Hebreus e monstros, parte II | Guilherme Pontes Coelho | Digestivo Cultural

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Quarta-feira, 17/11/2010
Hebreus e monstros, parte II
Guilherme Pontes Coelho

+ de 2700 Acessos

Dorothy acorda do desmaio. Volta ao Kansas, à fazenda onde vive com seus tios Henry e Emily e seu cachorrinho Totó. Enquanto desmaiada, imersa no seu mundo psíquico, Dorothy realiza uma jornada no mundo mágico de Oz, uma terra que desconhece, onde há bruxas bondosas e malvadas e magos charlatães. Com a ajuda dos amigos conquistados durante o caminho, Espantalho, Leão Covarde e Homem-de-Lata, e de sua psicomistagoga, a bruxa Glinda, ela volta para casa. Acordada, exulta: "Não há melhor lugar do que nossa casa". A frase é a prece que Glinda a ensinou, prece que a faria voltar à fazenda. Ela está feliz.

A jornada de Dorothy n'O Mágico de Oz tem servido como exemplo à conquista da autoconfiança desde 1939, ano em que o filme foi lançado. Oficinas e manuais de roteiro confirmam. Leituras d'O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, também. Uma delas, a famosa regurgitação de Christopher Vogler, A Jornada do Escritor.

Mesmo considerando que todos os avanços de Dorothy em sua jornada foram menos de sua responsabilidade que de seus aliados, uma abordagem mais rasteira do filme diria que ela venceu a si mesma, adquiriu confiança e fez o retorno da heroína à terra natal. Afinal, tudo em Oz eram projeções suas.

Porém, essas conquistas não emergem à sua consciência quando acorda em casa, no Kansas. Ela fica feliz por se ver livre de perigos, os quais enfrentou indiretamente. Além do mais, ela continua sendo tratada como incapaz pelos adultos com quem convive, como se viu no início do filme.

O filme é ótimo. Recomendado a todos, não importa a idade. Mas nele não há pouco heroísmo. O espectador fica aliviado ao ver a garota a salvo. Mas ela pouco controle exerceu sobre si durante a narrativa. Ela não cresceu.

Bem diferente da jornada interior de Dorothy Gale é a de Max Records. Max é o protagonista do filme infantil Onde vivem os monstros (2009), dirigido por Spike Jonze. O filme é inspirado no livro homônimo do americano Maurice Sendak, lançado em 1963, publicado aqui em 2009 pela Cosac Naify (traduçao da Heloisa Jahn).

Lembro que, quando lançado, o filme foi muito criticado por ter a narrativa, em relação à do livro, um tanto hipertrófica ("verborrágica"). É preciso dizer que não havia como ser de outra maneira, já que o filme é um longa-metragem. A transposição da história do livro pra o filme, feita a rigor, daria um curta-metragem. O livro, cuja leitura, para um adulto, não deve chegar a meia-dúzia de minutos, para uma criança, no colo do pai, ouvindo o conto e vendo os monstros festejando com Max, é uma viagem de duração razoável (padrões infantis). O filme é o filme, o livro é o livro. Não posso me estender sobre a transposição de um para outro porque esta coluna não é um ensaio sobre interdisciplinaridade de linguagens. É sobre um filme, a história de um garoto que amadurece.

"Max, what's wrong with you? You're out of control!" ― é o que grita Connie, mãe de Max, depois do filho aprontar. Max é hiperativo, estabanado, agressivo. O filme começa e já o vemos brincando com seu cachorro, uma brincadeira um tanto hostil. Em seguida, tentando se enturmar com os amigos da irmã mais velha, de forma agressiva mas ingênua, Max sofre um revés ― os meninos, já adolescentes, desconsideram que ele ainda é uma criança e exageram no revide da guerra de bolas de neve. Max chora. E vai arruinar o quarto da irmã, destruindo até os presentinhos que deu a ela como demonstração de carinho. Mais tarde, à noite, depois de conversar com a mãe, Max apronta uma daquelas. Connie recebe o namorado em casa, para o jantar. Max, carente, tenta obter a atenção da mãe a qualquer custo. Arma uma cena, tira a paciência da mãe, que, irritada, aos berros, diz "You're out of control!" ― ao que ele responde, assustado, "It's not my fault!" ― e sai correndo para fora de casa, se embrenha no mato, pega um barco, veleja por dias, sob sol e chuva, até chegar na ilha onde vivem os monstros.

A mãe o trata como capaz. Conversa com ele. Embora saiba quem é o filho, um pestinha incorrigível, ela se espanta com a total falta de controle dele naquele momento. Ela confere autoridade a ele e espera que ele corresponda. Uma maneira sensata de lidar com crianças. Na conversa que teve com o filho antes do jantar, ele lhe conta uma história. A de um vampiro menino, cujos caninos já são de adulto. O vampirinho morde um dos prédios mais altos da cidade (os prédios andam, inclusive). Com a mordida, quebra os caninos, fica triste e chora. Aí aparecem outros vampiros, adultos. Perguntam a ele por que chora, já que seus caninos ainda eram de leite. O vampirinho responde que não, que eram seus caninos definitivos. Então os vampiros o abandonam, porque o garoto não poderá mais ser um deles. Acaba a história, fim. Nesta cena, mais importante que ler as entrelinhas da história que Max narra à mãe, é ver que o menino desenvolve uma história de improviso sobre solidão e angústia. Que quem conta a história é a criança e que a conta para um adulto. Há igualdade e respeito aí.

Max ainda é criança, contudo. Uma criança que não sabe o que fazer com tanta energia e tanta vontade de brincar. O seu aprendizado será justamente este, controlar-se e compreender-se. Ambas conquistas que não podem ser impostas. São endógenas.

Nota do Autor
Conclui na terceira parte. Leia também "Hebreus e monstros, parte I".

Nota do Editor
Guilherme Montana mantém o Montana, Blog.


Guilherme Pontes Coelho
Águas Claras/Brasília, 17/11/2010


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