Impressões | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

busca | avançada
87666 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Nova Exposição no Sesc Santos tem abertura online nessa quinta, 17/06
>>> Arte dentro de casa: museus e eventos culturais com exposições virtuais
>>> “Bella Cenci” Estreia em formato virtual com a atriz Thais Patez
>>> Espetáculo teatral conta a história de menina que sonha em ser astronauta
>>> Exposição virtual 'Linha de voo', de Antônio Augusto Bueno e Bebeto Alves
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
>>> 1984 por Fabio Massari
>>> André Jakurski sobre o pós-pandemia
>>> Carteiros do Condado
>>> Max, Iggor e Gastão
Últimos Posts
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
>>> Izilda e Zoroastro enfrentam o postinho de saúde
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Balangandãs de Ná Ozzetti
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> A sétima temporada de 24 horas
>>> De olho neles
>>> Saudações cinemusicais
>>> 1998 ― 2008: Dez anos de charges
>>> The Book of Souls
>>> Carta ao pai morto
>>> Rousseau e a Retórica Moderna
>>> A vida mais ou menos
Mais Recentes
>>> Meu dia com Padre Gregório, scj de Padre Gregorio pela N/a
>>> O Primeiro Bilhão de Christopher Reich pela Best Seller (2004)
>>> Poderes do Pensamento de Omraam Mikhaël Aïvanhov pela Prosveta (2018)
>>> Manual do Astrólogo de Landis Knigh Green pela Pensamento (1975)
>>> Noções de Symbologia Esoterica de Circulo Esotérico pela Circulo Esotérico (1941)
>>> Juventude e Revolução de Hermes Zaneti Junior pela Unb (2001)
>>> Dharma de Annie Besant pela Pensamento (2008)
>>> Fome do Cão de Táki Athanássios Cordás pela Maltese (1993)
>>> Mere Christianity de C. S. Lewis pela Harper Usa (2000)
>>> Gandhi Autobiographie ou mês Expériences de Vérité (Francês) de Gadhi pela Puf (2010)
>>> Tábuas de Casa para o Hemisfério Sul de Carlos Alberto Boton pela Pensamento (1993)
>>> Tao Te King de Lao Tsé pela Attar (1988)
>>> Um Caso que Sugere Reencarnação Jacira X Ronaldo de Hernani Guimarães Andrade pela Ibpp (1980)
>>> Um Caso que Sugere Reencarnação Simone X Angela de Hernani Guimarães Andrade pela Ibpp (1979)
>>> Guia Prático de manobras de Eric Tabarly pela Edições marítimas (1983)
>>> Pegadas de Roberto Adami Tranjan pela Gente (2005)
>>> Como Planejar sua Carreira de Varios Autores pela Povo (2003)
>>> Perguntas Bíblicas Extrovertidas de Tio Cornélio pela J&f Artes Gráficas (2004)
>>> Mere Christianity de C. S. Lewis pela Macmillan Pub Co (1984)
>>> Gestão Financeira de Negócios de Aurélio Hess pela Cart-Impress (2005)
>>> Luz Emergente A Jornada de Cura Pessoal de Barbara Ann Brennan pela Cultrix (2003)
>>> Jesus, um Profeta do Islão de Muhammad Áta Ur-rahim pela Al Furqán (1995)
>>> Buda O Mito e a Realidade de Hérodoto Barbeiro pela Madras (2005)
>>> Gandhi O Apóstolo da Não - Violência de Martin Claret pela Martin Claret (1983)
>>> Concentra-te em Ti Mesmo de Miguel Lucas pela Loyola (1987)
COLUNAS

Sexta-feira, 13/11/2009
Impressões
Marta Barcellos

+ de 3000 Acessos
+ 1 Comentário(s)

"Você não escreveu sobre suas impressões de Madri", cobrou-me uma amiga. É verdade. Aí lembrei que tinha achado esquisito quando um conhecido, habitué de viagens exóticas, comentou ter como regra jamais tirar fotografias, e nem mesmo fazer anotações ― e olha que ele escreve bem. Agora, eu me identificava. Além de não escrever sobre, também não imprimi as fotos da Espanha.

Já venho postergando a impressão de fotografias há mais de ano. Sempre acho muito caro, para algo tão disponível no onipresente computador. Aliás, as tais fotos, desta última viagem, mostrei para algumas pessoas no meu netbook-de-um-quilo. Mas fiquei em dúvida com relação ao efeito de abri-lo no restaurante, interrompendo a conversa do grupo: talvez eu estivesse reproduzindo demais a cena de sacar da bolsa aqueles álbuns de fotos pesadões, que assustavam mas pelo menos podiam ser folheados displicentemente pelos amigos. Pior, pode ter ficado parecido com as antigas sessões de slides (nossa, põe antiga nisso).

