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Terça-feira, 20/11/2001
Na terra de Asterix (e na de Hércules também)
Rafael Lima

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+ 3 Comentário(s)

Urbanismo
O centro histórico de Barcelona, pequeno que seja, não passou por nenhuma reformulação urbanística como sofreu Paris com o Barão Haussman, ou mesmo o Rio de Janeiro do começo do século com Pereira Passos, com a diferença que Passos só foi acusado de ter arruinado alguns cortiços, enquanto tem gente que até hoje culpa Haussman pela derrubada da Paris medieval para a abertura dos grandes Boulevards. No centro histórico de Barcelona não há boulevards; no máximo, algumas Avingudas mais largas, e um dos motivos disso é que no começo do século XX a atenção dos urbanistas estava mais voltada para o bairro do Eixample, onde algumas das maravilhas de Gaudí saíam do papel.

Genialidade
Gaudí foi um visionário, uma das pessoas, tal como Picasso, que viveu aquela efervescência do começo do século, quando se redefinia o modelo de vida urbana, e soube interpretar o que significava a entrada do avanço tecnológico na vida cotidiana. No seu caso, optar pela construção de formas que lembrassem a natureza, ainda que compostas de ferro fundido, concreto e argamassa: fusão de extremamente moderno e extremamente primitivo. A guia explicou que as formas em metal retorcido no portal do Palau Güell serviam para filtrar a luz externa, mas minha primeira impressão foi a de um repolho fatiado. No caso de Picasso, o cubismo, a incorporação de múltiplos pontos de vista em uma tela só, algo típico da modernidade. Sorte de Barcelona, que foi a herdeira dos trabalhos de ambos os gênios.

Bilabial
Língua esquisita é o catalão, parece uma mistura de espanhol com francês, cortando a última sílaba. Por exemplo, a expressão correlata ao por favor é si us plau. Nem me perguntem como se pronuncia isso. A sonoridade em alguns momentos lembra até o português pronunciado pelos portugueses.

Latinidad
Cruza-se a fronteira por Andorra e já dá para sentir o peso da latinidade no ar espanhol. No lado da França tem uma cidadezinha chamada L’Hospitalet daprés Andorre; na Espanha, L’Hospitalet. O trem sacode, o calor das duas é mais intenso (santa siesta!), o terno do cobrador está amarfanhado, ao contrário da inabalável elegância francesa (Parêntesis: não é nem um pouco exagero esse papo de elegância francesa. Vi uma mulher passeando na rua, os óculos, o vestido, as unhas, o sapato – até o cachorrinho combinava.), as pessoas falam mais alto e se dirigem a você sem mesuras. Em Toulouse, quando um amigo se viu emaranhado na burocracia para renovar o visto de permanência, safou-se com um conhecido esquema brasileiro: “telefona para esse amigo meu”. Europa, sim: há muito pouca diferença entre o francês, o espanhol, o italiano e o inglês. Mas não tenha dúvida que são os contornos da latinidade (e também a moeda barata, ora ora) que enchem Barcelona de ingleses, dinamarqueses, noruegueses e outros povos nórdicos no período de calor. Inglês quando quer soltar a franga se manda para Barcelona. Já alemão, não: alemão basta ir para a França. Chegando lá, a primeira coisa que faz é dar uma voltinha na Champs Ellyseés com passo de ganso...

Glória
Mesmo se não tivesse Gaudí, Barcelona ainda seria Barcelona. Se não tivesse Toulouse-Lautrec, Albi só seria a Catedral de St. Cecille. Onde tem uma pintura sensacional no altar, uma daquelas imagens do inferno medieval cheias de diabinhos espetando os pecadores com tridentes.

Explicação desnecessária do Título
Segundo o mito, Hércules teve que ir ao Jardim das Hespérides buscar os pomos de ouro (que conferiam imortalidade à quem os comesse) como um dos doze trabalhos. A região ocupada pelos tais jardins não seria outra que não a península ibérica, onde se localiza a Espanha. Portanto, Barcelona teria sido fundada pelo semideus Hércules, quando de passagem por lá...

