Palavras que explodem no chão | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 19/6/2009
Palavras que explodem no chão
Marta Barcellos

+ de 5100 Acessos
+ 6 Comentário(s)

O papo on-line corria solto, a partir de um link qualquer sobre monetização de blogs. Um participante do grupo, fazendo piada sobre o próprio desempenho como blogueiro empreendedor, revelou ter obtido por meio do AdSense um fabuloso lucro de US$ 0,57, o suficiente para comprar uma carteira de Derby. Um de seus interlocutores, provavelmente não fumante, sentiu a necessidade de uma comparação mais próxima, e lembrou que daria também para adquirir um pacote de estalinhos.

"O que é estalinho?", perguntou o blogueiro ex-fumante, fazendo desaparecer subitamente o tom jocoso da conversa. Eu, que às vezes me sinto infiltrada no grupo de colaboradores do Digestivo, entre tímida e ocupada demais para participar, percebi a enrascada de quem tinha feito a comparação. Como você, leitor que sabe o que é um estalinho, provavelmente morador do eixo Rio-São Paulo, faria uma descrição rápida e por escrito do que se trata?

No impulso, o não fumante foi explicando: "Ah, é um trem que a gente joga no chão..." Aqui a interrupção é minha. Um mínimo dos vocábulos usados no Rio e em São Paulo eu domino, porque morei nas duas cidades. Em assuntos relacionados ao universo infantil, considero-me quase especialista, já que presenciei a transformação de "bexiga" em "balão", "escorregador" em "escorrega" e "bolacha" em "biscoito" no ainda parco vocabulário da minha filha, na época da mudança. Estalinho, eu poderia garantir, faz parte de ambos os idiomas, "paulistês" e "carioquês". Mas nenhum paulista ou carioca se referiria a um artefato do tamanho de uma ervilha como a um "trem". Pelo visto, os domínios do estalinho eram maiores do que eu imaginava, deviam chegar também a Minas Gerais.

Enquanto eu tentava buscar no cérebro registros de "trens" pequeninos além-Minas, para não rotular precocemente o não fumante de mineiro, um outro participante do grupo, remetido ao universo lúdico-infantil, conseguiu colocar mais ruído na conversa. "Acho que estalinho é o mesmo que biriba em São Paulo", arriscou. Tinha confundido as brincadeiras: saiu da festa junina e foi parar no carteado. Ou eu estaria enganada dessa vez? Uma busca rápida no Aurélio confirmaria a minha suspeita de que o outro nome dado ao jogo biriba é buraco, e não estalinho. Mas acabei fazendo nova descoberta: além do jogo de cartas propriamente dito, biriba é também o nome do morto.

O nome do morto??? Sorte eu não ter entrado na conversa para explicar que biriba pode ser o morto do buraco. Já pensou a confusão, se o jogo só for conhecido assim no Rio? É verdade que o "carioquês" costuma ser bem compreendido em outros estados, provavelmente por conta das novelas da Globo. Mas daí a correr o risco de precisar esclarecer, em poucas palavras, o que é um jogo de buraco ou pacote de estalinho, sem direito a nenhuma mímica... Pois o Aurélio consegue, com pouca concisão. "Biriba: cada um dos montes de cartas que os parceiros que primeiro descartam as suas tomam para continuar o jogo, sem o quê não podem bater. Morto." Pela primeira vez me dei conta de como deve ser difícil a vida de um dicionarista. Não dava para culpar o provável mineiro por dizer que estalinho era um trem: como é difícil achar as palavras exatas para explicar algo tão simples!

Como ele ia dizendo, estalinho é um trem que a gente joga no chão e, continuou, "...explode, fazendo um estalo. É assim que a gente chama aqui no Amapá." Outro equívoco desfeito: apesar de recorrer ao "trem", o não fumante tampouco era mineiro.

Confesso que, nessas alturas, estava deliciada. Sou totalmente fascinada pelos regionalismos que separam e unem o nosso país. Por trás de cada expressão que nos causa estranhamento, está uma riqueza cultural a ser explorada, palavras nada aleatórias que revelam um pouco da história daqueles brasileiros ― tão diferentes, tão parecidos. E a aventura desse encontro dispensa agora longas jornadas de ônibus, passagens caríssimas de avião etc. Está tudo aqui, bem vivo, na internet, em bate-papos de gente que é amiga mas curte os festejos juninos de forma diferente. No final, todo mundo se entende.

O trem, por exemplo, não atrapalhou. A explicação do amapaense foi suficiente para o blogueiro ex-fumante e pouco monetizado entender o estalinho. "Saquei. Em Recife é traque de massa e aqui em Brasília eu não me lembro." Traque de massa. Bárbaro. E eu me achando muito culta com meu limitado vocabulário Rio-São Paulo. No dicionário, finalmente, decifro a charada inteira. Com as festas de São João tão próximas, vale a pena anotar. "Estalo: artefato pirotécnico, assim chamado porque dá um estalo quando arremessado contra um corpo duro." No Norte, é conhecido também como troque; em Alagoas, traque de chumbo; na Bahia, traque de massa; e no Rio haveria uma segunda denominação, de chumbinho (nunca ouvi falar).

