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Sexta-feira, 12/1/2007
O cientista boêmio
Guilherme Conte

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+ 1 Comentário(s)

Difícil tarefa a de quem se propõe a, com palavras, dar a real dimensão da figura de Paulo Emílio Vanzolini. Este homem conseguiu o feito duplamente notável de tornar-se referência em seus dois - por assim dizer - "campos de atuação" (campos, convenhamos, bem distintos entre si): a biologia e o samba.

Se ele fosse só o lendário professor, pesquisador e verdadeiro militante do desenvolvimento da ciência no país já seria o suficiente para que seu nome estivesse inscrito na história. Só que Vanzolini é também um de nossos maiores sambistas; é talvez, ao lado de Adoniran Barbosa, quem melhor cantou a cidade de São Paulo.

Antonio Candido foi extremamente feliz em descrevê-lo*: "(...) a sua curiosa personalidade de cientista boêmio, de irreverente cheio de disciplina e rigor, de homem da Noite que faz do dia seu espaço de trabalho. (...) Viva pois esse Paulo poeta compositor cientista boêmio conversador que soube fixar tão bem pela arte momentos significativos da vida."

É sob a égide do contraste que emergiu uma obra de um lirismo raro, em que os achados verbais, as construções engenhosas e as frases lapidares que se agarram à nossa memória saltam em quantidades imensas. Madrugadas inteiras podem ser perdidas em torno de um violão só com a lembrança de suas letras.

Letras que, se não casassem tão bem com a música a que pertencem, poderiam tranqüilamente ser publicadas em livro sob o portentoso título de "antologia poética". E é precisamente nesse ponto que reside um dos grandes paradoxos da obra de Vanzolini. Se por um lado seus versos são marcados por uma limpidez cristalina, concisos e enxutos, essenciais, isso não faz com que soem rígidos, estáticos. Pelo contrário: é o pleno domínio da forma que dá asas à poesia de suas músicas. As frases voam e se puxam; nada falta ou sobra ali.

Um compositor essencialmente paulistano

Embora seus versos sejam dotados de uma universalidade atemporal, é clara a presença da cidade de São Paulo, seja expressamente (como no caso de "Ronda", um de seus maiores sucessos e que gerações inteiras sabem de cor - "cena de sangue num bar da Avenida São João"), seja na tradução da cidade dos idos de 1950 e 60. A boemia em sua forma mais pura.

Seus temas são o divórcio, a mulher ingrata, a ausência, os desvãos do casamento, a inveja, a teimosia. Desfilam por entre suas ruas mulheres ciumentas, maridos traídos, noitadas em bares. É uma obra profundamente urbana, que cheira a sereno e a boteco.

Impossível não se encantar com a simplicidade irônica de pequenas jóias como o samba "Praça Clóvis":

Na praça Clóvis minha carteira foi batida,
Tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato,
Vinte e cinco eu francamente achei barato,
Pra me livrarem do meu atraso de vida.
Eu já devia ter rasgado e não podia,
Esse retrato cujo olhar me maltratava e perseguia,
Um dia veio um lanceiro naquele aperto da praça.
Vinte e cinco francamente foi de graça.


A ironia, aliás, é uma das marcas de suas letras, e muito do ar de ranzinza que se atribui a ele deve-se ao seu humor refinado. Corre no meio musical a história de que Chico Buarque, quando das gravações de seu CD Carioca, teria ligado para ele querendo saber mais sobre os ratos, uma vez que uma das faixas do disco é a regravação de "Ode ao Rato".

Quando Chico lhe expôs o caso - "Olha, Vanzolini, eu estou regravando 'Ode ao Rato' e queria saber mais sobre a espécie etc." -, ele respondeu: "Pô, Chico, você já mentiu tanto sobre as mulheres e agora quer falar direitinho sobre os ratos?" Pior mesmo é a suposta resposta de Chico, entre risos: "É que pelos ratos ainda tenho algum apreço..."

Poeta do cotidiano

Na contracapa do LP A música de Paulo Vanzolini, de 1974, cantado por Carmen Costa e Paulo Marques, o compositor discorreu um pouco sobre sua criação:

"Fazer um samba é um tanto uma questão de paciência. O tema, a vida cotidiana, espreitada, fornece. Ou a preocupação maior da gente determina. Melodia e letra nascem juntas, frase de verso se adaptando a frase melódica, e as seqüências melódicas mais ou menos se filiando na tradição geral. Dia a dia, sem querer ser apertado, o samba cresce e se completa, mais depressa quando se encontra uma frase boa, mais devagar quando se entra em problemas, se vai melhor um p ou um t, quando há dúvida sobre se alguns ss se aliteram bem ou sibilam demais.

Com o tempo o samba se define na cabeça, e quer sair. Num ponto de ônibus, no banheiro de praxe, ele é cantado quase em voz alta, verificam-se as fraquezas maiores e os plágios mais óbvios: a melodia é assobiada, com cautela, depois com força e certo abandono, e o autor compôs. (...)"

A obra de Vanzolini, nascido em 25 de abril de 1924, pode ser definida como sinônimo de honestidade. Seus sambas nascem nos bares, pontos de ônibus, batidos na caixinha de fósforos. E em pouco tempo estão sendo cantados em outros pontos de ônibus pelos anos afora. É criação autêntica, que fala do amor sem teorias ou rodeios. Coisas como "Noites de vigília" guardam uma beleza rara:

Nas minhas noites de vigília
Eu fumo e cismo
Que esse abismo entre nós desaparece,
E uma onda de ternura
Se alastra e cresce dentro de mim,
Embora assim tão solitário,
Pressinto o fim desse calvário.