Mas voltando às impressões de fatos e fotos, nestes tempos em que imperam a concisão e a rapidez, uma frase de impacto tornou-se indispensável para fisgar a atenção da audiência ― o que vale também para narrativas de viagem. A rapidez, confesso, não me atrai tanto como no passado, mas a busca da concisão é sempre um bom desafio. Pois, mais de uma vez, flagrei-me pensando sobre a minha impressão da Espanha. Veja bem, não "as impressões", mas "a impressão".

Claro que isso é pretensioso. Mas, quando pisamos pela primeira vez em uma grande cidade europeia, não há meio termo: ou você dá sorte de tropeçar em uma experiência inusitada/emblemática ou cai no lugar comum de uma sessão de slides. A propósito disso, lembro da decepção da minha amiga quando, no último dia da viagem, encontrou uma preciosa lista de "dicas" de Madri esquecida no fundo da mala. Teríamos perdido a oportunidade de conhecer algo sensacional e escondido? Nada disso. A lista, feita com esmero por alguém que acabara de voltar da Espanha, reproduzia ipsis literis os lugares obrigatórios dos guias turísticos.

Aqui é hora de admitir que, sim, tínhamos feito os mesmos programas. De todos os turistas. Mesmo assim, pensei, eu poderia acrescentar o meu olhar para tornar interessante um relato de viagem. Poderia, por exemplo, escrever sobre como fiquei impressionada com o Museu do Prado; sobre a sensação de descobrir que obscuros recantos da alma humana eram acessados somente por artistas do passado; sobre pensar em onde escondemos hoje sentimentos assim tão pungentes; e se a desculpa da rapidez e da necessidade de concisão nos ajudaria a camuflar ou esquecer a nossa sombria natureza em comum com esses antepassados, permitindo-nos apenas alguma emoção diante de uma pintura imponente em um museu.

Mesmo assim, eu corria o risco de parecer óbvia, até pretensiosa, querendo falar de arte, leiga que sou. Além do que, estaria omitindo outras impressões ― dessas que impregnam os sentidos e ficam incutidas na memória ― menos exuberantes. Porque nossos sentidos (visão, audição, olfato, gosto e tato) não querem saber de motivações intelectuais, eles se atêm a banalidades. A verdade é que a primeira palavra que me vem à mente hoje, quando penso em Madri, é: poeira. Comia poeira sempre que saía do meu hotel bem localizado, no Centro, onde a prefeitura promovia imensas obras sem tapumes, com operários quase esbarrando nos pedestres, e o clima seco só tornava a experiência mais penosa.

Foi assim que comparei Madri com a Berlim que conheci como um grande canteiro de obras, poucos anos após a derrubada do Muro. Mas não me recordava de ter sofrido tanto com aquele transtorno, talvez porque o governo local fazia dele um acontecimento, com direito a passeios de barco para apreciar os gigantescos guindastes em ação, mostrando os projetos em andamento, e dessa forma os turistas se sentiam parte da história de reconstrução da "nova" capital alemã.

Novamente meus sentidos cismaram de encontrar semelhança entre Madri e Berlim, tão diferentes na essência, quando ia atravessar uma avenida, e fui atraída por pios de pássaros que vinham do sinal de pedestres, programado para alertar deficientes visuais. Na Berlim pós-Muro, o "homenzinho do semáforo" ― ora verde, ora vermelho, mas sempre de chapéu ― tornava-se então cult, e era adotado na sinalização da parte ocidental, além de enfeitar todo tipo de souvenir. Pelo menos na época, tratava-se de um símbolo da integração, que guardei com encanto em algum lugar da memória, aguçada novamente pelos pios de Madri.

Os barulhos e os cheiros de uma cidade inquietam os visitantes, talvez porque jamais farão parte de um álbum de recordações. Em Madri, era impossível ignorar o forte odor de cigarro nas ruas de pedestres totalmente vazias, à noite, com o comércio já fechado. De Bangcoc, jamais vou esquecer o cheiro nauseante de gordura e temperos vindos de barraquinhas que fritavam quitutes, devidamente listados como temerosos em guias turísticos.