* * *


Às armas, cidadãos!
Por causa da greve dos funcionários, fiquei sem poder entrar em alguns monumentos e museus de Paris. A cena se repetia: um bando de turistas meio desolados, a maioria japonês, tentando decifrar o que diziam os recortes de jornal e cartazes amarelos - totalmente em francês, apenas uma ou duas linhas em inglês - avisando que o museu estava fechado, enquanto vasculhava o mapa à procura de outra atração não atingida pela greve. Interessante observar no que se transformaram os ideais democráticos de liberdade, igualdade e fraternidade da revolução francesa, e em como os direitos do trabalhador e do cidadão adquiriram peso na sociedade francesa, se tornando algo mais do que natural. Apesar de contrariados, a maior parte dos cidadãos franceses apoiava a grève (palavra francesa, aliás), por ser direito dos trabalhadores, não aceitando o que chamavam de “um regresso na legislação trabalhista” (o aumento das 35 horas de trabalho semanais), e porque “todo mundo tem direito de se expressar”. Jantei certa noite com um brasileiro, funcionário duma empresa privada francesa, que me contou do protesto dos funcionários de certo prédio novo enquanto não providenciaram café e água em todos os pisos. Contou-me ainda que quando outros funcionários fizeram uma greve na frente do prédio, às 10 da manhã descia um garçon do refeitório com bandeja perguntando se os manifestantes queriam água mineral gaseuse ou plate. Aqui no Brasil perguntariam se preferiam cassetete ou tapão na orelha. Tudo isso também é exemplo de uma inarredável disposição para reclamar, para se queixar, para protestar, não fosse a França o berço da ATTAC, movimento anti-globalização, ou anti-mundialização, como chamam por lá. Em Toulouse, me contaram, onde o prefeito vai, vai um grupinho com cartazes e faixas atrás.

Aliás
Engana-se quem pensa que o esporte nacional francês predileto é o velo (corrida de bicicleta). Engana-se também quem pensa que é o futebol. Qualquer um sabe que o esporte nacional francês é a reclamação, seguida de perto do resmungo por hora. Bicicleta vem em terceiro ou quarto lugar.

Comigo, não
Esses protestos todos acontecem um pouco também por causa da imensa asa estatal que administra de museus a serviços básicos como água e coleta de lixo, deixando na mão dos trabalhadores o poder de, a qualquer hora, simplesmente parar a cidade – com o apoio dos demais cidadãos (de resto, também funcionários públicos em sua maioria). Toda e qualquer medida governamental se torna uma eterna negociação com líderes sindicais falando em nome de um povo desacostumado a abrir mão de uma vírgula dos seus direitos “arduamente conquistados ao longo do tempo”. É uma população ainda extremamente firmada na tradição e nos hábitos, na pausa para café, voltada para o processo, ao invés do objetivo, tipicamente anglo-saxão, o que explica porque burocracia tem prefixo francês e dossiê é uma palavra francesa. Para tudo tem um comitê organizado, discutindo. Esse certo reacionarismo, esse conservadorismo-funcionário-público-não-mexam-no-mundo foi ridicularizado pelos desenhistas de humor da década de 60: Gotlib, Wolinski, Reiser, Phillip Caza, até o Moebius, que ficou mais conhecido pelas histórias de ficção científica doidona, fez as suas críticas. Só depois de dar com a cara na porta fechada de alguns museus é que eu vim a entender o sentido de algumas daquelas histórias.

Mas tem um porém
Todo esse tradicionalismo acabou resultando numa cultura até anti-democrática pela maneira como se defende das manifestações estrangeiras, particularmente as norte-americanas. É louvável como a França cultiva sua cultura e história, sempre disposta a se estudar e se conhecer, apesar da potentíssima invasão norte-americana. Curiosamente, isso também explicaria a incapacidade francesa de gerar ídolos pop – entre a chanson e a música eletrônica de Air e Daft Punk lá se vão 50 anos sem um produto musical mundialmente exportável. Isso sem contar os absurdos tipo Johnny Halliday e o tal Alexandry, cópias do rock mal resolvidas.

Megalomania
Luís XIV era pancadaço, ninguém me tira isso da idéia. Mandou construir o Hotel dos Inválidos, o Louvre e Versailles. Eu que não queria ser o ministro das finanças dele, imagina só um Colbert desses, esfregando as mãos depois de terem saído de uma guerra vitoriosos, aí vem aquele cabeludo de bigodinho com uma lâmpada acesa em cima da cabeça:
- Colbert, vamos construir um palácio novo.
- Mas senhor, isso pode nos arruinar as finanças...
- Nem me venha com essa conversa. Acabei de ganhar uma guerra, estamos com o caixa gordo.
- É que eu estava pensando em sanear as finanças, talvez melhorar algumas estradas...
- Para quem? Para o povo? O povo me ama, adora esses palácios. E vê se não esquece de chamar o Le Nôtre, que eu vou querer um jardim bem bacana.
Outra profissão dura deveria ser carteiro de cidade medieval. Subir aquelas ladeiras de paralelepípedos o dia inteiro, ufa.

