Bobagem | Adriana Donatello | Digestivo Cultural

busca | avançada
50081 visitas/dia
1,9 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Balé de repertório, D. Quixote estará no Teatro Alfa dia 27/1
>>> Show de Zé Guilherme no Teatro da Rotina marca lançamento do EP ZÉ
>>> Baianas da Vai-Vai são convidadas de roda de conversa no Teatro do Incêndio
>>> Airto Moreira e Flora Purim se despedem dos palcos em duas apresentações no Sesc Belenzinho
>>> Jurema Pessanha apresenta sambas clássicos e contemporâneos no teatro do Sesc Belenzinho
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> O melhor da Deutsche Grammophon em 2021
>>> A história de Claudio Galeazzi
>>> Naval, Dixon e Ferriss sobre a Web3
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
Últimos Posts
>>> Brega Night Dance Club e o afrofuturismo amazônico
>>> Fazer o que?
>>> Olhar para longe
>>> Talvez assim
>>> Subversão da alma
>>> Bons e Maus
>>> Sempre há uma próxima vez
>>> Iguais sempre
>>> Entre outros
>>> Corpo e alma
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Na minha opinião...
>>> Tempo vida poesia 4/5
>>> Torce, retorce, procuro, mas não vejo...
>>> Lambidinha
>>> Lambidinha
>>> 12 tipos de cliente do revisor de textos
>>> A Grande História da Evolução, de Richard Dawkins
>>> Reid Hoffman sobre Marketplaces
>>> Malcolm, jornalismo em quadrinhos
>>> PETITE FLEUR
Mais Recentes
>>> Jogos para a Estimulação das Múltiplas Inteligências de Celso Antunes pela Vozes (1999)
>>> Por Amor de Nossos Filhos - de Dietmar Rost pela Paulinas (1985)
>>> O jogo do anjo de Carlos Ruiz Zafón pela Objetiva (2011)
>>> Reflexões Sobre O Ensino Da Leitura E Da Escrita de Ana Teberosky e Beatriz Cardoso pela Unicamp (1991)
>>> Reflexões Sobre O Ensino Da Leitura E Da Escrita de Ana Teberosky e Beatriz Cardoso pela Unicamp (1991)
>>> Os 100 Segredos dos Bons Relacionamentos de Davd Niven pela Sextante (2003)
>>> Minha Vida de Walter Sandro pela Wgs Group (2004)
>>> Minha Vida de Walter Sandro pela Wgs Group (2004)
>>> Apologia de Sócrates-Banquete-Platão de Platão pela Martin Claret (2008)
>>> Manual de Direito Penal volume 3 de Julio Fabbrini Mirabete pela Atlas (1987)
>>> Motivação e Sucesso de Walter Sandro pela Wgs Group (1990)
>>> Manual de Direito Penal volume 2 de Julio Fabbrini Mirabete pela Atlas (1987)
>>> Cigarros Coleção Doutor Drauzio Varella de Drauzio Varella pela Gold (2009)
>>> Teoria Geral da Administração de Antonio Cesar Amaru Maximiano pela Atlas (2000)
>>> Matemática Financeira de João Carlos dos Santos pela Educacional (2015)
>>> Contabilidade de Gisele Zanardi P Wagner Luiz V Willian F dos Santos pela Educacional (2015)
>>> Elementos de Direito Constitucional de Michel Temer pela Revista Dos Tribunais (1983)
>>> Solanin 2 - Pocket de Inio Asano pela L&pm Pocket (2006)
>>> Niño y adolescentes creciente en contextos de pobreza de Irene Rizzini, Maria Helena Zamora e Ricardo Fletes Corona pela Puc (2006)
>>> Solanin 1 - Pocket de Inio Asano pela L&pm Pocket Manga (2006)
>>> 25 Anos do Menino Maluquinho - Já? Nem Parece! de Ziraldo pela Globinho (2006)
>>> Todos os Milhões do Tio Patinhas - Volume 1 de Vitaliano; Fausto pela Panini Comics (2020)
>>> Chavez Nuestro de Rosa Miriam Elizalde e Luis Báez pela Abril
>>> Nos labirintos da moral de Mario Sergio Cortella e Yves de La Taille pela Nos labirintos da moral (2005)
>>> Minha Imagem -Romance Espirita de Schellida / Eliana Machado Coelho pela Lumen (2013)
COLUNAS

Terça-feira, 27/11/2001
Bobagem
Adriana Donatello

+ de 5000 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Outro dia, um amigo me disse uma das mentiras mais simpáticas que já ouvi. Eu estava no carro reclamando que falo sem parar o tempo inteiro, e que de vez em quando alguém devia me mandar calar a boca (aliás, esta é uma grande verdade). Aí ele me vem com a seguinte bravata: “Você fala muito, mas não fala bobagem”. Meu Deus!! O que é isso?? Tanto esforço para falar bobagem e esse fulano me sai com essa?! Logo ele, um cara tão sabido. Justo ele foi cair neste papo de que o que eu falo faz sentido?!