Tudo fica mais fácil (para o viajante atrás de certezas) quando se consegue identificar a origem dos cheiros e barulhos. Em Budapeste, porém, passei quatro dias intrigada com as sirenes ― de ambulâncias e carros de polícia, creio, já que é impossível ler os letreiros em húngaro. Pelo menos para a sensibilidade de meus ouvidos, havia sempre uma viatura apressada pelas ruas. A minha curiosidade, no entanto, não parecia sensibilizar mais ninguém: era como se as sirenes fossem casuais para todos; repetiam-se apenas em minha mente paranoica. Mistério.

Mas nada se compara ao registro deixado por uma experiência extrema com um clima diferente do nosso. Há poucos dias, numa Ipanema surpreendida por uma onda de calor em plena primavera, pude observar gringos saindo da praia com a marca indelével de sua viagem. Com certeza, jamais esquecerão o dia em que pegaram uma queimadura daquelas, na cidade maravilhosa e escaldante, e mesmo assim contarão essa história com saudades, depois que a pele estiver branquinha novamente. Não será diferente dos brasileiros que costumam se gabar de quando tiveram os sapatos enlameados pela neve imprevista, sem disfarçar o prazer de ainda ter uma sensação do passado tão vívida na memória, e poder usufruir dela com os pés quentinhos, plantados em seu país tropical.

Quem sabe, em vez de ignorância, não é o desejo de guardar uma forte impressão que leva os viajantes a desafiarem o clima de um lugar desconhecido. Em Londres, por exemplo, apesar das manjadas histórias sobre suas hostis condições climáticas, consegui amealhar uma recordação assim em um início de outono. O "mico", não por acaso, envolveu um cartão postal: sem táxi por perto, tive que atravessar a London Bridge depois de um jantar, para pegar o metrô. Claro que eu estava com uma roupa inadequada para a chuva que começaria a me açoitar logo no começo da ponte. Quando finalmente sentei no vagão quentinho, a surpresa: a roupa encharcada tinha secado em questão de minutos. Inesquecível.

Nota do Editor
Marta Barcellos mantém o blog Espuminha de leite.


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 13/11/2009


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Nem morta! de Ana Elisa Ribeiro
02. O massacre da primavera de Renato Alessandro dos Santos
03. Os Doze Trabalhos de Mónika. Prólogo. Sem Alarde de Heloisa Pait
04. Super-heróis ou vilões? de Cassionei Niches Petry
05. Srta Peregrine e suas crianças peculiares de Ricardo de Mattos


Mais Marta Barcellos
Mais Acessadas de Marta Barcellos em 2009
01. Gostar de homem - 25/9/2009
02. Simplesmente feliz - 24/4/2009
03. Escrever pode ser uma aventura - 3/7/2009
04. Palavras que explodem no chão - 19/6/2009
05. Fim dos jornais, não do jornalismo - 3/4/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
14/11/2009
14h36min
Querida Marta, adorei o seu texto. Eu também detesto esta "rapidez" do tempo capitalista de não ter tempo pra nada! É algo diabólico! Penso que o seu texto/depoimento em muito contribui para que possamos escrever de uma forma coletiva a última proposta para o próximo milênio de Italo Calvino; desafortunadamente, a morte do referido autor nos privou de conhecer "Concisão" (sexta proposta) do brilhante poeta/escritor/narrador cubano-italiano. Abs do Sílvio. Campinas, é quase verão de 2009.
[Leia outros Comentários de Sílvio Medeiros]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Horizontes - Autografado
Thereza Christina Rocque da Motta
Ibis Libris
(2014)



O Direito de Ação e o Modo de Exercê-lo (capa Dura)
Ataliba Vianna (2ª Edição)
Forense (rj)
(1969)



La Maniere Detre Lecteur - Apprentissage et Renseignement de La
Jean Foucambert
Ocdl-sermap (paris)
(1976)



O Livro Verde - the Green Book
Elizabeth Rogers e Thomas M. Kostigen
Sextante
(2009)



Retrato sem Legenda
Anna Maria Martins
Siciliano
(1995)



Introdução ao Processamento de Textos
G L Simons
Campus
(1984)



Os Reais Segredos de Jfk;
Grandes Temas do Conhecimento, 12
Mythos
(2014)



Dano Moral e o Direito do Trabalho 2ª Edição
Valdir Florindo
Ltr (sp)
(1996)



Lettres Damour à Aimée Dalton
Alfred de Musset
Mercvre
(1910)



Rashi : Ebauche Dun Portrait
Elie Wiesel
Grasset & Fasquelle
(2010)





busca | avançada
87666 visitas/dia
2,7 milhões/mês