Primeiro mundo
Enquanto estive na França, foi lançado o álbum de quadrinhos novo de Blake e Mortimer. As livrarias expunham na vitrine, com o aviso de “Chegou!”. Deu até no noticiário da noite na televisão. Isso é que é primeiro mundo! Ainda me mudo para lá.

Californication
Em Versailles tem uma sala, um corredor, na verdade, que meio que resume a história da França, e de maneira geral, da civilização ocidental. Trata-se de uma coleção de quadros imensos, um do lado do outro, retratando as vitórias militares francesas, dos tempos de Carlos Magno até Napoleão III, a partir de quando a França só levou ferro em guerra. Depois de andar por ali o visitante entende como é que se mobilizaram os recursos necessários para levantar aquele fausto todo: na base de muita chacina. Hoje a França já não entra mais em guerra assim facilmente (Chirac colocou panos quentes na indignação do Bush, enquanto Blair tocava fogo) e ainda tem que conviver com o trauma da dominação alemã (uma foto no Museu do Exército mostra a praça do Opera Garnier na época da 2a guerra: as placas da rua estão escritas em alemão). Ironicamente, a glória de seus monumentos é preservada graças aos dólares dos turistas japoneses, os derrotados da segunda guerra. É deles que depende a manutenção dos palácios e monumentos. Acho que é mais ou menos assim que funciona: primeiro ganha-se as guerras, depois ganha-se dinheiro expondo os tesouros obtidos nelas aos perdedores. Dentro da Europa, os países vitoriosos revezaram entre si, para todo mundo ter sua chance de acumular riquezas e monumentos. Depois cada um cobra um preço pela exibição dos tesouros aos perdedores, mostrando como foram civilizados em guardar todos aqueles tesouros históricos. Sei não, mas se fosse o campeonato carioca, já tinha gente dizendo que era marmelada...

Agito
Dica descolada: Rue Oberkampf, metrô Parmentier. Área mais recente de Paris, menos turística, uma rua quase inteira, de mão dupla – cuidado ao atravessar de uma calçada para outra! – só de bares e restaurantes, de tudo que é origem: pub irlandês, bistrô francês, restaurantes marroquinos, tailandeses, vietnamitas, chineses, fast food, até... brasileiros. Passei lá meio cedo, antes do horário do agito, mas adivinhem quais eram os únicos cheios de gente? Le Barracão e o Le Boteco. Parece que francês adora caipirinha, mesmo aquela porcaria feita com limão amarelo ácido, ao invés do verdinho e pequeno, impossível de ser encontrado por lá por causa das proteções alfandegárias. No Le Barracão a formule de domingo era: feijoada + vinho + sobremesa. Queria ser francês para achar feijoada com vinho bom. Mas a rua tem um burburinho bom. Ah, o nome? Foi mudado para não confundir com um homônimo (Mont-Mesnil) e resolveram homenagear um fabricante de toalhas...

* * *


De como perdi meu cortador de unhas
Fui barrado no raio X do aeroporto de Orly por causa de um couteaux, um cortador de unhas, que deveria ter sido despachado no check in. No Brasil, me alertaram com antecedência, mas em Orly o aviso foi feito em cima da hora, obrigando a entrar na fila de novo. Me imaginei esperando aparecer na esteira de bagagens uma pecinha de metal de 6 cm, embalada numa etiqueta de segurança maior do que o próprio cortador. O terrorismo está fazendo o primeiro mundo perder a noção de ridículo. Mas faltavam apenas 10 minutos para partir, meu nome já era chamado nos alto-falantes, a funcionária parecia, como todos os franceses, mais interessada na história do chato na minha frente do que em fazer a fila andar, e decidi perder o cortador ao vôo. Enquanto isso, é importante notar, todas as facas distribuídas nas refeições de bordo continuam sendo de metal.
Agora, absurdo mesmo, foi a velhinha que vinha atrás de mim ter sido barrada por causa de 3 agulhas, atenção, de costura, não eram nem de tricô. Francês já gosta de reclamar, e aquela velhinha resmungou muuuuuuuuuuuito.

