malha verde... Lembro do tom.)

Para completar a melancolia: depois o Fantástico transmitiu o clipe do Araquém — o showman —, caso o Brasil tivesse vencido a França. O Araquém deu azar — e mandaram ele pro espaço depois.

* * *

Em 1990, eu lembro de assistir aos jogos na casa dos meus novos amigos, da nova escola. Inexplicavelmente para mim, o Brasil usava branco — e eu nunca vi muito carisma naquela seleção. Outro dia — agora — vi o Bebeto numa revista e continuei achando ele sem sal. Só que agora com cabelos brancos...

Em 1990 — na casa de um primeiro amigo —, nós tentávamos montar uma banda de rock, que, no final, nunca se juntou. Era o Paul no teclado, o Henrique no baixo, eu na guitarra, alguém mais na outra guitarra, acho que o João na bateria e o Marcelo no vocal. Ficou só nessa "formação". Não batia nunca nosso repertório e ninguém se sentia muito à vontade para se apresentar...

Já na casa de um segundo amigo, o Alemão — que às vezes, ainda hoje, me aparece pelo Skype —, ele e o pai dele, alemães ou descendentes, obviamente, tiravam o maior sarro do futebol da República de Camarões. (Não vou transcrever aqui as piadas porque elas envolvem bananas e são racistas...)

Num desses jogos, da casa do Alemão, que também morava perto da escola, nós seguimos direto, mais uma vez, para a festa junina. Já era a época de eu "pegar" alguém — só que, nessa festa junina específica, eu me juntei ao time dos que só se empanturravam de comida ao longo da noite... Bola fora.

* * *

De 1994, eu me lembro bem mais.

Nunca vou esquecer do Jô Soares acabando com o time do Dunga (nos dois sentidos). Tirou sarro dele o quanto pôde e o Dunga deve ter sofrido porque, quando empunhou o caneco, para o mundo inteiro ver, bradava, sem som: "Filme essa p...! Filma essa p...!". O Jô Soares não se fazia de rogado: ria dele mais. Nunca fui com a cara do Dunga desde então, e continuo não indo — mas a maioria dos brasileiros aprendeu a engoli-lo (e ao Zagallo).

E ao Parreira — até hoje. Até hoje!

Lembro de um jornalista, do SBT, que toda vez terminava o jornal com uma ameaça: "O Brasil ainda vai ser campeão — apesar de você, Parreira!". Hoje o Parreira vai no Jornal Nacional e é recebido com os salamaleques da Fátima Bernardes. (Não vejo diferença nenhuma entre a atitude dos dois jornalistas.)

Em 1994, eu também era apaixonado por uma menina, mas estava longe dela quando o Brasil ganhou...

Estávamos na Fazenda e eu lia assiduamente as crônicas do João Ubaldo Ribeiro e do Luis Fernando Verissimo. Gostei muito daquela cobertura por escrito. Depois, na faculdade, um amigo veio me empurrar um livro de crônicas do Verissimo, sobre essa temporada nos Estados Unidos, mas eu não quis...

O Ubaldo estava particularmente inspirado, e falar que podiam providenciar seu caixão — se o Brasil perdesse — foi interessante. E o Brasil ganhou de raspão. Graças ao Roberto Baggio. E não graças a você, Parreira! (Nem a você, Dunga! Nem a você, muito menos, Zagallo.)

A galera se esbaldou pelas ruas da cidade. Eu — não sei por quê —, não. (Ah, porque estava fora da cidade, é claro!) Inclusive a Carol, que eu namoraria só na Copa de 1998...

* * *

Em 1998, eu já trabalhava no banco e tinha aquela palhaçada de "trabalhar" até o meio-dia, em dia de jogo do Brasil. Não existia Messenger ainda naquela época — não como hoje —, mas você pode imaginar a concentração...

Eu passei nove meses nesse emprego e — entre treinamentos (eu era "trainee"), jogos do Brasil e meu namoro com a Carol — foi um ano, profissionalmente, pouco produtivo, eu admito. E, ah, eu já exercia a minha atividade de colunista independente. (Se eu não me engano, escrevi dois textos sobre a Copa de 1998: aqui e aqui.)

Enfim, era uma correria para chegar em casa a tempo de ver o jogo... A cidade, é claro, travava. Eu lembro de atravessar ainda mais a cidade para chegar na casa da Carol. Saíam altas brigas no trânsito, por causa da sobrecarga de adrenalina... Lembro de um sujeito na avenida República do Líbano, com a adrena lá em cima, saindo do próprio carro para chutar — sim, chutar — o carro do próximo.

Lembro muito da Vó da Carol com seu lenço verde-amarelo no pescoço que, na Copa, ela sempre gosta de usar.

Assim como o Dunga, nunca engoli o Ronaldinho. Falo do "Fenômeno". Não entendo nada de futebol — acho que deu pra perceber já... — mas fiquei com a impressão de que ele não jogou nada. Jogou?

A queimada de filme, jornalística, foi, desta vez, do Pedro Bial. (Quem sabe, sabe...)

Acreditei que, por causa da Nike, o Brasil vendeu a Copa.

* * *

Em 2002, o que eu mais lembro é de ler a biografia do Garrincha, pelo Ruy Castro. Para mim, é seu melhor livro. Então as Copas de 1958, 1962 e 1970, a meu ver, foram muito mais emocionantes.

O jogo da final, pra variar, foi chocho. Segundo a teoria da conspiração — a da Nike —, estava tudo programado para o Brasil ganhar. E eu acreditei de novo.

Mas fui comemorar na rua, porque ninguém é de ferro, claro.

Os primos da Carol, dos Estados Unidos, estavam em São Paulo e trouxeram um gringo que se esbaldara na balada da noite anterior. Passou mais de 24 horas com a mesma camisa preta — camisa de manga, fazia calor — até embarcar à noite...

Nós pulávamos na avenida Europa, que foi fechada por um trio elétrico, em que encontramos vários amigos nossos. (E olha que eu nem gosto de axé e nunca passei o carnaval em Salvador...) O gringo, de repente, apareceu deitado na sarjeta — e não era apenas uma imagem poética...

A casa da Carol era um entra-e-sai de pessoas. Um amigo nosso, meio briaco, disparou a falar inglês, e não parava nunca mais. Ia chegando gente atrás de gente, parece que de diversos pontos da cidade, de tal maneira que iam emendando almoço com jantar...

Foi uma das Copas mais divertidas da História. Apesar de que as outras também foram.

* * *

Sobre esta Copa de 2006, não sei o que esperar. Nunca estive tão "por fora". Nunca achei as pessoas tão por fora...

Jornalisticamente falando, vi blogs pipocarem sobre, no mundo todo — e no Brasil, ainda, nada. Apesar de uma revista, que recebi na semana passada, sobre... (Aguarde Comentários nos próximos Digestivos...)

Repito que não acredito que vamos ter de agüentar o Parreira de novo (e o espírito, de porco, do Zagallo). E o Galvão Bueno. E o Pelé. Talvez o Dunga...

Um dos meus colegas, da escola de 1990, inaugurou um site e — desde o ano passado — já estão torcendo todos... (Update: o Globo Esporte, quando foi fazer seu novo site, roubo dele o slogan...)

2006 é o ano.

E eu ando tão ocupado que... se o Brasil ganhar, vocês me chamam?


Julio Daio Borges
São Paulo, 2/6/2006


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