O silêncio e o segredo na Literatura | Mariana Portela | Digestivo Cultural

busca | avançada
50836 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Segunda-feira, 15/3/2010
O silêncio e o segredo na Literatura
Mariana Portela

+ de 8100 Acessos
+ 7 Comentário(s)

O silêncio é sobretudo segredo. Seu corpo é feito daquilo que não se pode descrever, dissertar, discorrer. O silêncio nos é inacessível, na diária comunicação com o outro.

No entanto, quando se trata de comunicação literária, talvez exerça o papel principal ― a entidade que verdadeiramente expressa. Pois a mudez é a espinha dorsal: tanto no trabalho do escritor, como na perplexidade de quem o lê.

Para captar as belas imagens presentes no Cosmos, é preciso calar-se. Ao organizar com rigor as ideias e ritmos presentes na configuração da imagem poética, é necessariamente em quietude que os dedos do criador podem sonhar:

"Há também poetas silenciosos, silenciários, poetas que primeiro fazem calar um universo excessivamente ruidoso e todos os fragmentos da tonitruância. Ouvem, também eles, o que escrevem no momento mesmo em que escrevem, no moroso compasso de uma língua escrita. Não transcrevem a poesia, escrevem-na. Que outros 'executem' aquilo que criaram na mesma página branca! Que outros 'recitem' no megafone dicções de aparato! Quanto a eles, saboreiam a harmonia da página literária na qual o pensamento fala, a palavra pensa". (Gaston Bachelard)

O autor invoca a fundamental importância das forças que não pronunciam, mas que movem os afetos de maneira igualmente humana. Sendo assim, aquilo que não fala jamais pode ser apreendido como falta, desvio, erro nos encontros entre o emissor e o receptor. Na Literatura, as vozes silenciadas são veias condutoras de sentidos.

Quem possui a árdua tarefa da leitura também conhece profundamente o vazio dos ruídos. Há a surpresa de um entendimento. Um autor que alcança a alma consegue em seu leitor o indizível. É um belo paradoxo: através de palavras, aceder ao inefável. Quantos de nós já não nos encontramos emudecidos, após o mergulho em páginas que desanuviam nossos âmagos secretos?

Muitos escritores foram hábeis a olhar o silêncio e transportá-lo para a linguagem literária. Alguns nos entrelaçam sublimes, quase chegando ao inaudível, quase entregando à escrita o vazio fértil sentido por um leitor atento:

"Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível ― sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro ― tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve". (Clarice Lispector)

Apesar da capacidade inexorável de Clarice Lispector ― ela nos põe em quietude e mansidão ― até mesmo a ela é impossível chegar a uma clara fundamentação da impronunciável sensação que toma conta dos leitores. O silêncio de quem lê não está na comunicação do livro. É qualquer coisa que remete ao cósmico, ao vácuo, às profundezas marítimas.

A meditação literária apodera-se de nós como imensas asas brancas. Eleva o espírito, antes tagarela. Nenhuma obra está acabada, ela se renova a cada vez que é lida: "As palavras pertencem metade a quem fala, metade a quem ouve". (Montaigne)

E é nesse espaço misterioso que se abre, magistral sobre os olhos, dilacerante sobre as cordas vocais, onde se pode buscar alguma resposta. O que existe na escrita que torna também protagonista seu espectador? Quais são os movimentos inertes que proporcionam uma silenciosa abertura no coração de quem reconhece, uma a uma, as palavras tingidas no papel? Fernando Pessoa oferece uma face da inaxiomática solução:

"Nenhum de meus escritos foi concluído; sempre se interpuseram novos pensamentos, associações de ideias extraordinárias, impossíveis de excluir, como o infinito como limite. Não consigo evitar a aversão que tem o meu pensamento ao acto de acabar".

Impossibilitada de ter um fim, a literatura é muda: tanto para quem a desvenda ― nunca através da passividade televisiva ― quanto para quem a desenrola. A comunicação é tão densa que não pode utilizar os sons, tal como a música. Porque toda imaginação em letras é envolvida pelo mistério primeiro, pela ausência de barulhos, pela explosão ancestral do universo que carregamos em nosso imaginário. Exatamente como acontece com o sigiloso crescimento dos vegetais.

