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Quinta-feira, 3/9/2009
Sincretismo imprevisível
Elisa Andrade Buzzo

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+ 1 Comentário(s)

Da plataforma do trem já se vê a igreja, alta, acima das casas próximas à estação Sagrado Coração, na cidade paulista de Jandira. Aos poucos, subindo a íngreme avenida João Longo, a igreja vai se contornando amarela com arcos detalhados de tijolinho. Numa construção logo abaixo da escadaria que dá acesso à entrada da igreja, fica o ateliê de cerâmica ArtEVida. Vasos e pratos feitos com argila secam ao sol que cai em sua larga sacada. Lá está Davison da Silva, um dos cinco artesãos que fazem parte da cooperativa do ateliê. Sentado em um balcão de madeira, ele enfileira pacientemente folhas de argila colorida em ramos simétricos ― a decoração de um futuro tampo de mesa.

O ar dentro do ateliê está repleto de partículas minúsculas de pó branco, resultado de lixações constantes das peças de cerâmica. Dois artesãos trabalham frente a frente numa longa mesa ― Patrícia Leite separando pedacinhos de argila verde e Ângelo Aguiar moldando um prato, argila mole em suas mãos. Ao redor deles, há dezenas de vasos coloridos, luminárias, esferas, bustos e pratos, dispostos em longas prateleiras. O nome de algumas peças, como Busto Marajó e Vaso Belém, ao lado do Prato Roma, por exemplo, é indício de uma apropriação sincrética de estilos e culturas diversas.

O conceito de sincretismo ― voltado à cultura ― ainda em aberto devido à "incapacidade dele próprio se 'regular' ou de 'ser regulado'", como fala o antropólogo Massimo Canevacci no livro Sincretismos, caminha em direção a experiências de cruzamentos culturais, ainda que de forma aparentemente desordenada, como veremos.

"O Brasil e a sua gente é uma terra que fala de cores e transmite cores e sensações. Por isso, as nossas peças são todas muito coloridas, muitas vezes não precisam seguir um modelo padrão e se desenvolvem com mais liberdade", diz Cláudio Melioli, artista italiano que incentivou e orientou a abertura do ateliê em Jandira, em setembro de 2000.

Astrônomo de formação, Cláudio resolveu sair da Itália porque queria "fazer algo de novo, que não tivesse nada a ver com astronomia e também realizar algo em que acreditava". Exatamente o Brasil foi escolhido porque ele ouvia desde criança histórias da viagem que seu pai, o artista plástico Giuliano Melioli fizera até aqui, no final da década de 1960. Experiência que deixaria marcas na arte e vida de Giuliano, depois na de Cláudio e no próprio ateliê ArtEVida, em grande parte por causa do contato que tivera com a cerâmica marajoara.

As primeiras peças desenvolvidas pelos artesãos brasileiros foram a partir do catálogo do ateliê de Giuliano em Reggio Emilia, pequena cidade italiana próxima à Bolonha. Lá funciona o ateliê dos Melioli e de Cesare Ferrari, chamado Tarsíe, onde são produzidas peças artísticas de cerâmica. Como desdobramentos, ainda existem na cidade a Tarsíe Cooperativa, na qual "trabalham pessoas que têm problemas mentais ou depressões várias, coordenadas por meu pai", diz Cláudio; e "a sociedade Ars Vivendi, que produz o cocciopesto".

Os artesãos do ArtEVida aprenderam técnicas italianas ― a cerâmica embutida e o cocciopesto ― com Cláudio. "A maioria das peças hoje são criadas e pensadas por eles [os artesãos], eu só aconselho um pouco", conta Cláudio. A técnica da cerâmica embutida, patenteada por Giuliano Melioli, é uma espécie de marchetaria de argila colorida com uma fórmula de vários óxidos, que substitui o esmalte aplicado na cerâmica. A outra técnica italiana utilizada pelos artesãos brasileiros é o preparo da massa cocciopesto, que significa "caco de argila amassado ou moído". A massa é feita com "argila queimada e moída e uma espécie de cimento que serve para juntar a argila", explica Cláudio. É uma receita que tem origem na Roma Antiga, onde eram utilizados "cacos dos vasos e das ânforas quebradas e misturavam isso com cal para fazer pisos e revestimentos".