Esse teu medo de amar e ser amada,
Que te faz ser tão arredia e desconfiada,
Serenamente eu vencerei e por ti mesma,
Eu te asseguro,
Descobrirás nos braços meus porto seguro.


Mais do que nunca é necessário debruçar-se sobre os sambas de Vanzolini. A gravadora Biscoito Fino prestou um serviço incomensurável ao público quando lançou a caixa Acerto de contas de Paulo Vanzolini, com 4 CDs reunindo uma parte substancial de suas composições. O time de intérpretes é de fazer inveja a qualquer mortal que um dia tenha se disposto a fazer música: Paulinho da Viola, Chico Buarque, Eduardo Gudin, Paulinho Nogueira e Elton Medeiros, entre outros. "Volta por cima", "Sorrisos", "Samba abstrato" e "Maria que ninguém queria", em meio a tantos clássicos, ganharam versões irretocáveis em um conjunto de 52 canções que primam por execuções de alto nível.

Com sambas imbatíveis em sua simplicidade, Vanzolini nos faz parar um pouquinho para pensar no amor. Em um mundo cada vez mais asséptico e burocratizado, em que o malandro, segundo as más línguas, até trabalha, cantar versos como "mulher que não dá samba eu não quero mais" entre chopes pela madrugada são a maior homenagem que podemos prestar a este sensível compositor. Afinal de contas, mulheres ciumentas existirão até o fim dos tempos.

* Antonio Candido, no encarte de Acerto de contas de Paulo Vanzolini

Para ir além
Homenagem a Paulo Vanzolini - O compositor se reúne com sua mulher, Ana Bernardo, mais a cantora Márcia e os músicos Pratinha, Ítalo Peron e Adriano Busko para interpretar algumas de suas composições - SESC Vila Mariana - Teatro - R. Pelotas, 141 - Vila Mariana - Tel. (11) 5080-3000 - R$ 20 - Terça, 16/01, e quarta, 17/01, às 21h.

Nota do Editor
Leia também "Incêndio pleno: amor, pirraça, veneno e cachaça"

* * *

O fino da bossa

Este colunista desconfia de listas como "as 10 mais de 2006", "o melhor de 2006" e afins - embora reconheça já ter feito retrospectivas desse tipo. Não quero com isso desqualificar os balanços que abundam na imprensa nessa época do ano; a iniciativa é valida e muitos deles são extremamente qualificados. Só tenho reservas quanto ao tom taxativo muitas vezes empregado.

Para não passar em branco, destaco um disco lançado em 2006 que desde já deve figurar em qualquer discoteca básica de alguém que goste do que se faz de melhor em música. Trata-se de Amendoeira, de Bebeto Castilho, o baixista, vocalista e flautista do lendário Tamba Trio (então ao lado de Luizinho Eça e Hélcio Milito).

Amendoeira ganha ares de estréia, porque seu disco anterior, Bebeto, foi lançado em LP no ano de 1976 e só relançado em CD na Inglaterra. De certa forma, então, é a primeira vez que o público brasileiro pode ouvir este magnífico artista em CD.

E é um registro absolutamente perfeito. Com um repertório primoroso, que vai de velhos clássicos como "Infidelidade", de Ataulfo Alves, e "Minha palhoça", de J. Cascata, até uma canção de seu sobrinho-neto Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos.

Camelo também divide os vocais com Bebeto no delicioso samba de breque "Porta de cinema", de Luis Souza - irmão de Bebeto -, e assina a produção do disco ao lado de seu parceiro de outros carnavais Kassin, um dos nomes mais criativos em atividade por aqui. As outras participações ficam por conta de Wilson das Neves, Thalma de Freitas e Nina Becker - esta com uma interpretação impressionante de "Beijo distraído", de Durval Ferreira e Regina Werneck. Daquelas de comover os corações mais duros.

Com um trabalho de concepção e produção refinadíssimo, o álbum todo tem uma atmosfera absolutamente única: ao mesmo tempo em que ecoa as boates cariocas dos idos de 1970, quando o Tamba brilhou, ele ganha uma certa roupagem moderna; principalmente por conta dos arranjos de Laércio de Freitas (que em três faixas dá lugar a Gilson Peranzzetta e Alberto Chimelli).

A combinação dos pianos e fender rhodes de Laércio com o baixo que esbanja suingue de Bebeto entra imediatamente para o rol de grandes dobradinhas da história, como a carne-sêca com abóbora, o mar batendo nas areias de Ipanema e Frederico Fellini & Giulietta Masina. Uma aula de elegância e estilo, com muita bossa e balanço.

Em uma palavra? Imprescindível.

Para ir além
Amendoeira


Guilherme Conte
São Paulo, 12/1/2007


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
12/1/2007
22h26min
Guilherme, Paulo Vanzolini escreveu pelo menos uma meia dúzia de músicas que me acompanham desde que eu era criança. Depois, comecei a ouvir sobre o zoólogo (é isso, não?) que ele é. Um dos maiores, senão o maior, dizem... Acho que toda e qualquer homenagem é válida, obrigatória na verdade. (Lembremos do que cantou Nelson Cavaquinho: "Depois que eu me chamar saudade/ Não preciso de vaidade/ Quero preces e nada mais"). Tá em tempo ainda... Maroldi
[Leia outros Comentários de Marcelo Maroldi]
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