Eu me formei em psicologia. Resolvi trabalhar dentro de empresas porque afinal vocês sabem que é mais fácil estudar os bichos em cativeiro. Fiz meu estágio em um hospital psiquiátrico e toda quarta ao meio-dia meu pai ligava pra casa pra saber se eu já tinha chegado (“um dia você fica por lá”). Durante os poucos mas intensos meses em que freqüentei o Adauto Botelho, eu me aprofundei no estúpido hábito de pensar na vida. Chegar em casa, tomar banho e deitar na rede pra pensar na vida. Ficar lá, empurrando a rede com o pé, olhando ora para o teto ora para o tapete, procurando alguma coisa complicada que tomasse o meu pensamento até a hora de dormir. Com freqüência eu encontrava, naturalmente a tal “hora de dormir” ficava pra mais tarde e eu ficava lá rolando na cama, com a cabeça zunindo, pensando: ô bosta de vida...

Aí eu pensava nos pacientes do Adauto. Como eles tinham chegado lá, o que tinha acontecido com eles até a internação, por quê, quando, como foi. Como eles sofriam com a falta de respeito, de amor e de higiene naquela pocilga de hospital. Como eles se divertiam com a nossa cara, fingindo entrar em surto quando as estagiárias chegavam no pátio, comendo todo nosso chocolate, fumando todo o nosso cigarro e saindo dando risada. Aí eu pensava no Alienista (grande livro), como o ser humano é medíocre, como o Machado de Assis é genial, como as coisas mudaram tão pouco em 100 anos. Aí eu pensava que até hoje não li Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aí eu pensava como o Paulo Francis faz falta. Aí eu pensava como preciso de um sapato novo. Aí eu pensava. Aí eu pensava. Aí eu pensava. Ai, ai, já são 3:30 da manhã e amanhã tem aula...

Eu ficava pensando em todas as coisas no universo e como elas se relacionam, e sempre terminava os pensamentos com: “Hump, saco...” Sabe aquele ditado que diz que quanto maior o seu conhecimento maior a sua ignorância? Que quanto mais você estuda mais você tem consciência do quão pouco você sabe? Que quanto mais você tenta digerir tudo que te acontece mais você enlouquece pensando que nunca vai conseguir? E aí no meio desta fase “cabeça em purê de batata”, eu tava lá enfiada num hospício.

Devo confessar que foi uma das fases mais peculiares da minha passagem por este planeta. Sabe aqueles dias em que você bebe um pouco mais do que a sua mãe gostaria, levanta chapado, sai andando e de repente tudo fica meio sem sentido? Proporção, profundidade, cor, som, conversas, nada é real. Pois então. Imagine sair numa rua qualquer num dia qualquer e de repente ser acometido por um súbito ataque de surrealismo misturado com efeitos de embriaguez (well, sem o enjôo da catchaça...). De repente todo mundo é estranho, as feições das pessoas ficam bizarras, as cores não combinam mais, os sons são distorcidos. Rapaz, devo dizer que eu passei uns meses com um pé de cada lado da sanidade mental... Passei a duvidar de tudo que eu via e achava mesmo que estava ficando louca.

Aí eu concluí que era tudo efeito do excesso de pensar na vida. Quanto mais você tentar mastigar mais você engasga, isso sim. Esse negócio de sanidade é uma bobagem. O normal é uma bobagem. Ele simplesmente não existe! Dentro do Adauto não tem nada que não tenha aqui fora. A gente passa a vida (piora muito quando se estuda psicologia) tentando encontrar o ponto médio da sanidade mental, a referência correta, a forma de existência em perfeito equilíbrio com o universo. Mas não há nada assim. Que coisa hein? A gente precisa enlouquecer para ver que é normal. Que normal é só isso mesmo e que de fato todo mundo é meio louco.

