Montanhismos | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

busca | avançada
73783 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> “Bella Cenci” Estreia em formato virtual com a atriz Thais Patez
>>> Espetáculo teatral conta a história de menina que sonha em ser astronauta
>>> Exposição virtual 'Linha de voo', de Antônio Augusto Bueno e Bebeto Alves
>>> MAB FAAP seleciona artista para exposição de 2022
>>> MIRADAS AGROECOLÓGICAS - COMIDA MANIFESTO
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
>>> 1984 por Fabio Massari
>>> André Jakurski sobre o pós-pandemia
>>> Carteiros do Condado
>>> Max, Iggor e Gastão
Últimos Posts
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
>>> Izilda e Zoroastro enfrentam o postinho de saúde
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Crise dos 40
>>> Marcelotas
>>> Para ler no botequim
>>> O blog da Bundas
>>> Introdução à lógica do talento literário
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Nada a comemorar
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> O desafio de formar leitores
>>> O Tigrão vai te ensinar
Mais Recentes
>>> O Jornal da Noite de Arthur Hailey pela Record (1990)
>>> As meninas de Lygia Fagundes Telles pela Circulo do Livro (1979)
>>> Um estranho no espelho de Sidney Sheldon pela Circulo do Livro (1976)
>>> O Universo Das Comunicaçoes Humanas - Comunicação de Eneas Machado de Assis pela Mageart (1997)
>>> Literatura Comentada Guimarães Rosa de (Guimarães Rosa) pela Nova Cultural (1988)
>>> O Peregrino de John Bunyan pela Publicações Pão Diário (2020)
>>> O livro de san michele de Axel Munthe pela Círculo Do Livro (1985)
>>> Vargas E A Crise Dos Anos 50 - C. Politica de Org. Angela de Castro Gomes pela Relume (2011)
>>> Noel Rosa (literatura Comentada) de (Noel Rosa) pela Nova Cultural (1981)
>>> A Peregrina de John Bunyan pela Publicações Pão Diário (2020)
>>> Para Falar E Escrever Melhor O Portugues - Linguistica de Adriano Dagamakury pela Nova Fronteira (1989)
>>> O navegante de Morris West pela Circulo do Livro (1980)
>>> Conjunção Dos Verbos Em portugues -Pratico e Eficiente - Linguistica de Maria Aparecida Ryan pela Atica (1995)
>>> Nao Podemos Esperar - C. Politica de Martin Luther King pela Senzala (1968)
>>> A Privata Tucana -Os documentos secretos e a verdade sobre o maior assalto ... C. Politica de Amaury Ribeiro Jr pela Geração (2012)
>>> Cassino: Amor e Honra Em las Vegas de Nicholas Pileggi pela Record (1995)
>>> Nada Dura para Sempre de Sidney Sheldon pela Record (1996)
>>> Qb VII de Leon Uris pela Circulo do Livro (1970)
>>> Espiritualidade no Amor Exigente - Catolico de Pe. Haroldo Rahm , Sj pela Loyola (2012)
>>> Eu confesso tudo de J. M. Simmel pela Círculo do livro (1992)
>>> A Mitologia Na vida Cotidiana - Mitologia - Historia de Assela Alamillo pela Angra (2002)
>>> Um erro de descontinuidade de Peter F. Drucker pela Círculo do livro (1980)
>>> Diversidade dos Carismas: TEORIA e PR'TICA da MEDIUNIDADE de Herminio C.miranda pela Lachatre (2018)
>>> O analista de bagé de Luis Fernando Verissimo pela Circulo do Livro (1986)
>>> Uma Noite de Amor de Paul Verguin pela Circulo do Livro (1994)
COLUNAS

Quinta-feira, 9/7/2009
Montanhismos
Elisa Andrade Buzzo

+ de 4000 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Procura-se um texto assim: que seja tão cristalino quanto é esperar o ônibus numa manhã de inverno.

(Blocos, excertos, papéis avulsos com garranchos e um desejo de organização do que as manhãs oferecem e a madrugada oculta. É o mesmo desejo que leva aos altos e baixos, sem ele não se dorme (à espera do amanhecer que virá), não se levanta (no aguardo da madrugada), não se apanha o ônibus (no desejo de chegar), nem se escreve.)

A manhã é o ponto de partida do eterno recomeço, quando o sol começa a aquecer a atmosfera, os lojistas sobem as portas de seu comércio. Sem titubeios o momento é, no entanto, fugaz. Agora é esperar pelo dia seguinte e as cenas recomeçarão ― com o tempo, pequenas alterações irão ocorrendo, a percepção de mudança será mínima.

O ônibus passa e o mendigo continua sentado no mesmo banco. Num dia tem barba, noutro, só se reconhece que o homem é o mesmo por estar lá. Sem barba.

Num dia se vê o cachorro, feliz, castanho-avermelhado como uma raposa. Noutro, o segurança brincando com ele, depois a casinha na garagem da casa. A história se completa e se acompanha com graça da janela do ônibus, não sem um pudor de invasão.

(Pegar o lápis, acompanhar as sombras de um corpo recém-descoberto, procurar um texto meio penumbra, cheirando a uma madrugada distante ― embora verdadeiros, tudo é momentos-mentira. Uma rua residencial com prédios baixos, belos postes em ferro decorado, mergulhados numa camada de folhas estridentes. O cenário desta peça é um pano que se levanta. Acostumar-se a esta constante troca e dela recolher frações, pedaços, restos de convivência noturna.)

Nesta manhã, ainda que a luminosidade tenha a aparência fraca de um convalescente, a imagem dos autos tremelicam na miragem causada pelo asfalto quente.

