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Terça-feira, 12/5/2009
Do abraço genital ao abraço virtual
Jardel Dias Cavalcanti
+ de 11100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

"A moral moderna desativa a ordem familiar que deveria garantir as pessoas contra os devaneios e as devastações do seu próprio desejo." (Pascal Bruckner)

Wilhelm Reich, psicanalista dissidente freudiano, acreditava que no abraço genital (o ato sexual) todas as nossas neuroses poderiam ser dissipadas. Mas isso só seria possível se o ato sexual estivesse livre de qualquer fantasia, sendo uma experiência puramente emocional-corporal, de toques na pele e nos músculos, que dissolveria o que ele chamou de couraça muscular do caráter. Essa couraça seria a cristalização de nossas neuroses pelo corpo afora, provocando o endurecimento da matéria viva e flexível que é o corpo/organismo, gerando, por isso, inumeráveis doenças no animal humano, inclusive o câncer. Reich sabia que uma barriga dura, que guarda e congela anseios reprimidos ou a barriga bem trabalhada pela musculação, impede o orgasmo livre, espontâneo e profundo que dissolve o eu no cosmos. Uma carícia bem feita nessa região e em outras era a psicanálise que ele sugeria para dissolver nossos traumas. O que seria elevar a ideia freudiana de sexualidade à milésima potência.

Na internet, o amor (no sentido total do termo, como fusão sexo-emocional dos indivíduos) parece encontrar outros termos para sua existência. Ao contrário do desejo de Reich, que valorizava a experiência corporal em si mesma, o amor virtual alimenta-se da imaginação para chegar aos seus fins. Aqui não é o corpo que está livre ou tornou-se livre para existir plenamente, mas a imaginação que é libertada de qualquer amarra para existir enquanto puro desejo no reino do ficcional.

Através da internet milhares de pessoas têm encontrado parceiros pelas madrugadas afora que jamais conhecerão pessoalmente, mas que conhecem seus desejos mais secretos, desejos que jamais poderiam ser revelados para uma parceira "real". E se são revelados para os parceiros virtuais, isso se deve ao fato de que existe a proteção do anonimato garantido pela telinha do computador.

E é desse fato, o anonimato, que vai derivar toda a experiência ousada que as pessoas têm tido, mergulhando o desejo em águas prá lá de barrentas, como me tem sido confidenciado/narrado por amigos e amigas.

E o que esse amor virtual representa no contexto da afetividade pessoal, da subjetividade atual do indivíduo? Estamos longe de saber. Mas podemos tentar mapear alguns dados sobre esta questão e as consequências dessas experiências amorosas virtuais sobre os relacionamentos ditos "reais".

Vamos aos fatos: como essas relações se dão? De várias maneiras. Em geral, entra-se num site de bate-papo, onde pode-se escolher parceiros por ordem de suas fantasias e desejos como, por exemplo, fetiches, sexo brutal, sexo com amor, casados, gays, lésbicas, maduros, swing e por aí vai. Deste primeiro encontro, em geral coletivo e apimentado quando se quer experiências mais fogosas, passa-se, em seguida, para o MSN, onde através de uma câmera (ou não) pode-se começar uma relação a dois, mais íntima e mais ousada ainda.

Dentro da sala de bate-papo você pode experimentar um diálogo com várias pessoas para ver quem se adéqua ao seu interesse, antes de escolher quem vai ser escolhido para ir para o MSN. Note-se que em certos casos os encontros no MSN não são necessariamente a dois, podendo-se criar uma rede de parceiros ali também. Tudo depende do gosto de cada um.

O que nos interessa é o que acontece nesses momentos onde os parceiros se encontram, guiados pela total liberdade de experimentar tudo o que quiserem, sem o menor risco de doenças venéreas, de compromisso de gênero, de moral, de ética ou seja lá do que for. É nesse terreno imaginativo que se vai instalar o reino da liberdade absoluta de se poder ser o que se quiser, de experimentar o que se quiser, da forma que se quiser, sem os freios da civilidade catalogada por Freud como repressiva.

Ali pode-se ser mulher sendo homem, ser homem sendo mulher, ser magro sendo gordo, ser ativo sendo passivo, ser solteiro sendo casado, ser rico sendo pobre, ser brutal sendo-se doce, ser atirado e ousado sendo tímido, ser bonito sendo feio. Você pode ser tudo o que quiser e fazer o que quiser. Tem uma fantasia que jamais praticaria na vida real? Aqui você está liberado de qualquer limitação. Quer fazer amor violentamente? Fará. Quer ser tratada como uma virgenzinha assustada seduzida pelo garanhão? Será. Quer ser levada ao delírio numa espécie de kama sutra virtual que jamais faria com seu marido? Delirará. Sendo homem quer se tornar virtualmente uma mulher nas mãos de um tarado que quer te possuir freneticamente? Será. Quer trair seu namorado, seu marido, sua esposa? Trairá. Tudo isso sem consequência direta alguma.

Poderá se deleitar num universo livre da culpa e das limitações biológicas comuns ao ser humano. Navegará em terras desconhecidas, ao seu bel prazer, sem que ninguém saiba, sem que ninguém te julgue, livre como uma borboleta ao vento. Trancado dentro do seu quarto escuro, com portas fechadas, você abrirá as portas do desejo ao mais inusitado descontrole que puder suportar.