Quando eu contei pro tal amigo que um dia duvidei da minha sanidade mental ele riu. (Ainda não estou bem certa se riu de mim ou comigo. Se achou que “você ainda tem dúvida se é louca?” ou se foi mais para “começo a achar que você fala bobagem sim”... ) De qualquer jeito, eu acho mesmo que todo mundo já questionou sua normalidade pelo menos uma vez na vida. Se ainda não o fez, só está atrasado. E se esforçar para ser normal é a maior prova de mediocridade que uma pessoa pode apresentar. Questionar sempre seu papel, sua postura, suas preferências, celebrá-las, isso sim é bacana! Tirar tudo do lugar, estranhar, repensar, questionar, mesmo que se decida pelo que já estava. Mas é preciso tirar a poeira. Você já fez uma faxina? Não estou falando de passar um Perfex na TV e no som. Faxinão mesmo, daquelas que você tira tudo do lugar, põe tapete pra cima, arrasta o sofá (encontro as coisas mais espetaculares caídas atrás do sofá...). Nesta divertida ainda que cansativa tarefa, a gente sempre pensa em mil outros jeitos de colocar os móveis. E isso é legal, mesmo que no final do dia a gente volte com tudo para o lugar. As coisas ficam onde estavam mas estão arejadas, limpas. Não precisamos mudar a sala toda vez que fazemos faxina, mas é preciso arrastar os móveis sempre pra não juntar poeira.

A gente precisa delirar um pouco pra poder respirar. Precisa arejar o cérebro. Eu por exemplo estou sem dormir pensando se vou ter filhos ou se vou comprar um Porsche preto. Eu!! Que não tenho namorado e ando de ônibus...

Mas sabem como é. Eu penso demais.

E quem pensa demais fica meio louco e acaba falando bobagem.


Adriana Donatello
Vitória, 27/11/2001


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O espírito de 1967 de Celso A. Uequed Pitol
02. Transformação de Lúcifer, obra de Egas Francisco de Jardel Dias Cavalcanti
03. Palácio dos sabores 5/5 de Elisa Andrade Buzzo
04. As religiões do Rio e do Brasil de Marcelo Spalding
05. Contato com o freguês de Ana Elisa Ribeiro


Mais Adriana Donatello
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
27/11/2001
13h26min
Xará, adorei sua coluna! Você espelhou muita coisa que passa na minha cabeça também. Aliás, acho que na cabeça de todo mundo. Só que alguns encaram, outros fingem que não está acontecendo.
[Leia outros Comentários de Adriana Baggio]
27/11/2001
18h01min
Adriana, Uma vez li um texto da Ligia Fagundes Telles em que ela diz que o máximo que podemos fazer é manter nossa loucura em limites aceitáveis pela sociedade, assim não nos internam. Desde então eu tenho "disfarçado" a minha loucura. Sugiro que você faça o mesmo... :o) Muito legal o texto. Abraços, Ana
[Leia outros Comentários de Ana Veras]
30/11/2001
09h04min
Depois da leitura desse texto, errei até meu nome. Xáprálá. Eu sempre tive uma vontade louca de, uma dia, acordar e não falar nada com ninguém. Nunca mais. Só olhar e pensar. Mas, sabe como é, trabalho, filhos... O poir, é que o meu maior problema é, justamente, não conseguir parar de pensar! Não é um paradoxo? Gostaria imensamente de brecar minha cabeça, de vez em quando e, por outro lado, suspiro por uma vida calada, só de reflexões. Credo! Deve ser terrível. É melhor deixar isso para os sonhos, mesmo. Quanto aos loucos (nós?), acho que é uma pena, tanto talento humano encostado num canto, só porque não se "encaixam" no que a sociedade precisa. É um tremendo desperdício. Nem sei se a visão da loucura como doença é a mais acertada. Os médicos que me desculpem, mas é isso aí. (Meu pai é médico, nem por isso vou mudar minha opinião a esse respeito). Sonia Pereira.
[Leia outros Comentários de Sonia Pereira]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Português Linguagens 7ª Série Manual Professor
Willian Roberto Cereja Thereza Cochar Magalhães
Atual
(2006)



Economia Bandida (lacrado)
Loretta Napoleoni
Bertrand Brasil
(2010)



DEF 2000/01 Dicionário de Especialista farmacêuticas
Não informado
Jornal Brasileiro de Medicina
(2000)



Finanças Corporativas
José Carlos Franco de Abreu Filho
Fgv
(2008)



Teoria do Reforço para Professores
Madeline Hunter
Vozes
(1981)



Guerra Civil
Stuart Moore
Novo Século
(2016)



Como Lidar com a Mídia
Paulo Henrique Amorim
Geração
(2019)



Completa Biblioteca do Ensino Atual - História, Soc., Filos e Psic.
Não informado
Difusão Cultural do Livo
(2006)



O Caso - Sem Aviso - O Bagalô - Segundas Chances
r Lee Child - David Rosenfelt - Sarah Jio - Nick Trout
Seleções Reader`s Digest
(2015)



Brasil Iluminado
Gustavo Soares
Arteensaio
(2011)





busca | avançada
50081 visitas/dia
1,9 milhão/mês