"(...) a linguagem está sempre um pouco à frente do nosso pensamento, é sempre um pouco mais borbulhante que o nosso amor. É a mais bela função da imprudência humana, a jactância dinamogênica da vontade, aquilo que exagera o poder (...) Em quaisquer circunstâncias, a vida toma muito para ter o bastante. É preciso que a imaginação tome muito para que o pensamento tenha o bastante. É preciso que a vontade imagine muito para realizar o bastante". (Gaston Bachelard)

Nota do Editor
Mariana Portela mantém o blog Confissões, declarações e crônicas.


Mariana Portela
São Paulo, 15/3/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Sexo e luxúria na antiguidade de Gian Danton
02. A vida se elabora no Ano Novo de Elisa Andrade Buzzo
03. Sobre os Finais de Franco Fanti
04. Bento XVI e os bastidores do Vaticano de Humberto Pereira da Silva
05. Fome zero, malandragem dez de Félix Maier


Mais Mariana Portela
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/3/2010
02h32min
Um texto brilhante, que cativa, que instiga, que nos faz procurar um sentido, esse texto nos provoca, é um pré-botão de start em nossa consciência. Me faz querer escrever e desvendar novas verdades sobre todos os conceitos do mundo.
[Leia outros Comentários de Alex Miranda]
15/3/2010
19h05min
Filha, você consegue algo muito raro entre comunicadores: tratar de temas complexos com clareza, fazendo com que seus leitores se sintam inteligentes. Você consegue até que o leitor se separe do pai e reflita sobre as questões abstraindo que é aquele bebê que as escreve. Parabéns! Quero ler mais! Beijos!
[Leia outros Comentários de Fernando Portela]
15/3/2010
23h19min
Em tempos tão ruidosos, nada como reverenciar o silêncio das palavras, abandonando a passividade cômoda das superfícies. O silêncio, assim como a poesia incomoda, dilacera, atormenta, comunga. Em tempos de comunicação virtual, é uma ousadia desvendar o segredo da literatura. Parabéns por ousar escrever.
[Leia outros Comentários de Miriam L da Costa]
15/3/2010
23h43min
Bem vinda!
[Leia outros Comentários de Ricardo]
16/3/2010
17h46min
A palavra silência, emudece, mesmo quando, já fustigado pelos estreitos e estrepitosos espaços cotidianos, o pensamento grita... Texto muito bem escrito. Existem outros? Parabéns
[Leia outros Comentários de Ricardo Neftalí]
27/3/2010
08h40min
Muito bom. Você escreveu bonito sobre o meu tema preferido. Silêncio exige afinação; e Mariana é uma "afinadora" das palavras. Continue afinando, e por certo, uma orquestra irá surgir.
[Leia outros Comentários de Mariza L. da Costa]
5/4/2010
12h50min
Lindo e ótimo texto!!!
[Leia outros Comentários de Natalia Bonfim]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




UMA CASA NA ÁRVORE
CLÁUDIO PORTO
N/D
R$ 10,00



O PENSAMENTO VIVO DE NIETZSCHE (BIOGRAFIA: VIDA E OBRA)
HENRICHE MANN
MARTINS FONTES
(1954)
R$ 8,00



E SE O STAND-UP VIRASSE LIVRO?
MAURÍCIO MEIRELLES
EDIOURO
(2010)
R$ 7,90



VINDA COM A NEVE
ODETE DE BARROS MOTT
MODERNA
(1982)
R$ 8,00



DESENHO MUDO
GUSTAVO BERNARDO
ATUAL
(2002)
R$ 35,90



O QUE KEITH RICHARDS FARIA EM SEU LUGAR ?
JESSICA PALLINGTON WEST
FONTANAR
(2010)
R$ 7,00



MOEURS ET COUTUMES DES THIBÉTAINS
DAVID MACDONALD
PAYOT (PARIS)
(1930)
R$ 19,82



HERANÇA TEORIA E PRÁTICA
GABRIEL J. P. JUNQUEIRA
AGELOTTI
(1992)
R$ 18,00



A BOLA CORRE MAIS QUE OS HOMENS
ROBERTO DAMATTA
ROCCO
(2006)
R$ 17,00



FUNDAMENTOS DA CIRURGIA VASCULAR E ANGIOLOGIA
RICARDO AUN E PEDRO PUECH-LEÃO
LEMOS
(2002)
R$ 55,87





busca | avançada
50836 visitas/dia
1,8 milhão/mês