Da cintura para cima
Picasso recebeu influência de meio mundo, inclusive Toulouse-Lautrec, e fez até uma ou duas gravurinhas de dançarinas de can-can, no estilo que fez famoso o tampinha francês, não fosse o espanhol outro grande freqüentador do bas fond quando jovem. Mais do que a valor temática de gente de rua, vinda com o modernismo, ao contrário dos santos, reis e guerreiros, fiquei com a impressão de que uma das inovações trazidas por Toulouse-Lautrec foi o enquadramento em plano americano – da cintura para cima – dos modelos. Os retratos anteriores, oficiais ou não (pensem em Velasquez, para uma referência), pegavam o corpo inteiro ou fechavam o close do busto. Toulouse-Lautrec, além de enquadrar apenas o torso e a cabeça, costuma pegar seus modelos em poses não estudadas, uma bailarina relaxada após um número, um garçon em meio a um movimento; naturalismo, enfim. Tudo isso foi o resultado das observações da agitada vida noturna de Montmartre (fantasticamente retratada no filme Moulin Rouge, mas não esqueçam o do John Houston), que conferiram esse aspecto de crônica às pinturas e gravuras de Toulouse-Lautrec.

Só comigo essas coisas acontecem
No vôo da volta havia algumas mulheres integrantes da equipe de fisiculturismo da Eslováquia e da França. Uma delas pediu para trocar de lugar com um senhor, para que pudesse ficar junto de uma colega. Fiquei imaginando o que aconteceria se o cara dissesse não.
No Museu do Erotismo, em Pigalle (a Prado Júnior francesa) estava tocando Cálice, do Chico Buarque. Versão Maria Bethania!

Mercados
Cordes-sur-Ciel é uma cidadezinha medieval que parou no tempo, com um clima misterioso e místico que encantava surrealistas (na porta de cidade tem uma plaquinha com citação de Albert Camus). Ao lado da igreja foi preservado o espaço onde ficava originalmente o mercado da cidade, a praça principal onde os comerciantes armavam suas barracas e provavelmente para onde o povo ia depois da missa, no domingo. Essa praça onde ficava o mercado - em francês les halles - é ponto importante em qualquer cidade antiga, e às vezes ainda está preservado e em funcionamento, como o Mercado de La Boqueria de Barcelona. O mais famoso mercado a céu aberto de Paris, Les Halles, foi removido há 40 anos do local onde funcionava, cedendo espaço para o que hoje é um modernoso shopping center subterrâneo. Mas se você quiser ter um vislumbre de como era aquela área, basta dar um pulo à igreja de Saint German des Prés ali perto e procurar um altar - isso mesmo, um altar - lateral onde um quadro e um longo texto discorrem sobre os tempos dourados daquela região. Só não dê mole dentro da capela porque tem uma velhinha lá dentro que fala pelos cotovelos e vai querer te contar a história da Igreja desde os vikings até as últimas reformas.

Só matando
Fato real: uma argentina de Buenos Aires que foi estudar em Toulouse quando chegou lá, depois do primeiro giro pela cidade disse: “Igualzinho ao meu país!”. Isso porque o Teatro Municipal do Rio é foi que foi baseado na Opera Garnier...


Rafael Lima
Rio de Janeiro, 20/11/2001


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/11/2001
13h09min
rAFA vALEU A VIAGEM. é ISSO AÍ, PARA O TEU CASO: LEIA MENOS.... VIAGE MAIS AH SIM! NÃO ESQUEÇA O SERTÃO DO CARIRI, SERRA DO ARARIPE, EXÚ, BODOCÓ, RANCHARIA ETC. LÁ É Q ESTÃO OS FATOS Q FAZEM DIFERENÇA. PARIS? BARCELONA ? SHUUUUUUUUUU SERVIO
[Leia outros Comentários de PEDRO SERVIO]
21/11/2001
17h57min
Rafael, Tava inspirado, heim???? E, contraditóriamente, meio telegráfico. A impressão que se tem ao ler é que era tanto a dizer que foram necessários muitos pequenos textos... Coisa muito boa é escrever sobre experiências concretas, né? Abraços, Ana.
[Leia outros Comentários de Ana Veras ]
22/11/2001
08h47min
Pedro: A diferença está onde a gente é capaz de enxergá-la (e de criar os fatos). Tua mensagem me lembrou aquela frase que diz que o turista vê o que veio ver, enquanto o viajante vê o que vê. Ana: Outro motivo para os pequenos textos é a minha incapacidade de descrever o elefante todo, por isso eu fico falando das pernas, do orelhão, do rabinho... Aos dois: Vocês têm toda razão quando dizem que escrever sobre experiências concretas é melhor. Valeu.
[Leia outros Comentários de Rafael Lima]
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