Para quem não se encanta com o assunto, como eu, e acha que os transtornos na comunicação superam a curiosidade de encontrar expressões inusitadas aos nossos ouvidos regionais, vale lembrar que a confusão só vai aumentar. Tudo indica que, com a padronização do português, e seus reflexos em iniciativas editoriais, teremos muito mais contato com expressões lusitanas. Antes de reclamar pela enésima vez da tal unificação, vejamos o lado positivo: com um pouco de paciência, teremos muita diversão pela frente.

Nota do Editor
Marta Barcellos mantém o blog Espuminha de leite. Leia também "É a mãe".


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 19/6/2009


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* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/6/2009
22h24min
Em São Paulo bolacha ainda é bolacha. Uma das diversões no meu ex-trabalho era mostrar bolachas para os cariocas e perguntar como aquilo chamava, para eles falarem que era biscoito. Também tinha uma diferença de percepção entre bolo e torta, mas eu esqueci. >.<
[Leia outros Comentários de Carolina]
22/6/2009
17h04min
O povo de nosso país tem várias maneiras de pronunciar o "português" e é sempre interessante prestar atenção na riqueza de detalhes da pronúncia, alimentação, vestuário e muitas outras "coisinhas" que às vezes não percebemos. Nosso Brasil é uma colcha de retalhos, tecido por cada região de maneira diferente, tornando nosso país rico nas divergências.
[Leia outros Comentários de Solange Boy]
22/6/2009
19h12min
Sabe, consigo aceitar as maiores tragédias da vida, desde que encontre algum consolo, mesmo que duvidoso. O seu argumento sobre a padronização do português até me serviria de consolo, não fosse eu apaixonado pelo trema. Gosto tanto, mas tanto, que acho que até "água" deveria ter trema: fica muito mais chique. Quanto à torta e ao bolo de Carolina, acredito que torta tenha recheio (e cobertura), enquanto que o bolo, não. Pelo menos no Rio Grande do Sul é assim. Agora, se gentes de outros estados colocam recheio no bolo e servem a torta a seco, isso já não é problema nosso, né?
[Leia outros Comentários de Sniffer]
24/6/2009
18h50min
Marta, adorei o texto! Também tenho muito interesse por esses regionalismos linguísticos. E, curiosamente, há poucos dias assisti a uma conversa do meu filho (que já mora em São Paulo há alguns anos) com minha mãe, francana-quase-mineira (Franca, no interior de São Paulo, tem características culturais de Minas, pela proximidade regional e origem histórica). "Vó, eu também chamava de estalinho, mas em São Paulo chamam de biribinha." E aquelas lagartas peludas, que queimam a pele? Lá são mandruvás, taturanas! E as deliciosas bolachinhas feitas para comer com café? Quitandas! Não é um barato? Parabéns e abraços.
[Leia outros Comentários de Roberta Resende]
1/7/2009
09h04min
Bom dia, tarde ou noite, Marta. Como mineira posso dar minha colaboração nesse "troço". Confesso que desconhecia que o "trem" viajava para tão longe, lá na ponta. Mas aqui, em Minas Gerais, Trem é Tudo. É coisa grande e coisa pequena, é comida, objeto, veículo, bebida, brinquedo... E independente do que se quer dizer, o "trem" explica e todos nós entendemos. É incrível como a palavra sai "sem querer" e não causa estranheza na conversa. Assim como o famoso UAI. Não adianta uma pessoa de fora tentar falar UAI que não sai (digamos) certo. A gente percebe que não é daqui. Pelas várias entonações e significados o UAI é diferente. Ele é exclamação, interrogação e ponto final. Da mesma forma, pode reparar, o mineiro engole a última sílaba. "Mess" é "mesmo". Mas se você procura uma característisca forte "mess", repare nos diminutivos. Não ria, mas tudo a gente diminui. - Vamos tomar uma cervejinha aqui pertinn? - Aceita um queijinn? - Vou lá rapidinn e não demoro. (Sou mineiríssima e confesso. Uai!)
[Leia outros Comentários de Bianca]
13/7/2009
17h32min
Adorei o texto e também adoro os regionalismos e os sotaques. Muitas vezes, dentro da mesma cidade, encontramos falares diferentes. Aqui no Rio há uma certa "rivalidade" entre os adeptos do "sÔtaque", do "cÔncerto", do "tÔmate" e os do "sUtaque", "cUncerto" e "tUmate". Eu na verdade sou do time dos que virou a casaca. Era do segundo time, passei pro primeiro de tanto ser sacaneado por causa disso... E fiquei curioso a respeito da diferença entre torta e bolo, que nunca soube. Aqui no Rio, diferente do RS do Sniffer, torta é molhada e geralmente gelada, e bolo, não, ainda que confeitado e recheado.
[Leia outros Comentários de Paulo Mauad]
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