O homem visto do alto | Guilherme Conte | Digestivo Cultural

busca | avançada
89721 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Castelo realiza piqueniques com contemplação do pôr do sol ao ar livre
>>> A bailarina Ana Paula Oliveira dança com pássaro em videoinstalação de Eder Santos
>>> Festival junino online celebra 143 da cidade de Joanópolis
>>> Nova Exposição no Sesc Santos tem abertura online nessa quinta, 17/06
>>> Arte dentro de casa: museus e eventos culturais com exposições virtuais
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
>>> 1984 por Fabio Massari
>>> André Jakurski sobre o pós-pandemia
>>> Carteiros do Condado
>>> Max, Iggor e Gastão
Últimos Posts
>>> Virtual: Conselheiro do Sertão estreia quinta, 24
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
>>> Izilda e Zoroastro enfrentam o postinho de saúde
>>> Acentuado
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A literatura contra o sistema
>>> Asia de volta ao mapa
>>> Uma vida para James Joyce
>>> As Classes e as Redes Sociais
>>> Crônica de um jantar em São Paulo
>>> Defesa eloqüente do Twitter
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Margarita Paksa: Percepção e Política
>>> A primeira ofensa recebida sobre algo que escrevi
>>> Perguntas sagradas
Mais Recentes
>>> Noli me tangere e poemas selecionados de José Rizal pela Ex libris (1886)
>>> América Pré-colombiana de Joathan Norton Leonard pela José Olympo (1967)
>>> Lixo e limpeza urbana: entender para educar. de Emílio Maciel Eigenheer e João Alberto Ferreira pela UERJ: Depext (2011)
>>> Enciclopédia dos Museus. Museu de Belas-artes Boston de Diversos Autores pela Mirador (1969)
>>> Fumar ou não fumar. A decisão é sua. de Lair Ribeiro pela Prestígio (2001)
>>> 70 Anos - Gerações a Serviço da Advocacia de Aasp. - Associação dos Advogados de São Pauço pela Dba (2013)
>>> A Droga da Obediência de Pedro Bandeira pela Moderna (1997)
>>> The heart of the city towards the humanisation of urban life de Varios Autores pela Lund humphries (1952)
>>> Bagagem de Adélia Prado pela Record (2012)
>>> Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier Alain Cheerbrant pela José Olympio (1991)
>>> Figuras de Linguagem, Col. Tópicos de Linguagem, Gramática de Hélio de Seixas Guimarães e Ana Cecília Lessa pela Atual (1988)
>>> O Ritmo da Vida de Matthew Kelly pela Sextante (2006)
>>> Kama Sutra para lésbicas. Para viver livremente a sexualidade. de Alicia Gallotti pela Planeta (2005)
>>> Operação Cavalo de Tróia 5 - os Outros Mundos de J. J. Benitez pela Mercuryo (1996)
>>> Folclore do Brasil de Luís da Câmara Cascudo pela Fundo de Cultura (1967)
>>> O Ladrão de Raios - Percy Jackson e os Olimpianos Livro Um de Rick Riordan pela Intrínseca (2009)
>>> O Ponto Cego de Lya Luft pela Record (2004)
>>> Um Jogo Chamado Futuro de Douglas Rushkoff pela Revan (1999)
>>> América Pré-colombiana de Joathan Norton Leonard pela José Olympo (1967)
>>> Vampiros Emocionais - Como Lidar Com Pessoas Que Sugam Você de Albert J. Bernstein pela Campus (2001)
>>> Mesopotâmia: o Berço da Civilização de Samuel Noah Kramer pela José Olympio (1969)
>>> Alimentos Prejudiciais como Substituí-los de Rômulo França pela Do Autor (2008)
>>> Deus quer que Você seja Feliz de Fábio Teruel pela Do Autor
>>> Antologia Mediúnica do Natal de Francisco Cândido Xavier pela Feb (1943)
>>> Como Evitar Preocupações e Começar a Viver de Dale Carnigie pela Companhia Nacional (1987)
COLUNAS

Sexta-feira, 23/3/2007
O homem visto do alto
Guilherme Conte

+ de 7000 Acessos

Cássio Scapin e Claudio Fontana (Foto: João Caldas / Divulgação)

Sergio Roveri é um daqueles artistas que consegue deter-se com atenção aos mínimos detalhes e enxergar ali poesia e sentido. Sua sensibilidade encontra guarida em diálogos muito bem construídos, em que o dito se completa e se revela no não-dito.

Nascido em Jundiaí, Roveri é um dos dramaturgos mais consistentes da nova geração, além de destacado jornalista e crítico de teatro. Sua produção está muito ligada à Praça Roosevelt e a todo um movimento teatral que se desenvolve ao longo do mainstream e que tem oferecido alguns dos trabalhos mais interessantes a que o público paulistano tem a chance de assistir.

