A vida como encenação | Jonas Lopes | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 16/11/2006
A vida como encenação
Jonas Lopes

+ de 6200 Acessos

Alguém já disse que toda a literatura se resume a um punhado limitado de histórias. Que há algumas poucas dezenas de enredos possíveis, e todo o resto deriva, direta ou indiretamente, de algum desses enredos. Se reduzirmos o objeto de análise aos temas, o número de possibilidades será ainda menor. Deles, a morte é séria candidata a tema supremo dos livros (perde apenas para o amor, bem provavelmente).

Apesar da recorrência, ainda dá para encontrar ângulos a se explorar em um tema tão batido. É o que faz o português Gonçalo M. Tavares em Jerusalém (Companhia das Letras, 2006, 228 págs.), uma sombria fábula sobre morte. Na verdade, sobre vida — ou a vida encenada como escudo contra a morte. Ou seja, sobre morte mesmo. Tavares, de apenas 36 anos, dá mais um passo na impressionante carreira. De 2001 para cá já são cerca de quinze livros, entre poesia, microcontos e prosa. Jerusalém é o terceiro volume da tetralogia O Reino. Os dois primeiros são Um homem: Klaus Klump e A máquina de Joseph Walser. O quarto ainda não foi lançado.

Na história, Mylia tem uma doença que em pouco tempo — "num ano, dois, não mais" — vai lhe matar. Quanto a isso não há dúvida: é irresolúvel, dizem os médicos. Uma noite, às quatro da manhã, sem ter ainda descansado um minuto ("fechar os olhos quando se tem medo de morrer?"), com muita dor, resolve sair de casa. Procura, na escuridão da madrugada, uma igreja, que encontra fechada. Impedida pelo homem que guarda a igreja, ela dá a volta na igreja e sente uma pressão na bexiga. Quando urina, após lamentar não poder fazê-lo com a mesma "dignidade", facilidade logística de um homem, sente fome. Assim como a pressão na bexiga a fez esquecer por um momento a dor, a fome subjugou sua doença:

"Ela percebeu, claramente, que ali, junto à igreja, estavam em competição duas dores grandes: a dor que a ia matar, a dor má, assim ela a designou, e, do outro lado, a dor boa, a dor do apetite, dor da vontade de comer, dor que significava estar viva, a dor da existência, diria ela, como se o estômago fosse, naquele momento, ainda em plena noite, a evidente manifestação da humanidade, mas também das suas relações ambíguas com os mistérios de que nada sabe".

Ao sentir mais vontade de "comer um pão do que ser imortal", ao escrever com giz na parede da igreja em letra pequena a palavra "fome", Mylia usa a vida para encenar contra a morte. Anos antes ela esteve internada em um hospício.

Theodor Busbeck é médico e ex-marido de Mylia, o pólo que se opõe à insanidade errante da ex-esposa. É um homem correto, racional, um filho da ciência, que mantém o pé no chão. "Adepto da consulta, do estudo, da comparação, dos pequenos cálculos sucessivos, da progressão, do respeito pela lentidão, pelo processo, pelos métodos, pelo progresso". Começou a atender Mylia (considerada louca pela família) anos antes. Interessado pela personalidade dela, que dizia poder ver a alma, casa-se. Paralelamente à atividade médica, Theodor engendra um ambicioso estudo, um gráfico que pretende estudar a história do horror desde que o mundo é mundo. Encontrar nessa história comportamentos e valores do horror, métodos particulares que se repitam e, com isso, traçar uma linha de probabilidades e descobrir se a relação horror/tempo tende a aumentar ou diminuir. Caso tenda a aumentar, acredita que talvez seja possível evitar o mal.

Em uma de suas caminhadas noturnas, Theodor cruza com Hanna, uma prostituta que vê algo de científico no ato de pintar os olhos com o lápis roxo. Opera o "bisturi estético" para que os homens encontrassem o olhar fundamental, capaz de congelar o tempo, atrair e paralisar os clientes. Hanna é noiva informal de Hinnerk, ex-combatente que da guerra herdou dois hábitos: manter uma arma sempre à cintura e sentir medo. Sabedor de que algo vai acontecer em um momento imprevisto, Hinnerk pratica a pontaria todos os dias. Mantém-se sempre a postos — desista, imprevisto, aqui está um homem preparado. É vizinho de uma escola, onde já virou objeto de chacota entre alunos e professores pela sua "cara de assassino".

O jovem Kaas é filho de Theodor Busbeck e deficiente físico: suas pernas são magras e frágeis, desproporcionais em relação ao resto do corpo. Por isso nunca poderá ser soldado. Por isso considera-se um fazedor de catástrofes. Logo descobrimos que Kaas é, na verdade, filho de Mylia com Ernst, um esquizofrênico que ela conheceu no hospício. Ernst agora está livre, mas não consegue se acostumar com a vida "normal"; pretendia se jogar da janela, quando Mylia lhe telefona, pouco depois de ser barrada na igreja.