Como as primeiras peças feitas pelos artesãos do ArtEVida foram baseadas na cerâmica marajoara, que por sua vez fora apropriada e interpretada em peças italianas, "em seguida, o laboratório desenvolveu peças novas, com uma certa influência [marajoara], em algumas delas, mas mesmo sem saber exatamente se o que se está fazendo é um animal ou algo de abstrato", revela Cláudio. Desta forma, "os desenhos inspirados na arte marajoara são reproduzidos mais com um sentido abstrato e de harmonia de formas", completa.

Segundo a arqueóloga e pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, Denise Schaan, "os motivos decorativos na cerâmica marajoara são em geral geométricos na forma e parecem abstratos para a maior parte dos observadores. No entanto, eles representam seres mitológicos, espelhados na fauna local." A cerâmica marajoara, segundo Denise, é um dos estilos mais sofisticados da Pré-História das Américas, com vasos que datam de 600 a 1200 depois de Cristo.

"Muitos objetos marajoara, principalmente os vasos, eram na verdade urnas para guardar as cinzas dos mortos, que depois eram enterrados. Hoje, muitas das nossas formas se inspiram nas formas dessas urnas", afirma Cláudio. Como essas peças foram criadas para ficar embaixo da terra, os artesãos tiveram que modificá-las a fim de que tivessem uma maior estabilidade. Assim, há uma reinterpretação tanto de formas, quanto de motivos dos desenhos na cerâmica sem uma "lamentação pela perda da origem", como define característica do sincretismo Canevacci. O elemento sincrético, no caso, se modula como um processo em formação, ainda não acabado e aberto a uma leitura contemporânea.

Já nas peças feitas na Itália, no ateliê Tarsíe, Cláudio acha que o que persiste hoje da cerâmica marajoara é "a filosofia que estava por trás da arte marajoara", ou seja, a representação do mundo "com traços muito simples e essenciais e do uso de vários pigmentos". O encanto de Giuliano pelo grafismo marajoara, que teve contato em viagem ao Brasil, se encontra nos significados de suas composições, "com um traço representa um animal, com uma forma representa uma mulher, com um ponto representa uma onça. Achei isso incrível e muito moderno. Foi aí que comecei a desenvolver meu novo estilo, misturando o clássico e os detalhes que sempre pintei, com formas e traços simples e sintéticos".

Denise afirma que "Há uma grande produção de cerâmica que utiliza o grafismo arqueológico assim como as formas dos vasos de maneira livre, descompromissada, mas sempre buscando a referência do significado arqueológico". Ainda segundo a arqueóloga, em texto do catálogo da exposição Brésil en France, há um processo atual da sociedade de apropriação de símbolos da cultura pré-colombiana. "Esta estética inspirada na arte nativa tem excelente aceitação, especialmente porque os motivos decorativos prestam-se a interpretações diversas, acomodação de desenhos a novas formas de suporte, e permite novas combinações de formas sem perder ritmo e simetria", explica. É o que pode ter acontecido nestas na formação das cerâmicas em questão.

Cláudio acredita que o "design [da ArtEVida] começou misturando a arte italiana com aquela marajoara, mas hoje a mistura, em algumas peças, é tão grande que não dá pra entender de onde vem o estilo". Como diz Canevacci, os sincretismos "brotam indisciplinados e incoerentes, de cada aspecto de nossa contemporaneidade; para subvertê-la ou, ao menos, surpreendê-la, às vezes também para confundi-la ou simplificá-la." As peças do ArtEVida, nesse mix de técnicas, formas e motivos, moldadas em mãos brasileiras, revelam um precioso sincretismo em formação.


(Matéria originalmente produzida para o Rumos Itaú Jornalismo Cultural, edição 2004/2005)


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 3/9/2009


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
3/9/2009
22h45min
Querida Elisa, obrigado por este passeio pelo ateliê ArtEVida: tudo é poético, até mesmo o nome da cidade! Consigo sentir os cheiros, os perfumes que impregnam o ateliê ArtEVida. Uma autêntica aula sobre o talento dos cinco artesãos, uma notável aula de história. Ótimo o fato de você não editar nenhuma foto do local, farei o possível pra chegar em Jandira e lá conhecer tudo ao vivo! Parabénsss pelo achado do tesouro + texto! abs e bjs do Sílvio. Campinas, é quase primavera de 2009.
[Leia outros Comentários de Sílvio Medeiros]
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