Seus textos são marcados pela inteligência e fluidez. Obras como O encontro das águas e Abre as asas sobre nós - que lhe valeu recentemente o Prêmio Shell de melhor autor - já fazem parte da lista de encenações memoráveis da história recente do teatro paulistano.

O humor e as imagens poéticas caminham lado a lado em sua trajetória. A obra de Roveri é marcada por essa tênue caminhada na corda bamba entre o riso e o choro, a dor e o deleite, o sonho e a melancolia. A vida tratada em, além do preto e do branco, diversos matizes de cinza.

Andaime, sua nova montagem, situa-se nessa frágil linha entre o cômico e o trágico. Embora a faceta mais evidente desse texto - vencedor do Prêmio Funarte de Dramaturgia - esteja ancorada no riso, atingido com maestria pela dupla Cássio Scapin e Claudio Fontana, o peso daquelas existências revela-se aos poucos por trás da aparente amenidade de uma conversa jogada fora para que "o serviço passe mais rápido".

A peça traz dois limpadores de janela trabalhando em cima de um andaime. Enquanto passam de andar em andar, conversam longamente. Nada de muito profundo ou aflitivo; os temas ficam na esfera do cotidiano. Timidamente escapam da conversa pequenas confissões de sonhos, frustrações, vontades, histórias, lembranças. Homens duros que vez por outra baixam a guarda e se expõem.

Entre um cigarro e um comentário qualquer sobre pássaros, aqueles personagens revelam certa melancolia por sentirem-se tão à margem. "Tem horas que parece que somos invisíveis", diz um deles. É a voz daquelas pessoas que estão tão próximas de nós mas que parecemos realmente não ver.

Força no humor
A grandeza da obra de Roveri está na simplicidade e leveza com que trata o tema. Não se perde em discursos, manifestos ou esbravejos. A força e a sensibilidade de sua crítica encontram na eficiente pena do humor um canal para tocar os que estão do lado de cá da janela. Paramos para escutá-los, nos divertimos e nos identificamos com eles.

Scapin e Fontana estão muito bem, esbanjando segurança em seus papéis. O único senão em relação às interpretações é a falta de uma homogeneidade de sotaques e entonações, que oscilam em alguns momentos - falha que quase pode ser encarada como preciosismo, frente à grandeza do trabalho.

O diretor Elias Andreato conduz a montagem com clareza de propósitos e austeridade de recursos. O ritmo imposto é fluido, com tempos e pausas na medida certa. Nada de efeitos desnecessários que só comprometeriam o foco; sua aposta é no trabalho de interpretação e valorização do texto, apoiados na bela e funcional cenografia de Gabriel Villela. Só fica a curiosidade: como seria a peça se tivéssemos a vidraça entre nós e os atores? Afinal, é do lado de cá que estamos o tempo todo.

Para ir além
Andaime - Teatro Vivo - Av. Dr. Chucri Zaidan, 860 - Morumbi - Tel. (11) 3188-4141 - Sexta, 21h30, sábado, 21h e domingo, 18h - 70 min. - R$ 50 - Até 29/4.

* * *

As revoluções e a latinidade

Maritta Cury e Antonio Ranieri em 'A Revolta'

O historiador Eric Hobsbawn tem uma linha de pensamento que pode ser sintetizada na máxima de que a história é feita de permanências e rupturas. Estas se caracterizam por transformações radicais e violentas que subvertem a ordem vigente e estabelecem um novo status quo.

Revoluções exigem sangue e sacrifícios. É difícil operar as transformações para o estabelecimento de uma nova ordem. Esta, por sua vez, carrega dentro de si uma lógica que só é passível de ser derrubada por uma nova revolução. É essa condição de falibilidade intrínseca mantém a tensão entre os atores do jogo histórico.

A Revolta, do argentino Santiago Serrano, fala sobre revoluções. As grandes e as pequenas, as universais e as particulares. Situada em um ambiente rural sem tempo época definido, traz uma revolução social como pano de fundo para o palco das pequenas revoluções - as cotidianas, mundanas, que perfazem o nosso dia a dia.

Malva (Amália Pereira) é uma matriarca que se vê as voltas com uma ausência dolorosa em sua casa: um de seus filhos foi preso pelos opressores da sociedade local, por "suas idéias". Sua voluptuosa nora Judith (Maritta Cury), a "gringa", sofre com a carência e a falta do marido, além de estar em um país distante. Ela se envolve perigosamente com Martin (Antonio Ranieri), o outro filho de Malva, que trabalha para os mesmos senhores que prenderam o irmão. Nesse tenso ambiente ainda transita Sara (Janette Santiago), a escrava da família.