Todo esse elenco de espectros (menos Theodor) traz em comum, além da sombra da morte e da doença, um esforço em encenar a vida e retirar da encenação uma maneira de escapar da morte. Estão presos dentro da finitude de suas deficiências físicas e mentais, mas buscam válvulas de escape para escapar do inevitável. Mylia com a fome que a fez esquecer sua dor. Hinnerk com seu mórbido (e por isso humano) prazer em apontar a arma para crianças e se imaginar atirando naquelas que o humilham. Hanna ao pintar os olhos. Kaas olhando fotografias em que, favorecidas pelo ângulo, suas pernas não parecem defeituosas. "Estar doente", pensa Mylia, "era uma forma de exercitar a resistência à dor ou a apetência para se aproximar de um deus qualquer".

Junto com Gomperz, diretor do hospício em que Mylia e Ernst estiveram internados e adepto de um método que consiste em promover a repetição de manias à exaustão para eliminar a demência, Theodor, em teoria, representa a sanidade em Jerusalém. Apenas em teoria, pois em toda a sua razão e virtude, o médico vai se revelando aos poucos uma espécie de ditador moral. Difícil não fazer uma analogia com o nazismo: os nomes dos personagens em alemão (não é definido o lugar onde se passa a história), a pesquisa de Theodor, a relação que faz entre o desemprego e os momentos de incidência do horror (a diminuição a quase zero dos níveis de desemprego foi um dos trunfos de Hitler para ter a seu favor a opinião pública). Como o Führer, o médico diz (pensa) crer na Providência. Ele próprio se considera uma espécie de Deus:

"Como se de facto não quisesse ser médico, mas sim um santo, como uma vez provocara Mylia; um santo capaz de perceber a cabeça de sua mulher, Mylia, e ainda a cabeça de todos os Homens, como conjunto, um santo inteligente capaz de perceber os miolos da História, capaz de captar o raciocínio ou, pelo menos, a forma — gráfica — de a História raciocinar".

Sob o altruísmo e dedicação para com a humanidade, Theodor mal disfarça seus sentimentos mais obscuros. Ele procura sempre separar com clareza os loucos e "doentes da cabeça" dos "homens saudáveis", os normais. Gaba-se da capacidade de "perceber os loucos". Uma diferença básica, acredita, é que o homem saudável sente em si uma ausência espiritual, uma sensação de roubo. A única forma de suprir a ausência é buscar a Deus. "Um homem que não procure Deus é louco". Ora, é ele quem comemora a morte do velho pai, maltrata o filho bastardo e usa a esposa como objeto de estudo; Theodor vê na dissolução familiar algo que lhe dará mais tempo para estudar, enquanto os "doentes da cabeça" Mylia e Hinnerk buscam uma igreja atrás de alívio para corpo e para a alma e Ernst sonha em conhecer o filho. E o que é fugir da morte, senão buscar Deus?

O grande erro da pesquisa de Theodor é de foco. Pretendia anotar em que momentos houve um desequilíbrio de forças entre o horror e a história, com a ascensão do primeiro coincidindo com os momentos de baixa do segundo. O que o médico não percebeu é que ocorre justamente o contrário. O mundo é uma seqüência de horrores intercalados com breves instantes de calmaria. A prova disso é o hábito de marcarmos os acontecimentos históricos através de incidentes como guerras, revoluções e matanças. Neste sentido, o hospício é um oásis de razão, isolado de um mundo que é só morte (o próprio Ernst sonha em voltar para lá).

A filosofia de que em mundo insano quem é são é louco remonta à clássica novela de Machado de Assis, O alienista, evocada em algumas resenhas de Jerusalém. Gonçalo M. Tavares não traz em si, porém, o sarcasmo aberto e corrosivo de Machado. Seu humor lembra mais o de Kafka: lúgubre, misantropo, tão (oni)presente que quase parece ausente, soterrado sob os horrores que se sucedem conforme a narrativa avança. Gonçalo assemelha-se ao autor tcheco também pela prosa lacônica, que, somada aos capítulos curtos, multiplica a palpitação provocada pelo romance.

Ambíguo, possuído pelo angustiante dualismo de um mundo que não pode ser explicado, o escritor português fica a meio caminho entre o pessimismo e a esperança. A morte é inevitável, ele sabe, mesmo que a companhia de vontades humanas como a fome ultrapasse, por um mísero momento, o medo de morrer. É nesse instante fugaz que Tavares se agarra, confiante. A fuga que é a encenação, o ato de virar a cara para aquela que é a única de nossas certezas. Jerusalém é seu atestado de resistência.

Para ir além






Jonas Lopes
São Paulo, 16/11/2006


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