E as consequências? Elas vêm indiretamente. Afinal, não se pode gozar de uma liberdade virtual total sem querer que ela não se estenda para o mundo "real". Ao menos uma parcela dessa liberdade terá que existir, senão você se tornará um viciado incurável na arte de amar apenas virtualmente.

O que pode acontecer de bom? Primeiro você pode começar a experimentar uma certa liberdade na vida "real" ao perceber que muitas pessoas são como você, querem as mesmas coisas e vivem em universos tão estranhos quanto o seu. Afinal, você não é o único. Poderá, inclusive, começar a participar sua esposa, namorada ou amante das novas possibilidades abertas e aprendidas no mundo virtual. Deixará certos tabus para trás, abrindo as comportas do seu desejo reprimido para fora de si mesmo, indo ao alcance do outro, talvez liberado pela mesma experiência que você teve na internet.

O que pode acontecer de mal? Você pode se acomodar a uma experiência fácil, fria, destituída da vivência corporal real, prejudicando mais ainda suas relações "reais". Criando um afastamento mais e mais perigoso, transformará sua sexualidade numa rua de mão única, acabando por limitá-la mais e mais. Como o adolescente tímido que prefere se masturbar a se esforçar por conquistar a menina de seus sonhos.

Outra questão cheia de contradições é que várias pessoas têm encontrado através da internet parceiros para ter relações afetivo-sexuais "reais". O vínculo se dá inicialmente de forma virtual e, depois de um tempo, quando ambos sentem-se confiantes, partem para se conhecerem e se amarem no mundo "real". Esse número tem crescido ao longo dos anos.

Há casos de casamentos que acontecem por causa de relações iniciadas no mundo virtual. Embora em alguns casos essas relações naufraguem, em outros pode ser a possibilidade de uma relação duradoura e rica. A internet seria uma espécie de facilitadora do primeiro contato. E esses contatos não se restringem à mesma cidade ou país, podem ser internacionais, ampliando o leque de relações assustadoramente.

Causa-nos estranheza, por exemplo, ver em determinada lan house grupos de pessoas se comunicando com estranhos do outro lado da tela e simplesmente frios e indiferentes em relação às pessoas a sua volta com quem poderiam tentar uma comunicação. Mas o que se dá é aquilo que falamos acima, ou seja, a questão do anonimato facilita o contato com estranho, enquanto o contrário dificulta.

Um novo universo vem sendo aberto para as relações humanas. Da sociologia à psicanálise, alguns teóricos têm tentado entender o que se passa nesse universo. Indiferentes às teorias e carentes de contato com outras pessoas, o ser humano tem se dirigido à tela do seu computador para experimentar algo novo, ainda desconhecido, embrionário e ao mesmo tempo algo que tem se transformando rapidamente: o desejo e o afeto virtuais. O contato com o outro na esfera da virtualidade se expande para além dos códigos interpretativos do passado recente. O amor e o desejo estão ganhando uma nova cara. Estamos vendo. Mas, na verdade, ainda não vimos nada.

Uma hipótese: dado que a sociedade é e sempre será repressiva diante da insaciável necessidade que temos de amor e sexo, nos refugiamos no reino da imaginação, único lugar onde o EU pode ser o ID. Preenchemos com um corpo-imagem-imaginação a desproporção entre nossos desejos e a realidade. É porque o Outro está me faltando que recorro à imaginação/imagem. Se eu tivesse uma vida sexual realmente satisfatória, meu desejo se realizaria em corpos reais ao invés de desencadear sua abstinência sobre fantasmas impassíveis.

Consequências: na internet buscamos não só contato com pessoas, mas com imagens eróticas que nos satisfazem de alguma forma. As imagens substituem os seres ausentes. Nada me atrai mais no corpo do Outro do que sua forma ligada ao modelo da minha fantasmagoria, devendo este corpo ser transformado em imagem para ser por mim consumido. E se alguém se apresentar no mundo real para mim ele deve ausentar-se numa imagem que corresponda a esta fantasmagoria na qual estou viciado para provocar meu desejo.

O corpo real, em sua materialidade estranha, com seu odor imprevisível, a textura de sua pele, seus risos que não previ, seus movimentos cuja espontaneidade perturba meus fantasmas; não era isso que eu queria. Toda essa presença carnal acaba por me indispor, não me deixa seguro para eu me excitar. Meu desejo aparecerá se esta mulher/homem assumir o molde da imagem na qual estou viciado. Em outras palavras, ela terá que assumir o molde da imagem, pertencer ao código que eu amo, e dessa forma fará surgir meu desejo.

Há uma caricatura publicada certa vez na Playboy que explica isso:um homem trepando com uma mulher, sobre a qual colocou a foto de uma mulher nua.

O que mostra o reino em que estamos entrando: da imagem/imaginação sobre todos os outros sentidos, e a do fantasma sobre a realidade.

Bem-vindos à realidade do amor virtual!


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 12/5/2009

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
13/5/2009
12h10min
Parabéns, Jardel! Excelente texto, não só por abordar um tema de grande importância da atualidade, bem como pela ausência de Apocalípticos e Integrados no decorrer de toda teia argumentativa do referido artigo.
[Leia outros Comentários de Sílvio Medeiros]
20/2/2010
17h10min
Muito bom! Parabéns pelo texto. Como sociólogo, me vejo volta e meia com tal temática, cada vez mais ordinariamente.
[Leia outros Comentários de bruno dias bento]
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