A iminência da revolta e da volta do filho aprofunda os conflitos entre as personagens e manda às favas o tênue equilíbrio que sustentava a casa. O resultado é violência, tanto física quanto verbal.

O texto de Serrano acaba funcionando como uma grande reflexão da própria evolução da história da América Latina. Ali estão os estrangeiros que vêm para explorar a terra e seus recursos, o estrangeiro que pensa a revolução com um olhar externo, o povo oprimido, o opressor, os que pensam a revolução como um bem geral, os que vêem nela benefícios individuais...

Malva, incapaz de ver o que acontece em sua volta, projeta no filho preso e em sua revolução seu obstinado desejo de vingança. Seus diálogos com a vizinha Antonia (Adriana Cubas), seu contraponto ideológico, evidenciam o choque entre as razões pessoais e o pensamento em um bem maior, que beneficie a todos de alguma forma.

A direção de Reginaldo Nascimento acerta em optar por uma construção cênica que prioriza o texto e o trabalho de ator. Os elementos cenográficos são os minimamente necessários para que a trama se desenvolva com os diálogos e as ações sem se sobreporem. É notável também seu talento para a criação de imagens marcantes.

É possível apreender da montagem um sólido trabalho de construção de interpretações, uma das preocupações fundamentais da Teatro Kaus Cia. Experimental. Todos estão muito seguros de suas personagens e intenções. O que pesa contra o jovem elenco é talvez certo excesso de rigidez.

As interpretações resultam, no geral, um tanto quanto duras, marcadas. Isso fica evidente, por exemplo, no modo de falar de Amália: talvez por pretenso virtuosismo, talvez por excesso de esmero, sua Malva soe barroca demais, o que compromete a própria compreensão plena do texto e de todas as suas nuances verbais. Um tom abaixo na partitura pode fazer com que o personagem ganhe em naturalidade.

São falhas que tendem a se atenuar e até desaparecer ao longo do amadurecimento do espetáculo em temporada. A troca com o público é valiosa quando se tem um grupo aberto e interessado no aprimoramento de uma linguagem, o que parece ser o caso do Kaus.

É de se destacar, aliás, a iniciativa do grupo de construir um trabalho ancorado em uma séria e constante pesquisa de dramaturgia. A Revolta é um dos filhos do projeto "Fronteiras - O Teatro na América Latina", que também englobou as montagens de Infiéis, do chileno Marco Antonio de La Parra, e de El Chingo, do venezuelano Edílio Peña. Ficam os votos de que a peça entre em temporada na cidade e a curiosidade a respeito dos caminhos a serem tomados pela companhia.

Para ir além
Teatro Kaus Cia. Experimental


Guilherme Conte
São Paulo, 23/3/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Nos escuros dos caminhos noturnos de Elisa Andrade Buzzo
02. O turista imobiliário de Marta Barcellos
03. Escola (e escolinha) de Julio Daio Borges
04. O tempo de Arturo Pérez-Reverte de Celso A. Uequed Pitol
05. Meus melhores discos de 2009 de Rafael Rodrigues


Mais Guilherme Conte
Mais Acessadas de Guilherme Conte em 2007
01. Impressões sobre a FLIP - 20/7/2007
02. O cientista boêmio - 12/1/2007
03. O homem visto do alto - 23/3/2007
04. Rafael Spregelburd e o novo teatro argentino - 11/5/2007
05. E se refez a Praça Roosevelt em sete anos - 13/4/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Shortcuts 1re B1 Nouveau Programme Com Cd
Laurent Duhaupas/claude Rollet
Hachette
(2011)



Transações Extrajudiciais Cíveis e Trabalhistas Nas Demissões Voluntár
João Carlos da Silva
Juarez de Oliveira
(2000)



A Decadência do Povo Americano
Norberto R. Keppe
Proton (sp)
(1986)



Inside Web Dynpro For Java
Chris Whealy
Galileo Press
(2007)



Pablo Neruda e Sua Poesia Eterna
Antonio Olinto (coordenação)
Depto Geral Comunicação Pref R
(2004)



Fascinação do Amor
Condessa Dorsay
Empresa
(1938)



Os Saltimbancos da Porciúncula
Antonio Carlos Villaça
Record
(1996)



A Guerra do Lobisomem
Carlos Moraes
Quinteto Editorial
(1984)



Memorial do Apocalipse
Haroldo Ramanzini
Escrituras
(2001)



A Bíblia Segundo o Gato
Philippe Geluck
Nemo
(2014)





busca | avançada
89721 visitas/dia
2,7 milhões/mês