(A noite insiste em aparecer e entra num café-restaurante de garçonetes tristes e jazz, tamanho provincianismo numa capital sul-americana. O carpete verde-musgo aquece os pés, o salmão dado na boca é delicioso. Rico.)

Lapa-Barra Funda, esta é uma linha repleta de motoristas e cobradoras, mulheres. Por isso, mais simpática, conversadeira. Ou, então, quieta nos momentos de reflexão que as constantes subidas e descidas ocasionam.

(Preparar-se para subir, sempre, mesmo que para em seguida simplesmente descer, mesmo que as montanhas sejam outras e que certas alturas não tenham a virtude das cordilheiras.)

O ônibus alcança o topo da avenida, como é linda a poluição do céu e o delineamento crayon dos prédios. Ainda há alguma vegetação intocável na encosta, o vento revolve os cabelos compridos. Se estes morros estão ao alcance das mãos, basta estender os braços para sentir com que familiaridade essa cidade nos abraça.

(Cenário pontiagudo no papel, moldura de pedra margeando a cidade mais linda do mundo. Por isso, inalcançável.)

Um ônibus colorido e falante, se está, afinal, numa casa-rodante, subindo aos céus e descendo aos abismos da Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. "Aqui tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador". Estamos no ápice do caos e, ainda assim, não há calmaria.

(Ela se insinua na fresta da noite, quase nua, apenas um manto branco recobrindo as curvas. Caligrafia tateada e neon terceiro-mundista clareando as noites ardentes destes outros cerros.)

Lá está o edifício Jaraguá, sobressalente como a última morada no topo de uma montanha, um bloco de concreto esculpido para olhos que, de tão dormentes, nem reparam que ele existe. Ao subir os últimos quarteirões da montanha se vê os fundos do prédio, quase todo em vidro. É subindo uma daquelas escadarias que assolam o centro da cidade ou os bairros montanhosos, como esse, que se tem acesso a ele.

Num dos andares, um enorme cacto e um homem que fala ao telefone, a que se segue uma empregada uniformizada passando com uma bandeja prateada. Com espanto não se encontram portões de ferro, nem guardas, apenas uma fonte com um tímido esguicho, as portas de vidro.

Fingimos que não nos conhecemos, você e a paisagem são peças do mesmo jogo diário. Seria capaz de ensinar o trajeto aos motoristas novatos. A subida vai recomeçar, da montanhosidade dos bairros ou das cidades, não se escapa, se aprende a caminhar.

(Tela aberta no agora das janelas, ou tela retraída em montanhas percorridas, entre a sensação e o burilar da sensação racionalizada, assim vai se fazendo a escrita, essa matéria recriada do viver.)


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 9/7/2009


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Malcolm, jornalismo em quadrinhos de Luís Fernando Amâncio
02. Alice in Chains, por David De Sola de Luís Fernando Amâncio
03. Simpatia pelo Demônio, de Bernardo Carvalho de Jardel Dias Cavalcanti
04. Arte que não parece arte de Gian Danton
05. A violência do silêncio de Carina Destempero


Mais Elisa Andrade Buzzo
Mais Acessadas de Elisa Andrade Buzzo em 2009
01. Inútil, o filme e a moda que ninguém vê - 22/1/2009
02. USP: 75 anos de histórias várias - 12/2/2009
03. A Mulher Invisível ou a literatura como salvação - 20/8/2009
04. A profundidade aparente do concreto - 30/4/2009
05. Polly - 28/5/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
9/7/2009
23h22min
Tenho um problema psicossomático que me pede cuidar a respiração. Normal é não pensar em respirar. Se fico ansioso, minha tendência é travar o diafragma. Se minha atenção é despertada por admiração, lá está ele outra vez travado. Apurei para ler teu artigo. Precisei parar algumas vezes. A culpa não era do texto. É ruim para minha saúde não respirar. Reli. Não entendi o texto. Gostei demais da ousadia. Era pra não ter muito sentido direto mesmo, dando importância À escrita como arte de interpretação individual? Com licença, vou lá fora tomar um ar...
[Leia outros Comentários de Fernando MDB]
21/7/2009
17h13min
Pelo visto, não é só escrever um texto, mas esboçar, e desenhar uma obra arquitetônica na escrita. Elaborar, instrumentalizar e garantir a satisfação de quem ler. Isto é ótimo.
[Leia outros Comentários de manoel messias perei]
19/9/2009
20h47min
Oi, Elisa, volto por aqui e leio feliz a jornada de suas palavras ;-)
[Leia outros Comentários de gisele lemper]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Contra Tudo e Contra Todos
Raul Drewnick
FTD
(1997)



Histoire de La Colonisation Française
Xavier Yacono
Puf
(1969)



Sob o Sol, a Garoa e a Fumaça
Vários Autores
Senac
(2004)



Direito Previdenciario
Wagner Balera*cristiane Miziara Mussi
Gen Metodo
(2015)



Gestão de Pessoas: uma Vantagem Competitiva?
Maria Zélia de a Souza e Vera Lúcia de Souza
Fgv
(2016)



Calabar
Chico Buarque de Holanda
Civilização Brasileira
(1987)



Sintesis Curso de Lengua Espanola-volume Unico-ensino Medio
Ivan Martin
Atica
(2011)



Ida Volta
Rubens Politto
Do Autor
(2014)



Los Truenos Que Arrasan El Mundo
J. R. Jochmans
Martinez Roca (espanha)
(1982)



Les Mythes Grecs, Tome 2
Robert Graves
Fayard
(1967)





busca | avançada
73783 visitas/dia
2,7 milhões/mês